Textos sobre Privação

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Textos de privação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

O Amor Maior

O amor é preocupação. Ter o coração já previamente ocupado. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada do que ela própria sofre.
O amor √© banal. √Č por isso que √© t√£o bonito. O que se quer da pessoa amada: antes que ela nos ame tamb√©m, √© que ela seja feliz, que seja saud√°vel, que tudo lhe corra bem. Embora se saiba que o mundo n√£o o permite, passa-se por cima da realidade, do racioc√≠nio do que √© poss√≠vel, e quer-se, e espera-se, que Deus abra, no caso dela, uma excep√ß√£o.

A paix√£o pode parecer mais interessante. Mas irrita-me que se compare com o amor. Como se pode comparar dois sentimentos que n√£o t√™m uma √ļnica semelhan√ßa? Se o amor e a paix√£o coincidem, √© como a cor do c√©u e do mar num dia de Ver√£o ‚ÄĒ √© uma alegria, mas nada nos diz acerca do que distingue o ar da √°gua.
Dizer que o amor pode começar como paixão é uma forma falaciosa de estabelecer uma continuidade entre uma e outra, geralmente pejorativa para o amor, que é entendido como um resíduo da paixão,

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O Hábito Diminui a Admiração

Renovar o fulgor Рé privilégio de Fênix: sói a excelência envelhecer, e com ela a fama; o hábito diminui a admiração, e uma novidade medíocre supera uma excelência envelhecida. Use-se, pois, renascer em valor, em engenho, em ventura, em tudo. Empenhar-se em novidades de bravura, amanhecendo muitas vezes, como o sol, variando os teatros do brilho, para que num a privação e noutro a novidade solicitem neste o aplauso, naquele a saudade.

As Infelizes Necessidades do Homem Civilizado

Um autor c√©lebre, calculando os bens e os males da vida humana, e comparando as duas somas, achou que a √ļltima ultrapassa muito a primeira, e que tomando o conjunto, a vida era para o homem um p√©ssimo presente. N√£o fiquei surpreendido com a conclus√£o; ele tirou todos os seus racioc√≠nios da constitui√ß√£o do homem civilizado. Se subisse at√© ao homem natural, pode-se julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o homem s√≥ tem os males que se criou para si mesmo, o que √† natureza se faria justi√ßa. N√£o foi f√°cil chegarmos a ser t√£o desgra√ßados. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ci√™ncias profundas, tantas artes inventadas, tantas for√ßas empregadas, abismos entulhados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados naveg√°veis, terras arroteadas, lagos cavados, pantanais dissecados, constru√ß√Ķes enormes elevadas sobre a terra, o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da esp√©cie humana, s√≥ nos podemos impressionar com a espantosa despropor√ß√£o que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do homem, que, para nutrir o seu orgulho louco, n√£o sei que v√£ admira√ß√£o de si mesmo,

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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Dar o que Temos é Pouco

Quem apenas dá o que tem dá sempre pouco. Cada um de nós é muito mais do que aquilo que possui. Assim, mais do que dar o que temos, devemos dar o que somos.

Quem dá o que é irradia o bem da sua existência, semeia-se enquanto bondade… faz-se mais e melhor.

H√° quem tenha tudo e n√£o seja nada. Julgando que o seu valor est√° no que possui, exibe os seus bens como se fossem condecora√ß√Ķes… desprezando n√£o s√≥ o que √©, mas, e ainda mais importante, o que poderia ser.

Quanto às coisas materiais, será melhor merecer o que não se tem do que ter o que não se merece… tal como é preferível ser credor do que devedor.

Nunca é bom depender do que não depende de nós.
Hoje confundem-se desejos com necessidades. Na verdade, n√£o s√£o sequer compar√°veis, na medida em que os desejos buscam uma satisfa√ß√£o inalcan√ß√°vel. Pois assim que se sacia um desejo, logo outro, maior, toma o seu lugar. S√£o vontades estranhas √† nossa paz e capazes de alimentar contra n√≥s uma guerra sem fim. √Č importante que atendamos √†s nossas verdadeiras car√™ncias, mas com o cuidado de afastar da√≠ todos os desejos que querem passar por elas.

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Todo o Mal Provém não da Privação mas do Supérfluo

Ser feliz √©, afinal, n√£o esperar muito da felicidade, ser feliz √© ser simples, desambicioso, √© saber dosear as aspira√ß√Ķes at√© √†quela medida que p√Ķe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padr√£o tutelar, lembremos de novo um dos seus her√≥is, o pr√≠ncipe Pedro Bezoukhov (do romance ‘Guerra e Paz’). As circunst√Ęncias fizeram-no conviver no cativeiro com um s√≠mbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genu√≠no, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, n√£o s√≥ modificaram o pr√≠ncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que n√≥s, pobres humanos, debalde perseguimos: a coer√™ncia, a pacifica√ß√£o interior, que s√£o correctivos da desventura.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, ap√≥s essa viv√™ncia, apreendera, n√£o pela raz√£o mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal prov√©m n√£o da priva√ß√£o mas do sup√©rfluo, e que, enfim, n√£o h√° grandeza onde n√£o haja verdade e desapego pelo ef√©mero. Isto, ali√°s, nos √© repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta s√≠ntese desoladora: ¬ęTodos lutam, sofrem e se angustiam,

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A Felicidade e as Idades da Vida

O que torna infeliz a primeira metade da vida, que apresenta tantas vantagens em rela√ß√£o √† segunda, √© a busca da felicidade, com base no firme pressuposto de que esta deva ser encontr√°vel na vida: o resultado s√£o esperan√ßas e insatisfa√ß√Ķes continuamente frustradas. Visualizamos imagens enganosas de uma felicidade sonhada e indeterminada, entre figuras escolhidas por capricho, e procuramos em v√£o o seu arqu√©tipo.
Na segunda metade da vida, a preocupa√ß√£o com a infelicidade toma o lugar da aspira√ß√£o sempre insatisfeita √† felicidade; no entanto, encontrar um rem√©dio para tal problema √© objectivamente poss√≠vel. De facto, a essa altura j√° estamos finalmente curados do pressuposto h√° pouco mencionado e buscamos apenas tranquilidade e a maior aus√™ncia de dor poss√≠vel, o que pode ocasionar um estado consideravelmente mais satisfat√≥rio do que o primeiro, visto que ele deseja algo ating√≠vel, e que prevalece sobre as priva√ß√Ķes que caracterizam a segunda metade da vida.

A Sensura

A nossa sociedade autoriza tudo o que n√£o a incomoda. Se isto j√° n√£o √© plenamente verdade nos nossos dias, e se estamos em crise, √© porque o interesse imediato dos que est√£o no poder se encontra em contradi√ß√£o com os valores que fundamentam este mesmo poder. √Č-lhes necess√°rio, por exemplo, incentivar o consumo que os enriquece, em detrimento da moral que os legitima. Pela primeira vez, o poder fundamenta-se na confus√£o e n√£o na ordem. Da√≠ a mentira generalizada, de que a l√≠ngua sofre.

A permissividade actual autoriza que se diga tudo porque este tudo já não significa nada. A palavra torna-se inofensiva por privação de sentido. A escrita sofre a mesma privação nas suas formas normalizadas: publicidade, jornalismo, best-sellers, que passam por escrita quando não o são.
O objectivo da antiga censura consistia em tornar o adversário inofensivo, privando-o dos seus meios de expressão; a nova Рque denominei sensura Рesvazia a expressão para a tornar inofensiva, método mais radical e menos visível.

A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

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Suportar a Adversidade

Das ocorr√™ncias indesejadas, falando de maneira gen√©rica, algumas acarretam naturalmente dor e vexa√ß√£o, mas, na maior parte dos casos, √© falsa a no√ß√£o que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como espec√≠fico contra este tipo de ocorr√™ncia, √© conveniente ter √† m√£o um dito de Menandro: ¬ęNada te aconteceu de facto enquanto n√£o te importares muito com o ocorrido¬Ľ. Isso quer dizer que n√£o h√° motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai √© de baixa extrac√ß√£o, a tua mulher cometeu adult√©rio, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honor√≠fica ou privil√©gio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.
Para a primeira categoria – doen√ßas, priva√ß√Ķes, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexa√ß√£o, esta linha de Eur√≠pedes deve estar √† m√£o: “Ai! por que ai? √Č o quinh√£o da mortalidade que nos coube”. Nenhum outro argumento l√≥gico pode romper de forma t√£o efectiva a espiral descendente das nossas emo√ß√Ķes, do que a reflex√£o de que somente atrav√©s da compuls√£o comum da Natureza, um dos elementos da sua constitui√ß√£o f√≠sica, √© que o homem se torna vulner√°vel √† Fortuna;

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O Homem РUm Ser Egoísta

O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, √© o ego√≠smo, ou seja, o impulso √† exist√™ncia e ao bem-estar. […] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o ego√≠smo chega a ser id√™ntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu √Ęmago e √† sua ess√™ncia.
Desse modo, todas as ac√ß√Ķes dos homens e dos animais surgem, em regra, do ego√≠smo, e a ele tamb√©m se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada ac√ß√£o. Nas suas ac√ß√Ķes baseia-se tamb√©m, em geral, o c√°lculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o ego√≠smo √© ilimitado: o homem quer conservar a sua exist√™ncia utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que tamb√©m incluem a falta e a priva√ß√£o, quer a maior quantidade poss√≠vel de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega at√© mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando poss√≠vel, novas capacidades de deleite. Tudo o que se op√Ķe ao √≠mpeto do seu ego√≠smo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu √≥dio: ele tentar√° aniquil√°-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo;

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A Infelicidade do Desejo

Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade. Um estado negativo que implica um impulso para a sua satisfação, um vazio com vontade de ser preenchido.

Toda a vida é, em si mesma, um constante fluxo de desejos. Gerir esta torrente é essencial a uma vida com sentido. Cada homem deve ser senhor de si mesmo e ordenar os seus desejos, interesses e valores, sob pena de levar uma vida vazia, imoderada e infeliz. Os desejos são inimigos sem valentia ou inteligência, dominam a partir da sua capacidade de nos cegar e atrair para o seu abismo.
A felicidade √©, por ess√™ncia, algo que se sente quando a realidade extravasa o que se espera. A supera√ß√£o das expectativas. Ser feliz √© exceder os limites preestabelecidos, assim se conclui que quanto mais e maiores forem os desejos de algu√©m, menores ser√£o as suas possibilidades de felicidade, pois ainda que a vida lhe traga muito… esse muito √© sempre pouco para lhe preencher os vazios que criou em si pr√≥prio.

Na sociedade de consumo em que vivemos há cada vez mais necessidades. As naturais e todas as que são produzidas artificialmente. Hoje, criam-se carências para que se possa vender o que as preenche e anula.

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Quem Aprendeu a Morrer Desaprendeu de Servir

Os homens v√£o, v√™m, andam, dan√ßam, e nenhuma not√≠cia de morte. Tudo isso √© muito bonito. Mas, tamb√©m quando ela chega, ou para eles, ou para as suas mulheres, filhos e amigos, surpreendendo-os imprevistamente e sem defesa, que tormentos, que gritos, que dor e que desespero os abatem! J√° vistes algum dia algo t√£o rebaixado, t√£o mudado, t√£o confuso? √Č preciso preparar-se mais cedo para ela; e essa despreocupa√ß√£o de animal, caso pudesse instalar-se na cabe√ßa de um homem inteligente, o que considero inteiramente imposs√≠vel, vende-nos caro demais a sua mercadoria. Se fosse um inimigo que pud√©ssemos evitar, eu aconselharia a adoptar as armas da cobardia. Mas, como isso n√£o √© poss√≠vel, como ele vos alcan√ßa fugitivo e poltr√£o tanto quanto corajoso, De facto ele persegue o cobarde que lhe foge, e n√£o poupa os jarretes e o dorso poltr√£o de uma juventude sem coragem (Hor√°cio), e que nenhuma ilus√£o de coura√ßa vos encobre, In√ļtil esconder-se prudentemente sob o ferro e o bronze: a morte saber√° fazer-se exp√īr √† cabe√ßa que se esconde (Prop√©rcio), aprendamos a enfrent√°-lo de p√© firme e a combat√™-lo. E, para come√ßar a roubar-lhe a sua maior vantagem contra n√≥s, tomemos um caminho totalmente contr√°rio ao habitual.

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Como Seria Se Eu o Perdesse?

Precisamos de tentar chegar ao ponto de ver o que possu√≠mos exactamente com os mesmos olhos com que ver√≠amos tal posse se ela nos fosse arrancada. Quer se trate de uma propriedade, de sa√ļde, de amigos, de amantes, de esposa e de filhos, em geral percebemos o seu valor apenas depois da perda. Se chegarmos a isso, em primeiro lugar a posse ir√° trazer-nos imediatamente mais felicidade; em segundo lugar, tentaremos de todas as maneiras evitar a perda, n√£o expondo a nossa propriedade a nenhum perigo, n√£o irritando os amigos, n√£o pondo √† prova a fidelidade das esposas, cuidando da sa√ļde das crian√ßas etc.
Ao olharmos para tudo o que n√£o possu√≠mos, costumamos pensar: ‘Como seria se fosse meu?’, e dessa maneira tornamo-nos conscientes da priva√ß√£o.

O Que Vale Poupar o Corpo?

Quando o corpo √© bem constitu√≠do, talvez seja poss√≠vel faz√™-lo durar alguns anos a mais poupando-o. Pode ser que a modera√ß√£o nas paix√Ķes, a temperan√ßa e a sobriedade nos prazeres contribuam para a dura√ß√£o da vida; mas at√© isso parece bem duvidoso: √© necess√°rio que o corpo empregue todas as suas for√ßas, que consuma tudo o que pode consumir, que se exercite o quanto for capaz; o que se ganhar√° ent√£o pela dieta e pela priva√ß√£o?