Textos de Séneca

89 resultados
Textos de Séneca. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Bem Invulgar

Um homem a quem √© dado possuir um bem invulgar n√£o pode considerar-se um homem vulgar. Cada um √© tal qual os bens que possui. Um cofre vale pelo que tem l√° dentro, melhor dizendo, o cofre √© um mero acess√≥rio do conte√ļdo. Imaginemos um saco cheio de dinheiro: que outro valor lhe atribuimos al√©m do valor das moedas nele contidas? O mesmo se verifica com os donos de grandes patrim√≥nios: n√£o passam de simples acess√≥rios, de suplementos. A raz√£o de o s√°bio ser grande est√° na grande alma que possui. Por conseguinte, √© verdade que tudo quanto est√° ao alcance do mais desprez√≠vel dos homens n√£o deve ser considerado um bem.

Juízes Imparciais

Se quisermos ser ju√≠zes imparciais em qualquer circunst√Ęncia, devemos, antes de mais, ter em conta que ningu√©m est√° livre de culpa; o que est√° na origem da nossa indigna√ß√£o √© a ideia de que: ¬ęEu n√£o errei¬Ľ e ¬ęEu n√£o fiz nada¬Ľ. Pelo contr√°rio, tu recusas admitir os teus erros! Indignamo-nos quando somos castigados ou repreendidos, cometendo, simultaneamente, o erro de acrescentar aos crimes cometidos, a arrog√Ęncia e a obstina√ß√£o. Quem poder√° dizer que nunca infringiu a lei? E, se assim for, √© bem estreita inoc√™ncia ser bom perante a lei! Qu√£o mais vasta √© a regra do dever do que a regra do direito! Quantas obriga√ß√Ķes imp√Ķem a piedade, a humanidade, a bondade, a justi√ßa e a lealdade, que n√£o est√£o escritas em nenhuma t√°bua de leis!
Mas n√≥s n√£o podemos satisfazer-nos com aquela no√ß√£o de inoc√™ncia t√£o limitada: h√° erros que cometemos, outros que pensamos cometer, outros que desejamos cometer, outros que favorecemos; por vezes, somos inocentes por n√£o termos conseguido comet√™-los. Se tivermos isto em conta, somos mais justos para com os delinquentes, e mais persuasivos nas admoesta√ß√Ķes; em todo o caso, n√£o nos iremos contra os homens bons (de facto, contra quem n√£o nos sentiremos irados,

Continue lendo…

A Ira é uma Loucura Breve

Alguns s√°bios afirmaram que a ira √© uma loucura breve; por n√£o se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obriga√ß√Ķes, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da raz√£o, inquieta-se por causas v√£s, incapaz de discernir o que √© justo e verdadeiro, semelhante √†s ru√≠nas que se abatem sobre quem as derruba. Mas, para que percebas que est√£o loucos aqueles que est√£o possu√≠dos pela ira, observa o seu aspecto; na verdade, s√£o claros ind√≠cios de loucura a express√£o ardente e amea√ßadora, a fronte sombria, o semblante feroz, o passo apressado, as m√£os trementes, a mudan√ßa de cor, a respira√ß√£o forte e acelerada, ind√≠cios que est√£o tamb√©m presentes nos homens irados: os olhos incendiam-se e fulminam, a cara cobre-se totalmente de um rubor, por causa do sangue que a ela aflui do cora√ß√£o, os l√°bios tremem, os dentes comprimem-se, os cabelos arrepiam-se e eri√ßam-se, a respira√ß√£o √© ofegante e ruidosa, as articula√ß√Ķes retorcem-se e estalam, entre suspiros e gemidos, irrompem frases praticamente incompreens√≠veis, as m√£os entrechocam-se constantemente, os p√©s batem no ch√£o e todo o corpo se agita amea√ßador, a face fica inchada e deformada, horrenda e assutadora. Ficas sem saber se o que h√° de pior neste v√≠cio √© ele ser detest√°vel ou t√£o disforme.

Continue lendo…

A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

Continue lendo…

Todos Somos Escravos

N√£o h√° raz√£o, caro Luc√≠lio, para s√≥ buscares amigos no foro ou no senado: se olhares com aten√ß√£o encontr√°-los-√°s em tua casa. Muitas vezes um bom material permanece inutilizado por falta de quem o trabalhe. Tenta, pois, e v√™ o resultado. Tal como √© estupidez comprar um cavalo inspeccionando, n√£o o animal, mas sim a sela e o freio, assim √© o c√ļmulo da estupidez julgar um homem pela roupa ou pela condi√ß√£o social, que, de resto, √© t√£o exterior a n√≥s como a roupa. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas pode ter alma de homem livre. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas em que √© que isso o diminui? Aponta-me algu√©m que o n√£o seja: este √© escravo da sensualidade, aquele da avareza, aquele outro da ambi√ß√£o, todos s√£o escravos da esperan√ßa, todos o s√£o do medo.
Posso mostrar-te um antigo c√īnsul sujeito ao mando de uma velhota, um ricalha√ßo submetido a uma criadita, posso apontar-te jovens filhos de nobil√≠ssimas fam√≠lias que se fazem escravos de bailarinos: nenhuma servid√£o √© mais degradante do que a voluntariamente assumida. A√≠ tens a raz√£o por que n√£o deves deixar que os nossos tolos te impe√ßam de seres agrad√°vel para com os teus escravos, em vez de os tratares com altiva superioridade.

Continue lendo…

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

Continue lendo…

O Estilo é um Reflexo da Vida

Qual a causa que provoca, em certas √©pocas, a decad√™ncia geral do estilo ? De que modo sucede que uma certa tend√™ncia se forma nos esp√≠ritos e os leva √† pr√°tica de determinados defeitos, umas vezes uma verborreia desmesurada, outras uma linguagem sincopada quase √† maneira de can√ß√£o? Porque √© que umas vezes est√° na moda uma literatura altamente fantasiosa para l√° de toda a verosimilhan√ßa, e outras a escrita em frases abruptas e com segundo sentido em que temos de subentender mais do que elas dizem? Porque √© que nesta ou naquela √©poca se abusa sem restri√ß√Ķes do direito √† met√°fora? Eis o rol dos problemas que me p√Ķes. A raz√£o de tudo isto √© t√£o bem conhecida que os Gregos at√© fizeram dela um prov√©rbio: o estilo √© um reflexo da vida! De facto, assim como o modo de agir de cada pessoa se reflecte no modo como fala, tamb√©m sucede que o estilo liter√°rio imita os costumes da sociedade sempre que a moral p√ļblica √© contestada e a sociedade se entrega a sofisticados prazeres. A corrup√ß√£o do estilo demonstra plenamente o estado de dissolu√ß√£o social, caso, evidentemente, tal estilo n√£o seja apenas a pr√°tica de um ou outro autor,

Continue lendo…

Trabalho e Descanso na Justa Medida

A mente n√£o se deve manter sempre na mesma inten√ß√£o ou tens√£o, antes deve dar-se tamb√©m √† divers√£o. S√≥crates n√£o se envergonhava de brincar com as crian√ßas, Cat√£o aliviava com vinho o seu √Ęnimo fatigado dos cuidados p√ļblicos e Cipi√£o dan√ßava com aquele corpo triunfante e militar (…) O nosso esp√≠rito deve relaxar: ficar√° melhor e mais apto ap√≥s um descanso. Tal como n√£o devemos for√ßar um terreno agr√≠cola f√©rtil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, tamb√©m o esfor√ßo constante esvaziar√° o nosso vigor mental, enquanto um curto per√≠odo de repouso restaurar√° o nosso poder. O esfor√ßo continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia. Nem os desejos dos homens devem encaminhar-se t√£o depressa nesta direc√ß√£o se o desporto e o jogo os envolvem numa esp√©cie de prazer natural; embora uma repetida pr√°tica destrua toda a gravidade e for√ßa do nosso esp√≠rito. Afinal, o sono tamb√©m √© essencial para nos restaurar, mas se o prolong√°ssemos constantemente, dia e noite, seria a morte.

Desconfia da Ideia de Homem Feliz

Verifica que homem feliz n√£o √© aquele que o vulgo entende por tal, ou seja, um homem de grandes recursos monet√°rios; √©, sim, aquele para quem todo o bem reside na pr√≥pria alma, √© o homem sereno, magn√Ęnimo, que pisa aos p√©s os interesses vulgares, que s√≥ admira no homem aquilo que faz a sua qualidade de homem, que segue as li√ß√Ķes da natureza, se conforma com as suas leis, e vive segundo o que ela prescreve; √© o homem a quem for√ßa alguma despojar√° dos seus bens pr√≥prios, o homem capaz de fazer do pr√≥prio mal um bem, seguro do seu pensamento, inabal√°vel, intr√©pido; √© o homem a quem a for√ßa pode abalar, mas nunca desviar da sua rota; a quem a fortuna, apontando contra ele as mais duras armas com a maior viol√™ncia, pode arranhar, mas nunca ferir, e mesmo assim raramente, porquanto os dardos da sorte, que afligem em geral a humanidade, fazem ricochete contra ele √† maneira do granizo que, batendo no tecto, salta e se derrete sem causar qualquer dano ao ocupante da casa.

O Necessário não é Propriamente um Bem

Toda a vida, em meu entender, √© uma mentira: j√° que √©s t√£o engenhoso, critica-a e recondu-la ao caminho da verdade. Ela considera como necess√°rias coisas que em grande parte n√£o passam de sup√©rfluas; e mesmo as que n√£o s√£o sup√©rfluas n√£o contribuem em nada para nos dar bem estar e felicidade. Pelo facto de ser necess√°ria, uma coisa n√£o √©, desde logo, um bem; ou ent√£o degradamos o conceito de ¬ębem¬Ľ, dando este nome ao p√£o, √† polenta e a tudo o mais imprescind√≠vel √† vida. Tudo o que √© bem, √©, por isso mesmo, necess√°rio, mas o que √© necess√°rio n√£o √© for√ßosamente um bem: h√° muita coisa necess√°ria e, simultaneamente, de baixo n√≠vel.
Ninguém é tão ignorante da dignidade do bem que degrade o conceito ao nível dos objectos de uso diário. Pois bem, não seria melhor que te aplicasses antes a mostrar todo o tempo que se perde na busca de superfluidades, a apontar como tanta gente desperdiça a vida na busca do que não passa de meios auxiliares? Observa os indivíduos, considera a sociedade: todos vivem em função do amanhã! Não sabes que mal há nisto? O maior possível. Essa gente não vive, espera viver,

Continue lendo…

A Soberania da Alma

A alma sabe que as verdadeiras riquezas não se encontram onde nós as amontoamos: é a alma que nós devemos encher, não o cofre! Àquela devemos nós conceder o domínio sobre tudo, atribuir a posse da natureza inteira de modo a que os seus limites coincidam com o oriente e o ocaso, a que a alma, identicamente aos deuses, tudo possua, olhando soberanamente do alto os ricos e as suas riquezas Рesses ricos a quem menos alegria proporciona o que têm do que tristeza lhes dá o que aos outros pertence! Quando se eleva a tais alturas, a alma passa a cuidar do corpo (esse mal necessário!), não como amigo fiel, mas apenas como tutor, sem se submeter à vontade de quem está sob sua tutela.
Ningu√©m pode simultaneamente ser livre e escravo do corpo: para j√° n√£o falar de outras tiranias que o excessivo cuidado com ele nos imp√Ķe, a soberania do corpo tem exig√™ncias que s√£o aut√™nticos caprichos. A alma desprende-se dele ora com serenidade, ora de firme prop√≥sito – busca a sua sa√≠da sem se importar com a sorte dessa pobre coisa que para a√≠ fica! N√≥s n√£o ligamos import√Ęncia aos p√™los da barba ou aos cabelos que acab√°mos de cortar;

Continue lendo…

O Socorro Contra as Nossas Perdas

O verdadeiro bem ‚ÄĒ a sabedoria e a virtude ‚ÄĒ √© seguro e eterno; √© este bem, ali√°s, a √ļnica coisa imortal que √© concedida aos mortais. Estes, por√©m, s√£o t√£o falhos, t√£o esquecidos do caminho que seguem, do termo para que cada dia os vai arrastando que se admiram quando perdem alguma coisa ‚ÄĒ eles que, mais tarde ou mais cedo, h√£o-de perder tudo! Tudo aquilo de que √©s considerado dono est√° √† tua m√£o, mas sem ser verdadeiramente teu; um ser inst√°vel nada possui de est√°vel, um ser ef√©mero nada possui de eterno e indestrut√≠vel. Perder √© t√£o inevit√°vel como morrer; se bem a entendermos, esta verdade √© uma consola√ß√£o para n√≥s. Perde, pois, imperturbavelmente: tudo um dia morrer√°. Que socorro podemos conseguir contra todas as nossas perdas? Apenas isto: guardemos na mem√≥ria as coisas que perdemos sem deixar que o proveito que delas tiramos desapare√ßa tamb√©m com elas. Podemos ser privados de as possuir, nunca de as ter possu√≠do. √Č extremamente ingrato quem pensa que j√° nada deve porque perdeu o empr√©stimo!

O Empolar dos Conflitos

A maior parte dos conflitos s√£o forjados, baseados em falsas suspei√ß√Ķes ou exageram coisas sem import√Ęncia. Umas vezes, a ira vem at√© n√≥s, outras somos n√≥s que vamos ao seu encontro. Nunca devemos invocar a ira e, mesmo quando ela surge, devemos afast√°-la. Ningu√©m diz para si mesmo: ¬ęJ√° fiz ou poderei vir a fazer o que me est√° agora a causar ira¬Ľ; ningu√©m tem em conta a inten√ß√£o do autor, mas apenas o acto em si. Ora, √© o autor que se deve ter em conta: teve ele inten√ß√£o de fazer o que fez ou f√™-lo sem querer, foi coagido ou estava enganado, seguiu o √≥dio ou procurou lucrar com o seu acto, f√™-lo por sua conta ou prestou um servi√ßo a algu√©m? A idade de quem errou e a sua situa√ß√£o devem ser ponderadas, para que saibamos se devemos suportar e perdoar a sua ofensa com benevol√™ncia ou com humildade.
Coloquemo-nos no lugar daquele que nos suscita ira: então, percebemos que o que nos torna iracundos é uma má avaliação de nós mesmos e não queremos sofrer algo que nós próprios queremos fazer. Ninguém faz uma pausa: ora, a pausa é o maior remédio para a ira,

Continue lendo…

Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

Continue lendo…

Ajuda entre S√°bios

Est√°s interessado em saber se um s√°bio pode ser √ļtil a outro s√°bio. N√≥s definimos o s√°bio como um homem dotado de todos os bens no mais alto grau poss√≠vel. A quest√£o est√° pois em saber como √© poss√≠vel algu√©m ser √ļtil a quem j√° atingiu o supremo bem. Ora, os homens de bem s√£o √ļteis uns aos outros. A sua fun√ß√£o √© praticar a virtude e manter a sabedoria num estado de perfeito equil√≠brio. Mas cada um necessita de outro homem de bem com quem troque impress√Ķes e discuta os problemas. A per√≠cia na luta s√≥ se adquire com a pr√°tica; dois m√ļsicos aproveitam melhor se estudarem em conjunto. O s√°bio necessita igualmente de manter as suas virtudes em actividade e, por isso mesmo, n√£o s√≥ se estimula a si pr√≥prio como se sente estimulado por outro s√°bio. Em que pode um s√°bio ser √ļtil a outro s√°bio? Pode servir-lhe de incitamento, pode sugerir-lhe oportunidades para a pr√°tica de ac√ß√Ķes virtuosas. Al√©m disso, pode comunicar-lhe as suas medita√ß√Ķes e dar-lhe conta das suas descobertas. Nunca faltar√° mesmo ao s√°bio algo de novo a descobrir, algo que d√™ ao seu esp√≠rito novos campos a explorar.
Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros,

Continue lendo…

Só Sente Ansiedade pelo Futuro aquele cujo Presente é Vazio

O principal defeito da vida √© ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar. Quem, todavia, quotidianamente der √† pr√≥pria vida “os √ļltimos retoques” nunca se queixar√° de falta de tempo; em contrapartida, √© da falta de tempo que prov√©m o temor e o desejo do futuro, o que s√≥ serve para corroer a alma. N√£o h√° mais miser√°vel situa√ß√£o do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o esp√≠rito inquieto debate-se com o inelut√°vel receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? H√° um apenas: que a nossa vida n√£o se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma. S√≥ sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente √© vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu esp√≠rito, em perfeito equil√≠brio, souber que me √© indiferente viver um dia ou viver um s√©culo, ent√£o poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que esp√©cie de perturba√ß√£o nos poder√° causar a variedade e instabilidade da vida humana se n√≥s estivermos firmes perante a instabilidade?

Continue lendo…

Regras de Conduta para Viver sem Sobressaltos

Vou indicar-te quais as regras de conduta a seguir para viveres sem sobressaltos. (…) Passa em revista quais as maneiras que podem incitar um homem a fazer o mal a outro homem: encontrar√°s a esperan√ßa, a inveja, o √≥dio, o medo, o desprezo. De todas elas a mais inofen¬≠siva √© o desprezo, tanto que muitas pessoas se t√™m sujeitado a ele como forma de passarem despercebidas. Quem despreza o outro calca-o aos p√©s, √© evidente, mas passa adiante; ningu√©m se afadiga teimosamente a fazer mal a algu√©m que despreza. √Č como na guerra: ningu√©m liga ao soldado ca√≠do, combate-se, sim, quem se ergue a fazer frente.
Quanto √†s esperan√ßas dos desonestos, bastar-te-√°, para evit√°-las, nada possu√≠res que possa suscitar a p√©rfida cobi√ßa dos outros, nada teres, em suma, que atraia as aten√ß√Ķes, porquanto qualquer objecto, ainda que pouco valioso, suscita desejos se for pouco usual, se for uma raridade. Para escapares √† inveja dever√°s n√£o dar nas vistas, n√£o gabares as tuas propriedades, saberes gozar discretamente aquilo que tens. Quanto ao √≥dio, ou derivar√° de alguma ofensa que tenhas feito (e, neste caso, bastar-te-√° n√£o lesares ningu√©m para o evitares), ou ser√° puramente gratuito, e ent√£o ser√° o senso comum quem te poder√° proteger.

Continue lendo…

O Valor do Tempo

Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta t√£o servil. Ambos os lados t√™m em vista a raz√£o pela qual o tempo √© solicitado e nenhum encara o tempo em si – como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado. Est√£o a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intang√≠vel, n√£o aberta √† inspec√ß√£o, e, portanto, considerada muito barata – de facto, quase sem qualquer valor. As pessoas ficam encantadas por aceitar pens√Ķes e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou servi√ßos. Mas ningu√©m percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.
Mas se a morte ameaça estas mesmas pessoas, vê-las-ás a recorrer aos seus médicos; se estiverem com medo do castigo capital, vê-las-ás preparadas para gastarem tudo o que têm para se manterem vivas. Tão inconsistentes são nos seus sentimentos! Mas se cada um de nós pudesse ter um vislumbre dos seus anos futuros, como podemos fazer em relação aos anos passados, como ficariam alarmados os que só podem ver com alguns anos de antecedência e como seriam cuidadosos a utilizá-los!

Continue lendo…

A Moralidade P√ļblica Degradada

As crian√ßas ficam todas contentes quando encontram na praia alguns calhaus coloridos; n√≥s preferimos enormes colunas variegadas, importadas das areias do Egipto ou dos desertos do Norte de √Āfrica para a constru√ß√£o de algum p√≥rtico ou de um sal√£o de banquetes com capacidade para uma multid√£o. Olhamos com admira√ß√£o paredes recobertas de placas de m√°rmore, embora cientes do material que l√° est√° por baixo. Iludimos os nossos pr√≥prios olhos: quando recobrimos os tectos a ouro o que fazemos sen√£o deleitar-nos com uma mentira ? Sabemos bem que por baixo desse ouro se oculta reles madeira! Mas n√£o s√£o s√≥ as paredes ou os tectos que se recobrem de uma ligeira camada: tamb√©m a felicidade destes aparentes grandes da nossa sociedade √© uma felicidade ¬ędourada¬Ľ! Observa atentamente, e ver√°s a corrup√ß√£o que se esconde sob essa leve capa de dignidade. Desde que o dinheiro (que tanto atrai a aten√ß√£o de in√ļmeros magistrados e ju√≠zes e tantos mesmo promove a magistrados e ju√≠zes!…), desde que o dinheiro, digo, come√ßou a merecer honras, a honra aut√™ntica come√ßou a perder terreno; alternadamente vendedores ou objectos postos √† venda, habitua-mo-nos a perguntar pela quantidade, e n√£o pela qualidade das coisas. Somos boas pessoas por interesse,

Continue lendo…

Aprender a Viver

De um modo geral aceita-se que nenhuma actividade pode ser levada a cabo com sucesso por um indivíduo que esteja preocupado, uma vez que, quando distraída, a mente nada absorve com profundidade, mas rejeita tudo quanto, por assim dizer, a assoberba. Viver é a actividade menos importante do homem preocupado, no entanto, nada há mais difícil de aprender; por todo o lado, encontram-se muitos instrutores das outras artes: na realidade, algumas destas artes são captadas tão intensamente por simples rapazes que assim as podem ensinar. Mas aprender a viver exige uma vida inteira e, o que te pode supreender ainda mais, é necessária uma vida inteira para aprender a morrer.
Tantos dos mais ilustres homens puseram de lado todos os seus embara√ßos, renunciando a riquezas, neg√≥cios e prazeres e tomaram como √ļnico alvo at√© ao fim das suas vidas, saber viver.
Contudo, muitos deles morreram a confessar que ainda nada sabiam Рmuito menos saberão os outros. Acredita em mim: é marca de um grande homem, daquele que está acima do erro humano, não permitir que o seu tempo seja esbanjado: ele tem a mais longa vida possível simplesmente porque todo o tempo que tinha disponível o devotou inteiramente a si.

Continue lendo…