A inocĂȘncia Ă© uma coisa admirĂĄvel; mas Ă© por outro lado muito triste que ela se possa preservar tĂŁo mal e se deixe tĂŁo facilmente seduzir.
Passagens sobre InocĂȘncia
134 resultadosAmor
A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e nĂŁo olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.Depois, a vide do desejo enlaça
Numa sĂł volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se Ă verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.à um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condĂŁo vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciĂȘncia.E abraçam-se de novo, jĂĄ sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocĂȘncia.
O Amor em Visita
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lĂșbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marĂtimo
e o pĂŁo for invadido pelas ondas –
seu corpo arderĂĄ mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderĂĄ para mim
sobre um lençol mordido por flores com ågua.Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordÔes da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze,
Do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocĂȘncia outra vez.
Se estiver pronto a entrar na intimidade, encorajarĂĄ a outra pessoa a entrar igualmente na intimidade. TambĂ©m a sua franqueza ajudarĂĄ o outro a abrir-se consigo. TambĂ©m a sua simplicidade despretensiosa permitirĂĄ que o outro sinta prazer na simplicidade, na inocĂȘncia, na confiança, no amor, na franqueza.
O anjo da inocĂȘncia foge de certos livros, como os editores de certos autores.
Sempre considerei esta antecĂąmara do amor, este bem-estar incerto, os indĂcios de um sentimento recĂproco, o perĂodo mais proveitoso das relaçÔes entre homem e mulher e a prova disso Ă© que, depois de quebrado o mistĂ©rio, quando as certezas do corpo se afirmam sobre as suspeitas do espĂrito, os amantes tentam sempre regressar a esse momento inicial da inocĂȘncia possĂvel.
A sabedoria do poeta Ă© uma segunda inocĂȘncia.
Numa famĂlia de aventureiros, quase nunca desponta um lĂrio de inocĂȘncia.
Todos erram um dia: por descuido, inocĂȘncia ou maldade.
Um Céu e Nada Mais
Um cĂ©u e nada mais â que sĂł um temos,
como neste sistema: sĂł um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abĂłbada azul â como de tecto.
E o seu nĂșmero tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tĂŁo de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levĂssimo toque de mistĂ©rio.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a Ăąncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovĂŁo que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caĂdo.
Mas, de verdade: natural fenĂłmeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tĂŁo frĂĄgil como ĂĄlcool, tĂŁo de
potente e liso como ĂĄlcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abĂłbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais â que nada temos,
que nĂŁo seja esta angĂșstia de
mortais (e a maldição da rima,
Uma Mentira
Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importĂąncia. Tomamos decisĂ”es, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virĂĄ a seguir, o futuro atĂ© ao fim dos tempos, serĂĄ diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificĂąncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa Ă© uma mĂĄquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros tĂȘm da realidade, leva-os a acreditar que Ă© aquilo que nĂŁo Ă©. Essa poluição vai turvar-lhes a lĂłgica do mundo. As conclusĂ”es a que forem capazes de chegar serĂŁo calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serĂŁo multiplicaçÔes de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. Ă por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo nĂŁo lhe dĂĄ cobertura. Para alcançar coerĂȘncia, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. Ă assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro,
A inocĂȘncia tem na alma uma pĂ©rola, e as pĂ©rolas nĂŁo se dissolvem no lodo.
Regressar Ă InocĂȘncia
Seja como as crianças, mantenha os olhos abertos, sem preconceitos escondidos atrĂĄs da vista. Se olhar com clareza, pequenas flores, ou pedaços de relva, ou borboletas, ou um pĂŽr do Sol proporcionar-lhe-ĂŁo tanta felicidade quanto a que Gautama Buda encontrou na sua iluminação. Isto nĂŁo depende das coisas, mas sim da sua abertura. O conhecimento fecha-o; transforma-se numa cerca, numa prisĂŁo. Mas a inocĂȘncia abre todas as portas e todas as janelas.
O sol entra e uma brisa fresca flui.
De repente, o perfume das flores faz-lhe uma visita.
E de vez em quando um påssaro virå cantar uma canção e entrar por outra janela.
A inocĂȘncia Ă© a Ășnica religiosidade que existe.
A religiosidade nĂŁo depende das escrituras sagradas nem do que se sabe sobre o mundo. SĂł depende de se estar preparado para ser como um espelho lĂmpido, que nada reflecte.
Um total silĂȘncio, inocĂȘncia, pureza… e toda a existĂȘncia Ă© transformada para si. Cada momento passa a ser de ĂȘxtase. As pequenas coisas, como beber uma chĂĄvena de chĂĄ, tornam-se oraçÔes tĂŁo poderosas que nenhuma outra oração se lhes pode comparar. Basta observar uma nuvem a mover-se livremente no cĂ©u, e da inocĂȘncia surge uma sincronicidade.
A pureza Ă© o elo interposto Ă flor e Ă estrela em mistura de inocĂȘncia.
LĂșcia
(Alfred de Musset)
NĂłs estĂĄvamos sĂłs; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a mĂŁo formosa,
Na embriaguez da cisma,
TĂȘnue deixava errar sobre o teclado;
Era um murmĂșrio; parecia a nota
De aura longĂnqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as volĂșpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
OuvĂamos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os bĂĄlsamos;
A vĂĄrzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sĂłs estĂĄvamos
E tĂnhamos quinze anos!LĂșcia era loura e pĂĄlida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava â e tanto ! â
Era assim de um irmĂŁo o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!Nem um som despertava em nossos lĂĄbios;
Ela deixou as suas mĂŁos nas minhas;
TĂbia sombra dormia-lhe na fronte,
Durante a vida inteira brandi em todas as direcçÔes o mesmo aparelho, a mesma arma furiosa. Fui um inocente, porque sĂł se consegue isso com inocĂȘncia.
… Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem o que Ă© amar Amar Ă© a eterna inocĂȘncia, E a Ășnica inocĂȘncia, nĂŁo pensar…
IndependĂȘncia
Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me Ă s verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.Recuso-me Ă s espadas que nĂŁo ferem
e Ă s que ferem por nĂŁo serem dadas.
Recuso-me aos eus-prĂłprios que vierem
e Ă s almas que jĂĄ foram conquistadas.Recuso-me a estar lĂșcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.Recuso-me Ă inocĂȘncia e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, Ăł Terra dividida!
Tenho dificuldade em acreditar na inocĂȘncia das pessoas que viajam sozinhas.