Textos sobre Perguntas

77 resultados
Textos de perguntas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desgaste da Inveja

De todas as caracter√≠sticas que s√£o vulgares na natureza humana a inveja √© a mais desgra√ßada; o invejoso n√£o s√≥ deseja provocar o infort√ļnio e o provoca sempre que o pode fazer impunemente, como tamb√©m se torna infeliz por causa da sua inveja. Em vez de sentir prazer com o que possui, sofre com o que os outros t√™m. Se puder, priva os outros das suas vantagens, o que para ele √© t√£o desej√°vel como assegurar as mesmas vantagens para si pr√≥prio. Se uma tal paix√£o toma propor√ß√Ķes desmedidas, torna-se fatal a todo o m√©rito e mesmo ao exerc√≠cio do talento mais excepcional.
Por que √© que o m√©dico deve ir ver os seus doentes de autom√≥vel quando o oper√°rio vai para o seu trabalho a p√©? Por que √© que o investigador cient√≠fico pode passar os dias num quarto aquecido, quando os outros t√™m de expor-se √† inclem√™ncia dos elementos? Por que √© que um homem que possui algum talento raro de grande import√Ęncia para o mundo deve ser dispensado do penoso trabalho dom√©stico? Para tais perguntas a inveja n√£o encontra resposta. Afortunadamente, por√©m, h√° na natureza humana um sentimento compensador, chamado admira√ß√£o. Todos os que desejm aumentar a felicidade humana devem procurar aumentar a admira√ß√£o e diminuir a inveja.

Continue lendo…

A Religião como Ficção

– A f√© √© uma resposta instintiva a aspectos da exist√™ncia que n√£o podemos explicar de outro modo, seja o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, a pr√≥pria origem das coisas, o sentido da nossa vida ou a aus√™ncia dele. S√£o aspectos elementares e de extrema simplicidade, mas as nossas limita√ß√Ķes impedem-nos de responder de modo inequ√≠voco a essas perguntas e por isso geramos, como defesa, uma resposta emocional. √Č simples e pura biologia.
РEntão, a seu ver, todas as crenças ou ideais não passariam de uma ficção.
– Toda a interpreta√ß√£o ou observa√ß√£o da realidade o √© necessariamente. Neste caso, o problema reside no facto de o homem ser um animal moral abandonado num universo amoral e condenado a uma exist√™ncia finita e sem outro significado que n√£o seja perpetuar o ciclo natural da esp√©cie. √Č imposs√≠vel sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para o ser humano. Passamos uma boa parte das nossas vidas a sonhar, sobretudo quando estamos acordados. Como digo, pura biologia.

O Mundo Transformado em Poder da Palavra

O poema √© um objecto carregado de poderes magn√≠ficos, terr√≠ficos: posto no s√≠tio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e come√ßa. Ali√°s n√£o √© exactamente um objecto, o poema, mas um utens√≠lio: de fora parece um objecto, tem as suas qualidades tang√≠veis, n√£o √© por√©m nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Ac√ß√£o, temos aquela ferramenta. A ac√ß√£o √© a nossa pergunta √† realidade: e a resposta, encontramo-la a√≠: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da ac√ß√£o respondida por uma esp√©cie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um facto novo no poema, por virtude do poema ‚ÄĒ uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema √© um objecto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objecto, sim, mas porque o mundo, pela ac√ß√£o dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito: √© registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira pulsa move-se ‚ÄĒ √© o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objectiva inventada em irrealidade objectiva. Se dizemos simplesmente: √© um objecto ‚ÄĒ inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equ√≠voco melindroso,

Continue lendo…

Abster-se e Suportar

Limitar os nossos desejos, refrear a nossa cobi√ßa, domar a nossa c√≥lera, tendo sempre em mente que s√≥ podemos alcan√ßar uma parte infinitamente pequena das coisas desej√°veis, enquanto males m√ļltiplos nos v√£o ferindo; em suma: abster-se e suportar (Epticteto), √© uma regra que, caso n√£o seja observada, nem riqueza nem poder podem impedir que nos sintamos miser√°veis. A esse prop√≥sito, diz Hor√°cio, nas Ep√≠stolas:

Em todos os teus actos, lê e pergunta aos doutos
Procurando assim conduzir serenamente a tua vida;
Que não sejas atormentado pela cobiça sempre insaciável,
Nem pelo temor e pela esperança de bens de pouca utilidade.

Estamos Nós Realmente Salvando o Mundo?

Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.
Mas nem o mundo est√° sendo salvo nem ele nos salva enquanto seres de exist√™ncia √ļnica e irrepet√≠vel. Alguns de n√≥s estar√£o fazendo coisas que acreditam ser important√≠ssimas. Mas poucos ter√£o a cren√ßa que est√£o mudando o nosso futuro. A maior parte de n√≥s est√° apenas gerindo uma condi√ß√£o que sabemos torta, geneticamente modificada ao sabor de um enorme laborat√≥rio para o qual todos trabalhamos mesmo sem vencimento.

Se alguma coisa queremos mudar e parece que mudar √© preciso, temos que enfrentar algumas perguntas. A primeira das quais √© como estamos n√≥s, bi√≥logos, pensando a ci√™ncia biol√≥gica? Antes de sermos cientistas somos cidad√£os cr√≠ticos, capazes de questionar os pressupostos que nos s√£o entregues como sendo ¬ęnaturais¬Ľ. A verdade, colegas, √© que estamos hoje perante uma natureza muito pouco natural.

E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Uma subtil e silenciosa preguiça pode levar a abandonar a reflexão sobre o nosso próprio objecto de trabalho.

Continue lendo…

Pergunta e Interrogação

Uma pergunta não interroga: uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a interrogação está do lado do insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a interrogação, na obscura verticalidade.
Como em jogo de cabra-cega, em que h√° seres √† nossa volta, a pergunta orienta-se entre os que lhe n√£o pertencem at√© achar o que procura. Mas a interroga√ß√£o n√£o encontra, porque nada h√° para achar. O limite da sua esperan√ßa est√° menos no triunfo de um encontro, do que no cansa√ßo, na resigna√ß√£o, ou na evid√™ncia natural do que nos coube, como nos √© evidente e tranquilo o termos cinco sentidos e n√£o mais. Mas at√© l√° o caminho √© longo e inimagin√°vel na imobilidade desta noite. Verdadeiramente √© √ļnica a sorte que nos visitou. Legaram-nos a tradi√ß√£o da pergunta-e-resposta como o passatempo de um jogo. Porque at√© mesmo o interrogar degenerou depressa em pergunta.

A Censura Existe Em Todo o Lado

Eu acho que a censura existiu sempre e provavelmente vai existir sempre. Porque a censura para o ser n√£o necessita de ter claramente uma porta aberta com um letreiro, onde se diga que ali h√° pessoas que l√™em livros ou v√£o ver espect√°culos. N√£o! A censura existe de todas as maneiras, porque todas as pessoas, nos diferentes n√≠veis de interven√ß√£o em que se encontram, por boas ou m√°s raz√Ķes, seleccionam, escolhem, apagam, fazem sobressair. E isso s√£o actos de oculta√ß√£o ou de evidencia√ß√£o que, no fundo, em alguns casos, s√£o actos formais de censura.
(Quanto √† censura oficial dos tempos de ditadura) Aquilo que a censura demonstrou e demonstra, em qualquer caso, √© que felizmente os escritores, dependendo das situa√ß√Ķes em que se encontram, s√£o muito mais ricos de meios, de processos de fazer chegar aquilo que querem dizer aos outros, do que se imagina. Evidentemente, numa situa√ß√£o de censura, o escritor √© obrigado a usar a escrita para comunicar isto ou aquilo ou aqueloutro, de uma maneira disfra√ßada, subterr√Ęnea, oculta; mas o que √© importante n√£o √© que a censura o esteja a obrigar a fazer isso. O que √© importante √© que ele seja capaz de o fazer.

Continue lendo…

As Notícias São o Contrário da Vida

As not√≠cias s√£o o contr√°rio da vida. Uma not√≠cia √© uma novidade; √© uma excep√ß√£o. Mas a pergunta mais dif√≠cil (provocando a resposta mais interessante) √©: “S√£o uma excep√ß√£o a qu√™?”
A no√ß√£o corrente, idiota, √© que “c√£o morde homem” n√£o √© not√≠cia, mas que “homem morde c√£o” √©. Mentira. A grande maioria dos c√£es n√£o morde as pessoas. E quando h√° uma pessoa que morde um c√£o n√£o s√≥ √© raro, como desinteressante.
Atrás Рou à frente Рdesta simplificação está a questão bastante mais importante de como se dão os cães e os homens. As mordeduras são episódios pouco representativos e facilmente explicáveis, sem explicarem nada.
Um psicopata assassina muitas pessoas. √Č uma not√≠cia. Mas que nos diz dos noruegueses? Nada. Que nos diz sobre o comportamento dos europeus? Nada.
A realidade é o contrário da notícia. A notícia é histriónica e histérica, separada da normalidade, que nunca é unívoca ou definidora. Existem dois impulsos. O mais antigo é realçar a surpresa e a indignação. O mais moderno é notar as ausências e as diferenças, mas investigar e descrever as presenças circundantes, onde e entre as quais ocorrem tanto a novidade como a antiguidade.

Continue lendo…

O Amor Maior

O amor é preocupação. Ter o coração já previamente ocupado. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada do que ela própria sofre.
O amor √© banal. √Č por isso que √© t√£o bonito. O que se quer da pessoa amada: antes que ela nos ame tamb√©m, √© que ela seja feliz, que seja saud√°vel, que tudo lhe corra bem. Embora se saiba que o mundo n√£o o permite, passa-se por cima da realidade, do racioc√≠nio do que √© poss√≠vel, e quer-se, e espera-se, que Deus abra, no caso dela, uma excep√ß√£o.

A paix√£o pode parecer mais interessante. Mas irrita-me que se compare com o amor. Como se pode comparar dois sentimentos que n√£o t√™m uma √ļnica semelhan√ßa? Se o amor e a paix√£o coincidem, √© como a cor do c√©u e do mar num dia de Ver√£o ‚ÄĒ √© uma alegria, mas nada nos diz acerca do que distingue o ar da √°gua.
Dizer que o amor pode começar como paixão é uma forma falaciosa de estabelecer uma continuidade entre uma e outra, geralmente pejorativa para o amor, que é entendido como um resíduo da paixão,

Continue lendo…

N√£o Sei Dizer quem Sou

√Č curioso como n√£o sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas n√£o posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar n√£o s√≥ n√£o exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir n√£o √© o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impress√£o est√° alojada na parte alta do c√©rebro, nos l√°bios ‚ÄĒ na l√≠ngua principalmente ‚ÄĒ, na superf√≠cie dos bra√ßos e tamb√©m correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu n√£o sei dizer. O gosto √© cinzento, um pouco avermelhado, nos peda√ßos velhos um pouco azulado, e move–se como gelatina, vagarosamente. As vezes torna-se agudo e me fere, chocando-se comigo. Muito bem, agora pensar em c√©u azul, por exemplo. Mas sobretudo donde vem essa certeza de estar vivendo? N√£o, n√£o passo bem. Pois ningu√©m se faz essas perguntas e eu… Mas √© que basta silenciar para s√≥ enxergar, abaixo de todas as realidades, a √ļnica irredut√≠vel, a da exist√™ncia. E abaixo de todas as d√ļvidas ‚ÄĒ o estudo crom√°tico ‚ÄĒ sei que tudo √© perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em rela√ß√£o a si mesmo.

Continue lendo…

As Perguntas Verdadeiramente Importantes

As perguntas verdadeiramente importantes s√£o as que uma crian√ßa pode formular – e apenas essas. S√≥ as perguntas mais ing√©nuas s√£o realmente perguntas importantes. S√£o as interroga√ß√Ķes para as quais n√£o h√° resposta. Uma pergunta para a qual n√£o h√° resposta √© um obst√°culo para l√° do qual n√£o se pode passar. Ou, por outras palavras: s√£o precisamente as perguntas para as quais n√£o h√° resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e tra√ßam as fronteiras da nossa exist√™ncia.

O Verdadeiro Criador N√£o Exije Recompensa do Exterior

Por isso, meu caro senhor, apenas me √© poss√≠vel dar-lhe este conselho: mergulhe em si pr√≥prio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrar√° a resposta √† pergunta ¬ęDevo criar?¬Ľ Aceite essa resposta, tal como lhe √© dada, sem tentar interpret√°-la. Talvez chegue √† conclus√£o de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si pr√≥prio, tudo encontrar em si pr√≥prio e na Natureza √† qual toda a sua vida √© devotada.

Da Conversa

H√° quem, na conversa, prefira mostrar esp√≠rito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o ju√≠zo no discernimento da verdade, como se houvesse maior m√©rito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns t√™m certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas s√£o falhos na variedade; esta esp√©cie de indig√™ncia √© quase sempre aborrecida, e de vez em quando rid√≠cula; a parte mais honrosa do col√≥quio consiste em dar ocasi√£o a novo tema, e tamb√©m em moderar ou acelerar a transi√ß√£o para assunto diferente; √© bom variar, mesclando o assunto de que se est√° a conversar com argumentos, narrativas com discuss√Ķes, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; h√°, por√©m, assuntos que n√£o permitem brincadeira, nomeadamente a religi√£o, os neg√≥cios do Estado, as altas personalidades, todas as quest√Ķes de import√Ęncia para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de d√≥.
Aquele que muito interrogar muito aprenderá também, muito contentará também, especialmente se adaptar as suas perguntas aos conhecimentos daqueles que lhe podem responder, pois assim lhes dará ocasião de se comprazerem a falar, e ele próprio continuará a ganhar conhecimentos; se por vezes fingirdes ignorar o que consta que sabeis,

Continue lendo…

Quando ficaremos velhos? Pergunta mal feita, que n√£o tem resposta

Quando ficaremos velhos? Pergunta mal feita, que n√£o tem resposta. Envelhecemos, quando cessamos de progredir. Cada um que se interrogue!

Uma Vida Calma e Tranquila

A primeira pergunta que Di√≥genes fez a Alexandre √© a primeira pergunta que qualquer pessoa inteligente deve fazer a si pr√≥pria. Di√≥genes n√£o desperdi√ßou um √ļnico momento.
РAlexandre, estás a tentar conquistar o mundo inteiro. Então e tu? Terás tempo suficiente, depois de conquistares o mundo, para te conheceres a ti próprio? Tens certezas sobre o amanhã ou sobre o próximo momento?
Alexandre nunca tinha conhecido um homem assim. Ele já tinha vencido grandes reis e imperadores, mas percebeu que Diógenes era um homem muito poderoso. Baixando os olhos, Alexandre respondeu:
– N√£o te posso dizer que esteja certo sobre o momento seguinte. Mas posso prometer-te uma coisa: quando tiver conquistado o mundo, vou desejar descansar e viver uma vida calma, tal como tu.
Di√≥genes estava a gozar um banho de sol matinal junto a um rio, rodeado por bonitas √°rvores. Ele riu-se… por vezes penso que o seu riso ainda deve continuar a ecoar.
Pessoas como Diógenes pertencem à eternidade. As suas assinaturas não são feitas na água.
Alexandre sentiu-se ofendido e perguntou-lhe porque se estava a rir.
– √Č muito simples! – respondeu Di√≥genes. – Se eu posso descansar e viver uma vida calma sem ter conquistado o mundo,

Continue lendo…

A Nossa Crise Mental

Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos Рpolítico, moral e intelectual?
A nossa crise prov√©m, essencialmente, do excesso de civiliza√ß√£o dos inciviliz√°veis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradi√ß√£o, n√£o envolve contradi√ß√£o nenhuma. Eu explico. Todo o povo se comp√Ķe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo √© um, esta aristocracia e este ele mesmo t√™m uma subst√Ęncia id√™ntica; manifestam-se, por√©m, diferentemente. A aristocracia manifesta-se como indiv√≠duos, incluindo alguns indiv√≠duos amadores; o povo revela-se como todo ele um indiv√≠duo s√≥. S√≥ colectivamente √© que o povo n√£o √© colectivo.
O povo portugu√™s √©, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro portugu√™s foi portugu√™s: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indiv√≠duo √© ser tudo; ser tudo em uma colectividade √© cada um dos indiv√≠duos n√£o ser nada. Quando a atmosfera da civiliza√ß√£o √© cosmopolita, como na Renascen√ßa, o portugu√™s pode ser portugu√™s, pode portanto ser indiv√≠duo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civiliza√ß√£o n√£o √© cosmopolita ‚ÄĒ como no tempo entre o fim da Renascen√ßa e o princ√≠pio, em que estamos, de uma Renascen√ßa nova ‚ÄĒ o portugu√™s deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser s√≥ portugueses. Passa a n√£o poder ter aristocracia.

Continue lendo…

O Espírito Coxo

Porque ser√° que um coxo n√£o nos irrita, e um esp√≠rito coxo nos irrita? Porque um coxo reconhece que andamos direito, enquanto um esp√≠rito coxo diz que somos n√≥s que coxeamos; se assim n√£o fosse, ter√≠amos pena e n√£o raiva. Epicteto pergunta com muito mais for√ßa: ¬ęPorque √© que n√£o nos zangamos se se diz que nos d√≥i a cabe√ßa, e nos zangamos se se diz que raciocinamos mal, ou que escolhemos mal?¬Ľ. 0 que origina isto √© o estarmos certos de que n√£o nos d√≥i a cabe√ßa e de que n√£o somos coxos; mas n√£o estamos assim t√£o seguros de que escolhemos a verdade. De maneira que, n√£o estando certos sen√£o porque o vemos com os nossos olhos, quando outro v√™ com os seus olhos o contr√°rio, pomo-nos em suspenso e espantamo-nos, e ainda mais quando mil outros se riem da nossa escolha; pois √© preciso preferir as nossas luzes √†s de tantos outros, o que √© temer√°rio e dif√≠cil. Nunca h√° esta contradi√ß√£o no que concerne a um coxo.

Tu √Čs uma Mulher Rara

Minha Anuska, onde foste buscar a ideia de que és uma mulher como outra qualquer? Tu és uma mulher rara, e, além do mais, a melhor de todas as mulheres. Tu própria não sonhas as qualidades que tens. Não só diriges a casa e as minhas coisas, como a nós todos, caprichosos e enervantes, a começar por mim e a acabar no Aléxis. Nos meus trabalhos desces ao mais pequeno pormenor, não dormes o suficiente, ocupada com a venda dos meus livros e com a administração do jornal. Contudo, conseguimos apenas economizar alguns copeques Рquanto aos rublos, onde estão eles?

Mas a teu lado nada disso tem import√Ęncia. Devias ser coroada rainha, e teres um reino para governar: juro-te que o farias melhor que ningu√©m. N√£o te falta intelig√™ncia, bom senso, sentido da ordem e, at√©… cora√ß√£o. Perguntas como posso eu amar uma mulher t√£o velha e feia como tu A√≠, sim, mentes. Para mim √©s um encanto, n√£o tens igual, e qualquer homem de sentimentos e bom gosto to dir√°, se atentar em ti. Por isso √© que √†s vezes sinto ci√ļmes. Tu pr√≥pria nem sabes a maravilha que s√£o os teus olhos, o sorriso e a anima√ß√£o que p√Ķes na conversa.

Continue lendo…

A Arte da Conversação

O que faz com que poucas pessoas sejam agradáveis na conversação é que cada uma pensa mais no que tem a intenção de dizer do que naquilo que as outras dizem, e que não se escuta às demais quando se tem vontade de falar.
Para agradar aos outros √© preciso falar daquilo de que eles gostam e que os interessa, evitar as discuss√Ķes sobre coisas indiferentes, formular-lhes raramente perguntas e n√£o os deixar crer que se pretende ter mais raz√£o que eles.
Evitemos sobretudo falar frequentemente de nós mesmos e de nos darmos como exemplo. Nada é mais desagradável do que uma pessoa que se cita a si mesma a cada passo.

A Culpa é Sempre Nossa

Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre.
Os grandes mestres s√£o os nossos pais e os nossos filhos – ambos mostram de onde veio a inspira√ß√£o para o pecado original. Ora se √© culpado por ter nascido e interrompido, ora se √© culpado por ter dado a nascer e n√£o se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos.A culpa n√£o √© uma coisa que se tenha, como um pesco√ßo. √Č uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado ¬ę√† partida¬Ľ, que tem aspas porque n√£o existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos s√£o vulner√°veis √† ideia que at√© fizeram por isso e merecem pagar.At√© com as l√Ęmpadas de casa de banho acontece. N√£o h√° dom√≠nio de banalidade que a culpa n√£o contamine. Tenho passado, nos √ļltimos anos, v√°rias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando √© oferecida.Depois aparece o electricista que √© afoito e resolve tudo num segundo.

Continue lendo…