Textos sobre Ideais

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Textos de ideais escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Religião como Ficção

– A f√© √© uma resposta instintiva a aspectos da exist√™ncia que n√£o podemos explicar de outro modo, seja o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, a pr√≥pria origem das coisas, o sentido da nossa vida ou a aus√™ncia dele. S√£o aspectos elementares e de extrema simplicidade, mas as nossas limita√ß√Ķes impedem-nos de responder de modo inequ√≠voco a essas perguntas e por isso geramos, como defesa, uma resposta emocional. √Č simples e pura biologia.
РEntão, a seu ver, todas as crenças ou ideais não passariam de uma ficção.
– Toda a interpreta√ß√£o ou observa√ß√£o da realidade o √© necessariamente. Neste caso, o problema reside no facto de o homem ser um animal moral abandonado num universo amoral e condenado a uma exist√™ncia finita e sem outro significado que n√£o seja perpetuar o ciclo natural da esp√©cie. √Č imposs√≠vel sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para o ser humano. Passamos uma boa parte das nossas vidas a sonhar, sobretudo quando estamos acordados. Como digo, pura biologia.

A Decadência do Espírito de Competição

O esp√≠rito de competi√ß√£o, considerado como a principal raz√£o da vida, √© demasiado inflex√≠vel, demasiado tenaz, demasiado composto de m√ļsculos tensos e de vontade decidida para servir de base poss√≠vel √† exist√™ncia durante mais de uma ou duas gera√ß√Ķes. Depois desse espa√ßo de tempo, deve produzir-se uma fadiga nervosa, v√°rios fen√≥menos de evas√£o, uma procura de prazeres, t√£o tensa e t√£o penosa como o trabalho (pois o afrouxamento tornou-se imposs√≠vel) e finalmente a desapari√ß√£o da ra√ßa devido √† esterilidade. N√£o somente o trabalho √© envenenado pela filosofia que exalta o esp√≠rito de competi√ß√£o mas os √≥cios s√£o-no na mesma medida.
O género de descanso que acalma e restaura os nervos chega a ser aborrecimento. Produz-se fatalmente uma aceleração contínua cujo fim normal são as drogas e a ruína. O remédio consiste na aceitação duma alegria sã e serena como elemento indispensável ao equilíbrio ideal da vida.

Liquidar os Defeitos Pouco a Pouco

Legislasse eu em Inglaterra e a minha obra seria completamente diferente. Dentro das ra√ßas, dentro das nacionalidades, h√° duas esp√©cies de defeitos: os defeitos naturais, que podem ser combatidos mas nunca extirpados violentamente, e que nos far√£o sempre distinguir um latino dum eslavo ou dum anglo-sax√£o, e os defeitos incrustados, os v√≠cios adquiridos, que s√£o v√≠cios, sobretudo, de educa√ß√£o, de mentalidade. Ora se √© quase in√ļtil fazer guerra aos primeiros, porque eles t√™m sempre a vit√≥ria, j√° n√£o √© t√£o ideal, t√£o imposs√≠vel, como se diz, desincrustar os √ļltimos, liquid√°-los pouco a pouco… Veja, por exemplo, como o Jap√£o se transformou no curto espa√ßo da vida dum homem…

A Nulidade como Ideal

A nulidade exige ordem. Tem necessidade de uma hierarquia, de meios de press√£o, de agentes e de uma finalidade que se confunda consigo pr√≥pria. Para manter o ser humano no seu n√≠vel mais baixo, onde n√£o corre o risco de fazer ondas, nada melhor que uma organiza√ß√£o estruturada com n√≠veis de poder e pe√Ķes disciplinados capazes de os exercer. Qualquer estrutura deste tipo aguenta-se de p√© devido √† convic√ß√£o geral de que n√£o √© necess√°rio explicar para se ser obedecido, nem compreender para obedecer. A verdade difunde-se por si s√≥ de cima para baixo pelo mero efeito do ascensor hier√°riquico. A efic√°cia √© proporcional ao grau de complexidade gra√ßas ao qual √© mantida a ilus√£o de uma certa liberdade em todos os n√≠veis de comando.
Quanto mais insignificantes s√£o as engrenagens humanas, mais f√°cil √© convenc√™-las da sua falsa autonomia. As nulidades fornecem as melhores engrenagens, associando o m√°ximo de in√©rcia intelectual ao m√°ximo de aplica√ß√£o no exerc√≠cio de uma ditadura sobre a pequena por√ß√£o de poder que lhes cabe. Essas estruturas, onde todos t√™m raz√£o quando est√£o acima e n√£o a t√™m quando est√£o abaixo, realizam uma esp√©cie de ideal humano feito de equil√≠brio entre arrog√Ęncia e humildade.

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Civilização de Especialistas

A verdade √© que hoje vivemos numa civiliza√ß√£o de especialistas e que √© v√£o todo o empenho de que seja de outro modo. Sob pena de n√£o ser eficiente, o homem das artes, das ci√™ncias e das t√©cnicas tem de se especializar, para que domine aqueles segredos de bibliografia ou de pr√°tica, e para que obtenha os jeitos e a forte concentra√ß√£o de pensamento que se tornam necess√°rios para que se possa n√£o s√≥ manejar o que se herdou mas acrescentar patrim√≥nio para as gera√ß√Ķes futuras. E, se √© certo que por um lado o especialismo favorece aquela pregui√ßa de ser homem que tanto encontramos no mundo, permite ele, por outro lado, aproveitar em tarefas √ļteis indiv√≠duos que pouco brilhantes seriam no tratamento de conjuntos. O pre√ßo, por√©m, se tem naturalmente de pagar; paga-o o colectivo quando se queixa, e muito justamente, da falta de bons l√≠deres, de homens com uma larga vis√£o de conjunto, que saibam do trabalho de cada um o suficiente para o poderem dirigir e se tenham eles tornado especialistas na dif√≠cil arte de n√£o ter especialidade pr√≥pria sen√£o essa mesma do plano, da previs√£o e do animar na batalha as tropas que, na maior parte das vezes,

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O Professor como Mestre

N√£o me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma √© burocr√°tica e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profiss√£o; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa intelig√™ncia e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das aten√ß√Ķes das pessoas mais s√©rias; creio mesmo que tal distin√ß√£o foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, √© sempre poss√≠vel a compara√ß√£o com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de m√©rito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre n√£o √© de modo algum um emprego e que a sua actividade se n√£o pode aferir pelos m√©todos correntes; ganhar a vida √© no professor um acr√©scimo e n√£o o alvo; e o que importa, no seu ju√≠zo final, n√£o √© a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente h√°-de pesar na balan√ßa √© a pedra que lan√ßou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama;

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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√Č Imposs√≠vel Fazer Amor sem um Certo Abandono

Mas √© exactamente isso que √© supreendente em ti: tu gostas de dar prazer. Gostas de fazer do teu corpo um objecto agrad√°vel, gostas de dar prazer com o teu pr√≥prio corpo: √© precisamente isso o que os ocidentais j√° n√£o conseguem fazer. Perderam completamente o sentimento da d√°diva. Mesmo esfor√ßando-se, n√£o conseguem assumir o sexo como uma coisa natural. Al√©m de terem vergonha do seu corpo, muito diferente do corpo das estrelas pornogr√°ficas, tamb√©m n√£o sentem uma verdadeira atrac√ß√£o pelo corpo dos outros. Ora, √© imposs√≠vel fazer amor sem um certo abandono, sem a aceita√ß√£o, pelo menos tempor√°ria, de um certo estado de fraqueza e de depend√™ncia. Tanto a exalta√ß√£o sentimental como a obsess√£o sexual t√™m a mesma origem, resultam ambas do esquecimento parcial do eu; √© algo que n√£o pode acontecer sem que a pessoa perca alguma coisa de si mesma. E n√≥s torn√°mo-nos frios, racionais, extremamente conscientes dos nossos direitos e da nossa exist√™ncia individual; primeiro que tudo, queremos evitar a aliena√ß√£o e a depend√™ncia; al√©m disso, vivemos obcecados com a sa√ļde e com a higiene: e n√£o s√£o essas as condi√ß√Ķes ideais para fazer amor.

Entendermo-nos com a Vida

Como √© dif√≠cil entendermo-nos com a vida. N√≥s a compor, ela a estragar. N√≥s a propor, ela a destruir. O ideal seria ent√£o n√£o tentarmos entender-nos com ela mas apenas connosco. Simplesmente o n√≥s com que nos entend√™ssemos depende infinitamente do que a vida faz dele. Assim jamais o poderemos evitar. E todavia, alguns dir-se-ia conseguirem-no. Que for√ßa de si mesmos ou import√Ęncia de si mesmos eles inventam em si para a sobreporem ao mais? Jamais o conseguirei. O que h√° de grande em mim equilibra-se nas infinitas complac√™ncias da vida que me amea√ßa ou me trai. E √© nesses pequenos intervalos que vou erguendo o que sou. Mas fatigada decerto de ser complacente, √† medida que a paci√™ncia se lhe esgota em ser intervalarmente tolerante, ela vai-me sendo intolerante sem intervalo nenhum. E ent√£o n√£o h√° coragem que chegue e toda a virtude se me esgota na resigna√ß√£o. √Č triste para quem sonhou estar um pouco acima dela. Mas o simples diz√™-lo √© j√° ser mais do que ela. A resigna√ß√£o total √© a que vai dar ao sil√™ncio.

A Busca da Verdade

A verdade é um ideal tipicamente jovem, o amor, por seu turno, um ideal das pessoas maduras e daqueles que se esforçam por estar preparados para enfrentar a diminuição das energias e a morte. As pessoas que pensam só deixam de ambicionar a verdade quando se dão conta que o ser humano está extraordinariamente mal dotado pela natureza para o reconhecimento da verdade objectiva, pelo que a busca da verdade não poderá ser a actividade humana por excelência.
Mas tamb√©m aqueles que jamais chegam a tais conclus√Ķes fazem, no decurso das suas experi√™ncias inconscientes, um percurso semelhante. Ter consigo a verdade, a raz√£o e o conhecimento, conseguir distinguir com precis√£o entre o Bem e o Mal, e, em consequ√™ncia disso, poder julgar, punir e sentenciar, poder fazer e declarar a guerra – tudo isto √© pr√≥prio dos jovens e √© √† juventude que assenta bem. Se, por√©m, quando envelhecemos, continuamos a ater-nos a estes ideais, fenece a j√° se si pouco vigorosa capacidade de ¬ędespertar¬Ľ que possu√≠mos, a capacidade de reconhecer instintivamente a verdade sobre-humana.

A Leitura n√£o Deve Substituir o Pensamento

Enquanto a leitura for para n√≥s a iniciadora cujas chaves m√°gicas nos abrem no fundo de n√≥s pr√≥prios a porta das habita√ß√Ķes onde n√£o ter√≠amos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida ser√° salutar. √Č perigoso ao inv√©s quando, em vez de nos despertar para a vida pessoal do esp√≠rito, a leitura tende a substitu√≠-la, quando a verdade deixa de nos surgir como um ideal que s√≥ podemos realizar atrav√©s do progresso √≠ntimo do nosso pensamento e do esfor√ßo do nosso cora√ß√£o, mas como uma coisa material, depositada eritre as folhas dos livros como um mel preparado pelos outros e que s√≥ temos de nos dar ao trabalho de alcan√ßar nas prateleiras das estantes e de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso de corpo e de esp√≠rito.

A Diplomacia é um Exercício de Grande Violência Interior

Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior.

Fim-de-Semana em Casa

√Č s√°bado. √Č Inverno. √Č dia de acastelar. Sa√≠mos com sacos, ¬ętupper-wares¬Ľ, rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, às lojas, aos restaurantes. O objectivo é enchermo-nos de víveres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelãs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
S√≥ o bastante para nos acastelarmos em casa, repimp√Ķes, com tudo ao nosso alcance, at√© √† long√≠nqua segunda-feira. Dia em que sa√≠remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
Não temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta Рmas corremo-lo à mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chão da cozinha.
Ser√° a mentalidade medieval do campismo ou o ideal ¬ęhippy¬Ľ da auto-sufici√™ncia? N√£o. Constitui a√ßambarcamento? √Č anti-social? Tamb√©m n√£o. √Č apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensão, graças a compras sabichonas,

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A Eleição Narcísica dos Ideais dos Povos

As pessoas estar√£o sempre prontamente inclinadas a incluir entre os predicados ps√≠quicos de uma cultura os seus ideais, ou seja, as suas estimativas a respeito de que realiza√ß√Ķes s√£o mais elevadas e em rela√ß√£o √†s quais se devem fazer esfor√ßos por atingir. Parece, a princ√≠pio, que esses ideais determinam as realiza√ß√Ķes da unidade cultural; contudo, o curso real dos acontecimentos parece indicar que os ideais baseiam-se nas primeiras realiza√ß√Ķes que foram tornadas poss√≠veis por uma combina√ß√£o entre os dotes internos da cultura e as circunst√Ęncias externas, e que essas primeiras realiza√ß√Ķes s√£o ent√£o erigidas pelo ideal como algo a ser levado avante. A satisfa√ß√£o que o ideal oferece aos participantes da cultura √©, portanto, de natureza narc√≠sica; repousa no seu orgulho pelo que j√° foi alcan√ßado com √™xito. Tornar essa satisfa√ß√£o completa exige uma compara√ß√£o com outras culturas que visaram a realiza√ß√Ķes diferentes e desenvolveram ideais distintos. √Č a partir da intensidade dessas diferen√ßas que toda a cultura reivindica o direito de olhar com desd√©m para o resto. Desse modo, os ideais culturais tornam-se fonte de disc√≥rdia e inimizades entre unidades culturais diferentes, tal como se pode constatar claramente no caso das na√ß√Ķes.

Nenhuma √Čpoca Transmite a Outra a sua Sensibilidade

Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi.

Um deus, no sentido pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade.

Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro,

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O Mais Fundo de Nós Mesmos

A uma certa altura do auto-conhecimento, quando est√£o presentes outras circunst√Ęncias que favorecem a auto-seguran√ßa, invariavelmente e sem outra hip√≥tese sentimo-nos execr√°veis. Todas as medidas do bem ‚ÄĒ por muito que as opini√Ķes possam diferir sobre isto ‚ÄĒ parecer√£o demasiado altas. Vemos que n√£o passamos de um ninho de ratos feito de dissimula√ß√Ķes miser√°veis. O mais insignificante dos nossos actos n√£o deixa de estar contaminado por estas dissimula√ß√Ķes. Estas inten√ß√Ķes dissimuladas s√£o t√£o horr√≠veis que no decurso do nosso exame de consci√™ncia n√£o vamos querer ponder√°-las de perto, mas, pelo contr√°rio, ficaremos contentes de as avistar de longe. Estas inten√ß√Ķes n√£o s√£o todas elas feitas apenas de ego√≠smo, o ego√≠smo em compara√ß√£o parece um ideal do bem e do belo. A porcaria que vamos encontrar existe por si s√≥; reconheceremos que viemos ao mundo pingando este fardo e sairemos outra vez irreconhec√≠veis, ou ent√£o demasiado reconhec√≠veis, por causa dela. Esta porcaria √© o fundo mais profundo que encontraremos; nos fundos mais profundos n√£o haver√° lava, n√£o, mas porcaria. √Č o mais fundo e o mais alto e at√© as d√ļvidas que o exame de consci√™ncia origina em breve enfraquecer√£o e se tornar√£o complacentes como o espojar de um porco na imund√≠cie.

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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O Ideal Quimérico

Tenho grandes suspeitas e muitas reservas maldosas em relação ao que se chama ideal. O meu pessimismo está em ter reconhecido que os grandes sentimentos são uma fonte de infelicidades; ou seja, de estiolamento, de desvalorização do Homem. Sempre que esperamos dum ideal algum progresso, entramos na ilusão: a vitória do ideal tem sofrido, até hoje, um movimento retrógrado.
Cristianismo, revolu√ß√£o, aboli√ß√£o da escravatura, igualdade de direitos, filantropia, amor ao inimigo, justi√ßa, verdade… Tudo grandes palavras, que s√≥ t√™m valor nas batalhas ou nas bandeiras: n√£o como realidades, mas como f√≥rmulas aparatosas, que exprimem o contr√°rio do que dizem.
Afinal, o nosso idealismo quim√©rico faz tamb√©m parte da exist√™ncia, e tamb√©m deve manifestar-se no car√°cter da exist√™ncia; n√£o sendo a fonte da exist√™ncia, nem por isso deixa de estar presente nela. Tanto os nossos pensamentos mais elevados como os mais temer√°rios s√£o fragmentos caracter√≠sticos da realidade. Porque, o nosso pensamento √© feito de caracter√≠sticas da realidade; o nosso pensamento √© feito da mesma subst√Ęncia de todas as coisas.

Respeite a Você Mais do que aos Outros

N√£o pense que a pessoa tem tanta for√ßa assim a ponto de levar qualquer esp√©cie de vida e continuar a mesma. (…) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer √© que a gente √© muito preciosa, e que √© somente at√© um certo ponto que a gente pode desistir de si pr√≥pria e se dar aos outros e √†s circunst√Ęncias. (…) Pretendia apenas lhe contar o meu novo car√°cter, ou falta de car√°cter. (…) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Voc√™ j√° viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura compara√ß√£o… Para me adaptar ao que era inadapt√°vel, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilh√Ķes – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei tamb√©m minha for√ßa. Espero que voc√™ nunca me veja assim resignada, porque √© quase repugnante. (…) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: voc√™ era muito diferente, n√£o era? Ela disse que me achava ardente e vibrante,

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O Engodo da Felicidade como Recompensa

Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa Рque outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direcção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
√Č exig√™ncia da raz√£o n√£o precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, t√£o certo quanto √© exig√™ncia tornar-se mais conforme √† raz√£o, mais aut√≥nomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos – a n√£o ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -,

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