Cita√ß√Ķes sobre Incapacidade

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Tenho dois livros: um de prosa, outro de versos, na gaveta, onde provavelmente ficarão todo o resto da minha vida, pois a minha incapacidade perante a vida prática é cada vez maior, e a minha triste qualidade de inadaptável é cada vez mais forte.

Natação e Automobilismo: Tenho absoluta incapacidade de admirar um homem apenas porque ele é melhor do que o outro um centésimo de segundo.

Não se pode mudar ninguém, só nós mesmos. Ninguém é como nós, como tal jamais poderemos exigir que os outros tenham as atitudes que nós teríamos. Não estamos dentro das suas peles, não conhecemos a fundo as suas histórias, os traumas adquiridos nem as incapacidades que os toldaram.

A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

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Lucidez Orgulhosa

Os te√≥logos h√° muito o notaram: a esperan√ßa √© o fruto da paci√™ncia. Dever√≠amos acrescentar: e da mod√©stia. O orgulhoso n√£o tem tempo de esperar… Sem querer nem poder estar √† espera, for√ßa os acontecimentos, como for√ßa a sua natureza; amargo, corrompido, quando esgota as suas revoltas, abdica: para ele, n√£o h√° qualquer forma interm√©dia. √Č ineg√°vel que √© l√ļcido; mas n√£o esque√ßamos que a lucidez √© pr√≥pria daqueles que, por incapacidade de amar, se dessolidarizam tanto dos outros como de si pr√≥prios.

O inferno é a incapacidade de sermos diferentes da criatura segundo a qual ordinariamente nos comportamos.

Sucesso sem Riqueza

Muita gente confunde sucesso com amealhar dinheiro. Embora o sucesso acabe por levar √† riqueza, √© muito mais que isso. √Č uma atitude mental e espiritual – um estado de consci√™ncia – de que o dinheiro √© um sub-produto acidental. Sucesso √© um modo de viver. Estamos neste mundo para ter sucesso como seres humanos. Uma pessoa bem sucedida tem paz de esp√≠rito, est√° satisfeita com os talentos que Deus lhe deu, e sente-se feliz em us√°-los e aplic√°-los para seu benef√≠cio. A procura de uma vida melhor, e a realiza√ß√£o de um objectivo digno, √© a mais satisfat√≥ria das actividades humanas.
(…) Uma vida bem sucedida n√£o √© f√°cil. √Č constru√≠da sobre qualidades fortes – sacrif√≠cio, dilig√™ncia, lealdade e integridade. A corrida nem sempre √© ganha pelo mais r√°pido nem a batalha pelo mais forte; a vit√≥ria vai muitas vezes para o mais temer√°rio e o mais persistente. O maior obst√°culo no caminho do sucesso n√£o √© a falta de intelig√™ncia, de car√°cter ou de for√ßa de vontade. √Č a incapacidade para levar o trabalho at√© ao fim.

A Liberdade da Auto-Suficiência

Quanto mais uma pessoa tem em si, tanto menos os outros podem ser alguma coisa para ela. Um certo sentimento de auto-sufici√™ncia √© o que impede os indiv√≠duos de riqueza e valor intr√≠nseco de fazerem os sacrif√≠cios importantes, exigidos pela vida em comum com os outros, para n√£o falar em procur√°-la √†s custas de uma consider√°vel auto-abnega√ß√£o. O oposto disso √© o que torna os indiv√≠duos comuns t√£o soci√°veis e acomod√°veis: para eles, √© mais f√°cil suportar os outros do que eles mesmo. Acrescente-se a isso que aquilo que possui um valor real n√£o √© apreciado no mundo, e aquilo que √© apreciado n√£o tem valor. A prova e consequ√™ncia disso est√£o no retraimento de todo o homem digno e distinto. Assim sendo, ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as suas pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.
Por outro lado, o que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.

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Talvez seja necess√°rio assaltar um √ļltimo reduto de racismo que √© a arrog√Ęncia de um √ļnico saber e a incapacidade de estar dispon√≠vel para filosofias que chegam das na√ß√Ķes empobrecidas.

A Falsa Glória

√Ä gl√≥ria que surge rapidamente, deve-se acrescentar tamb√©m a falsa, ou melhor, a gl√≥ria artificialmente produzida de uma obra, seja por louvor indevido, bons amigos, cr√≠ticos corrompidos, indica√ß√Ķes de superiores e acordos entre inferiores ou pela correctamente suposta incapacidade das massas de julgar. Assemelha-se √†s b√≥ias, com as quais um corpo pesado consegue flutuar na √°gua. Elas carregam-no por mais ou menos tempo, conforme estejam bem cheias e vedadas. No entanto, de qualquer modo o ar vai saindp a pouco a pouco e o corpo acaba por se afundar.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Nunca Mostrar Espírito e Entendimento

Como ainda √© inexperiente quem sup√Ķe que, ao mostrar esp√≠rito e entendimento, recorre a um meio seguro para fazer-se benquisto em sociedade! Na verdade, na maioria das pessoas, tais qualidades despertam √≥dio e rancor, que ser√£o t√£o mais amargos quanto quem os sentir n√£o tiver o direito de externar o motivo, chegando at√© a dissimul√°-lo para si mesmo. Isso acontece da seguinte forma: se algu√©m nota e sente uma grande superioridade intelectual naquele com quem fala, ent√£o conclui tacitamente e sem consci√™ncia clara que este, em igual medida, notar√° e sentir√° a sua inferioridade e a sua limita√ß√£o. Essa conclus√£o desperta o √≥dio, o rancor e a raiva mais amarga.
(…) Mostrar esp√≠rito e entendimento √© uma maneira indirecta de repreender nos outros a sua incapacidade e estupidez. Ademais, o indiv√≠duo comum revolta-se ao avistar o seu oposto, sendo a inveja o seu instigador secreto. A satisfa√ß√£o da vaidade √©, como se pode ver diariamente, um prazer que as pessoas colocam acima de qualquer outro, mas que s√≥ √© poss√≠vel por interm√©dio da compara√ß√£o delas pr√≥prias com os demais. No entanto, nenhum m√©rito torna o homem mais orgulhoso do que o intelectual: s√≥ neste repousa a sua superioridade em rela√ß√£o aos animais.

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Aprender a Ver

Aprender a ver – habituar os olhos √† calma, √† paci√™ncia, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-n√≥s; aprender a adiar o ju√≠zo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este √© o primeiro ensino preliminar para o esp√≠rito: n√£o reagir imediatamente a um est√≠mulo, mas sim controlar os instintos que p√Ķem obst√°culos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, √© j√° quase o que o modo afilos√≥fico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto √©, precisamente, o poder n√£o ¬ęquerer¬Ľ, o poder diferir a decis√£o. Toda a n√£o-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resist√™ncia a um est√≠mulo ‚ÄĒ tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que √© j√° doen√ßa, decad√™ncia, sintoma de esgotamento, ‚ÄĒ quase tudo o que a rudeza afilos√≥fica designa com o nome de ¬ęv√≠cio¬Ľ √© apenas essa incapacidade fisiol√≥gica de n√£o reagir. ‚ÄĒ Uma aplica√ß√£o pr√°tica do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-√° a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer esp√©cie deixar-se-o-√° aproximar-se com uma tranquilidade hostil, ‚ÄĒ afasta-se dele a m√£o. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno,

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Controlar a Vida a 360 Graus

Vivemos numa sociedade dominada cada vez mais pelo mito do controlo. E o seu postulado dogm√°tico √© este: a receita para uma vida realizada √© a capacidade de control√°-la a 360 graus. N√£o percebemos at√© que ponto uma mentalidade assim representa a nega√ß√£o do princ√≠pio de realidade. Isto para dizer como somos pouco ajudados a lidar com a irrup√ß√£o do inesperado que hoje o sofrimento representa. Sentimos a dor como uma tempestade estranha que se abate sobre n√≥s, tir√Ęnica e inexplic√°vel. Quando ela chega, s√≥ conseguimos sentir-nos capturados por ela, e os nossos sentidos tornam-se como persianas que, mesmo inconscientemente, baixamos. A luz j√° n√£o nos √© t√£o grata, as cores deixam de levar-nos consigo na sua ligeireza, os odores atormentam-nos, ignoramos o prazer, evitamos a melodia das coisas. Damos por n√≥s ausentes nessa combust√£o silenciosa e fechada onde parece que o interesse sensorial pela vida arde. ¬ęA dor √© t√£o grande, a dor sufoca, j√° n√£o tem ar. A dor precisa de espa√ßo¬Ľ, escreve Marguerite Duras nas p√°ginas autobiogr√°ficas do volume a que chamou ¬ęA Dor¬Ľ. E descobrimo-nos mais s√≥s do que pens√°vamos no meio desse inc√™ndio √≠ntimo que cresce. Nas etapas de sofrimento a impot√™ncia parece aprisionar enigmaticamente todas as nossas possibilidades.

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Contra a Ansiedade

Sempre que te aconte√ßa alguma coisa contr√°ria √† tua expectativa diz a ti mesmo que os deuses tomaram uma decis√£o superior! Com semelhante disposi√ß√£o de esp√≠rito, nada ter√°s a temer. Esta disposi√ß√£o de esp√≠rito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experimentarmos em n√≥s, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que n√£o possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Ser√° a ru√≠na do esp√≠rito andarmos ansiosos pelo futuro, desgra√ßados antes da desgra√ßa, sempre na ang√ļstia de n√£o saber se tudo o que nos d√° satisfa√ß√£o nos acompanhar√° at√© ao √ļltimo dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que h√°-de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo n√≠vel a dor por algo perdido e o receio de o perder. Isto n√£o quer dizer que te esteja incitando √† apatia! Pelo contr√°rio, procura evitar as situa√ß√Ķes perigosas; procura prever tudo quanto seja previs√≠vel; procura conjecturar tudo o que pode ser-te nocivo muito antes de que te suceda, para assim o evitares. Para tanto, ser-te-√° da maior utilidade a autoconfian√ßa, a firmeza de √Ęnimo apta a tudo enfrentar. Quem tem √Ęnimo para suportar a fortuna √© capaz de precaver-se contra ela;

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Nada revela mais uma incapacidade fundamental para o exercício do comércio que o hábito de concluir o que os outros querem sem estudar os outros, fechando-nos no gabinete da nossa própria cabeça.