Passagens de JĂșlio Dantas

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O amor nĂŁo Ă© uma futilidade ou um divertimento; Ă© um sentimento profundo, que decide de uma vida. NĂŁo hĂĄ o direito de o falsificar.

A inteligĂȘncia e a vivacidade da mulher afugentam de ordinĂĄrio os homens medĂ­ocres, cujo orgulho de posse prefere, Ă  beleza vivaz e raciocinadora, a beleza triste, passiva, submissa e silenciosa.

Se as mulheres bonitas tivessem todos os amantes que lhes atribuem, nĂŁo havia maior castigo do que a beleza.

É nas velhas casas, onde parece flutuar ainda a penumbra dourada do passado, que se recebe, mais perdurável e mais viva, a impressão da família e do lar.

O Talento na Juventude e na Velhice

Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade. Não. Nem da mocidade, nem da velhice. Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém. Nunca compreendi a hostilidade tradicional entre velhos e moços (que aliås enche a história das literaturas); e não percebo a razão por que os homens se lançam tantas vezes recíprocamente em rosto, como um agravo, a sua velhice ou a sua juventude.
Ser idoso nĂŁo quer dizer que se seja necessĂĄriamente intolerante e retrĂłgado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si sĂł, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a histĂłria da ciĂȘncia e contribuiram para o progresso humano sĂŁo, em geral, obra dos velhos sĂĄbios; e a mocidade literĂĄria, negando embora sistemĂĄticamente o passado, Ă© nele que se inspira, atĂ© que o escritor adquire (quando adquire) personalidade prĂłpria.
(…) A mocidade, em geral, nĂŁo cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice nĂŁo se opĂ”em; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida nĂŁo Ă© sĂł o entusiasmo dos moços;

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NĂŁo sĂŁo as mulheres muito inteligentes que despertam as maiores paixĂ”es. A inteligĂȘncia tem qualquer coisa de ĂĄgil, de mĂĄsculo, de irritante, que repele a sensualidade misteriosa do homem.

Entre um homem moço e uma mulher bonita, a amizade pura, a amizade intelectual Ă© impossĂ­vel. O homem e a mulher sĂŁo, fundamentalmente, irredutivelmente, inimigos. SĂł se aproximam para se amar – ou para se devorar.

NĂŁo hĂĄ como os imitadores para nos fazerem sentir o que existe de mau na obra de um escritor ilustre.

SĂŁo tĂŁo imensamente grandes, tĂŁo paradoxalmente violentos certos amores, que atingem a expressĂŁo terrĂ­vel do Ăłdio.