Textos sobre Horas

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Textos de horas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Nada Pode Haver de mais Belo

Amigo Bernardo, dos desertos do Ronc√£o d‚Äôel-Rei, na mais bela po√©tica noite de luar que ver se possa, te escreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo; os rouxin√≥is cantam √† desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros (laurier-rose) que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. Que maravilha, que encanto, que tristeza (tu, com certeza, aqui choravas)! Neste momento, houve-se o sinistro roncar da coruja e o long√≠nquo uivar dos lobos, misturado com o forte ladrar dos rafeiros e os nossos cavalos relincham inquietos nas quadras… √Č √† luz dum prosaico casti√ßal (uma garrafa com uma vela) que te escrevo estas sentidas regras, que espraio sobre este branco papel as ondas da minha melancolia. E como n√£o estar melanc√≥lico se acabamos de fazer dezasseis l√©guas a cavalo em oito horas e n√£o descans√°mos e n√£o dormimos a noite passada sen√£o uma m√≠sera hora e vemos apenas diante de n√≥s umas velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites.

Ninguém Morre Antes da Hora

Ningu√©m morre antes da hora. O que deixais de tempo n√£o era mais vosso do que o tempo que se passou antes do vosso nascimento; e tampouco vos importa, Com efeito, considerai como a eternidade do tempo passado nada √© para n√≥s (Lucr√©cio). Termine a vossa vida quando terminar, ela a√≠ est√° inteira. A utilidade do viver n√£o est√° no espa√ßo de tempo, est√° no uso. Uma pessoa viveu longo tempo e no entanto pouco viveu; atentai para isso enquanto estais aqui. Terdes vivido o bastante depende da vossa vontade, n√£o do n√ļmero de anos. Pens√°veis nunca chegar aonde est√°veis indo incessantemente? E no entanto n√£o h√° caminho que n√£o tenha o seu fim. E, se a companhia vos pode consolar, n√£o vai o mundo no mesmo passo em que ides? Todas as coisas seguir-vos-√£o na morte (Lucr√©cio). Tudo n√£o dan√ßa a vossa dan√ßa? H√° coisa que n√£o envelhe√ßa convosco? Mil homens, mil animais e mil outras criaturas morrem nesse mesmo instante em que morreis: Pois nunca a noite sucedeu ao dia, nem a aurora √† noite, sem ouvir, mesclados aos vagidos da crian√ßa, os gritos de dor que acompanham a morte e os negros funerais (Lucr√©cio).

Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

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O Assombro da Incoerência do Nosso Ser

Sou um mero espectador da vida, que n√£o tenta explic√°-la. N√£o afirmo nem nego. H√° muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. N√£o aprendo at√© morrer – desaprendo at√© morrer. N√£o sei nada, n√£o sei nada, e saio deste mundo com a convic√ß√£o de que n√£o √© a raz√£o nem a verdade que nos guiam: s√≥ a paix√£o e a quimera nos levam a resolu√ß√Ķes definitivas.
O papel dos doidos √© de primeira import√Ęncia neste triste planeta, embora depois os outros tentem corrigi-lo e canaliz√°-lo… Tamb√©m entendo que √© t√£o dif√≠cil asseverar a exactid√£o dum facto como julgar um homem com justi√ßa.
Todos os dias mudamos de opini√£o. Todos os dias somos empurrados para l√©guas de dist√Ęncia por uma coisa fren√©tica, que nos leva n√£o sei para onde. Sucede sempre que, passados meses sobre o que escrevo – eu pr√≥prio duvido e hesito. Sinto que n√£o me perten√ßo…
√Č por isso que n√£o condeno nem explico nada, e fujo at√© de descer dentro de mim pr√≥prio, para n√£o reconhecer com espanto que sou absurdo – para n√£o ter de discriminar at√© que ponto creio ou n√£o creio,

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Sociedade Cíclica

Um dos primeiros erros do mundo moderno √© presumir, profunda e tacitamente, que as coisas passadas se tornaram imposs√≠veis. Eis uma met√°fora pela qual os modernos s√£o apaixonados; sempre dizem: ¬ęN√£o se pode atrasar o p√™ndulo¬Ľ. A resposta √© clara e simples: ¬ęPode-se sim¬Ľ. Um p√™ndulo, que √© um objecto constru√≠do pelo homem, pode ser modificado por um dedo humano a qualquer hora. Assim, a sociedade, que √© um objecto de constru√ß√£o humana, pode ser reconstitu√≠do sob qualquer forma j√° experimentada.

Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante

Anais,

Uma terr√≠vel asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo est√° freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Am√©lia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manh√£ e outra vez esta noite. Pensei de manh√£ que era o pr√≥prio Hugo e que ele tinha vindo para me “apanhar”… Por isso, n√£o abri a porta.

J√° que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o n√ļmero 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. N√£o posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evit√°-lo, porque n√£o quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terr√≠vel. Eu pr√≥prio estou exausto de apreens√£o. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque at√© o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse,

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Corpo e Espírito

A maior parte das pessoas tem um corpo que, ou √© desleixado, formado e deformado pelo acaso, e que parece quase n√£o ter rela√ß√£o com o seu esp√≠rito e o seu car√°cter, ou ent√£o √© recoberto pela m√°scara do desporto que lhe d√° o aspecto daquelas horas em que ele tirou f√©rias de si pr√≥prio. Essas s√£o aquelas horas em que um homem desfia o sonho diurno da sua boa figura, que foi buscar √†s revistas do grande mundo da eleg√Ęncia e da beleza. Todos esses jogadores de t√©nis, cavaleiros e corredores de autom√≥veis, bronzeados e musculosos, com ares de baterem todos os recordes, apesar de, em geral, dominarem apenas razoavelmente a sua especialidade, essas damas bem vestidas ou bem despidas, sonham sonhos diurnos, e s√≥ se distinguem do comum dos mortais que t√™m sonhos despertos porque o seu sonho n√£o permanece encerrado no c√©rebro, mas sai para o ar livre, como projec√ß√£o da alma das massas, configurada de forma corp√≥rea, dram√°tica, quase apetecia dizer, na linguagem de fen√≥menos ocultos mais que suspeitos, ideopl√°stica. Mas t√™m em comum com os vulgares construtores de fantasias uma certa banalidade dos seus sonhos, tanto no que se refere ao conte√ļdo como √† proximidade do estado de vig√≠lia.

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Saberei Conquistá-la Através de Todos os Sacrifícios

Perdoe-me se me apaixonei a este ponto de si. Mas n√£o passarei daqui, nem ningu√©m me ver√°! Fechado num quarto da pousada, espero a sua resposta. Esperarei seis horas por umas linhas suas e depois volto para Paris. J√° nem sei viver, vagueio por a√≠, ferido de morte. Prefiro cansar-me em longos passeios a cavalo, a consumir-me na solid√£o, ou no meio de pessoas que deixaram de me entender… Ordene-me que parta e n√£o tornar√° a ser atormentada por um homem a quem um m√™s bastou para perder a raz√£o.
Muito gostaria de surpreender o seu primeiro pensamento ao acordar; n√£o posso descrever-lhe o reconhecimento que me enche o cora√ß√£o, este cora√ß√£o que reclama apenas a sua amizade, que saber√° conquist√°-la atrav√©s de todos os sacrif√≠cios, que √© completamente vosso at√© ao seu √ļltimo alento.
N√£o me conformo com a ideia de ser abandonado. O seu interesse √©-me mil vezes mais preciso do que a pr√≥pria vida, mas saberei moderar a express√£o dos meus sentimentos e n√£o terei outras aspira√ß√Ķes do que as que me forem permitidas; tamb√©m saberei esconder-lhe os meus temores; respeitarei o seu repouso – mas v√™-la-ei, e nunca mais haver√° felicidade na minha vida se n√£o puder consagrar-lha inteiramente.

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Controlar a Ansiedade

Quando receamos algum mal, o pr√≥prio facto de o recearmos atormenta-nos enquanto o aguardamos: teme-se vir a sofrer alguma coisa e sofre-se com o medo que se sente! Tal como nas doen√ßas f√≠sicas h√° certos sintomas que pressagiam a mol√©stia – incapacidade de movimento, lassid√£o completa mesmo quando se n√£o faz nenhum esfor√ßo, sonol√™ncia, calafrios por todo o corpo -, tamb√©m um esp√≠rito d√©bil se sente abalado, mesmo antes de qualquer mal se abater sobre ele: como que adivinha o mal futuro, e deixa-se vencer antes do tempo. H√° coisa mais insensata do que nos angustiarmos com o futuro em vez de deixarmos chegar a hora da afli√ß√£o, e atrairmos sobre n√≥s todo um c√ļmulo de tormentos? Quando n√£o √© poss√≠vel livrarmo-nos por completo da ang√ļstia, pelo menos adiemo-la tanto quanto pudermos. Queres ver como √© verdade que ningu√©m deve atormentar-se com o futuro?
Imagina um homem a quem tenha sido dito que depois dos cinquenta anos ser√° submetido a graves supl√≠cios: ele permanece imperturb√°vel enquanto n√£o passa a metade desse espa√ßo de tempo, altura em que come√ßa a aproximar-se da ang√ļstia prometida para a segunda metade da sua vida. Por um processo semelhante sucede tamb√©m que certos esp√≠ritos doentes sempre em busca de motivos para sofrer se deixam tomar de tristeza por factos j√° remotos e esquecidos.

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O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profiss√£o – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distrac√ß√£o do of√≠cio que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e n√£o conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, n√£o conseguiria sair. Gritou. Ningu√©m atendeu. Gritou mais forte. Ningu√©m veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o sil√™ncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, n√£o se ouvia mais um som humano, embora o cemit√©rio estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. S√≥ pouco depois da meia-noite √© que l√° vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabe√ßa √©bria apareceu l√° em cima, perguntou o que havia: ¬ęO que √© que h√°?¬Ľ
O coveiro ent√£o gritou, desesperado: ¬ęTire-me daqui, por favor. Estou com um frio terr√≠vel!¬Ľ. ¬ęMas coitado!¬Ľ – condoeu-se o b√™bado. – ¬ęTem toda raz√£o de estar com frio.
Algu√©m tirou a terra toda de cima de voc√™, meu pobre mortinho!¬Ľ. E, pegando na p√°, encheu-a de terra e p√īs-se a cobri-lo cuidadosamente.

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A Companhia do Amor

O que eu sinto n√£o seria para si uma coisa nova de que necessitasse uma clara afirma√ß√£o; √© o mesmo que eu sentia quando passe√°vamos ambos nas areias da Costa Nova. Ou antes, n√£o √© o mesmo sentimento: √© outro mais belo, mais completo; porque tendo, apesar de tudo, ficado comigo, desde que nos separ√°mos, e tendo sido o doce e fiel companheiro da minha vida desde ent√£o – esse sentimento penetrou-me de um modo mais absoluto e mais absorvente, exaltou-se e idealizou-se, e de tal sorte me invadiu todo que eu cheguei a n√£o ter pensamento, ideia, esperan√ßa, plano, a que n√£o estivesse misturada a sua imagem. E na Costa Nova ainda n√£o era assim. Dizer porque √© que eu, apesar de tudo, insistia em pensar em si, n√£o sei. O facto de n√£o serem dependentes da vontade os movimentos do cora√ß√£o n√£o √© uma suficiente explica√ß√£o: porque eu podia resistir √† importunidade desta ideia, e em lugar disso abandonava-me a ela como √† minha √ļnica alegria. Devo portanto concluir que havia um pressentimento latente, uma vaga quase certeza, uma f√© secreta de que a afinidade que existe entre as nossas naturezas se viria um dia a manifestar apesar de tudo,

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Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

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Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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A Audácia é Má no Conselho e boa na Execução

A aud√°cia √© filha da ignor√Ęncia e da rudeza, e muito inferior a todos os outros dons. Ela fascina, por√©m, atando-lhes os p√©s e as m√£os, aos que s√£o d√©beis de entendimento e falhos de coragem que formam a maioria; e prevalece at√© sobre os homens s√°bios nas horas da fraqueza. Por isso vemos que ela fez maravilhas nos Estados populares, menos do que nos governados por Senados ou por Pr√≠ncipes; e muito mais ao primeiro arranco das pessoas audaciosas, do que depois, porque a aud√°cia √© m√° cumpridora de promessas.
(…) Certamente aos homens de grande entendimento, os audacciosos d√£o um espect√°culo de muito gozo; e at√© mesmo para o vulgo, a aud√°cia n√£o deixa de ser rid√≠cula. Porque se o absurdo √© o fundamento do riso n√£o duvideis de que uma grande aud√°cia raramente existe sem absurdo.
(…) Deve ser bem considerado que a aud√°cia √© sempre cega, para n√£o ver os perigos e as inconveni√™ncias. Por isso ela √© m√° no conselho e boa na execu√ß√£o; para bem aproveitar e utilizar as pessoas audacciosas √© preciso que elas nunca estejam na chefia do comando, mas em segundo lugar, sob a direc√ß√£o de outros. Porque no conselho √© bom ver os perigos,

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Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos,

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A Import√Ęncia da Arte

A arte √©, provavelmente, uma experi√™ncia in√ļtil; como a ¬ępaix√£o in√ļtil¬Ľ em que cristaliza o homem. Mas in√ļtil apenas como trag√©dia de que a humanidade beneficie; porque a arte √© a menos tr√°gica das ocupa√ß√Ķes, porque isso n√£o envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de m√ļsica, fazia-se um deserto extraordin√°rio. Acreditem que os teares paravam, tamb√©m, e as f√°bricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte √©, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e h√° decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam √† experi√™ncia in√ļtil que √© a arte, pessoas como Virg√≠lio, por exemplo, e que sabem que o seu sil√™ncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e s√≥ ficasse no ar o ru√≠do dos motores, porque at√© o vento se calava no fundo dos vales, penso que at√© as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vit√≥ria, com a mansid√£o das coisas est√©reis. O la√ßo da fic√ß√£o, que gera a expectativa, √© mais forte do que todas as realidades acumul√°veis. Se ele se quebra, o equil√≠brio entre os seres sofre grave preju√≠zo.

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A Má Consciência

РLevanta-se sempre muito cedo, sr. Spinell Рdisse a mulher do sr. Kloterjahn. Por acaso, já o vi sair duas ou três vezes de casa às sete e meia da manhã.
РMuito cedo? Oh, é preciso distinguir! Se me levanto cedo é porque, no fundo, gosto de dormir até tarde.
РExplique-nos como é isso, sr. Spinell
A senhora conselheira Spatz também desejava ser elucidada.
– Ora… se algu√©m tem o costume de se levantar cedo, parece-me, em todo o caso, que n√£o precisa de ser t√£o matinal. A consic√™ncia, minha senhora, que coisa p√©ssima que √© a consci√™ncia! Eu e os meus semelhantes andamos toda a vida √†s turras com ela, e temos um trabalh√£o para a enganarmos de vez em quando e procurar-lhe umas satisfa√ß√Ķezinhas estultas. Somos criaturas in√ļteis, eu e os meus semelhantes; fora algumas breves horas satisfat√≥rias, arrastamo-nos na certeza da nossa inutilidade, at√© ficarmos a sangrar e doentes. Odiamos o que √© √ļtil, sabendo-o vulgar e feio, e defendemos esta verdade como se defendem as verdades absolutamente necess√°rias. E, contudo, estamos t√£o corro√≠dos pela nossa m√° consci√™ncia que n√£o achamos em n√≥s um ponto s√£o.
Além disso, a maneira como vivemos interiormente,

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O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de ang√ļstia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, √© a desconfian√ßa. O povo, simples e bom, n√£o confia nos homens que hoje t√£o espectaculosamente est√£o meneando a p√ļrpura de ministros; os ministros n√£o confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores n√£o confiam nos seus mandat√°rios, porque lhes bradam em v√£o: ¬ęSede honrados¬Ľ, e v√™em-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposi√ß√£o n√£o confiam uns nos outros e v√£o para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de amea√ßa. Esta desconfian√ßa perp√©tua leva √† confus√£o e √† indiferen√ßa. O estado de expectativa e de demora cansa os esp√≠ritos. N√£o se pressentem solu√ß√Ķes nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discuss√Ķes aparatosas e sonoras; o pa√≠s, vendo os mesmos homens pisarem o solo pol√≠tico, os mesmos amea√ßos de fisco, a mesma gradativa decad√™ncia. A pol√≠tica, sem actos, sem factos, sem resultados, √© est√©ril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discuss√Ķes, as an√°lises reflectidas, as lentas cogita√ß√Ķes, o povo n√£o tem garantias de melhoramento nem o pa√≠s esperan√ßas de salva√ß√£o.

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A Democracia Política Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direcção

Os defeitos da democracia pol√≠tica como sistema de governo s√£o t√£o √≥bvios, e t√™m sido tantas vezes catalogados, que n√£o preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia pol√≠tica foi criticada porque conduz √† inefici√™ncia e fraqueza de direc√ß√£o, porque permite aos homens menos desej√°veis obter o poder, porque fomenta a corrup√ß√£o. A inefici√™ncia e fraqueza da democracia pol√≠tica tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando √© preciso tomar e cumprir decis√Ķes rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milh√Ķes de eleitores em poucas horas √© uma impossibilidade f√≠sica. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decis√£o aos eleitores – em cujo caso todo o princ√≠pio da democracia pol√≠tica ter√° sido tratado com o desprezo que em circunst√Ęncias cr√≠ticas ela merece; ou ent√£o o povo √© consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequ√™ncias fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia pol√≠tica foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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