CitaçÔes sobre AusĂȘncia

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Frases sobre ausĂȘncia, poemas sobre ausĂȘncia e outras citaçÔes sobre ausĂȘncia para ler e compartilhar. Leia as melhores citaçÔes em Poetris.

A Hipocrisia do Amor-PrĂłprio

A natureza do amor-prĂłprio e deste eu humano Ă© de sĂł se amar a si e de sĂł se considerar a si. Mas que hĂĄ-de fazer? NĂŁo saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de misĂ©rias: quer ser grande e vĂȘ-se pequeno; quer ser feliz e vĂȘ-se miserĂĄvel; quer ser perfeito – vĂȘ-se cheio de imperfeiçÔes; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e vĂȘ que os seus defeitos sĂł merecem a sua aversĂŁo e o seu desprezo. Este embaraço em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paixĂŁo que Ă© possĂ­vel imaginar; porque concebe um Ăłdio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquilĂĄ-la, e nĂŁo a podendo destruir em si mesma, destrĂłi-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto Ă©, pĂ”e todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e nĂŁo suporta que lhos façam ver, nem que lhos vejam.
É sem dĂșvida um mal estar cheio de defeitos; mas Ă© ainda um mal muito maior estar cheio e nĂŁo os querer reconhecer, visto que Ă© acrescentar-lhe ainda o de uma ilusĂŁo voluntĂĄria.

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Seleccionei para Ti

Seleccionei para ti
esta manhĂŁ de setembro
Ă  margem dela
trabalho
para que
em canto e glĂłria
sejas o centro unitĂĄrio
no corpo dessa elegia
relacionei coisas miĂșdas
que possam complementar
o equilĂ­brio das formas
que te transitam eleita
na exaltação de meu sonho
e dentro desse equilĂ­brio
um nĂșcleo de resistĂȘncia
feito uma flor
uma fonte
que se iluminam feridas
de uma incidĂȘncia de luz
o pouso breve de um pĂĄssaro
que em vigilĂąncia
nos olhos
preserva o voo completo
a mĂșsica radical
do teu contexto moreno
a fala que nĂŁo se escuta
na fundação dos abraços
evocação do momento
que defrontou
por acaso
a minha
e a tua vida
erguido o painel de espaço
Ă©s madrugada no dia
e retomada no tempo
Ă©s unidade centrada
compondo a mesma harmonia
assim usei tua ausĂȘncia
num pressuposto de esquema
buscando tua presença
sobre alicerces de um poema

IdĂ­lio

Praias, que banha o Tejo caudaloso:
Ondas, que sĂŽbre a areia estais quebrando:
Ninfas, que ides escumas levantando:
Escutai os suspiros dum saĂŒdoso.

E vós também, ó cÎncavos rochedos,
Que dos ventos em vĂŁo sois combatidos,
Ouvi o triste som de meus gemidos,
jĂĄ que de Amor calais tantos segredos.

Ai, amada Tircéa, se eu pudera
os teus formosos olhos ver agora,
Que depressa o pesar, que esta alma chora,
No gĂŽsto mais feliz se convertera!

Oh, como entĂŁo ficaras conhecendo
Quanto te amo, se visses a violĂȘncia
Com que estĂŁo de meus olhos nesta ausĂȘncia
Estas saĂŒdosas lĂĄgrimas correndo!

Tanto neste pesar, que estou sentindo,
O triste coração se desfalece,
e tanto me atormenta, que parece
Que ao sofrimento a alma vai fugindo.

Mas oh, qual hĂĄ de ser a crueldade
Deste terrĂ­vel mal, em que ando envolto,
Se a qualquer parte, emfim, que os olhos volto,
Imagens estou vendo de saudade.

A Religião como Ficção

– A fĂ© Ă© uma resposta instintiva a aspectos da existĂȘncia que nĂŁo podemos explicar de outro modo, seja o vazio moral que percebemos no universo, a certeza da morte, a prĂłpria origem das coisas, o sentido da nossa vida ou a ausĂȘncia dele. SĂŁo aspectos elementares e de extrema simplicidade, mas as nossas limitaçÔes impedem-nos de responder de modo inequĂ­voco a essas perguntas e por isso geramos, como defesa, uma resposta emocional. É simples e pura biologia.
– EntĂŁo, a seu ver, todas as crenças ou ideais nĂŁo passariam de uma ficção.
– Toda a interpretação ou observação da realidade o Ă© necessariamente. Neste caso, o problema reside no facto de o homem ser um animal moral abandonado num universo amoral e condenado a uma existĂȘncia finita e sem outro significado que nĂŁo seja perpetuar o ciclo natural da espĂ©cie. É impossĂ­vel sobreviver num estado prolongado de realidade, pelo menos para o ser humano. Passamos uma boa parte das nossas vidas a sonhar, sobretudo quando estamos acordados. Como digo, pura biologia.

A Dor e o TĂ©dio SĂŁo os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o tĂ©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: Ă  medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, expĂ”e uma oscilação mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a privação geram a dor; em contrapartida, a segurança e a abundĂąncia geram o tĂ©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocrĂĄtico, pelo contrĂĄrio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o tĂ©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indivĂ­duo, a susceptibilidade para um encontra-se em proporção inversa Ă  susceptibilidade para o outro, jĂĄ que ela Ă© determinada pela medida das suas forças espirituais. Com efeito, a obtusidade do espĂ­rito estĂĄ, em geral, associada Ă  da sensação e Ă  ausĂȘncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indivĂ­duo menos susceptĂ­vel Ă s dores e afliçÔes de qualquer tipo e intensidade.

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Personagem

Teu nome Ă© quase indiferente
e nem teu rosto jĂĄ me inquieta.
A arte de amar Ă© exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o prĂłprio amor que por ti sinto:
Ă©s a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
Ă© um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto Ă© que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silĂȘncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existĂȘncia,
tudo – o espaço evita e consome:
e eu sĂł conheço a tua ausĂȘncia.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

A AusĂȘncia Desincorpora

A AusĂȘncia desincorpora – e assim faz a Morte
Escondendo os indivĂ­duos da Terra
A Superstição ajuda, tal como o amor –
A Ternura diminui Ă  medida que a experimentamos –

Tradução de Nuno JĂșdice

A Morte, que da vida o nĂł desata, os nĂłs, que dĂĄ o Amor, cortar quisera na AusĂȘncia, que Ă© contra ele espada fera, e com o Tempo, que tudo desbarata.

Arrumar os Mortos

É preciso que compreendam: nĂłs nĂŁo temos competĂȘncia para arrumarmos os mortos no lugar do eterno.
Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei.
A mais sĂ©ria consequĂȘncia desta promiscuidade Ă© que a prĂłpria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascĂ­nio da ausĂȘncia total.
A morte deixa de ser a mais incuråvel e absoluta diferença entre os seres.

Os Amigos SĂŁo Pessoas que se Preferem

Se hĂĄ um lugar onde a integridade prĂłpria nĂŁo Ă© ameaçada pela falta de verdade e pela ausĂȘncia de liberdade, ele Ă©, sem dĂșvida, a amizade. Os amigos sĂŁo pessoas que se preferem. Cada amigo Ă©, por isso, uma rejeição de muitas outras. Querer ser «amigo de toda a gente», usar indeliberadamente as palavras amigo e amiga para descrever todos os conhecimentos indistintivamente, prezar a amizade como valor abstracto sem investir energicamente numa prĂĄtica particular – tudo isto Ă© um egoĂ­smo guloso, escondendo a frieza e o interesse em reificaçÔes abstrusas de conceitos demasiado gerais, inevitavelmente presos a visĂ”es fraudulentas da «humanidade».

Recear a criação de inimigos é querer impedir, logo à partida, a criação de uma amizade. Uma das tragédias da nossa idade é a invasão do domínio pessoal por valores que pertencem apenas ao domínio social. Assim, a liberdade, por exemplo, passou a ser um verdadeiro constrangimento do amor, da amizade. Certas noçÔes de autonomia acabam por destruir a base profunda de uma relação humana séria e sentida: a lealdade. Não se pode querer amar e ser amado sem prescindir daquilo que se preza ser a «liberdade». A lealdade é um constrangimento que se aceita e que se cumpre em nome de algo (de alguém) que se julga (porque se ama) mais precioso que a liberdade.

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Liberdade polĂ­tica significa ausĂȘncia de coerção de um homem pelo seu compatriota. A ameaça fundamental Ă  liberdade Ă© o poder de coagir, esteja ele nas mĂŁos de um monarca, de um ditador, de uma oligarquia ou de uma maioria momentĂąnea.

Falar Sempre, Pensar Nunca

Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos Ășltimos rincĂ”es, a cultura organizada corta aos homens o acesso Ă  derradeira possibilidade da experiĂȘncia de si mesmo. E esclarecimento jĂĄ pronto transforma nĂŁo sĂł a reflexĂŁo espontĂąnea, mas o discernimento analĂ­tico, cuja força Ă© igual Ă  energia e ao sofrimento com que eles se obtĂȘm, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da histĂłria individual, que o mĂ©todo ortodoxo se inclina jĂĄ a reduzir a fĂłrmulas, em vulgares convençÔes.
AtĂ© a prĂłpria dissolução das racionalizaçÔes se torna racionalização. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, dependĂȘncia materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, sĂŁo pouco menos que incompreensĂ­veis. O horror em face ao abismo do eu Ă© eliminado mediante a consciĂȘncia de que nĂŁo se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto ameaçador. São aceites; não sanados, mas encaixados somente na superfície da vida normalizada como seu ingrediente inevitåvel. São, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identificação do indivíduo com a instùncia social;

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Liberdade IlusĂłria

A forma Ă© sempre ausĂȘncia de liberdade, mesmo quando Ă© desejada. Por isso, em nenhuma forma de Estado, mesmo na aparentemente mais livre, a noção filosĂłfica ou mesmo polĂ­tica de liberdade pode ser transposta para a realidade. Em si, pois, a repĂșblica Ă© tĂŁo pouco sinĂłnima de liberdade como a monarquia – mesmo absoluta – Ă© sinĂłnimo de falta de liberdade. A diferença entre as formas de Estado reside sempre no ritual, e o ritual Ă© sempre determinado, em Ășltima anĂĄlise, pela personalidade daquele que estĂĄ no cimo (quer seja imperador ou presidente).

Gosto de uma mulher com defeitos – e um ponderado excesso de carnes, Ă s vezes, Ă© o mais belo deles. Bem vistas as coisas, a formosura pode conviver com a gordura. O que nĂŁo pode nunca Ă© conviver com a transparĂȘncia, com a falta de histĂłria, com a ausĂȘncia de profundidade.