Passagens sobre Ironia

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Frases sobre ironia, poemas sobre ironia e outras passagens sobre ironia para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Ironia da Escolha

O prazer – um dos mais aut√™nticos – de apreender que algu√©m est√° for√ßado a escolher, que n√£o pode ter duas coisas ao mesmo tempo. √Č um sinal do car√°cter tr√°gico da vida, que consiste no facto de um valor n√£o se conciliar com outro. Consequ√™ncia: renunciaste a muitas coisas para ter uma s√≥ – e agrada-te que os outros sintam tamb√©m o imp√©rio desta lei.
As pessoas que take for granted qualquer coisa entram em colisão contigo na medida justamente em que pretendem escapar a esse carácter trágico. As pessoas que gozam pagãmente qualquer coisa, idem, na medida também em que negam, por avidez, a incerteza e a contingência. Aspirar a qualquer coisa, pretendê-la, é em si mesmo agressivo na medida em que suprime a ironia da vida.
Odiamos os outros porque nos odiamos a nós próprios.
Tu, no entanto, take for granted o que não se deve take for granted. Aqui vem a propósito a pureza do coração, a humildade, a aceitação do mundo de Deus.

IX

De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
Usam todas de l√°grimas e preces:
Tu de acerbas risadas e ironias.

De modo tal minha atenção desvias,
Com tal perícia meu engano teces,
Que, se gelado o coração tivesses,
Certo, querida, mais ardor terias.

Olho-te: cega ao meu olhar te fazes …
Falo-te – e com que fogo a voz levanto! –
Em v√£o… Finges-te surda √†s minhas frases…

Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto!

Ideais Fatais

N√£o h√° ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, n√≥s os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade. A sombra terrestre que se alonga por detr√°s dos deuses de m√°rmore basta para nos afastar deles. Ah, com que amplexo o homem se estreitou a si pr√≥prio! P√°tria, justi√ßa, grandeza, piedade, verdade, qual das suas est√°tuas n√£o traz em si os sinais das m√£os humanas para que n√£o desperte a mesma ironia triste que os velhos rostos outrora amados? Compreender n√£o significa necessariamente aceitar todas as loucuras. E, no entanto, quantos sacrif√≠cios, quantos hero√≠smos injustificados dormem em n√≥s…

A ironia atinge apenas a intelig√™ncia. In√ļtil desperdi√ß√°-la com os que est√£o longe do seu alcance. Contra estes ainda n√£o se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice √© invenc√≠vel.

A Minha Lista dos Grandes Autores

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua √°rvore geneal√≥gica liter√°ria, isto √©, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presun√ß√£o de rela√ß√Ķes ou equival√™ncias de m√©rito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Tamb√©m se pedia que, em brev√≠ssimas palavras, fosse dada a justifica√ß√£o dessa esp√©cie de adop√ß√£o ao contr√°rio, em que era o ¬ędescendente¬Ľ a escolher o ¬ęascendente¬Ľ. A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma √°rvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que h√£o-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamenta√ß√£o, foi esta: Lu√≠s de Cam√Ķes, porque, como escrevi no ¬ęAno da Morte de Ricardo Reis¬Ľ, todos os caminhos portugueses a ele v√£o dar; Padre Ant√≥nio Vieira, porque a l√≠ngua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Pen√≠nsula Ib√©rica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque n√£o precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilus√Ķes sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brand√£o, porque demonstrou que n√£o √© preciso ser-se g√©nio para escrever um livro genial,

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Feliz Dia para Quem √Č

Feliz dia para quem é
O igual do dia,
E no exterior azul que vê
Simples confia!

Azul do céu faz pena a quem
N√£o pode ser
Na alma um azul do céu também
Com que viver

Ah, e se o verde com que est√£o
Os montes quedos
Pudesse haver no coração
E em seus segredos!

Mas vejo quem devia estar
Igual do dia
Insciente e sem querer passar.
Ah, a ironia

De só sentir a terra e o céu
T√£o belo ser
Quem de si sente que perdeu
A alma p’ra os ter!

Dói-me a Vida aos Poucos

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. H√° s√≥ um presente im√≥vel com um muro de ang√ļstia em torno. A margem de l√° do rio nunca, enquanto √© a de l√°, √© a de c√°, e √© esta a raz√£o intima de todo o meu sofrimento. H√° barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida n√£o doer, nem h√° desembarque onde se esque√ßa. Tudo isto aconteceu h√° muito tempo, mas a minha m√°goa √© mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo,

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Aquella Orgia

Nós eramos uns dez ou onze convidados,
– Todos buscando o gozo e achando o abatimento,
E todos afinal vencidos e quebrados
No combate da Vida inutil e incruento.

Tocava o termo a ceia – e ia surgindo o alvor
Da madrugada vaga, etherea e crystallina,
A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor,
Branca como uma flor de prata florentina.

Todos riam sem causa. – A estolida batalha
Da Materia e da Luz travara-se afinal,
E eram j√° c√īr de vinho os risos e a toalha,
– E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.

Crusavam-se no ar ditos como facadas;
Escandalos de amor, historias sensuaes…
– Rolavam nos divans caindo, √°s gargalhadas,
Sujos como tru√Ķes, torpes como animaes.

Um agitando o ar com risos desmanchados,
Recitava can√ß√Ķes, far√ßas, Hamlet e Ophelia;
РOutro perdido o olhar, e os braços encruzados,
De bru√ßos, n’um divan, roia uma camelia!

Outros fingindo a d√īr, fallavam dos ausentes,
Das amantes, dos paes, com gritos d’afflic√ß√£o,
– Um brandia um punhal, com ditos incoherentes;

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Rir!

Rir! Não parece ao século presente
Que o rir traduza, sempre, uma alegria…
Rir! Mas n√£o rir como essa pobre gente
Que ri sem arte e sem filosofia.

Rir! Mas com o rir atroz, o rir tremente,
Com que André Gil eternamente ria.
Rir! Mas com o rir demolidor e quente
Duma profunda e tr√°gica ironia.

Antes chorar! Mais f√°cil nos parece.
Porque o chorar nos ilumina e nos aquece
Nesta noite gelada do existir.

Antes chorar que rir de modo triste…
Pois que o difícil do rir bem consiste
S√≥ em saber como Henri Heine rir!…

Mesmo quando nervoso, trate bem a pessoa amada, sem ironia. ‚ÄėAmor‚Äô, ‚ÄėQuerida‚Äô, ‚ÄėMeu bem‚Äô, s√£o tratativas d√≥ceis que atenuam o momento. Use-as e suavize sua rela√ß√£o, tornando-a forte e longeva.

Por aquela t√£o doce e t√£o breve ilus√£o Embora nunca mais Depois de que a vi desfeita Eu volte a ser quem fui Sem ironia aceita A minha gratid√£o

O Segredo e o Mistério

Mistérios a pouco e pouco vão morrendo
e extenuados de vigília os anjos
s√£o afinal a sussurrantes sibilinas vozes
que desvendam adivinham segredos
atr√°s de sentinelas
cuja ferocidade é uma ironia de ternura…
Na palidez da luz
cercando uma velha cabeça
a quem um sono de embri√£o j√° tolda os olhos
sorriem enigm√°ticos os sonhos.

Porqu√™ Camuflar as Nossas Convic√ß√Ķes?

Desde que nos propomos emitir uma verdade de acordo com as nossas convic√ß√Ķes damos logo a impress√£o de fazer ret√≥rica. Que esp√©cie de prestidigita√ß√£o vem a ser essa? Como √© que nos nossos dias n√£o poucas verdades, proferidas que sejam, por vezes, mesmo em tom pat√©tico, imediatamente ganham aspectos ret√≥ricos? Porqu√™ √© que na nossa √©poca cada vez h√° mais necessidade, quando pretendemos dizer a verdade, de recorrer ao humor, √† ironia, √† s√°tira? Porqu√™ ado√ßar a verdade como se se tratasse de uma p√≠lula amarga? Porqu√™ envolver as nossas convic√ß√Ķes num misto de altiva indiferen√ßa, digamos, de desprezo para com o p√ļblico? Numa palavra, porqu√™ certo ar de p√≠cara condescend√™ncia? Em nossa opini√£o, o homem de bem n√£o tem de envergonhar-se das suas convic√ß√Ķes, ainda mesmo que estas transpare√ßam sob a forma ret√≥rica, sobretudo se est√° certo delas.

Barco Perdido

Oh! a vida √© uma grande ren√ļncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora…
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de ren√ļncia em ren√ļncia aos poucos vai embora…

Tu voltaste de novo… e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na express√£o comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida…

No entanto, que fazer? H√° uma √Ęncora no fundo…
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto…

Velas r√ītas ao vento… os mastros aos peda√ßos…
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto…

A Minha Poesia

Aquilo que dentro da minha produ√ß√£o po√©tica pode eventualmente definir-me, entre os poetas da minha gera√ß√£o, √© o resultado do esfor√ßo para conquistar um espa√ßo independente, ou seja, a minha forma particular de universalizar. Perten√ßo ao n√ļmero dos que atribuem √† poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo. A poetiza√ß√£o das coisas n√£o √© sen√£o o aperfei√ßoamento delas. √Č para isto que se faz poesia e n√£o para com ela se fazer literatura. Os transes de ironia e de revolta que muitas vezes tecem os meus poemas, s√£o o regurgitar de um incontinente entusiasmo por um sonegado destino de amor e liberdade que o poeta escuta ao estimular a supera√ß√£o das coisas e dos seres e que n√£o v√™ cumprida. A luta contra o tempo gerando o sublime engendra-lhe o reverso que √© a abjec√ß√£o de se viver condicionalmente. Aquilo que Jaspers chama o incondicional e que emana de uma liberdade que n√£o pode ser de outra maneira, que n√£o √© causa de leis naturais mas o seu fundamento transcendente e que √© o sublime de cada um, resulta na maior trai√ß√£o, porque n√£o √© dado ao homem como sua exist√™ncia, mas deslumbrado num estado de supera√ß√£o. A luta pelo incondicional em choque com a minha condicionalidade,

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Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paix√Ķes tardias
S√£o ironias
Dos deuses desleais.