Textos sobre Habilidade

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Textos de habilidade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Habilidade Específica do Político

A habilidade espec√≠fica do pol√≠tico consiste em saber que paix√Ķes pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele pr√≥prio e aos seus aliados. Na pol√≠tica como na moeda h√° uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres ser√° expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revolu√ß√Ķes) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paix√£o interesseira. Al√©m disso, como os pol√≠ticos est√£o divididos em grupos rivais, visam a dividir a na√ß√£o, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem √† custa do ¬ęru√≠do e da f√ļria, que nada significam¬Ľ. N√£o podem prestar aten√ß√£o a nada que seja dif√≠cil de explicar, nem a nada que n√£o acarrete divis√£o (seja entre na√ß√Ķes ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos pol√≠ticos como classe.

A Disposição da Razão

N√£o s√£o apenas as febres, as beberagens e os grandes infort√ļnios que abatem o nosso julgamento; as menores coisas do mundo o transtornam. E n√£o se deve duvidar, ainda que n√£o o sent√≠ssemos, que, se a febre cont√≠nua pode arrasar a nossa alma, a ter√ß√£ tamb√©m lhe cause alguma altera√ß√£o de acordo com o seu ritmo e propor√ß√£o. Se a apoplexia entorpece e extingue totalmente a vis√£o da nossa intelig√™ncia, n√£o se deve duvidar que a coriza a ofusque; e consequentemente mal podemos encontrar uma √ļnica hora da vida em que o nosso julgamento esteja na sua devida disposi√ß√£o, estando o nosso corpo sujeito a tantas muta√ß√Ķes cont√≠nuas e guarnecido de tantos tipos de recursos que (acredito nos m√©dicos) √© muito dif√≠cil que n√£o haja sempre algum deles andando torto.
De resto, essa doença não se revela tão facilmente se não for totalmente extrema e irremediável, pois a razão segue sempre em frente, mesmo torta, mesmo manca, mesmo desancada, tanto com a mentira como com a verdade. Assim, é difícil descobrir-lhe o erro e o desarranjo. Chamo sempre de razão essa aparência de raciocínio que cada qual forja em si Рessa razão por cuja condição pode haver cem raciocínios contrários em torno de um mesmo assunto,

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Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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A Armadilha da Realidade

Uma das primeiras armadilhas interiores √© aquilo que chamamos de ¬ęrealidade¬Ľ. Falo, √© claro, da ideia de realidade que actua como a grande fiscalizadora do nosso pensamento. O maior desafio √© sermos capazes de n√£o ficar aprisionados nesse recinto que uns chamam de ¬ęraz√£o¬Ľ, outros de ¬ębom-senso¬Ľ. A realidade √© uma constru√ß√£o social e √©, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. N√≥s n√£o temos sempre que a levar t√£o a s√©rio.
Quando Ho Chi Minh saiu da pris√£o e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos t√£o cheios de ternura numa pris√£o t√£o desumana ele respondeu: ¬ęEu desvalorizei as paredes.¬Ľ Essa li√ß√£o se converteu num lema da minha conduta.
Ho Chi Minh ensinou a si pr√≥prio a ler para al√©m dos muros da pris√£o. Ensinar a ler √© sempre ensinar a transpor o imediato. √Č ensinar a escolher entre sentidos vis√≠veis e invis√≠veis. E ensinar a pensar no sentido original da palavra ¬ępensar¬Ľ que significava ¬ęcurar¬Ľ ou ¬ętratar¬Ľ um ferimento. Temos de repensar o mundo no sentido terap√™utico de o salvar de doen√ßas de que padece. Uma das prescri√ß√Ķes m√©dicas √© mantermos a habilidade da transcend√™ncia, recusando ficar pelo que √© imediatamente percept√≠vel. Isso implica a aplica√ß√£o de um medicamento chamado inquieta√ß√£o cr√≠tica.

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A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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O Preço da Riqueza

N√£o invejemos a certa esp√©cie de gente as suas grandes riquezas: eles as t√™m √† custa de um √≥nus que n√£o nos daria bom c√≥modo. Estragaram o seu repouso, a sua sa√ļde, a sua felicidade e a sua consci√™ncia, para as conseguir: isso √© caro demais, e n√£o h√° nada a ganhar por esse pre√ßo.
Quando se √© novo, muitas vezes √©-se pobre: ou ainda n√£o se fez aquisi√ß√Ķes, ou as heran√ßas ainda n√£o vieram. A gente torna-se rico e velho ao mesmo tempo; t√£o raro √© poderem os homens reunir todas as vantagens!
E se isso acontece a alguns, n√£o h√° que invej√°-los: eles t√™m a perder com a morte o bastante para serem lamentados. √Č preciso trinta anos para pensar na fortuna; aos cinquenta est√° feita; contr√≥i-se na velhice e morre-se quando ainda se est√° √†s voltas com pintores e vidraceiros. Qual o fruto de uma grande fortuna, se n√£o gozar a vaidade, ind√ļstria, trabalho e esfor√ßo dos que vieram antes de n√≥s, e trabalharmos n√≥s mesmos, plantando, construindo, adquirindo, para a posteridade?
Em todas as condi√ß√Ķes, o pobre est√° mais pr√≥ximo do homem de bem, e o opulento n√£o est√° longe da ladroeira. A capacidade e a habilidade n√£o levam a grandes riquezas.

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Filosofia Simplificada

√Č uma objec√ß√£o pobre contra um fil√≥sofo dizer que √© inintelig√≠vel. Ininteligibilidade √© um conceito relativo, e aquilo que o Caio ou Ticiano frequentemente louvado n√£o entende nem por isso √© inintelig√≠vel. E mesmo a filosofia tem, de facto, algo que segundo a sua natureza sempre permanecer√° inintelig√≠vel √† grande multid√£o. Mas √© algo inteiramente outro se a ininteligibilidade est√° na coisa mesma. – Ocorre frequentemente que cabe√ßas que, com grande exerc√≠cio e habilidade, mas sem possuirem propriamente inventividade para tarefas mec√Ęnicas, se disp√Ķem, por exemplo, a inventar uma m√°quina de tornear garrafas – fabricam perfeitamente uma, mas o mecanismo √© t√£o dif√≠cil e artificioso ou as engrenagens rangem tanto, que se prefere voltar a tornear garrafas com as m√£os, √† moda antiga. O mesmo pode perfeitamente passar-se na filosofia. O sofrimento com a ignor√Ęncia sobre os objectos primeiros, sobre os maiores, para todos os homens que sentem, que n√£o s√£o embotados ou estreitamente auto-suficientes, √© grande e pode aumentar at√© se tornar insuport√°vel. Mas se o mart√≠rio de um sistema antinatural √© maior do que aquele fardo da ignor√Ęncia, prefere-se no entanto continuar a suportar este. Pode-se bem admitir que tamb√©m a tarefa da filosofia, se √© em geral resol√ļvel,

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A Boa Sorte

Os homens sábios, para declinarem a inveja que possa incidir sobre os seus méritos, usam atribuí-los à providência e à fortuna (sorte); porque assim podem falar deles, e, além disso, é honroso para o homem ser benquisto dos poderes superiores. Foi por isso que na tempestade César disse ao piloto: Caesarem portas et fortunam ejus (Transportas César e a sua fortuna). Assim Sylla escolheu o cognome de Feliz e não o de Magno. E tem sido notado, que aqueles que demasiadamente atribuem a sua felicidade à ciência e habilidade acabam infortunadamente.
Est√° escrito que Tim√≥teo, o ateniense, quando apresentara √† assembleia o relat√≥rio da sua ac√ß√£o como governante, frequentemente intercalou a seguinte frase ¬ęe nisto n√£o teve parte a fortuna¬Ľ; nunca mais prosperou em coisa que empreendesse.

O Português

Prefere ser um rico desconhecido, a ser um her√≥i pobre. √Č melhor do que parece. O homem portugu√™s √© dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas √© tamb√©m um homem de paix√Ķes moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
√Č inovador mas tem pouco car√°cter, como √© pr√≥prio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como fil√≥sofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga √© uma culpa inibida. Vemos que ele se mant√©m num estado primitivo quando defende a sua √°rea de partido, de seita e de fam√≠lia, √† custa de corrup√ß√Ķes e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
√Č imaginativo mas n√£o pensador.
√Č culto mas n√£o experiente.
N√£o gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua pr√≥pria iniciativa. √Č m√≠stico com a f√°bula e viril com a desgra√ßa.

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Detalhes Importantes da Governação

Um sábio evita dizer ou fazer o que não sabe. Se os nomes não condizem com as coisas, há confusão de linguagem e as tarefas não se executam. Se as tarefas não se executam, o bem-estar e a harmonia são negligenciados. Sendo estes negligenciados, os suplícios e demais castigos não são proporcionais às faltas, o povo não sabe mais o que fazer. Um princípe sábio dá às coisas os nomes adequados e cada coisa deve ser tratada segundo o significado do seu nome. Na escolha dos nomes deve-se estar muito atento.
(…) Suponhamos que um homem aprenda as trezentas odes de Chen King e que, em seguida, se fosse encarregado de uma parte da administra√ß√£o, mostrasse pouca habilidade; se fosse enviado em miss√£o a pa√≠ses estrangeiros, mostrasse incapacidade para resolver por si mesmo; de que lhe teria servido toda a sua literatura?
(…) Se o pr√≥prio pr√≠ncipe √© virtuoso, o povo cumprir√° os seus deveres sem que lhe ordene; se o pr√≥prio pr√≠ncipe n√£o √© virtuoso, pouco importa que d√™ ordens; o povo n√£o as seguir√°.

O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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Besta Célere

H√° quem lhe chame, por brincadeira, besta c√©lere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por m√©dia) desse produto cultural (agora √© tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edi√ß√Ķes. O best-seller √© um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ¬ęmarketing¬Ľ editorial e livreiro. √Č para se vender – muito e depressa – que o best-seller √© constru√≠do com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundant√≠ssimos, nem vale a pena enumer√°-los. Conv√©m n√£o confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com ¬ętopes¬Ľ de venda. Embora seja cabe√ßa de lista, o best-seller tem, em rela√ß√£o aos livros ¬ęnormais¬Ľ, uma caracter√≠stica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campe√£o de vendas. A sua raz√£o de ser √© essa e s√≥ essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido s√©rio, que ¬ęo resto √© literatura¬Ľ.
Estou a pensar em bestas c√©leres como Love Story ou O Aeroporto. N√£o estou a pensar em ¬ętopes¬Ľ de venda como O Nome da Rosa ou Mem√≥rias de Adriano. estes √ļltimos s√£o boa, excelente literatura que, por raz√Ķes pontuais e,

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N√£o se Diz ao Triste que se Alegre

Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:

N√£o quero e n√£o quero
jub√£o amarelo.

Se de negro for
também me parece
quanto me aborrece
toda a alegre cor:
cor que mostra dor,
quero e n√£o quero
jub√£o amarelo.

Parece-vos que se pode dizer mais ? N√£o me respondais: ¬ęQuem gabar√° a noiva?¬Ľ Porque assentai que foi comendo e fazendo, ou assoprando, que n√£o √© t√£o pequena habilidade. E, porque vos n√£o pare√ßa que foi mais acertar que quer√™-lo fazer, vedes, vai outra do mesmo jaez,

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A Fal√°cia do Sucesso

Abomin√°vel coisa √© o bom √™xito, seja dito de passagem. A sua falsa parecen√ßa com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale √† supremacia. A v√≠tima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, √© a hist√≥ria. S√≥ T√°cito e Juvenal se lhe op√Ķem. Existe na √©poca e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libr√© do bom √™xito e lhe faz o servi√ßo da antec√Ęmara. Fazei por serdes bem sucedido, √© a teoria. Prosperidade sup√Ķe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem h√°bil. Quem triunfa √© venerado. Nascei bem-fadado, n√£o queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si vir√°; sede feliz, julgar-vos-√£o grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excep√ß√Ķes imensas que fazem o esplendor de um s√©culo, a admira√ß√£o contempor√Ęnea √© apenas miopia. Duradora √© ouro. Pouco importa que n√£o sejais ningu√©m, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo √© um narciso velho, que se idolatra a si pr√≥prio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Mois√©s, Esquilo, Dante, Miguel √āngelo ou Napole√£o, decreta-a a multid√£o indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se prop√īs, seja no que for. Que um tabeli√£o se transforme em deputado;

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Onde Est√£o os Crist√£os?

O homem civilizado construiu um coche, mas perdeu o uso dos p√©s. Sust√©m-se com o aux√≠lio de muletas, mas falta-lhe todo o apoio do m√ļsculo. Possui um belo rel√≥gio de Genebra, mas perdeu a habilidade de calcular as horas pelo sol. Seguro de que obter√° no almanaque n√°utico de Greenwich a informa√ß√£o desejada quando dela carecer, o homem da rua n√£o sabe reconhecer estrela nenhuma no c√©u. N√£o observa o solst√≠cio, nem tampouco o equin√≥cio, e a sua mente n√£o logra visualizar o quadrante do claro calend√°rio do ano. O livro de notas prejudica-lhe a mem√≥ria; as bibliotecas sobrecarregam-lhe a intelig√™ncia; a ag√™ncia de seguros aumenta o n√ļmero de acidentes; e talvez constitua um problema saber se a maquinaria n√£o entorpece, se o refinamento n√£o nos fez perder alguma energia, se o Cristianismo entrincheirado nas institui√ß√Ķes e nos ritos n√£o nos roubou o vigor da vida selvagem. Pois todo est√≥ico era um est√≥ico; mas, na

A Sabedoria das Fac√ß√Ķes

Muita gente tem uma nova sabedoria, tamb√©m chamada uma opini√£o apaixonada, de que, para um pr√≠ncipe governar o seu Estado, ou para uma alta personalidade conduzir os seus processos, a principal parte da habilidade consiste em obter a concord√Ęncia das fac√ß√Ķes. Quando, pelo contr√°rio, a principal sabedoria est√° em ordenar as coisas que s√£o de interesse geral, e acerca das quais os homens das diversas fac√ß√Ķes nunca concordam, ou em resolv√™-las mediante consulta privativa a cada pessoa. N√£o digo, por√©m, que a considera√ß√£o das fac√ß√Ķes seja para desprezar. Os homens fracos devem aderir, mas os grandes homens, que t√™m valor por si pr√≥prios, far√£o melhor em manterem-se indiferentes ou neutrais perante as fac√ß√Ķes; todavia, at√© mesmo para os principiantes, o melhor caminho que lhes √© dado √© o de aderirem t√£o moderadamente quanto poss√≠vel a uma fac√ß√£o para serem tolerados pela outra.
A facção menos numerosa e mais fraca é a mais firme na sua condição. Quando uma facção se extingue, o remanescente subdivide-se, o que é bom para a outra. Observa-se geralmente que muitos homens, uma vez bem colocados, passam para a facção contrária daquela em que haviam entrado. O traidor à sua facção geralmente progride com tal acto,

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As Pessoas Sensatas

Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal Рisso nos incumbe, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.
Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a m√£o direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente d√£o mostras da sua in√©pcia oferecendo √† Fortuna uma recep√ß√£o canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obt√™m para si algo de √ļtil e apraz√≠vel das mais adversas situa√ß√Ķes.

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