Textos sobre Uni√£o

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Textos de união escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ao Lado do Ofício de Mandar Deve Andar o de Sugerir

Ningu√©m pode mandar s√≥, se houver de mandar como conv√©m. Ao lado do of√≠cio de mandar, deve andar sempre o of√≠cio de sugerir, ou como companheiro, ou como instrumento insepar√°vel. A obriga√ß√£o e exerc√≠cio deste segundo e t√£o importante of√≠cio, √© o que significa a mesma palavra sugerir; que vem a ser, lembrar, advertir, inspirar, aconselhar, conferir, persuadir, despertar, instar. Os talentos que para o mesmo of√≠cio se requerem, s√£o maiores e mais relevantes: grande entendimento, grande compreens√£o, grande ju√≠zo, grande conselho, grande zelo, grande fidelidade, grande vigil√Ęncia, grande cuidado, grande valor. As disposi√ß√Ķes e os meios com que se exercita, ainda s√£o de mais altas e mais interiores prerrogativas: suma comunica√ß√£o, suma confian√ßa, √≠ntima amizade, √≠ntima familiaridade, √≠ntimo amor; e n√£o s√≥ perfeita uni√£o, sen√£o ainda unidade. De sorte que os dous sujeitos em que concorrerem estes dous of√≠cios, de tal maneira h√£o-de ser dous, que verdadeiramente sejam um: de tal maneira h√£o-de ser diversos, que verdadeiramente sejam o mesmo. H√°-se de multiplicar neles o n√ļmero, mas n√£o se h√°-de dividir a unidade.

A Hipocrisia do Amor-Próprio

A natureza do amor-pr√≥prio e deste eu humano √© de s√≥ se amar a si e de s√≥ se considerar a si. Mas que h√°-de fazer? N√£o saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de mis√©rias: quer ser grande e v√™-se pequeno; quer ser feliz e v√™-se miser√°vel; quer ser perfeito – v√™-se cheio de imperfei√ß√Ķes; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e v√™ que os seus defeitos s√≥ merecem a sua avers√£o e o seu desprezo. Este embara√ßo em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paix√£o que √© poss√≠vel imaginar; porque concebe um √≥dio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquil√°-la, e n√£o a podendo destruir em si mesma, destr√≥i-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto √©, p√Ķe todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e n√£o suporta que lhos fa√ßam ver, nem que lhos vejam.
√Č sem d√ļvida um mal estar cheio de defeitos; mas √© ainda um mal muito maior estar cheio e n√£o os querer reconhecer, visto que √© acrescentar-lhe ainda o de uma ilus√£o volunt√°ria.

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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As Amizades Comuns

O que habitualmente chamamos amigos e amizades n√£o s√£o sen√£o conhecimentos e familiaridades contra√≠dos quer por alguma circunst√Ęncia fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mant√™m em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em uni√£o t√£o absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a n√£o mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que s√≥ o posso exprimir respondendo: ¬ęPorque era ele; porque era eu¬Ľ.
(…) N√£o me venham meter ao mesmo n√≠vel essoutras amizades comuns! Conhe√ßo-as t√£o bem como qualquer outro, e at√© algumas das mais perfeitas do g√©nero, mas n√£o aconselho ningu√©m a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de r√©deas na m√£o, com prud√™ncia e cautela – o n√≥ n√£o est√° atado de maneira que, acerca dele, n√£o se tenha de nutrir alguma desconfian√ßa. ¬ęAmai o vosso amigo¬Ľ, dizia Qu√≠lon, ¬ęcomo se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.¬Ľ

A União entre o Espírito e a Beleza

H√° uma beleza espiritual e h√° outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cis√£o entre os dois. Nisso tamb√©m se baseia o ensinamento ver√≠dico: ¬ęApenas por dois modos a felicidade √© cognosc√≠vel em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do esp√≠rito¬Ľ. Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual n√£o se acha, para o belo, na mesma rela√ß√£o em que o belo se encontra para com o feio e que, s√≥ em certas condi√ß√Ķes, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade,

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Um Mau Negócio

O sexo feminino exige e espera do masculino tudo, exactamente tudo o que deseja e de que necessita. O masculino exige do feminino, em primeiro lugar e imediatamente, uma √ļnica coisa. Por essa raz√£o, foi necess√°rio estabelecer a conven√ß√£o de que o sexo masculino s√≥ pode obter do feminino aquela √ļnica coisa se, em troca, cuidar de todas as outras, al√©m dos filhos nascidos da uni√£o. Nessa conven√ß√£o baseia-se o bem-estar de todo o sexo feminino.

Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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A Utilidade da Arte

– Mas, com licen√ßa – dir√£o os senhores – em que se funda; que raz√£o concreta a sua para dizer que a arte nunca pode ser contempor√Ęnea e n√£o corresponde √† realidade quotidiana?
Respondemos.
Em primeiro lugar, se tomarmos em conjunto todos os factos hist√≥ricos, principiando no come√ßo do Mundo e acabando nos nossos dias, veremos que a arte esteve sempre com o homem; respondeu sempre aos seus anseios e ao seu ideal; ajudou-o a procurar este √ļltimo… foi co-natural com ele, evolucionou em un√≠ssono com a sua vida hist√≥rica e morreu tamb√©m ao mesmo tempo que a sua vida hist√≥rica.
Em segundo lugar (e isto é o importante), o génio criador, base de toda a arte, vive no homem como manifestação de uma parte do seu organismo, mas vive inseparável do homem. De onde se conclui que o génio criador não pode tender para outros fins que não sejam os que visa o próprio homem. Se seguisse outro caminho, quereria dizer que se separara dele. E, por conseguinte, teria infrigido as leis da natureza. Mas o homem enquanto são não viola as leis da Natureza (de maneira geral). De onde se conclui que não há nada a temer no que diz respeito à arte: esta não atraiçoará a sua missão.

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A Multid√£o Embrutece

Assim que muitos homens se encontram juntos, perdem-se. A multidão transporta as suas unidades do presente para o passado e precipita-as de cima para baixo: trata-se de um recuo e uma decadência.
Todo o homem, l√° dentro, converte-se noutro – mas pior. Nas multid√Ķes, a uni√£o √© constitu√≠da pelos inferiores e fundada nas partes inferiores de todas as almas. S√£o florestas em que os ramos altos n√£o se entrela√ßam, mas apenas, em baixo na escurid√£o, as ra√≠zes terrosas. Todos perdem o que os torna diferentes e melhores, enquanto o antigo r√ļstico – que, entre obst√°culos, morda√ßas e a√ßaimos, parecia aniquilado – acorda e muge. Em todas as multid√Ķes, como em toda a Humanidade, os med√≠ocres s√£o infinitamente mais que os grandes, os calmos que os violentos, os simples que os profundos, os primitivos que os civilizados, e √© a maioria que cria a alma comum que imbrica e nivela todo o agrupamento de homens.
Aquele que em cada um forma o seu superior n√£o pode conformar-se e fundir-se – √© a pessoa √ļnica e, portanto, incomunic√°vel. Toda a pessoa se op√Ķe √†s outras, existe enquanto √© diferente, n√£o se pode liquefazer num todo. Mas h√° em cada um de n√≥s,

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Portugal Vive em Total Dependência

Um pa√≠s como Portugal, e n√£o √© o √ļnico nesta situa√ß√£o, que n√£o tem uma ideia pr√≥pria de futuro para toda a colectividade, vive numa situa√ß√£o de total depend√™ncia. N√£o temos mais ideias do que aquelas que nos dizem que devemos ter. A Uni√£o Europeia dita-nos o que devemos fazer em todos os campos da vida. Encaminhamo-nos para a pior das mortes: a morte por falta de vontade, por abdica√ß√£o. Esta ren√ļncia √© tamb√©m a morte da cultura. Por isso creio que um pa√≠s morto, como Portugal, n√£o pode fazer uma cultura viva.

Existência, Corpo e Costumes, Como Eixos do Gosto

Na nossa actual maneira de ser, a nossa alma aprecia tr√™s tipos de prazer: aqueles que ela retira do pr√≥prio fundo da sua exist√™ncia; outros que resultam da sua uni√£o com o corpo; e por fim, outros que radicam nos costumes e preconceitos que certas institui√ß√Ķes, certos usos e certos h√°bitos lhe levam a apreciar.
S√£o esses diferentes prazeres da nossa alma que constituem os objectos do gosto, como o belo, o bom, o agrad√°vel, o c√Ęndido, o delicado, o terno, o gracioso, o n√£o sei o qu√™, o nobre, o grande, o sublime, o majestoso, etc. Por exemplo, quando sentimos prazer ao ver uma coisa que possui uma utilidade para n√≥s, dizemos que ela √© boa; quando sentimos prazer ao v√™-la, sem dela abstrairmos uma utilidade manifesta, chamamo-la bela.

As Uni√Ķes Necess√°rias

A primeira união necessária é a de dois seres que são incapazes de existir um sem o outro: é o caso do macho e da fêmea tendo em vista a procriação (e essa união nada tem de arbitrária, mas como nas outras espécies animais e nas plantas, trata-se de uma tendência natural a deixar atrás de si um outro ser semelhante); é ainda a união daquele cuja natureza é comandar com aquele cuja natureza é ser comandado, tendo em vista a sua conservação comum.

A Verdadeira Amizade

Na verdadeira amizade, em que sou experimentado, dou-me mais ao meu amigo que o puxo para mim. N√£o s√≥ prefiro fazer-lhe bem a que ele mo fa√ßa mas ainda que ele o fa√ßa a si pr√≥prio a que mo fa√ßa; faz-me ele, ent√£o, o maior bem poss√≠vel quando a si o faz. E se a sua aus√™ncia lhe for quer prazenteira quer √ļtil, torna-se-me ela bem mais agrad√°vel que a sua presen√ßa; e de resto n√£o √© propriamente aus√™ncia se h√° meios de comunicarmos um com o outro. Tirei outrora partido e proveito do nosso afastamento. Em nos separando, melhor e mais amplamente entr√°vamos em posse da vida: ele vivia, fru√≠a e via para mim, e eu para ele, mais plenamente que se ele estivesse presente. Uma parte de cada um de n√≥s permanecia desocupada quando est√°vamos juntos: fund√≠amo-nos num s√≥. A separa√ß√£o espacial tornava mais rica a uni√£o das nossas vontades. A insaci√°vel fome da presen√ßa f√≠sica denuncia uma certa fraqueza na frui√ß√£o m√ļtua das almas.

O Egoísmo da Espécie

Os amantes querem pertencer um ao outro, e para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abra√ßam num instante de profunda intimidade para gozarem assim do m√°ximo prazer e da mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer √© ego√≠sta. N√£o h√° d√ļvida que do prazer dos amantes n√£o se pode dizer que seja ego√≠sta, porque √© rec√≠proco; mas o prazer que ambos sentem na uni√£o √© absolutamente ego√≠sta, se for verdade que nesse abra√ßo j√° se confundem num s√≥ e mesmo ser. Mas est√£o enganados; porque, no mesmo instante, a esp√©cie triunfa sobre os indiv√≠duos; domina-os, rebaixa-os, ao seu servi√ßo.

Julgo isto muito mais ridículo do que a situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente. Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso,

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Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

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O Aspecto Mais Grave da Segregação

Parece ser facto geral, que as minorias ‚ÄĒ em especial aquelas cujos indiv√≠duos t√™m caracter√≠sticas f√≠sicas diferentes ‚ÄĒ sejam tratadas pelas maiorias, entre as quais vivem, como classes humanas inferiores. O que este destino tem de tr√°gico n√£o reside apenas no preju√≠zo que naturalmente adv√©m para essas minorias sob o aspecto econ√≥mico e social, mas tamb√©m ao facto de os indiv√≠duos, vivendo nestas condi√ß√Ķes, se renderem geralmente ‚ÄĒ devido √† influ√™ncia sugestiva da maioria ‚ÄĒ√†quele preconceito sobre o seu valor, e acabarem considerando os seus semelhantes como inferiores. Esta segunda parte e a mais grave do mal, pode ser suprimida por uma mais estreita uni√£o e por uma educa√ß√£o deliberadamente esclarecida da minoria, para assim se conseguir a liberta√ß√£o espiritual da mesma.

Amizade Sem Sinceridade

Acredita-se ter encontrado um meio de tornar a vida deliciosa atrav√©s da bajula√ß√£o. Um homem simples que apenas diz a verdade √© visto como o perturbador do prazer p√ļblico. Foge-se dele porque n√£o agrada a ningu√©m; foge-se da verdade que ele enuncia, porque √© amarga; foge-se da sinceridade que proclama porque apenas traz frutos selvagens; tem-se receio dela porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais estimada das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel que nos faz ver qu√£o disformes somos.
N√£o admira que seja t√£o rara: em toda a parte (a sinceridade) √© perseguida e proscrita. Coisa maravilhosa, ela encontra a custo um ref√ļgio no seio da amizade.
Sempre seduzidos pelo mesmo erro, só fazemos amigos para ter pessoas particularmente destinadas a nos agradarem: a nossa estima resume-se à sua complacência; o fim dos consentimentos acarreta o fim da amizade. E quais são esses consentimentos? O que é que mais nos agrada nos amigos? São os contínuos elogios que lhes cobramos como tributos.
A que se deve que j√° n√£o haja verdadeira amizade entre os homens? Que esse nome n√£o seja mais do que uma armadilha que empregam com vileza para seduzir? ¬ę√Č, diz um poeta (Ov√≠dio),

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A Realidade B√°sica da Vida Est√° nas Rela√ß√Ķes Humanas

No meio das nossas m√°quinas perdemos de vista o facto de que a realidade b√°sica da vida n√£o est√° na pol√≠tica, nem na ind√ļstria, mas nas rela√ß√Ķes humanas – as associa√ß√Ķes entre homem e mulher e as destes com os filhos. Em redor destes dois n√ļcleos do amor – amor entre macho e f√™mea e amor de m√£e – toda a vida evolve. H√° o caso daquela jovem revolucion√°ria que, ao realizar-se o ¬ęfuneral vermelho¬Ľ do seu amante (morto no levantamento de 1917, em Moscovo), se lan√ßou ao t√ļmulo e, agarrada ao caix√£o do defunto, gritou: ¬ęEnterrem-me tamb√©m: que me importa a mim a Revolu√ß√£o, agora que ele morreu?¬Ľ
Esta mo√ßa poderia estar iludida ao julgar o seu namorado um ser √ļnico na terra – mas sabia com essa sabedoria ing√©nita da mulher, que a tremenda revolu√ß√£o era um incidente sem import√Ęncia, se comparada ao Mississipi de uni√Ķes amorosas, de gera√ß√Ķes de novos seres e de morte que constitui o caudal central da vida. Essa rapariga n√£o ignorava, embora jamais houvesse pensado nisso, que a fam√≠lia √© mais que o Estado: sabia que a devo√ß√£o amorosa e o desespero calam mais fundo no cora√ß√£o do que tudo quanto √© econ√≥mico,

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