Textos sobre Literatura

86 resultados
Textos de literatura escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Inutilidade da Crítica

Que a obra de boa qualidade sempre se destaca √© uma afirma√ß√£o sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por “destaca” quer-se fazer refer√™ncia √† aceita√ß√£o na sua pr√≥pria √©poca. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, √© verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem sempre se destaca na sua pr√≥pria √©poca, √© tamb√©m verdadeiro.
Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente? Um conhecimento da arte e da literatura do passado, um gosto refinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso e imparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao verdadeiro jogo das faculdades críticas. Qualquer coisa mais do que isto é já espírito criativo e, portanto, individualidade; e individualidade significa egocentrismo e certa impermeabilidade ao trabalho alheio.
Qu√£o competente √©, por√©m, o cr√≠tico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, por√©m afastar-se-√° em alguma coisa ‚ÄĒ e quanto mais original mais se afastar√° ‚ÄĒ das obras de arte do passado.

Continue lendo…

A Acção Mais Degradada

A ac√ß√£o mais degradada √© a daquele que n√£o age e passa procura√ß√£o a outrem para agir – a dos frequentadores dos espect√°culos de luta e a dos consumidores da literatura de viol√™ncia. Ser her√≥i e atrav√©s de outrem, ser corajoso em imagina√ß√£o, √© o limite extremo da ac√ß√£o gratuita, do orgulho ou da vaidade que n√£o ousa. Corre-se o risco sem se correr, experi¬≠menta-se como se se experimentasse, colhe-se o prazer do triunfo sem nada arriscar. E √© por isso que os fIlmes de guerra, do hero√≠smo policial, de espionagem, t√™m de acabar bem. Por¬≠que o que a√≠ se procura √© justamente o sabor do triunfo e n√Ęo apenas do risco. O gosto do risco procura-o o her√≥i real, o jogador que pode perder. Mas o espectador da sua luta, degra¬≠dado na sedu√ß√£o da ac√ß√£o, acentua a sua mediocridade no n√£o poder aceitar a derrota, no fingir que corre o risco mesmo em fic√ß√£o, mas com a certeza pr√©via de que o risco √© vencido. O que ele procura √© a pequena lisonja √† sua vaidade pequena, a figura√ß√£o da coragem para a sua cobardia, e s√≥ a vit√≥ria do her√≥i a quem passou procura√ß√£o o pode lisonjear.
E se o herói morre em grandeza,

Continue lendo…

Os Juízos Ligeiros da Imprensa

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e j√° irradic√°vel h√°bito dos ju√≠zos ligeiros. Em todos os s√©culos se improvisaram estouvadamente opini√Ķes: em nenhum, por√©m, como no nosso, essa improvisa√ß√£o impudente se tornou a opera√ß√£o corrente e natural do entendimento. Com excep√ß√£o de alguns fil√≥sofos mais met√≥dicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. √Č com impress√Ķes que formamos as nossas conclus√Ķes. Para louvar ou condenar em pol√≠tica o facto mais complexo, e onde entrem factores m√ļltiplos que mais necessitem de an√°lise, n√≥s largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo ondeante do charuto.
O m√©todo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, √© o que adoptamos, com magn√≠fica inconsci√™ncia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que espl√™ndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: ¬ę√Č uma besta!

Continue lendo…

Literatura Real e Literatura Aparente

Em todas as √©pocas, existem duas literaturas que caminham lado a lado e com muitas diferen√ßas entre si: uma real e outra apenas aparente. A primeira cresce at√© se tornar uma leitura permanente. Exercida por pessoas que vivem para a ci√™ncia ou para a poesia, ela segue o seu caminho com seriedade e tranquilidade, produzindo na Europa pouco menos de uma d√ļzia de obras por s√©culo, que, no entanto, permanecem. A outra, exercida por pessoas que vivem da ci√™ncia ou da poesia, anda a galope, com rumor e alarido por parte dos interessados, trazendo anualmente milhares de obras ao mercado. Ap√≥s poucos anos, por√©m, as pessoas perguntam: Onde est√£o essas obras? Onde est√° a sua gl√≥ria t√£o prematura e ruidosa? Por isso, pode-se tamb√©m chamar esta √ļltima de literatura que passa, e aquela, de literatura que fica.

Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos,

Continue lendo…

As Três Espécies de Portugueses

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro √© o portugu√™s que o n√£o √©. Come√ßou com a invas√£o mental estrangeira, que data, com verdade poss√≠vel, do tempo do Marqu√™s de Pombal. Esta invas√£o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep√ļblica. Este portugu√™s (que √© o que forma grande parte das classes m√©dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) √© o que governa o pa√≠s. Est√° completamente divorciado do pa√≠s que governa. √Č, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, √© est√ļpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas,

Continue lendo…

A Vitalidade de uma Nação

Uma na√ß√£o vive, pr√≥spera, √© respeitada, n√£o pelo seu corpo diplom√°tico, n√£o pelo seu aparato de secretarias, n√£o pelas recep√ß√Ķes oficiais, n√£o pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constr√≥i, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma na√ß√£o vale pelos seus s√°bios, pelas suas escolas, pelos seus g√©nios, pela sua literatura, pelos seus exploradores cient√≠ficos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade √© de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se ent√£o os m√ļsculos como j√° se ensaiam as ideias.

Fui um Leitor Apaixonado

Eu fui um leitor apaixonado. N√£o havia livros em minha casa, mas costumava ler bastante nas biblioteca p√ļblicas, especialmente √† noite. Lia indiscriminadamente. Lembro-me de ler a tradu√ß√£o do ¬ęPara√≠so Perdido¬Ľ quando tinha 16 anos. N√£o havia ningu√©m que me dissesse o que experimentar a seguir. Por isso tive uma educa√ß√£o liter√°ria an√°rquica cheia de lacunas, mas com o tempo consegui organizar uma esp√©cie de vis√£o coerente da literatura, acima de tudo da literatura francesa.

O Homem Não é o Indivíduo

¬ęN√£o √© a arranhar interminavelmente o indiv√≠duo que acabamos por encontrar o homem¬Ľ – diz algu√©m em certo livro do Malraux. Nada, de facto, mais √ļtil que a separa√ß√£o dos dois conceitos, que tanto tendem a confundir-se, mormente hoje, em que tal confus√£o parece agravar-se. Com efeito, o ¬ęhomem¬Ľ n√£o √© o ¬ęindiv√≠duo¬Ľ, porque √© s√≥ do indiv√≠duo aquela parte que pode universalizar-se. E √© desta ideia que temos de partir para que um equ√≠voco se n√£o consuma, o equ√≠voco de um individualismo, de um pessoalismo restrito que a arte e o pensamento modernos parecem √† primeira vista aceitar.
Que estranho ¬ęeu¬Ľ √© pois este que de algum modo dir-se-ia predominar na filosofia e na literatura de hoje? Porque √© evidente que uma forte tend√™ncia da arte de hoje, do homem actual, apela para a comunicabilidade, para uma fraternidade, e n√£o para um est√©ril isolamento. Mas acontece que nesse apelo muitas vezes se esquece o que h√° a√≠ de mec√Ęnico, de superficial, de rela√ß√Ķes externas, imediatas, provis√≥rias, que nos n√£o satisfaz inteiramente. O homem que a√≠ fala √© o que se ensurdece a si pr√≥prio, √†s suas vozes profundas, aos avisos que se anunciam desde o limiar da solid√£o.

Continue lendo…

Os Cl√°ssicos da Literatura

As emo√ß√Ķes que a literatura suscita s√£o talvez eternas, mas os meios devem variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para n√£o perder a sua virtude. Desgastam-se √† medida que o leitor os reconhece. Da√≠ o perigo de afirmar que existem obras cl√°ssicas que o ser√£o para sempre.
Cada qual descr√™ da sua arte e dos seus artif√≠cios. Eu, que me resignei a p√īr em d√ļvida a indefinida dura√ß√£o de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde de um dos √ļltimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Cl√°ssico n√£o √© um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais m√©ritos. √Č um livro que as gera√ß√Ķes dos homens, motivadas por raz√Ķes diversas, l√™em com pr√©vio fervor e com uma misteriosa lealdade.

A Destruição de Tudo

√Č a palavra de ordem para o homem de hoje. Destruir. Tudo. Os deuses, as artes, diferen√ßas culturais, ou a s√≥ cultura, diferen√ßas sexuais, diferen√ßas liter√°rias ou a s√≥ literatura que leva hoje tudo, valores de qualquer esp√©cie, filosofias, o simples pensamento, a simples palavra – tudo alegremente ao caixote. Entretanto, ou por isso, prolifera√ß√£o das gentes com a forma que lhes pertence, devasta√ß√£o da sida, que foi o que de melhor a natureza arranjou para equilibrar a demografia, droga dura para se avan√ßar na vida mais depressa, criminalidade para esse avan√ßo, juventude de esgotos nocturnos, velhos em excesso e que n√£o h√° maneira de se despacharem e atulham os chamados lares de idosos ou simplesmente os dep√≥sitos em que s√£o largados at√© mudarem de cemit√©rio, politiqueiros que t√™m a verdade do erro que se segue e o mais e o mais. √Č tempo de cair um pedregulho como o que acabou com os dinossauros h√° sessenta milh√Ķes de anos e de poder dar-se a hip√≥tese de a vida recome√ßar. At√© que venha outra vez a destrui√ß√£o e Deus definitivamente se farte do brinquedo. Entretanto v√™ se v√™s ainda alguma flor ao natural e demora-te um pouco a admirar-lhe a beleza e estupidez.

Continue lendo…

A Cultura Portuguesa e o Provincianismo

A cultura portuguesa tem um amor fatal pelo provincianismo. O provincianismo √© a forma mais ¬ęengag√©e¬Ľ de existir socialmente e literariamente. Da√≠ a impossibilidade, ou melhor, o medo de se realizar sequer um realismo a s√©rio, porquanto este exige uma descida ao inferno e n√£o vejo por a√≠ quem se atreva al√©m do purgat√≥rio. Fica-se assim na meia tinta do naturalismo, retratando quadros convencionais de uma sociedade provinciana onde, al√©m da j√° muito conhecida injusti√ßa social (repar√°vel pela economia e n√£o pela literatura), nada se capta que possa sugerir a simples viol√™ncia de se estar no mundo. Provincianismo chama-se ainda √†quela nossa atitude que toma muito a s√©rio ou, ainda, solenemente, tudo o que faz, tornando invi√°vel uma literatura que desmonte eficazmente a engrenagem humana e social pela incomplacente investida de um humor cruel. Houve recentes tentativas queirozianas para denunciar as fraquezas do meio. Conseguiu-se fazer realismo desta vez? Tamb√©m n√£o, porque se fez realismo de empr√©stimo, de segunda m√£o, colhido no ¬ędiz-se diz-se¬Ľ das esquinas. Escreveu-se razoavelmente m√°-l√≠ngua, mas n√£o se agitaram as pessoas e as institui√ß√Ķes de forma a tornar vis√≠vel o lodo depositado no fundo. Isto quanto aos que fazem profiss√£o de f√© de realismo social ou burgu√™s.

Continue lendo…

O Orgulho de Ser Português

Aquelas qualidades que se revelaram e fixaram e fazem de n√≥s o que somos e n√£o outros; aquela do√ßura de sentimentos, aquela mod√©stia, aquele esp√≠rito de humanidade, t√£o raro hoje no mundo; aquela parte de espiritualidade que, mau grado tudo que a combate inspira ainda a vida portuguesa; o √Ęnimo sofredor; a valentia sem alardes; a facilidade de adapta√ß√£o e ao mesmo tempo a capacidade de imprimir no meio exterior os tra√ßos do modo de ser pr√≥prio; o apre√ßo dos valores morais; a f√© no direito, na justi√ßa, na igualdade dos homens e dos povos; tudo isso, que n√£o √© material nem lucrativo, constitui tra√ßos do car√°cter nacional. Se por outro lado contemplamos a Hist√≥ria maravilhosa deste pequeno povo, quase t√£o pobre hoje como antes de descobrir o mundo; as pegadas que deixou pela terra de novo conquistada ou descoberta; a beleza dos monumentos que ergueu; a l√≠ngua e literatura que criou; a vastid√£o dos dom√≠nios onde continua, com exemplar fidelidade √† sua Hist√≥ria e car√°cter, alta miss√£o civilizadora – concluiremos que Portugal vale bem o orgulho de se ser portugu√™s.

Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar

Todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. √Č com impress√Ķes flu√≠das que formamos as nossas maci√ßas conclus√Ķes. Para julgar em Pol√≠tica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manh√£ de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou‚ÄĒapenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que soberana facilidade declaramos‚ÄĒ¬ęEste √© uma besta! Aquele √© um maroto!¬Ľ Para proclamar‚ÄĒ¬ę√Č um g√©nio!¬Ľ ou ¬ę√Č um santo!¬Ľ of erecemos uma resist√™ncia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digest√£o ou a macia luz dum c√©u de Maio nos inclinam √† benevol√™ncia, tamb√©m concedemos bizarramente, e s√≥ com lan√ßar um olhar distra√≠do sobre o eleito, a coroa ou a aur√©ola, e a√≠ empurramos para a popularidade um magan√£o enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar r√≥tulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. N√£o h√° ac√ß√£o individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que n√£o estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opini√£o bojuda E a opini√£o tem sempre,

Continue lendo…

N√£o Percamos de Vista os Nossos Antepassados

Quando uma literatura chega a ter √™xito, aquilo que nela havia de mais activo em momentos anteriores torna-se menos claro e √© ultrapassado por aquilo que nela √© mero produto dessa actividade. √Č por isso que √© bom olhar de vez em quando para tr√°s. Tudo o que em n√≥s h√° de original conservar-se-√° tanto melhor e ser√° tanto mais apreciado, quanto mais formos capazes de n√£o perder de vista os nossos antepassados.

A Minha Lista dos Grandes Autores

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua √°rvore geneal√≥gica liter√°ria, isto √©, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presun√ß√£o de rela√ß√Ķes ou equival√™ncias de m√©rito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Tamb√©m se pedia que, em brev√≠ssimas palavras, fosse dada a justifica√ß√£o dessa esp√©cie de adop√ß√£o ao contr√°rio, em que era o ¬ędescendente¬Ľ a escolher o ¬ęascendente¬Ľ. A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma √°rvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que h√£o-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamenta√ß√£o, foi esta: Lu√≠s de Cam√Ķes, porque, como escrevi no ¬ęAno da Morte de Ricardo Reis¬Ľ, todos os caminhos portugueses a ele v√£o dar; Padre Ant√≥nio Vieira, porque a l√≠ngua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Pen√≠nsula Ib√©rica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque n√£o precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilus√Ķes sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brand√£o, porque demonstrou que n√£o √© preciso ser-se g√©nio para escrever um livro genial,

Continue lendo…

A Escrita Exige Sempre a Poesia

Sou escritor e cientista. Vejo as duas actividades, a escrita e a ci√™ncia, como sendo vizinhas e complementares. A ci√™ncia vive da inquieta√ß√£o, do desejo de conhecer para al√©m dos limites. A escrita √© uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas s√£o um passo sonhado para l√° do horizonte. A Biologia para mim n√£o √© apenas uma disciplina cient√≠fica mas uma hist√≥ria de encantar, a hist√≥ria da mais antiga epopeia que √© a Vida. √Č isso que eu pe√ßo √† ci√™ncia: que me fa√ßa apaixonar. √Č o mesmo que eu pe√ßo √† literatura.

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam.

Continue lendo…

A Eterna Criação da Literatura

A literatura √© um acontecimento completamente √† parte. √Č um acontecimento que, de cada vez, recome√ßa de alto a baixo. √Č um acontecimento sem h√°bitos. No caso de um bom marceneiro, ou mesmo de um bom buscador de ouro, trata-se de refazer o que se fazia antes dele e – se for poss√≠vel – contribuir com o seu pequeno aperfei√ßoamento para a forma da mesa ou para o oco da bateia. Mas um jovem escritor n√£o deve absolutamente ameliorar Proust, ou aperfei√ßoar Claudel, completar Gide ou fazer um pequeno retoque a Val√©ry. N√£o, de modo algum. Cabe-lhe escrever como se nem Gide, nem Proust tivessem existido nunca.

A Literatura é a Mais Ameaçada das Formas de Arte

Justamente porque a literatura se funda genericamente na ideia, ela √© a mais amea√ßada das formas de arte, para l√° do que sabemos da sua aparente maior dura√ß√£o. Ou portanto a mais equ√≠voca. Ou a mais mortal. Porque nas outras artes, a ideia √© a nossa tradu√ß√£o do seu sil√™ncio, o modo de uma emo√ß√£o ser dita ou seja transaccion√°vel, um modo irresist√≠vel de explicar, uma forma afinal de dominarmos o que nos domina, porque nomear √© reduzir ao nosso poder aquilo que se nomeia. Mas a forma de arte n√£o discursiva permanece intacta ao nosso nomear. A literatura, por√©m, √© nesse nomear que come√ßa. Na rela√ß√£o da emo√ß√£o com a palavra que a diz, o seu movimento √© inverso do que acontece com a m√ļsica ou a pintura. A emo√ß√£o de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte-se dessa palavra para se chegar √° emo√ß√£o. Assim pois a ¬ęideia¬Ľ √© o seu elemento nuclear, ainda que uma associa√ß√£o imprevis√≠vel de palavras a disfarce.

A Realidade é Mais Poderosa que Qualquer Literatura

Eu costumava pensar que podia compreender tudo e exprimir tudo. Ou quase tudo. Eu lembro-me que quando estava a escrever o meu livro sobre a guerra no Afeganist√£o, Zinky Boys, que fui ao Afeganist√£o e eles mostraram-me algumas das armas estrangeiras que tinham sido capturadas aos combatentes afeg√£os. Fiquei espantada com a perfei√ß√£o das suas formas, e quanto perfeitamente um pensamento humano poderia ser expresso. Havia um oficial ao meu lado que disse: “Se algu√©m pisar esta mina italiana que voc√™ diz que √© t√£o bonita que parece uma decora√ß√£o de Natal, n√£o restaria mais nada deles al√©m de um balde de carne. Voc√™ teria que rasp√°-los do ch√£o com uma colher. ” Quando me sentei para escrever isto, foi a primeira vez que eu pensei, “Isto √© algo que devo dizer?” Eu tinha sido educada na grande literatura russa, pensei que poderia ir muito muito longe, e ent√£o escrevi sobre aquela carne. Mas a Zona – √© um mundo √† parte, um mundo dentro do resto do mundo – e √© mais poderoso do que qualquer coisa que a literatura tenha a dizer.