Passagens sobre Pés

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Frases sobre p√©s, poemas sobre p√©s e outras passagens sobre p√©s para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto p√īs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
S√£o pensamentos idos e vividos.

O Poeta

Triste, lá vai à ronda dos segredos
O maluco que rouba quanto vê.
Branco, do coração aos dedos,
√Č todo antenas onde apenas l√™.

Murcha-lhe nos pés o rosmaninho
E a própria rosa, de o sentir, descora;
Mas é um Deus que passeia o seu caminho
A beber a amargura de quem chora.

Magro, l√° passa, e l√° se vai consigo
A luz das coisas e a flor de tudo.
√Č um bruxo lento, tenebroso e antigo,
Pálido, sério, solitário e mudo.

O medo da loucura. Ver a loucura em todas as emo√ß√Ķes que se esfor√ßam sempre para a frente e que nos fazem esquecer de tudo o resto. Que √©, ent√£o, a n√£o loucura? A n√£o loucura √© ficar parado, de p√©, como um mendigo √† soleira da porta, ficar ao lado da entrada, apodrecer e cair.

Missa de Anivers√°rio

H√° um ano que os teus gestos andam
ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haver√° mais singular fim de semana
do que um s√°bado assim que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levar√£o atr√°s
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que n√£o mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e l√° fora na estrada as amoreiras tenham outra vez
florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da inf√Ęncia
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata. A tua morte
deixou de nos vestir completamente
No ver√£o em que partiste bem me lembro
pensei coisas profundas
√Č de novo ver√£o.

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A Graça

Que harmonia suave
√Č esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
N√£o sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

√Čs tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solid√£o do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: ¬ęAcorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.¬Ľ
√Čs tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e p√ļrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
√Čs tu, √©s tu!, que ao p√īr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus,

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insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
h√° poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perd√£o e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal n√£o quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

A Infinita

Vês estas mãos? Mediram
a terra, separaram
os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra,
derrubaram as dist√Ęncias
de todos os mares e rios
e, no entanto,
quando te percorrem
a ti, pequena,
gr√£o de trigo, calhandra,
n√£o conseguem abarcar-te,
fatigam-se ao agarrar
as pombas gémeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as dist√Ęncias das tuas pernas,
enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim tu és tesouro mais rico
de imensidade do que o mar e seus cachos
e és branca e azul e extensa como
a terra nas vindimas.
Nesse território,
desde os pés à fronte,
andando, andando, andando,
passarei a vida.

Imitadores

Os homens n√£o descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esfor√ßos para o fazer crer. O pecado original aproximou-nos dos animais e toda a alma √©, de uma maneira ou de outra, uma crestomia zool√≥gica. O que Dante diz das ovelhas – ¬ęe o que uma faz primeiro as outras imitam¬Ľ – poder-se-ia aplicar a quase todos n√≥s.
Desde que Ad√£o resolveu imitar Eva e mordeu o fruto, somos, a despeito da nossa ilus√£o em contr√°rio, uma sucess√£o infinita de c√≥pias. Um √ļnico cunho – em regra, chamado g√©nio – basta para imprimir milhares e milhares daquelas moedas vulgares que circulam pela Terra. E o g√©nio nem sempre se liberta da servid√£o universal da imita√ß√£o. Toda a vida √© um mosaico de pl√°gios.
A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar e inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito. Compreende-se que a humildade, embora rara, leve naturalmente quem a possui a imitar aqueles que reconhece superiores, mas a própria soberba, que deveria afastar da repetição, torna-nos macacos. Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas a inveja, sob a sonante designação da emulação,

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A Não-Violência e a Cobardia não Têm nada a Ver uma com a outra

A n√£o-viol√™ncia e a cobardia n√£o t√™m nada a ver uma com a outra. Acredito que um homem armado dos p√©s √† cabe√ßa seja um cobarde no seu cora√ß√£o. A posse de armas pressup√Ķe um factor de medo, para n√£o dizer de cobardia. Mas a verdadeira n√£o-viol√™ncia √© imposs√≠vel sem a posse de uma aut√™ntica aus√™ncia de medo. (…) A n√£o-viol√™ncia nunca deveria ser utilizada como escudo da cobardia. √Č uma arma destinada aos valentes.

(…) A prova de fogo da n√£o-viol√™ncia est√° em n√£o deixar para tr√°s nenhum tipo de rancor durante um conflito n√£o-violento e, no final, em fazer com que os inimigos se convertam em amigos.

Sentimento que desperte o desprezo insultador para com o próximo, se algum há, é a humildade. Nasce o desprezo da comparação que o homem faz entre si e os outros, e da preferência que a si próprio se dá. Tal sentimento nunca tomaria pé em coração que se visse nas suas fragilidades, e reconhecesse que de Deus lhe provém todo o mérito.

Não nos sustentamos na virtude pela nossa própria força, mas pelo contrapeso de dois vícios opostos, como ficamos de pé em dois ventos contrários; tirai um desses vícios e cairemos no outro.

A Companhia do Amor

O que eu sinto n√£o seria para si uma coisa nova de que necessitasse uma clara afirma√ß√£o; √© o mesmo que eu sentia quando passe√°vamos ambos nas areias da Costa Nova. Ou antes, n√£o √© o mesmo sentimento: √© outro mais belo, mais completo; porque tendo, apesar de tudo, ficado comigo, desde que nos separ√°mos, e tendo sido o doce e fiel companheiro da minha vida desde ent√£o – esse sentimento penetrou-me de um modo mais absoluto e mais absorvente, exaltou-se e idealizou-se, e de tal sorte me invadiu todo que eu cheguei a n√£o ter pensamento, ideia, esperan√ßa, plano, a que n√£o estivesse misturada a sua imagem. E na Costa Nova ainda n√£o era assim. Dizer porque √© que eu, apesar de tudo, insistia em pensar em si, n√£o sei. O facto de n√£o serem dependentes da vontade os movimentos do cora√ß√£o n√£o √© uma suficiente explica√ß√£o: porque eu podia resistir √† importunidade desta ideia, e em lugar disso abandonava-me a ela como √† minha √ļnica alegria. Devo portanto concluir que havia um pressentimento latente, uma vaga quase certeza, uma f√© secreta de que a afinidade que existe entre as nossas naturezas se viria um dia a manifestar apesar de tudo,

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Quem, em nome da liberdade, renuncia a ser aquilo que devia ser, j√° se matou em vida: √© um suicida de p√©. A sua exist√™ncia consistir√° numa perp√©tua fuga da √ļnica realidade que era poss√≠vel.

Como a Noite é Longa!

Como a noite é longa!
Toda a noite √© assim…
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p‚Äôr‚Äôao p√© de mim…

Amei tanta coisa…
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou… J√° n√£o sei…
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei…

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,

Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

Os velhos amigos são os melhores. O rei Jaime sempre quis os seus velhos sapatos; eram mais cómodos nos seus pés.

A Audácia é Má no Conselho e boa na Execução

A aud√°cia √© filha da ignor√Ęncia e da rudeza, e muito inferior a todos os outros dons. Ela fascina, por√©m, atando-lhes os p√©s e as m√£os, aos que s√£o d√©beis de entendimento e falhos de coragem que formam a maioria; e prevalece at√© sobre os homens s√°bios nas horas da fraqueza. Por isso vemos que ela fez maravilhas nos Estados populares, menos do que nos governados por Senados ou por Pr√≠ncipes; e muito mais ao primeiro arranco das pessoas audaciosas, do que depois, porque a aud√°cia √© m√° cumpridora de promessas.
(…) Certamente aos homens de grande entendimento, os audacciosos d√£o um espect√°culo de muito gozo; e at√© mesmo para o vulgo, a aud√°cia n√£o deixa de ser rid√≠cula. Porque se o absurdo √© o fundamento do riso n√£o duvideis de que uma grande aud√°cia raramente existe sem absurdo.
(…) Deve ser bem considerado que a aud√°cia √© sempre cega, para n√£o ver os perigos e as inconveni√™ncias. Por isso ela √© m√° no conselho e boa na execu√ß√£o; para bem aproveitar e utilizar as pessoas audacciosas √© preciso que elas nunca estejam na chefia do comando, mas em segundo lugar, sob a direc√ß√£o de outros. Porque no conselho √© bom ver os perigos,

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Longus

√Č de manh√£, no outono. √Ä luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
h√° milhares de folhas amarelas…

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narra√ß√Ķes e pastorelas,
um rapaz, aindaingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas…

√Č a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados…

Sil√™ncio… Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os sil√°bicos sons, que musicados,
cantam na am√°vel pastoral de Longus…

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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