Textos sobre Soberanos

28 resultados
Textos de soberanos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

Continue lendo…

A Amizade como Auxiliar da Virtude

A maioria dos homens, na sua injusti√ßa, para n√£o dizer na sua imprud√™ncia, quer possuir amigos tais como eles pr√≥prios n√£o seriam. Exigem o que n√£o t√™m. O que √© justo √© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pare√ßa s√™-lo. S√≥ entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveni√™ncia em amizade, sobre a qual insisto h√° muito tempo. Unidos pela benevol√™ncia, guiar-se-√£o nas paix√Ķes a que se escravizam os outros homens. Amar√£o a justi√ßa e a equidade. Estar√£o sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e n√£o se exigir√£o reciprocamente nada que n√£o seja honesto e leg√≠timo. Enfim, ter√£o uns para os outros, n√£o somente defer√™ncias e ternuras, mas, tamb√©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade √© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
√Č pois erro funesto crer que a amizade abre via livre √†s paix√Ķes e a todos os g√©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, n√£o como cumplice do v√≠cio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá,

Continue lendo…

Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

Continue lendo…

O Homem é um Deus que se Ignora

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: n√£o sei qual, mas existe – dizia S√≥crates soletrando com os olhos da raz√£o, √† luz serena do c√©u da Gr√©cia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da f√© lia no horizonte anuveado das vis√Ķes do profeta esta outra palavra de consola√ß√£o – dentro do homem est√° o reino dos c√©us. Profundo, alt√≠ssimo, acordo de dois g√©nios t√£o distantes pela p√°tria, pela ra√ßa, pela tradi√ß√£o, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irm√£os infelizes, violentamente separados, duma mesma fam√≠lia! Dos dois p√≥los extremos da hist√≥ria antiga, atrav√©s dos mares insond√°veis, atrav√©s dos tempos tenebrosos, o g√©nio luminoso e humano das ra√ßas √≠ndicas e o g√©nio sombrio, mas profundo, dos povos sem√≠ticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta sauda√ß√£o fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na ang√ļstia do seu caos – o homem √© um Deus que se ignora.
Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga!

Continue lendo…

O Homem Cruel

Quando o rico ti¬≠ra um pertence ao pobre (por exemplo, um pr√≠ncipe que tira a amante ao plebeu), ent√£o gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta¬≠mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele n√£o sente de modo algum t√£o profunda¬≠mente o valor de um √ļnico pertence, porque est√° ha¬≠bituado a ter muitos: portanto, n√£o se pode trans¬≠por para o esp√≠rito do pobre e n√£o comete tal uma injusti√ßa t√£o grande como este julga. Ambos t√™m um do outro uma concep√ß√£o errada. A injusti√ßa do poderoso, a que mais indigna na Hist√≥ria, n√£o √© as¬≠sim t√£o grande como parece. O mero sentimento heredit√°rio de ser um ser superior, com direitos su¬≠periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consci√™ncia tranquila: at√© todos n√≥s, se a dist√Ęncia entre n√≥s e um outro ente for muito grande, j√° n√£o sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso,

Continue lendo…

Viver Plenamente os Desejos

Quanto ao facto de saber se o sexual e o religioso s√£o antag√≥nicos e opostos, eu responderia do seguinte modo: todos os elementos ou aspectos da vida, por muito pobres, por muito duvidosos que sejam (para n√≥s), s√£o suscept√≠veis de convers√£o, e na verdade devem ser transpostos para outro n√≠vel, de acordo com a nossa maturidade e intelig√™ncia.O esfor√ßo visando eliminar os aspectos ¬ęrepugnantes¬Ľ da exist√™ncia, que √© a obsess√£o dos moralistas, n√£o s√≥ √© absurdo, como f√ļtil. √Č poss√≠vel ser-se bem sucedido na repress√£o dos pensamentos e desejos, dos impulsos e tend√™ncias feios e ¬ępecaminosos¬Ľ. mas os resultados s√£o manifestamente desastrosos. (√Č estreita a margem que separa um santo e um criminoso). Viver plenamente os seus desejos e, ao faz√™-lo, modificar subtilmente a natureza destes, √© o objectivo de todo o indiv√≠duo que aspira a desenvolver-se. Mas o desejo √© soberano e inextirp√°vel, mesmo quando, como dizem os budistas, se converte no seu contr√°rio. Para algu√©m se poder libertar do desejo, tem que desejar faz√™-lo.

Escusar Vitórias Sobre o Patrão

Toda a vit√≥ria √© odiosa; sobre o dono, insana ou fatal. A superioridade sempre foi detestada, muito mais pela pr√≥pria superioridade. O atento s√≥i dissimular vantagens vulgares, como desmentir a beleza com o desalinho. √Č f√°cil achar quem queira ceder na ventura ou no g√©nio, mas no engenho ningu√©m, muito menos um soberano: esse √© o rei dos atributos, e, assim, qualquer crime contra ele √© de lesa-majestade. S√£o soberanos e querem s√™-lo no que √© mais. Os pr√≠ncipes gostam de ser ajudados, mas n√£o excedidos, e que o aviso tenha mais viso de lembran√ßa do que foi esquecido do que de luz do que n√£o foi entendido. Bem nos ensinam essa subtileza os astros, que, ainda que filhos e brilhantes, nunca se atrevem a luzir como o sol.

Tirania e Liberdade Lado a Lado

Tirania e liberdade n√£o se podem considerar isoladas, mesmo se, vistas temporalmente, se revezam uma √† outra. N√£o h√° d√ļvidas de que se pode dizer que a tirania suprime e aniquila a liberdade – mas, por outro lado, uma tirania s√≥ pode ser poss√≠vel, quando a liberdade se domestica e se volatiliza no seu conveito vazio.
O ser humano tende a confiar no aparelho político ou ainda a submeter-se-lhe, quando devia haurir das suas próprias fontes. O que é uma falha em imaginação. Ele tem de conhecer os pontos nos quais não pode deixar que a sua decisão soberana seja negociada. Enquanto as coisas estiverem em ordem, a água estará canalizada e a corrente eléctrica ligada. Se a vida e a propriedade forem ameaçadas, um grito de alarme fará afluir magicamente Bombeiros e Polícia. O grande perigo está em que o ser humano conta em excesso com estas ajudas e fica desamparado quando lhe faltam. Todo o conforto tem de ser pago. A situação do animal doméstico arrasta atrás de si a do animal de abate.

A Alma Popular é Totalmente Dominada por Elementos Afectivos e Místicos

A ac√ß√£o cada vez mais consider√°vel das multid√Ķes na vida pol√≠tica imprime especial import√Ęncia ao estudo das opini√Ķes populares. Interpretadas por uma legi√£o de advogados e professores, que as transp√Ķem e lhe dissimulam a mobilidade, a incoer√™ncia e o simplismo, elas permanecem pouco conhecidas. Hoje, o povo soberano √© t√£o adulado quanto foram, outrora, os piores d√©spotas. As suas paix√Ķes baixas, os seus ruidosos apetites, as suas ininteligentes aspira√ß√Ķes suscitam admiradores. Para os pol√≠ticos, servidores da plebe, os factos n√£o existem, as realidades n√£o t√™m nenhum valor, a natureza deve-se submeter a todas as fantasias do n√ļmero.
A alma popular (…) tem, como principal caracter√≠stica, a circunst√Ęncia de ser inteiramente dominada por elementos afectivos e m√≠sticos. N√£o podendo nenhum argumento racional refrear nela as impuls√Ķes criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente.
O lado m√≠stico da alma das multid√Ķes √©, muitas vezes, mais desenvolvido ainda do que o seu lado afectivo. Da√≠ resulta uma intensa necessidade de adorar alguma coisa: deus, feiti√ßo, personagem ou doutrina.
(…) O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multid√Ķes √© a nula influ√™ncia que a raz√£o exerceu nelas. As ideias suscept√≠veis de influenciar as multid√Ķes n√£o s√£o ideias racionais, por√©m sentimentos expressos sob forma de ideias.

Continue lendo…

Os Ministros da Pena

Eu n√£o sei como n√£o treme a m√£o a todos os ministros de pena, e muito mais √†queles que sobre um joelho aos p√©s do rei recebem os seus or√°culos, e os interpretam, e estendem. Eles s√£o os que com um adv√©rbio podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que com uma cifra podem adiantar direitos, e atrasar prefer√™ncias; eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso √† balan√ßa da justi√ßa; eles os que com uma cl√°usula equ√≠voca ou menos clara, podem deixar duvidoso, e em quest√£o, o que havia de ser certo e efectivo; eles os que com meter ou n√£o meter um papel, podem chegar a introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem n√£o quiserem; eles, finalmente, os que d√£o a √ļltima forma √†s resolu√ß√Ķes soberanas, de que depende o ser ou n√£o ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, t√™m a sua virtude; mas as que est√£o mais chegadas √† fonte do poder s√£o as que prevalecem sempre a todas as outras. S√£o por of√≠cio, ou artif√≠cio, como as penas da √°guia, das quais dizem os naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem.

Continue lendo…

Soberanos mas Escravos

Os homens que est√£o em altos lugares s√£o escravos de tr√™s modos: escravos do soberano ou do Estado; escravos da reputa√ß√£o; e escravos dos neg√≥cios. N√£o gozam de liberdade, nem nas suas pessoas, nem nas suas ac√ß√Ķes, nem no seu tempo. Estranho desejo √© o de ganhar o poder e perder a liberdade, ou de buscar o poder sobre os outros para perder o poder sobre si-pr√≥prio. A ascens√£o √†s altas fun√ß√Ķes √© laboriosa; atrav√©s de canseiras chega o homem a maiores canseiras; a ascens√£o √© por vezes humilhante, e por meio de indignidades √© que o homem chega √†s dignidades. Manter-se √† altura √© dif√≠cil, e a descida √© uma queda vertical; ou pelo menos um eclipse, coisa melanc√≥lica.
Al√©m disso, os homens n√£o se podem retirar quando querem; nem querem quando seria razo√°vel; n√£o se compadecem com a aposenta√ß√£o por idade ou por doen√ßa, quando necessitam estar √† sombra; tais como os velhos das vilas e das aldeias que querem estar sentados √† porta de casa, expondo assim a velhice ao esc√°rnio dos outros. Certamente, as altas personalidades necessitam de pedir aos outros homens opini√Ķes que as fa√ßam felizes; porque a julgarem-se pelos pr√≥prios sentimentos jamais conseguir√£o a felicidade;

Continue lendo…

A Sabedoria do Corpo

Tu dizes ¬ęeu¬Ľ e orgulhas-te desta palavra. Mas h√° qualquer coisa de maior, em que te recusas a aceditar, √© o teu corpo e a sua grande raz√£o; ele n√£o diz Eu, mas procede como Eu.
Aquilo que a inteligência pressente, aquilo que o espírito reconhece nunca em si tem o seu fim. Mas a inteligência e o espírito quereriam convencer-te que são o fim de todas as coisas; tal é a sua soberba.
Inteligência e espírito não passam de instrumentos e de brinquedos; o Em si está situado para além deles. O Em si informa-se também pelos olhos dos sentidos, ouve também pelos ouvidos do espírito.
O Em si está sempre à escuta, alerta; compara, submete; conquista, destrói. Reina, e é também soberano do Eu.
Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo.
Há mais razão no teu corpo do que na própria essência da tua sabedoria.

Nada nos Satisfaz

Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos exa­minar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregás­semos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto todo esse nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coi­sa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Dis­so dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eterna­mente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio).
Não importa o que venhamos a conhecer e des­frutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobi­çosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não te­nham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apo­deramos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida;

Continue lendo…

Desigualdades Irremedi√°veis

Quem na sua própria juventude provou as misérias da pobreza, experimentou a insensibilidade e o orgulho dos ricos, encontra-se certamente ao abrigo da suspeita de incompreensão e de falta de boa vontade ante os esforços tentados para combater a desigualdade das riquezas e tudo quanto dela decorre. Na verdade, se esta luta invocar o princípio abstracto, e baseado na justiça, da igualdade de todos os homens entre si, será demasiado fácil objectar que a natureza foi a primeira, através da soberana desigualdade das capacidades físicas e mentais repartidas pelos seres humanos, a cometer injustiças contra as quais não há remédio.

Nada Vence as Paix√Ķes Profundas de Cada Um

As paix√Ķes op√Ķem-se √†s paix√Ķes, e podem servir de contrapeso umas √†s outras; mas a paix√£o dominante n√£o se pode conduzir sen√£o pelo seu pr√≥prio interesse, real ou imagin√°rio, porque ela reina despoticamente sobre a vontade, sem a qual nada se pode. Contemplo humanamente as coisas, e acrescento nes¬≠se esp√≠rito: nem todo o alimento √© pr√≥prio para todos os cor¬≠pos; nem todos os objetos s√£o suficientes para tocar deter¬≠minadas almas. Quem acredita serem os homens √°rbitros soberanos dos seus sentimentos n√£o conhece a natureza; consiga-se que um surdo se divirta com os sons encantado¬≠res de Mureti, pe√ßa-se a uma jogadora, que est√° a jogar uma grande partida, que tenha a complac√™ncia e a sabedo¬≠ria de se enfadar durante a mesma, nenhuma arte pode faz√™-lo.
Os s√°bios enganam-se quando oferecem a paz √†s paix√Ķes: as paix√Ķes s√£o inimigas dela. Eles elogiam a mo¬≠dera√ß√£o para aqueles que nasceram para a ac√ß√£o e para uma vida agitada; que importa a um homem doente a delicadeza de um festim que lhe repugna? N√≥s n√£o conhecemos os defeitos de nossa alma; mas ainda que pud√©ssemos conhec√™-los, raramente haver√≠a¬≠mos de os querer vencer.
As nossas paix√Ķes n√£o s√£o distintas de n√≥s mesmos; al¬≠gumas delas s√£o todo o fundamento e toda a subst√Ęncia da nossa alma.

Continue lendo…

A Influência dos Livros e dos Jornais

Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propaga√ß√£o das opini√Ķes uma influ√™ncia imensa, conquanto inferior √† dos discursos. Os livros actuam muito menos que os jornais, pois a multid√£o n√£o os l√™. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influ√™ncia sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais s√£o as obras de Rousseau, verdadeira b√≠blia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tom√°s, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secess√£o na Am√©rica do Norte. Outras obras como Robinson Crus√≥e e os romances de J√ļlio Verne exerceram grande influ√™ncia nas opini√Ķes da juventude e determinaram muitas carreiras.
Essa for√ßa dos livros era, sobretudo, consider√°vel quando se lia pouco. A leitura da B√≠blia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um n√ļmero avultado de fan√°ticos. Sabe-se que na √©poca em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ac√ß√£o t√£o perniciosa em todos os c√©rebros que os soberanos espanh√≥is vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influ√™ncia dos jornais √© muito superior √† for√ßa dos livros. S√£o em n√ļmero incalcul√°vel as pessoas que t√™m unicamente a opini√£o do jornal que elas l√™em.

Uma Nação só Vive porque Pensa

Uma na√ß√£o s√≥ vive porque pensa. Cogitat ergo est. A for√ßa e a riqueza n√£o bastam para provar que uma na√ß√£o vive duma vida que mere√ßa ser glorificada na Hist√≥ria – como rijos m√ļsculos num corpo e ouro farto numa bolsa n√£o bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de √Āfrica, com guerreiros incont√°veis nas suas aringas e incont√°veis diamantes nas suas colinas, ser√° sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civiliza√ß√£o, os civilizados pisam e retalham t√£o desassombradamente como se sangra e se corta a r√™s bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egipto ou Tunis formassem resplandescentes centros de ci√™ncias, de literaturas e de artes, e, atrav√©s de uma serena legi√£o de homens geniais, incessantemente educassem o mundo – nenhuma na√ß√£o mesmo nesta idade do ferro e de for√ßa, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses solos augustos donde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das ideias e das formas.
Só na verdade o pensamento e a sua criação suprema, a ciência, a literatura, as artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverência e carinho,

Continue lendo…

Moralidade e Felicidade

A felicidade √© o estado em que se encontra no mundo um ser racional para quem, em toda a sua exist√™ncia, tudo decorre conforme o seu desejo e a sua vontade; pressup√Ķe, por consequ√™ncia, o acordo da natureza com todo o conjunto dos fins deste ser, e simultaneamente com o fundamento essencial de determina√ß√£o da sua vontade. Ora a lei moral, como lei da liberdade, obriga por meio de fundamentos de determina√ß√£o, que devem ser inteiramente independentes da natureza e do acordo dela com a nossa faculdade de desejar (como motor). Por√©m, o ser agente racional que actua no mundo n√£o √© simultaneamente causa do mundo e da pr√≥pria natureza. Assim, pois, na lei moral n√£o h√° o menor fundamento para uma conex√£o necess√°ria entre a moralidade e a felicidade, com ela proporcionada, num ser que, fazendo parte do mundo, dele depende; este ser, precisamente por isso, n√£o pode ser voluntariamente a causa desta natureza nem, no que √† felicidade respeita, fazer com que, pelas suas pr√≥prias for√ßas, coincida perfeitamente com os seus pr√≥prios princ√≠pios pr√°ticos.
E, todavia, no problema prático que a razão pura nos prescreve, isto é, na prossecução do soberano bem, tal acordo é postulado como necessário: devemos procurar realizar o soberano bem,

Continue lendo…

Os V√°rios Tipos de Amor

Parece-me que podemos, com maior razão, distinguir o amor em função da estima que temos pelo que amamos, em comparação com nós mesmos. Pois quando estimamos o objecto do nosso amor menos que a nós mesmos, temos por ele apenas uma simples afeição; quando o estimamos tanto quanto a nós mesmos, a isso se chama amizade; e quando o estimamos mais, a paixão que temos pode ser denominada como devoção. Assim, podemos te afeição por uma flor, por um pássaro, por um cavalo; porém, a menos que o nosso espírito seja muito desajustado, apenas por seres humanos podemos ter amizade. E de tal maneira eles são objecto dessa paixão que não há homem tão imperfeito que não possamos ter por ele uma amizade muito perfeita, quando pensamos que somos amados por ele e quando temos a alma verdadeiramente nobre e generosa.
Quanto √† devo√ß√£o, o seu principal objecto √© sem d√ļvida a soberana divindade, da qual n√£o poder√≠amos deixar de ser devotos quando a conhecemos como se deve conhecer. Mas tamb√©m podemos ter devo√ß√£o pelo nosso pr√≠ncipe, pelo nosso pa√≠s, pela nossa cidade, e mesmo por um homem particular quando o estimamos muito mais que a n√≥s mesmos. Ora,

Continue lendo…

A Dor e o Prazer

A natureza colocou o género humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é recto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.
Os dois senhores de que falamos governam-nos em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos, sendo que qualquer tentativa que façamos para sacudir esse senhorio outra coisa não faz senão demonstrá-lo e confirmá-lo. Através das suas palavras, o homem pode pretender abjurar tal domínio, porém na realidade permanecerá sujeito a ele em todos os momentos da sua vida.