Textos sobre Moderação

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Textos de moderação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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Preciso de Ti

O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? √Č claro que amo os meus pais, a minha fam√≠lia toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado.

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O que Distingue um Amigo Verdadeiro

N√£o se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conhe√ßam pessoas de quem apetece ser amiga, n√£o se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupa√ß√£o da alma e a ocupa√ß√£o do espa√ßo, o tempo que se pode passar e a aten√ß√£o que se pode dar ‚ÄĒ todas estas coisas s√£o finitas e t√™m de ser partilhadas. N√£o chegam para mais de um, dois, tr√™s, quatro, cinco amigos. √Č preciso saber partilhar o que temos com eles e n√£o se pode dividir uma coisa j√° de si pequena (n√≥s) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém,

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Saber Lidar com a Inj√ļria

De nada serve tudo ver e tudo ouvir. N√£o prestemos aten√ß√£o √†s inj√ļrias: a maior parte delas n√£o nos atinge porque as ignoramos. N√£o queres estar irado? N√£o sejas curioso. Aquele que procura saber o que foi dito sobre si, que desenterra as palavras maldosas, mesmo quando foram ditas em segredo, atormenta-se a si mesmo. √Č uma determinada interpreta√ß√£o dessas palavras que faz com que ela nos pare√ßam inj√ļrias: assim, devemos aceit√°-las, rirmo-nos delas ou perdo√°-las. Devemos circunscrever a ira de diversas maneiras; tomemos a maior parte delas como um jogo ou uma brincadeira. Conta-se que, tendo sido agredido com uma bofetada, S√≥crates disse ser aborrecido que os homens n√£o soubessem quando deveriam sair de casa com um elmo. O que importa n√£o √© a maneira como a inj√ļria √© feita, mas sim a maneira como √© tomada; nem vejo por que motivo a modera√ß√£o h√°-de ser dif√≠cil, pois sei de tiranos, cheios de orgulho, de fortuna e de autoritarismo, que reprimiram a crueldade a que estavam habituados. Um tirano ateniense, Pis√≠strato, se a mem√≥ria n√£o me falha, tendo ouvido, de um conviva √©brio, palavras ofensivas sobre a sua crueldade, n√£o faltando sequer quem o apoiasse e o incitasse aqui e ali,

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Contra a Ansiedade

Sempre que te aconte√ßa alguma coisa contr√°ria √† tua expectativa diz a ti mesmo que os deuses tomaram uma decis√£o superior! Com semelhante disposi√ß√£o de esp√≠rito, nada ter√°s a temer. Esta disposi√ß√£o de esp√≠rito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experimentarmos em n√≥s, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que n√£o possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Ser√° a ru√≠na do esp√≠rito andarmos ansiosos pelo futuro, desgra√ßados antes da desgra√ßa, sempre na ang√ļstia de n√£o saber se tudo o que nos d√° satisfa√ß√£o nos acompanhar√° at√© ao √ļltimo dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que h√°-de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo n√≠vel a dor por algo perdido e o receio de o perder. Isto n√£o quer dizer que te esteja incitando √† apatia! Pelo contr√°rio, procura evitar as situa√ß√Ķes perigosas; procura prever tudo quanto seja previs√≠vel; procura conjecturar tudo o que pode ser-te nocivo muito antes de que te suceda, para assim o evitares. Para tanto, ser-te-√° da maior utilidade a autoconfian√ßa, a firmeza de √Ęnimo apta a tudo enfrentar. Quem tem √Ęnimo para suportar a fortuna √© capaz de precaver-se contra ela;

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O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro n√£o tenha arrancado e comido o cora√ß√£o do carrasco de Dona In√™s, J√ļlio Dantas continua a ter raz√£o: √© realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no inc√≥modo fon√©tico de dizer ¬ęEu amo-o¬Ľ ou ¬ęEu amo-a¬Ľ. Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que est√£o apaixonados, o que n√£o √© a mesma coisa, ou ent√£o embara√ßam seriamente os eleitos com as vers√Ķes estrangeiras: ¬ęI love you¬Ľ ou ¬ęJe t’aime¬Ľ. As perguntas ¬ęAmas-me?¬Ľ ou ¬ęSer√° que me amas?¬Ľ est√£o vedadas pelo bom gosto, sen√£o pelo bom senso. Por isso diz-se antes ¬ęGostas mesmo de mim?¬Ľ, o que tamb√©m n√£o √© a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contr√°rio do que acontece nas demais l√≠nguas indo-europeias, n√£o tem em Portugal o sentido simples e bonito de ¬ęaquele que ama, ou √© amado¬Ľ. Diz-se que n√£o sei-quem √© amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opr√≥bio galin√°ceo das reuni√Ķes de ¬ętupperwares¬Ľ e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo.

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A Embriaguez também é Necessária

√Äs vezes tamb√©m √© preciso chegar at√© a embriaguez, n√£o para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupa√ß√Ķes, revolve at√© o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. E L√≠ber foi chamado o inventor do vinho n√£o porque solta a l√≠ngua, mas sim porque liberta a alma da escravid√£o das inquieta√ß√Ķes; restabelece-a, fortalece-a e f√°-la mais audaz para todos os esfor√ßos. Mas, como na liberdade, tamb√©m no vinho √© salutar a modera√ß√£o. Cr√™-se que S√≥lon e Arc√©silas eram dados ao vinho; a Cat√£o, reprovou-se-lhe a embriaguez: mais facilmente se far√° honesto esse crime do que Cat√£o desonroso.

Atenção ao Estilo Rebuscado e Cheio de Adornos

Quando vires algu√©m com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande √© mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz h√° mais firmeza do que preocupa√ß√£o estil√≠stica. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da f√°brica! De tais criaturas nada ter√°s a esperar de firme ou s√≥lido. O estilo √© o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, s√≥ provar√° que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso. N√£o √© coisa digna de homens o cuidado extremo com o vestu√°rio! Se nos fosse dado observar “por dentro” a alma de um homem de bem ‚ÄĒ oh! que figura bela e vener√°vel, que fulgor de magnificente tranquilidade n√≥s contemplar√≠amos, que brilho n√£o emitiriam a justi√ßa, a coragem, a modera√ß√£o e a prud√™ncia! E n√£o s√≥ estas virtudes, mas ainda a frugalidade, o autodom√≠nio, a paci√™ncia, a liberalidade, a gentileza e essa virtude, incrivelmente rara no homem, que √© a humanidade ‚ÄĒ tamb√©m estas fariam jorrar sobre a alma o seu sublime esplendor!

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Conduta Apropriada

A maior parte das pessoas deixa-se irritar e exasperar pelos actos de neglig√™ncia, n√£o apenas de parentes e amigos como, inclusive, dos inimigos. Os ralhos, a irascibilidade, a inveja, a malevol√™ncia e o ci√ļme maligno s√£o pr√≥prios, t√£o-somente, das pessoas infectadas por tais pestil√™ncias, que afligem e oprimem gente insensata; brigas de vizinhos, apatia de amigos, mau procedimento de funcion√°rios no desempenho das suas obriga√ß√Ķes, s√£o inst√Ęncias disso. Coloca-te em lugar de destaque na lista das pessoas que abominam semelhante conduta; como os doutores em S√≥focles, que ¬ębile amarga com rem√©dio amargo purgam¬Ľ, exibes indigna√ß√£o e exaspera√ß√£o para fazer parelha com as suas paix√Ķes e destemperos. Isto √© il√≥gico. O neg√≥cio confiado √† tua administra√ß√£o √© realizado, em boa parte, n√£o por pessoas de car√°cter recto e direito, como instrumentos apropriados √† execu√ß√£o de um trabalho, mas por ferramentas tortas e defraudadas. N√£o imagines que seja de tua responsabilidade corrigi-las, ou que tal seja f√°cil de fazer. Mas se as usares de conformidade com o que s√£o, do mesmo modo por que os m√©dicos usam botic√Ķes ou pin√ßas cir√ļrgicas, revestindo-te da calma e da modera√ß√£o exigidas pela situa√ß√£o, o prazer que experimentar√°s com a tua s√°bia conduta ser√° maior do que o teu vexame pela crueza e deprava√ß√£o dos outros.

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A Vantagem do Saber

N√£o existe ocupa√ß√£o t√£o agrad√°vel como o saber; o saber √© o meio de nos dar a conhecer, ainda neste mundo, o infinito da mat√©ria, a imensa grandeza da Natureza, os c√©us, as terras e os mares. O saber ensinou-nos a piedade, a modera√ß√£o, a grandeza do cora√ß√£o; tira-nos as nossas almas das trevas e mostra-nos todas as coisas, o alto e o baixo, o primeiro, o √ļltimo e tudo aquilo que se encontra no meio; o saber d√°-nos os meios de viver bem e felizmente; ensina-nos a passar as nossas vidas sem descontentamento e sem vexames.

O Respeito pelo Multilateralismo

Num mundo onde os fortes podem procurar impor-se aos mais vulner√°veis, e em que determinadas na√ß√Ķes ou grupos ainda tentam decidir o destino do planeta, num mundo assim, o respeito pelo multilateralismo, a modera√ß√£o do discurso p√ļblico e a procura paciente do compromisso tornam-se ainda mais vitais para salvar o mundo de conflitos debilitantes e desigualdades persistentes.

Medida e Moderação

A mocidade √© rom√Ęntica, sempre dominada pelo sentimento; a velhice √© cl√°ssica nos seus gostos, mais amiga da ordem e da restri√ß√£o que da paix√£o e da liberdade; a idade madura paira entre os dois extremos, e com a vontade disciplinada, o esp√≠rito claro e os desejos coordenados, pacientemente constr√≥i. A regra do conhecimento, disse Descartes, √© pensar com clareza; s√≥ o que √© claramente compreendido √© verdade; s√≥ assim os desejos se fundem no car√°cter e na vontade.
A grande qualidade dos anos maduros está na moderação; e o grande defeito, na mediocridade. Nada mais fácil do que fugir ao esforço para cair na rotina, passando da vida vertical para a horizontal. Este perigo ameaça a maior parte dos homens; a sesta durante a tarde é um símbolo e um começo. Mas moderação de nenhum modo implica mediocridade; pode significar força e profundidade de espírito. A acção resoluta combina-se com a moderação no desejar e no falar. O próprio Nietzsche, tão imoderado, dizia que poucos conhecem a força e a significação de duas coisas muito altas Рmedida e moderação.

A Confiança é o Elo entre a Sociedade e a Amizade

Ainda que a sinceridade e a confian√ßa estejam relacionadas, s√£o, no entanto, diferentes: a sinceridade consiste em abrir o cora√ß√£o e em mostrarmo-nos tal como somos por amor da verdade. Odeia o disfarce e quer reparar as suas faltas, mesmo que para isso seja preciso diminui-las pelo valor da confiss√£o. Quanto √† confian√ßa, esta n√£o nos concede o mesmo grau de liberdade, as suas regras s√£o mais rigorosas, requer mais prud√™ncia e modera√ß√£o. Ora, nem sempre estamos livres para obedecer a estes requisitos. N√£o somos s√≥ n√≥s, no que a ela diz respeito, que estamos envolvidos, porque os nossos interesses misturam-se quase sempre com os dos outros. Requer uma enorme justeza para n√£o levar os nossos amigos a entregarem-se, pelo facto de n√≥s nos termos entregado, como para lhes oferecer um presente, com a √ļnica inten√ß√£o de aumentar o pre√ßo do que n√≥s damos.
Fica-se sempre satisfeito com o facto de os outros depositarem confiança em nós porque é um tributo que oferecemos ao nosso mérito, é um depósito que fazemos à nossa confiança, são, enfim, fianças que lhes dão algum direito sobre nós, isto é, aceitamos uma certa dependência à qual nos sujeitamos voluntariamente. Não, não é minha intenção destruir com as minhas palavras a confiança,

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A Moderação é o Caminho para a Felicidade

Se a princ√≠pio a profus√£o e a variedade de divers√Ķes parecem contribuir para a felicidade, se a uniformidade de uma vida igual parece a princ√≠pio enfastiante, considerando-se melhor, percebe-se, pelo contr√°rio, que o h√°bito mais doce da alma consiste numa modera√ß√£o de gozo que deixa pouco espa√ßo ao desejo e ao desgosto.

Um Estado Desacostumado

N√£o √© imposs√≠vel assistir a um desvio anormal no funcionamento latente ou vis√≠vel das leis da natureza. Efectivamente, se qualquer um se der ao engenhoso trabalho de interrogar as diversas fases da sua exist√™ncia (sem esquecer qualquer delas, porque talvez fosse essa a que estava destinada a fornecer a prova do que afirmo), n√£o ser√° sem um certo espanto, que noutras circunst√Ęncias seria c√≥mico, que se recordar√° de que em determinado dia, para come√ßar a falar de coisas objectivas, foi testemunha de qualquer fen√≥meno que parecia ultrapassar, e positivamente ultrapassava, as no√ß√Ķes conhecidas fornecidas pela observa√ß√£o e pela experi√™ncia, como, por exemplo, as chuvas de sapos, cujo m√°gico espect√°culo n√£o foi a princ√≠pio compreendido pelos s√°bios. E de que, noutro dia, para falar em segundo e √ļltimo lugar de coisas subjectivas, a sua alma apresentou ao olhar investigador da psicologia, n√£o vou ao ponto de dizer uma aberra√ß√£o da raz√£o (que, no entanto, n√£o deixaria de ser curiosa; pelo contr√°rio, ainda o seria mais), mas, pelo menos, para n√£o me fazer rogado perante certas pessoas frias, que nunca perdoariam as locubra√ß√Ķes flagrantes do meu exagero, um estado desacostumado, muitas vezes grav√≠ssimo, que significa que o limite concedido pelo bom-senso √† imagina√ß√£o √©,

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O Que Vale Poupar o Corpo?

Quando o corpo √© bem constitu√≠do, talvez seja poss√≠vel faz√™-lo durar alguns anos a mais poupando-o. Pode ser que a modera√ß√£o nas paix√Ķes, a temperan√ßa e a sobriedade nos prazeres contribuam para a dura√ß√£o da vida; mas at√© isso parece bem duvidoso: √© necess√°rio que o corpo empregue todas as suas for√ßas, que consuma tudo o que pode consumir, que se exercite o quanto for capaz; o que se ganhar√° ent√£o pela dieta e pela priva√ß√£o?

A Felicidade na Perseverança

Meu bem-amado Luc√≠lio, conjuro-te a tomar o √ļnico partido que pode garantir a felicidade. Dispersa e pisoteia os esplendores de fora, as suas promessas, os seus lucros; volta o olhar para o vero bem; s√™ feliz merc√™ do teu pr√≥prio cabedal. Qual √© esse cabedal? Tu mesmo, e a melhor parte de ti. Este pobre corpo esfor√ßa-se por ser nosso colaborador indispens√°vel; considera-o antes um objecto necess√°rio do que importante. Ele procura os prazeres v√£os, breves, seguidos de descontentamento e destinados, se uma grande modera√ß√£o n√£o os tempera, a passarem para o estado oposto. Sim, sim, o prazer est√° √† beira de um declive: inclina-se para o sofrimento quando deixa de observar o justo limite. Ora, observar tal limite √© dif√≠cil em rela√ß√£o √†quilo que se acreditou fosse um bem. O √°vido desejo do verdadeiro bem n√£o oferece risco algum.
Em que consiste o verdadeiro bem Рquereis saber Рe qual é a fonte de onde emana?

Eu to direi: √© a boa consci√™ncia, as inten√ß√Ķes virtuosas, as rectas ac√ß√Ķes, o desprezo pelos eventos fortuitos, o desenvolvimento tranquilo e regular de uma exist√™ncia que anda por um s√≥ caminho. Quanto a esses homens que v√£o de desejo em desejo,

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