Textos sobre Ideias

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Textos de ideias escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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O Progresso Universal do Saber nunca é Imediato

Embora o progresso do saber humano, como a queda dos graves, adquira em cada instante maior celeridade, todavia √© muito dif√≠cil acontecer que uma mesma gera√ß√£o de homens mude de opini√Ķes ou reconhe√ßa os pr√≥prios erros, de maneira que acredite hoje no contr√°rio daquilo em que acreditou num outro tempo. Prepara, sim, essas possibilidades para a que se lhe segue, a qual depois descobre e acredita, em muitos aspectos, no oposto daquela. Mas, assim como ningu√©m sente o movimento perp√©tuo que nos transporta em rota√ß√£o juntamente com a Terra, tamb√©m a generalidade dos homens n√£o se apercebe do progresso cont√≠nuo que os seus conhecimentos fazem, nem da constante varia√ß√£o dos seus ju√≠zos. E nunca muda de opini√£o de tal modo que fique convencida de a ter mudado. Por√©m, n√£o poderia deixar de ficar convencida e de dar por isso, sempre que concebesse de repente uma ideia muito contr√°ria √†quelas que vigoravam at√© √†quele momento. Portanto, nenhuma verdade constru√≠da desta maneira, a n√£o ser que seja palp√°vel, ser√° alguma vez unanimamente cred√≠vel para os conempor√Ęneos do primeiro que a descobriu.

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Colectiva

Produto de dois s√©culos de falsa educa√ß√£o fradesca e jesu√≠tica, seguidos de um s√©culo de pseudo-educa√ß√£o confusa, somos as v√≠timas individuais de uma prolongada servid√£o colectiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccion√°ria, por livres-pensadores para quem o c√ļmulo do livre-pensamento era impedir uma prociss√£o de sair, de ma√ß√£os para quem a Ma√ßonaria (longe de a considerarem a deposit√°ria da heran√ßa sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbon√°ria ritual. Produto assim de educa√ß√Ķes dadas por criaturas cuja vida era uma perp√©tua trai√ß√£o √†quilo que diziam que eram, e √†s cren√ßas ou ideias que diziam servir, t√≠nhamos que ser sempre dos arredores…

A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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√Č Preciso Procurar uma S√≥ Coisa para Encontrar Muitas

Desaparecido o fervor de uma monomania, falta uma ideia central para dar significado aos momentos interiores esparsos. Em suma, quanto mais o esp√≠rito est√° absorvido por um humor dominante, mais a paisagem interior se enriquece e varia. √Č preciso procurar uma s√≥ coisa, para encontrar muitas.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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O Mal só nos Afecta na Medida em que o Deixarmos

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto,

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O Paradoxo da Representação da Realidade

Farei, por√©m, um esfor√ßo para vos dar aquela realidade que voc√™s julgam ter, ou seja, esfor√ßar-me-ei por vos querer em mim como voc√™s se querem. J√° sabemos que n√£o √© poss√≠vel, dado que, por mais esfor√ßos que eu fa√ßa para vos representar √† vossa maneira, ser√° sempre ¬ę√† vossa maneira¬Ľ apenas para mim, n√£o ¬ę√† vossa maneira¬Ľ para voc√™s e para os outros.
Mas desculpem: se para voc√™s eu n√£o tenho outra realidade fora daquela que voc√™s me d√£o, e estou pronto a reconhecer e a admitir que essa n√£o √© menos verdadeira que a que eu poderei dar a mim mesmo, que essa, para voc√™s, √© a √ļnica verdadeira (e sabe Deus a realidade que voc√™s me d√£o!), v√£o lamentar-se agora da realidade que eu lhes darei, esfor√ßando-me, com toda a boa vontade, por vos representar √† vossa maneira tanto quanto me seja poss√≠vel?
N√£o presumo que voc√™s sejam como eu vos represento. J√° disse que voc√™s tamb√©m n√£o s√£o aquele um tal como o representam para voc√™s pr√≥prios, mas muitos ao mesmo tempo, segundo todas as vossas possibilidades de ser e os acasos, as rela√ß√Ķes e as circunst√Ęncias. Ent√£o, que mal √© que eu vos fiz?

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Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros n√£o aparecem como colaboradores, mas como inimigos, n√£o pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma vis√£o mais ampla do mundo; esfor√ßo de vencer, temor de ser vencido; √© j√° todo o temperamento de ¬ęstruggle¬Ľ que se afina na escola e lan√ßar√° amanh√£ sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem n√£o sabe combater ou n√£o tem interesse pela luta ficar√° para tr√°s, entre os piores; e √© certamente esta predomin√Ęncia dada ao esp√≠rito de batalha um dos grandes malef√≠cios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos;

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Venda da Alma e Venda do Corpo

N√£o s√≥ as mulheres que casam sem amor, mas apenas por conveni√™ncia; n√£o s√≥ as esposas que continuam a comer o p√£o daquele que j√° n√£o amam e enganam; n√£o s√≥ as mulheres se prostituem. √Č prostituto o escritor que coloca a pena ao servi√ßo das ideias em que n√£o cr√™; o advogado que defende causas que reconhece injustas; quem finge a ades√£o aos mitos e interesses dos poderosos para obter recompensas materiais e morais; o actor e o bobo que se exp√Ķem diante dos idiotas pagantes para arrecadar aplausos e dinheiro; o poeta que abre aos estranhos os segredos da sua alma, amores e melancolias, para obter em compensa√ß√£o um pouco de fama, de dinheiro ou de compaix√£o; e, acima de tudo, √© prostituto o pol√≠tico, o demagogo, o tribuno que todos devem acariciar, seduzir, a todos promete favores e felicidade e a todos se entrega por amor √† popularidade – justamente chamado homem p√ļblico, quase irm√£o de toda a mulher p√ļblica.
Mas quem de entre n√≥s, pelo menos um dia da sua vida, n√£o simulou um sentimento que n√£o tinha e um entusiasmo que n√£o sentia e repetiu uma opini√£o falsa para obter compensa√ß√Ķes, cumplicidades, sorrisos ou benef√≠cios?

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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Encarar a Morte

√Č talvez sinal de pris√£o ao mundo dos fen√≥menos o terror e a dor ante a chegada da morte ou a serena mas entristecida resigna√ß√£o com que a fizeram os gregos uma doce irm√£ do sono; para o esp√≠rito liberto ela deve ser, como o som e a cor, falsa, exterior e passageira; n√£o morre, para si pr√≥prio nem para n√≥s, o que viveu para a ideia e pela ideia, n√£o √© mais existente, para o que se soube desprender da ilus√£o, o que lhe fere os ouvidos e os olhos do que o puro entender que apenas se lhe apresenta em pensamento; e tanto mais alto subiremos quando menos considerarmos a morte como um enigma ou um fantasma, quanto mais a olharmos como uma forma entre as formas.

O Objectivo e o Subjectivo

Representamos o objectivo e o subjectivo, a quantidade e a qualidade, o n√ļmero cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a m√ļsica das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cen√°rio s√≥lido, l√≠quido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; – tr√™s virtudes do f√īlego animado, porque muda o que come, em sensa√ß√Ķes, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme √© l√≠mpido o ar ou enevoado… √Č de s√≥lida origem a sensa√ß√£o; o sentimento √© j√° de origem fluidica; e, ent√£o, o pensamento √© s√≥ cor azul ou imagem √≠ntima da luz.

O Nosso Infinito

H√° ou n√£o um infinito fora de n√≥s? √Č ou n√£o √ļnico, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a mat√©ria, limitar-se-ia √†quilo; necess√°riamente inteligente, pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a intelig√™ncia, acabaria ali? Desperta ou n√£o em n√≥s esse infinito a ideia de ess√™ncia, ao passo que n√≥s n√£o podemos atribuir a n√≥s mesmos sen√£o a ideia de exist√™ncia? Por outras palavras, n√£o √© ele o Absoluto, cujo relativo somos n√≥s?
Ao mesmo tempo que fora de n√≥s h√° um infinito n√£o h√° outro dentro de n√≥s? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) n√£o se sobrep√Ķem um ao outro? N√£o √© o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? N√£o √© o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo conc√™ntrico a outro abismo? Este segundo infinito n√£o √© tamb√©m inteligente? N√£o pensa? N√£o ama? N√£o tem vontade? Se os dois infinitos s√£o inteligentes, cada um deles tem um princ√≠pio volante, h√° um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h√° no infinito de baixo. O eu de baixo √© a alma; o eu de cima √© Deus.
P√īr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima,

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