Citação de

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo, pois quem se sustenta com o aux√≠lio dos outros est√° sujeito a cair. Se assim n√£o fosse, come√ßariam a ter ascendente sobre n√≥s coisas que nos s√£o exteriores. Haver√° algu√©m que deseje estar na depend√™ncia da fortuna? Qual o homem de bom senso que se envaidece do que lhe n√£o pertence? A felicidade n√£o √© mais do que a seguran√ßa e a tranquilidade permanentes. Quem no-las proporciona √© a grandeza de alma, bem como a constante perseveran√ßa na correc√ß√£o das nossas ideias. Os meios de atingir este estado est√£o na plena considera√ß√£o da verdade; em observarmos sempre nas nossas ac√ß√Ķes a ordem, a modera√ß√£o, a moralidade, a inoc√™ncia e a benevol√™ncia de uma vontade sempre atenta √† raz√£o, nunca desta se apartando, digna ao mesmo tempo de amor e de admira√ß√£o. Resumamos tudo isto numa f√≥rmula sint√©tica: a alma do s√°bio deve ser tal qual a que conviria a um deus! Que mais pode desejar um homem que alcan√ßou a perfei√ß√£o moral? Repara: se a plenitude do homem pode de algum modo ser favorecida por elementos √† margem da moralidade, ent√£o a felicidade depender√° desses elementos sem os quais n√£o pode passar.