Textos sobre Física

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Textos de física escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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A Fraqueza do Idealismo

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresist√≠veis teimas f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc,etc; a arte convencional, enfim, mutila o homem moral – como a ci√™ncia convencional mutila o homem f√≠sico; s√£o ambas aprovadas pelos Monsenhores arcebispos de Paris e dadas em leitura nos col√©gios; mas uma ensina falso, como a outra educa falso: ambas nocivas portanto.

A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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N√£o h√° Felicidade sem Verdadeira Vida Interior

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio.
A nossa vida pr√°tica, real, quando as paix√Ķes n√£o a movimentam, √© tediosa e sem sabor; mas quando a movi¬≠mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os √ļnicos feli¬≠zes s√£o aqueles aos quais coube um excesso de intelec¬≠to que ultrapassa a medida exigida para o servi√ßo da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entret√©m ininter¬≠ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa¬≠ra tanto, o mero √≥cio, isto √©, o intelecto n√£o ocupado com o servi√ßo da vontade, n√£o √© suficiente; √© necess√°rio um excedente real de for√ßa, pois apenas este capacita a uma ocupa√ß√£o puramente espiritual, n√£o subordinada ao ser¬≠vi√ßo da vontade.

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Do Livre Arbítrio

A ideia de livre arb√≠trio, na minha opini√£o, tem o seu princ√≠pio na aplica√ß√£o ao mundo moral da ideia primitiva e natural de liberdade f√≠sica. Esta aplica√ß√£o, esta analogia √© inconsciente; e √© tamb√©m falsa. √Č, repito, um daqueles erros inconscientes que n√≥s cometemos; um daqueles falsos racioc√≠nios nos quais tantas vezes e t√£o naturalmente ca√≠mos. Schopenhauer mostrou que a primitiva no√ß√£o de liberdade √© a “aus√™ncia de obst√°culos”, uma no√ß√£o puramente f√≠sica. E na nossa concep√ß√£o humana de liberdade a no√ß√£o persiste. Ningu√©m toma um idiota, ou louco por respons√°vel. Porqu√™? Porque ele concebe uma coisa no c√©rebro como um obst√°culo a um verdadeiro ju√≠zo.
A ideia de liberdade é uma ideia puramente metafísica.
A ideia prim√°ria √© a ideia de responsabilidade que √© somente a aplica√ß√£o da ideia de causa, pela refer√™ncia de um efeito √† sua Causa. “Uma pessoa bate-me; eu bato √†quela em defesa.” A primeira atingiu a segunda e matou-a. Eu vi tudo. Essa pessoa √© a Causa da morte da outra.” Tudo isto √© inteiramente verdade.
Assim se vê que a ideia de livre arbítrio não é de modo algum primitiva; essa responsabilidade, fundada numa legítima mas ignorante aplicação do princípio de Causalidade é a ideia realmente primitiva.

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Sempre que Tiveres D√ļvidas

Sempre que tiveres d√ļvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poder√° ganhar alguma coisa com isso? Far√° com que recupere o controlo da sua vida e do seu destino? Por outras palavras, conduzir√° √† autonomia espiritual e f√≠sica dos milh√Ķes de pessoas que morrem de fome? Ver√°s, ent√£o, como as tuas d√ļvidas e o teu eu se desvanecem.

Fazer os Sonhos Levantarem Voo

Alguns sonhos são belos, outros poéticos; uns realizáveis, outros difíceis de serem concretizados; uns envolvem uma pessoa, outros, a sociedade; uns possuem rotas claras, outros, curvas imprevisíveis; uns são rapidamente produzidos, outros precisam de anos de maturação.

H√° muitos tipos de sonhos. Sonho de se apaixonar por algu√©m, de gerar filhos ou conquistar amigos. Sonho de tirar um curso, ter uma empresa, ter sucesso financeiro para si e para ajudar os outros. Sonho de ter sa√ļde f√≠sica e ps√≠quica, de ter paz interior e de viver intensamente cada momento da vida.
Sonho de ser um cientista, um m√©dico, um educador, um empres√°rio, um empreendedor, um profissional que fa√ßa a diferen√ßa. Sonho de viajar pelo mundo, de pintar quadros, escrever um livro, ser √ļtil ao pr√≥ximo. Sonho de aprender a tocar um instrumento, praticar desportos, bater recordes.

Muitos enterram os seus sonhos nos escombros dos seus problemas. Alguns soldados nunca mais foram motivados para a vida depois de verem os seus colegas morrerem em combate.
Alguns oradores nunca mais recuperaram a sua seguran√ßa depois de terem um ataque de p√Ęnico em p√ļblico. Alguns desportistas n√£o conseguiram repetir a sua performance depois de fazerem uma cirurgia correctiva ou serem apanhados no controlo antidoping.

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Os Caminhos Insond√°veis do Progresso da Humanidade

O progresso n√£o √© necess√°rio por uma necessidade metaf√≠sica: pode-se dizer apenas que muito provavelmente a experi√™ncia acabar√° por eliminar as falsas solu√ß√Ķes e por se livrar dos impasses. Mas a que pre√ßo, por quantos meandros? N√£o se pode nem mesmo excluir, em princ√≠pio, que a humanidade, como uma frase que n√£o se consegue concluir, fracasse no meio do caminho.
Decerto o conjunto dos seres conhecidos pelo nome de homens e definidos pelas caracter√≠sticas f√≠sicas que se conhecem tem tamb√©m em comum uma luz natural, uma abertura ao ser que torna as aquisi√ß√Ķes da cultura comunic√°veis a todos eles e somente a eles. Mas esse lampejo que encontramos em todo o olhar dito humano √© visto tanto nas formas mais cru√©is do sadismo quanto na pintura italiana. √Č justamente ele que faz com que tudo seja poss√≠vel da parte do homem, e at√© o fim.

Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Amor n√£o Tem N√ļmero

Se voc√™ n√£o tomar cuidado vira n√ļmero at√© para si mesmo. Porque a partir do instante em que voc√™ nasce classificam-no com um n√ļmero. Sua identidade no F√©lix Pacheco √© um n√ļmero. O registro civil √© um n√ļmero. Seu t√≠tulo de eleitor √© um n√ļmero. Profissionalmente falando voc√™ tamb√©m √©. Para ser motorista, tem carteira com n√ļmero, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte √© identificado com um n√ļmero. Seu pr√©dio, seu telefone, seu n√ļmero de apartamento ‚ÄĒ tudo √© n√ļmero.
Se √© dos que abrem credi√°rio, para eles voc√™ √© um n√ļmero. Se tem propriedade, tamb√©m. Se √© s√≥cio de um clube tem um n√ļmero. Se √© imortal da Academia Brasileira de Letras tem o n√ļmero da cadeira.
√Č por isso que vou tomar aulas particulares de Matem√°tica. Preciso saber das coisas. Ou aulas de F√≠sica. N√£o estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matem√°tica, preciso saber alguma coisa sobre c√°lculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se √© contribuinte de qualquer obra de benefic√™ncia tamb√©m √© solicitado por um n√ļmero. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de neg√≥cio recebe um n√ļmero. Para tomar um avi√£o,

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Espírito Aniquilado pelo Corpo

O corpo encerra o espírito numa fortaleza; depressa a fortaleza é cercada por todos os lados, e por fim o espírito tem de se render. Mas, limitando-me a distinguir as duas espécies de perigos que ameaçam o espírito, e começando pelo exterior, lembrava-me de que já muitas vezes na vida me acontecera, em momentos de excitação intelectual em que uma circunstãncia qualquer suspendera em mim toda a actividade física (por exemplo, ao deixar de carruagem, meio embriagado, o restaurante de Rivebelle a caminho de um casino qualquer nas proximidades), sentir muito nitidamente dentro de mim o objecto actual do meu pensamento e compreender até que ponto dependia de um acaso, não apenas que tal objecto não entrasse ainda nos meus pensamentos, mas que fosse aniquilado com o meu próprio corpo.

A Melhor Companhia

Considero saudável estar só na maior parte do tempo. Estar acompanhado, mesmo pelos melhores, cedo se torna enfadonho e dispersivo. Adoro estar só. Nunca encontrei um companheiro tão sociável como a solidão. Estamos geralmente mais sós quando viajamos com outros homens do que quando permanecemos nos nossos aposentos. Um homem quando pensa ou trabalha está sempre só, deixai-o pois estar onde ele deseja. A solidão não é medida pelas milhas de espaço que separam um homem e os seus congéneres.
O estudante verdadeiramente diligente de um dos enxames da Universidade de Cambridge est√° t√£o solit√°rio como um derviche no deserto. O agricultor pode trabalhar sozinho no campo ou nos bosques durante todo o dia, mondando ou podando, e n√£o se sentir solit√°rio porque est√° ocupado; mas quando chega a casa, √† noite, n√£o consegue sentar-se numa sala sozinho, √† merc√™ dos seus pensamentos. Tem que ir onde possa ¬ęestar com as pessoas¬Ľ, distrair-se e ser compensado pela solid√£o do seu dia; e, assim, interroga-se como pode o estudante estar s√≥ em casa durante toda a noite e grande parte do dia sem se aborrecer ou sentir-se deprimido. Mas ele n√£o entende que o estudante, se bem que em casa,

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Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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Aprender a Ser Feliz

√Č imposs√≠vel exigir a estabilidade plena da energia ps√≠quica, pois ela organiza-se, desorganiza-se (caos) e reorganiza-se continuamente. N√£o existem pessoas que sejam sempre calmas, alegres e serenas. Nem mesmo existem pessoas ansiosas, irritadas e incoerentes permanentemente. Ningu√©m √© emocionalmente est√°tico, a n√£o ser que esteja morto. Devemos reagir e comportar-nos segundo determinado padr√£o para n√£o sermos inst√°veis, mas este padr√£o reflectir√° sempre uma emo√ß√£o flutuante.

A pessoa mais tranquila perderá a paciência. A pessoa mais ansiosa terá momentos de calma. Só os computadores são rigorosamente estáveis. Por isso, eles são lógicos, programáveis e, portanto, de baixa complexidade. Nós, pelo contrário, somos tão complexos que a nossa disposição, humor e interesses mudam com frequência. Devemos estar preparados para enfrentar os problemas internos e externos. Devemos ter consciência de que os problemas nunca vão desaparecer nesta sinuosa e bela existência. Podemos evitar alguns, outros porém são imprevisíveis.

Mas os problemas existem para serem resolvidos e n√£o para nos controlarem. Infelizmente, muitos s√£o controlados por eles. A melhor maneira de ter dignidade diante das dificuldades e dos sofrimentos existenciais √© extrair li√ß√Ķes deles. Caso contr√°rio, o sofrimento √© in√ļtil. Ser feliz, do ponto de vista da psicologia, n√£o √© ter uma vida perfeita,

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O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos,

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Um Cérebro Sempre Jovem

A sociedade est√° a ser varrida por um movimento chamado nova velhice. A norma social para as pessoas de idade era passiva e sombria; confinadas a cadeiras de baloi√ßo, esperava-se que entrassem em decl√≠nio f√≠sico e mental. Agora o inverso √© verdade. As pessoas mais velhas t√™m expetativas mais elevadas de que permanecer√£o ativas e com vitalidade. Consequentemente, a defini√ß√£o de velhice mudou. Num inqu√©rito perguntou-se a uma amostra de baby boomers: “Quando tem in√≠cio a velhice?” A resposta m√©dia foi aos 85. √Ä medida que aumentam as expetativas, o c√©rebro deve claramente manter-se a par e adaptar-se √† nova velhice. A antiga teoria do c√©rebro fixo e estagnado sustentava ser inevit√°vel um c√©rebro que envelhecesse. Supostamente as c√©lulas cerebrais morriam continuamente ao longo do tempo √† medida que uma pessoa envelhecia, e a sua perda era irrevers√≠vel.

Agora que compreendemos qu√£o flex√≠vel e din√Ęmico √© o c√©rebro, a inevitabilidade da perda celular j√° n√£o √© v√°lida. No processo de envelhecimento ‚ÄĒ que progride √† raz√£o de 1% ao ano depois dos trinta anos de idade ‚ÄĒ n√£o h√° duas pessoas que envelhe√ßam de maneira igual. At√© os g√©meos id√™nticos, nascidos com os mesmos genes, ter√£o muito diferentes padr√Ķes de atividade gen√©tica aos setenta anos,

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A Dor Evitada

√Č certo que a infelicidade n√£o depende apenas da dor, mas a alegria, essa, s√≥ devia depender da aus√™ncia de dor f√≠sica. Vinte s√©culos inteiros e completos n√£o inventaram uma explica√ß√£o do sofrimento; sofre-se em compara√ß√£o com o que √© n√£o sofrer, e nenhum homem saud√°vel quer ser educado previamente para aquilo que √© mau. J√° n√£o se treina a resist√™ncia √† dor: evita-se, sim, a mistura com essa ‘coisa’ repelente.

Gonçalo M.

Indulgência com os Outros

Para sobreviver por este mundo afora, √© conveniente levar consigo uma grande provis√£o de precau√ß√£o e indulg√™ncia. Pela primeira seremos protegidos de danos e perdas, pela segunda, de disputas e querelas. Quem tem de viver entre os homens n√£o deve condenar, de maneira incondicionada, individualidade alguma, nem mesmo a pior, a mais mesquinha ou a mais rid√≠cula, pois ela foi definitivamente estabelecida e ofertada pela natureza. Deve-se, antes, tom√°-la como algo imut√°vel que, em virtude de um princ√≠pio eterno e metaf√≠sico, tem de ser como √©. Quanto aos casos mais lament√°veis, deve-se pensar: ¬ę√Č preciso que haja tamb√©m tais tipos no mundo.¬Ľ Do contr√°rio, comete-se uma injusti√ßa e desafia-se o outro a uma guerra de vida ou morte, j√° que ningu√©m pode mudar a sua pr√≥pria individualidade, isto √©, o seu car√°cter moral, as suas faculdades de conhecimento, o seu temperamento, a sua fisionomia, etc. Ora, se condenarmos o outro em toda a sua ess√™ncia, ent√£o nada lhe restar√° a n√£o ser combater em n√≥s um inimigo mortal, pois s√≥ lhe reconhecemos o direito de existir sob a condi√ß√£o de tornar-se uma pessoa diferente da que invariavelmente √©.
Portanto, para vivermos entre os homens, temos de deixar cada um existir como é,

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A Vida não Está por Ordem Alfabética

A vida n√£o est√° por ordem alfab√©tica como h√° quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, s√£o miga¬≠lhas, o problema depois √© junt√°-las, √© esse montinho de areia, e este gr√£o que gr√£o sust√©m? Por vezes, aquele que est√° mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, √© precisamente esse que mant√©m unidos todos os outros, porque esse montinho n√£o obedece √†s leis da f√≠sica, retira o gr√£o que aparentemente n√£o sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas tra√ßar uns rabiscos com o dedo, contradan√ßas, caminhos que n√£o levam a lado nenhum, e continuas √† nora, insistes no vaiv√©m, que √© feito daquele aben√ßoado gr√£o que mantinha tudo ligado… at√© que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um tra√ßado estranho, um desenho sem jeito nem l√≥gica, e come√ßas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.