Passagens sobre Auxílio

37 resultados
Frases sobre aux√≠lio, poemas sobre aux√≠lio e outras passagens sobre aux√≠lio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Casa Branca Nau Preta

Estou reclinado na poltrona, √© tarde, o Ver√£o apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu c√©rebro…
N√£o existe manh√£ para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que algu√©m teve por mim…
H√° uma interrup√ß√£o lateral na minha consci√™ncia…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem aten√ß√£o as minhas sensa√ß√Ķes sem nexo,
E a personalidade que tenho est√° entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver s√≥ dois…
Um quarto estado pra alma, se s√£o tr√™s os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
D√≥i-me por detr√°s das costas da minha consci√™ncia de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem n√£o sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das can√ß√Ķes mortas do marinheiro de sonho…

√Ārvores paradas da quinta, vistas atrav√©s da janela,
√Ārvores estranhas a mim a um ponto inconceb√≠vel √† consci√™ncia de as estar vendo,

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A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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A Arte da Recordação

A mem√≥ria √© n√£o-mediada, e o que vem em seu aux√≠lio vem directamente; a recorda√ß√£o √© sempre reflectida. √Č por isso que recordar √© uma arte. Como Tem√≠stocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; por√©m, recordar e esquecer n√£o s√£o opostos. N√£o √© f√°cil a arte de recordar, porque a recorda√ß√£o, no momento em que √© preparada, pode modificar-se, enquanto a mem√≥ria se limita a flutuar entre a lembran√ßa certa e a lembran√ßa errada. Por exemplo, o que √© a saudade? √Č vir √† recorda√ß√£o algo que est√° na mem√≥ria. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto √© preciso estar-se treinado em mat√©ria de ilus√£o. Viver numa ilus√£o, em que o crep√ļsculo √© cont√≠nuo e nunca se faz dia, ou algu√©m ver-se reflectido numa ilus√£o, n√£o √© t√£o dif√≠cil como algu√©m reflectir-se para dentro de uma ilus√£o e ser capaz de deix√°-la agir sobre si, com todo o poder que √© o da ilus√£o, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer at√© si o passado n√£o √© t√£o dif√≠cil como a de fazer desaparecer o que est√° presente em benef√≠cio da recorda√ß√£o.

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Da √ćndole dos Homens

A √≠ndole √©, muitas vezes, ocultada; outras, subjugada; quase nunca extinta. A for√ßa faz a √≠ndole mais violenta, em repres√°lia; a doutrina e o discurso tornam-a menos importuna; somente o costume alcan√ßa alter√°-la e refre√°-la. √Äquele que busca vencer a sua pr√≥pria √≠ndole n√£o se deve propor tarefas nem muito grandes nem muito pequenas; as primeiras tornar-le-√£o desalentado ante os sucessivos fracassos; as outras, devido √†s repetidas vit√≥rias, tornar-le-√£o convencido. A princ√≠pio, deve-se adestrar com aux√≠lios, como o fazem os nadadores com bexigas ou corti√ßas; mas ao cabo de certo tempo, √© mister se adestre com desvantagens, como os dan√ßarinos com sapatos pesados. Chega-se a grande perfei√ß√£o quando a pr√°tica √© mais √°rdua do que o uso. Quando a √≠ndole √© pujante e, por consequ√™ncia, dif√≠cil de vencer, o primeiro passo ser√° resistir-lhe e deter-lhe os √≠mpetos a tempo, a exemplo daquele que, quando estava irado, repetia as vinte e quatro letras do alfabeto; em seguida, racion√°-la em quantidade, como o que, proibido de beber vinho, passou dos repetidos brindes a um trago nas refei√ß√Ķes; por fim, anul√°-la de todo.
Não erra o antigo preceito em recomendar que, para endireitar a índole, se a encurve até ao extremo contrário,

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A esperan√ßa muitas vezes engana, […] o aux√≠lio que chega sem ser esperado √© duplamente aben√ßoado.

A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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O Existencialista

Dostoievski escreveu: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido¬Ľ. A√≠ se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe , fica o homem, por conseguinte , abandonado, j√° que n√£o encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, n√£o h√° desculpas para ele. Se, com efeito, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o ser√° nunca poss√≠vel referir uma explica√ß√£o a uma natureza humana dada e imut√°vel; por outras palavras, n√£o h√° determinismo, o homem √© livre, o homem √© liberdade. Se, por outro lado, Deus n√£o existe, n√£o encontramos diante de n√≥s valores ou imposi√ß√Ķes que nos legitimem o comportamento. Assim, n√£o temos nem atr√°s de n√≥s, nem diante de n√≥s, no dom√≠nio luminoso dos valores, justifica√ß√Ķes ou desculpas. Estamos s√≥s e sem desculpas. √Č o que traduzirei dizendo que o homem est√° condenado a ser livre. Condenado, porque n√£o se criou a si pr√≥prio; e no entanto livre, porque uma vez lan√ßado ao mundo, √© respons√°vel por tudo quanto fizer. O existencialista n√£o cr√™ na for√ßa da paix√£o. N√£o pensar√° nunca que uma bela paix√£o √© uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e que por conseguinte,

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A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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A Memória

Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.
Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si.
O que ser√°, pois, a mem√≥ria? Nada mais do que a sensa√ß√£o das impress√Ķes do c√©rebro junto com o pensamento de uma determinada dura√ß√£o da sensa√ß√£o;

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Prosema II

Para iludir a d√ļvida, privado de equipagens, nenhum dos habituais pontos de refer√™ncia vem em meu aux√≠lio. Procuro um ancoradouro distante, fora do estreito mundo em que me movo.
In√ļtil: bichos, objectos min√ļsculos, paredes brancas pontilhadas, o bot√£o da campainha √† minha esquerda. A mem√≥ria retira-me a sua cobertura instant√Ęnea. Tento galgar esta padiola dentro da minha cabe√ßa e da√≠ lan√ßar-me √† desfilada sobre uma estepe daninha ou cair do alto da montanha onde guardo o meu ninho de √°guia. Digo-vos que s√≥ pretendo A Grande Casa Alugada da Minha Inf√Ęncia, o vapor ronceiro em que apenas um velho mission√°rio se lembrara de que uma crian√ßa existia. O velho desapareceu inesperadamente num pequeno porto do Zaire e deixou-me s√≥.

(

Desafogo

Onde estás, oh Filósofo indefesso
Pio sequaz da rígida Virtude,
T√£o terna a alheios, quanto a si severa?
Com que m√°goa, com que ira olharas hoje
Desprezada dos homens, e esquecida
Aquela √Ęnsia, que em n√≥s pousou Natura
No √Ęmago do peito, ‚ÄĒ de acudir-nos
Co’as for√ßas, c’o talento, co’as riquezas
À pena, ao desamparo do homem justo!
Que (baldão da fortuna iníqua) os Deuses
Puseram para símbolo do esforço,
Lutando a bra√ßos c’o √°spero infort√ļnio?
Pedra de toque em que luzisse o ouro
De sua alma viril, onde encravassem
Seus farp√Ķes mais agudos as Desgra√ßas,
E os peitos de virtude generosa
Desferissem poderes de árduo auxílio?
Que nunca os homens s√£o mais sobre-humanos
Mais comparados c’os sublimes Numes,
Que quando acodem com socorro activo,
Não manchado de sórdido interesse,
Nem do fumo de frívola ufania;
Ou cheios de valor e de const√Ęncia
Arrostam co’a medonha catadura
Da Desgraça, que apura iradas mágoas
Na casa nua do var√£o honesto.
Mas Grécia e Roma há muito que acabaram;
E as cinzas dos Heróis fortes e humanos,

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O Enigma do Ser Humano

Encontramos uma pessoa que achamos interessante. Tentamos, como se costuma dizer, ¬ęsitu√°-la¬Ľ. (Tenho o h√°bito de fazer isso at√© com os senhores e as senhoras que l√™em as not√≠cias na televis√£o.) Nas nossas recorda√ß√Ķes, procuramos rostos parecidos com o que temos agora diante de n√≥s. O movimento lento das p√°lpebras faz lembrar um orador na Associa√ß√£o de Biologia, as comissuras dos l√°bios s√£o iguais √†s de um docente de Qu√≠mica em Uppsala nos anos cinquenta. Em suma, uma entoa√ß√£o que conhecemos ali, uma express√£o do rosto que recordamos de outro lado, e imaginamos que fic√°mos a compreender. Reconstitu√≠mos o desconhecido com o aux√≠lio do que conhecemos.
O psicanalista no seu consult√≥rio (nem sei se √© assim que se diz, nunca fui a nenhum) faz, em princ√≠pio, o mesmo: associa experi√™ncias, recorda√ß√Ķes, para encontrar as chaves do novo, do desconhecido, com que se confronta.
Mas as pe√ßas que vamos buscar, os factos a que recorremos, esse molho de chaves que s√£o os rostos antes encontrados e que fazemos tilintar na nossa m√£o, √©, tamb√©m ele, o desconhecido. Explicamos um enigma com outro enigma. √Č a mesma coisa que comprar um novo exemplar do mesmo jornal para confirmar uma not√≠cia em que n√£o acreditamos.

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Moral Convencional e Moral Verdadeira

A respeitabilidade, a regularidade, a rotina Рtoda a disciplina de ferro forjada na moderna sociedade industrial Рatrofiaram o impulso artístico e aprisionaram o amor de forma tal que não mais pode ser generoso, livre e criador, tendo de ser ou furtivo ou pedante. Aplicou-se controle às coisas que mais deveriam ser livres, enquanto a inveja, a crueldade e o ódio se espraiam à vontade com as bençãos de quase toda a bisparia. O nosso equipamento instintivo consiste em duas partes Рuma que tende a beneficiar a nossa própria vida e a dos nossos descendentes, e outra que tende a atrapalhar a vida dos supostos rivais. Na primeira incluem-se a alegria de viver, o amor e a arte, que psicologicamente é uma consequência do amor. A segunda inclui competição, patriotismo e guerra. A moral convencional tudo faz para suprimir a primeira e incentivar a segunda. A moral verdadeira faria exactamente o contrário.
As nossas rela√ß√Ķes com os que amamos podem ser perfeitamente confiadas ao instinto; s√£o as nossas rela√ß√Ķes com aqueles que detestamos que deveriam ser postas sob o controle da raz√£o. No mundo moderno, aqueles que de facto detestamos s√£o grupos distantes, especialmente na√ß√Ķes estrangeiras. Concebemo-las no abstracto e engodamo-nos para crer que os nossos actos (na verdade manifesta√ß√Ķes de √≥dio) s√£o cometidos por amor √† justi√ßa ou outro motivo elevado.

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Regras Gerais da Arte da Guerra

Estou consciente de vos ter falado de muitas coisas que por vós mesmos haveis podido aprender e ponderar. Não obstante, fi-lo, como ainda hoje vos disse, para melhor vos poder mostrar, através delas, os aspectos formais desta matéria,e, ainda, para satisfazer aqueles Рse fosse esse o caso Рque não tivessem tido, como vós, a oportunidade de sobre elas tomar conhecimento. Parece-me que, agora, já só me resta falar-vos de algumas regras gerais, com as quais deveis estar perfeitamente identificados. São as seguintes:
– Tudo o que √© √ļtil ao inimigo √© prejudicial para ti, e, tudo o que te √© √ļtil prejudica o inimigo.
– Aquele que, na guerra, for mais vigilante a observar as inten√ß√Ķes do inimigo e mais empenho puser na prepara√ß√£o do seu ex√©rcito, menos perigos correr√° e mais poder√° aspirar √† vit√≥ria.
– Nunca leves os teus soldados para o campo de batalha sem, previamente, estares seguro do seu √Ęnimo e sem teres a certeza de que n√£o t√™m medo e est√£o disciplinados e convictos de que v√£o vencer.
– √Č prefer√≠vel vencer o inimigo pela fome do que pelas armas. A vit√≥ria pelas armas depende muito mais da fortuna do que da virtude.

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A Amizade como Auxiliar da Virtude

A maioria dos homens, na sua injusti√ßa, para n√£o dizer na sua imprud√™ncia, quer possuir amigos tais como eles pr√≥prios n√£o seriam. Exigem o que n√£o t√™m. O que √© justo √© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pare√ßa s√™-lo. S√≥ entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveni√™ncia em amizade, sobre a qual insisto h√° muito tempo. Unidos pela benevol√™ncia, guiar-se-√£o nas paix√Ķes a que se escravizam os outros homens. Amar√£o a justi√ßa e a equidade. Estar√£o sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e n√£o se exigir√£o reciprocamente nada que n√£o seja honesto e leg√≠timo. Enfim, ter√£o uns para os outros, n√£o somente defer√™ncias e ternuras, mas, tamb√©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade √© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
√Č pois erro funesto crer que a amizade abre via livre √†s paix√Ķes e a todos os g√©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, n√£o como cumplice do v√≠cio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Sem d√ļvida Ov√≠dio: N√£o √© a arte que faz vogar os barcos r√°pidos com o aux√≠lio da vela e do remo? que guia na carreira os carros ligeiros? A arte tamb√©m deve governar o amor‚Ķ N√£o abandona em meio caminho tua amante, desfraldando sozinho tuas velas. √Č lado a lado que se arriba ao porto, quando soa a hora da vol√ļpia plena e,vencidos a um s√≥ tempo, jazem a mulher e o homem lado a lado. Foge ao medo que apressa, √† obra furtiva.

A Compaixão como Prevenção

A compaix√£o √© frequentemente um sentimento dos nossos males nos males dos outros. √Č uma h√°bil antevis√£o dos infort√ļnios em que podemos cair. Damos aux√≠lio aos outros para lev√°-los a nos dar outro tanto em ocasi√Ķes semelhantes; e os servi√ßos que lhes prestamos s√£o, para dizer a verdade, bens que fazemos a n√≥s mesmos de antem√£o.

A inteligência é a faculdade com o auxílio da qual compreendemos por fim que tudo é incompreensível.