Textos sobre Ritmo

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Textos de ritmo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Sou J√° Meus Pensamentos Mas N√£o Eu

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.

Arte e Sensibilidade

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.
2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualiza√ß√£o directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmiss√≠vel (√© isto que vulgarmente se chama “inspira√ß√£o”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensa√ß√£o √† frase intelectual (prim. vers√£o: tirem da sensa√ß√£o o que n√£o pode ser sens√≠vel aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, refor√ßam o que lhes pode ser sens√≠vel); b) a reflex√£o cr√≠tica sobre essa intelectualiza√ß√£o, que sujeita o produto art√≠stico elaborado pela “inspira√ß√£o” a um processo inteiramente objectivo ‚ÄĒ constru√ß√£o, ou ordem l√≥gica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente,

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A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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A Disposição da Razão

N√£o s√£o apenas as febres, as beberagens e os grandes infort√ļnios que abatem o nosso julgamento; as menores coisas do mundo o transtornam. E n√£o se deve duvidar, ainda que n√£o o sent√≠ssemos, que, se a febre cont√≠nua pode arrasar a nossa alma, a ter√ß√£ tamb√©m lhe cause alguma altera√ß√£o de acordo com o seu ritmo e propor√ß√£o. Se a apoplexia entorpece e extingue totalmente a vis√£o da nossa intelig√™ncia, n√£o se deve duvidar que a coriza a ofusque; e consequentemente mal podemos encontrar uma √ļnica hora da vida em que o nosso julgamento esteja na sua devida disposi√ß√£o, estando o nosso corpo sujeito a tantas muta√ß√Ķes cont√≠nuas e guarnecido de tantos tipos de recursos que (acredito nos m√©dicos) √© muito dif√≠cil que n√£o haja sempre algum deles andando torto.
De resto, essa doença não se revela tão facilmente se não for totalmente extrema e irremediável, pois a razão segue sempre em frente, mesmo torta, mesmo manca, mesmo desancada, tanto com a mentira como com a verdade. Assim, é difícil descobrir-lhe o erro e o desarranjo. Chamo sempre de razão essa aparência de raciocínio que cada qual forja em si Рessa razão por cuja condição pode haver cem raciocínios contrários em torno de um mesmo assunto,

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Olhar para as Coisas com alguma Dist√Ęncia

Percorrendo as ruas fui descobrindo coisas espantosas que l√° ocorriam desde sempre, disfar√ßadas sob uma m√°scara t√©nue de normalidade: um vi√ļvo que, depois de se reformar, passava as tardes sentado no carro, a porta aberta, a perna esquerda fora, a direita dentro; um sujeito t√£o magro que se podia tomar por uma figura de cart√£o, ideia refor√ßada por andar de bicicleta e, sobretudo, por nela carregar o papel√£o que recolhia nos contentores do lixo; a mulher que, com uma regularidade cronom√©trica, vinha √† janela, olhava para um lado e para o outro, como se aguardasse h√° muito a chegada de algu√©m. Eram tr√™s exemplos de situa√ß√Ķes que – creio ser esta a melhor formula√ß√£o – aconteciam desde sempre e pela primeira vez. Se olharmos para as coisas com alguma dist√Ęncia, retirando-as do contexto, deixando-nos contaminar pela estranheza, tudo, tudo mesmo, adquire uma aura macabra e repetitiva, singular, reconhec√≠vel, que se mistura com a subst√Ęncia dos sonhos, a mat√©ria das mentes perturbadas. Penso sempre, n√£o sei porque, que talvez a resposta esteja naquela revista antiga que n√£o resistiu √†s tra√ßas: nos sobreviventes de Hiroxima, no clar√£o absoluto que os cegou, no mundo irreal em que foram condenados a viver a partir desse momento,

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A Diplomacia é um Exercício de Grande Violência Interior

Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Fragmento do Homem

Que tempo √© o nosso? H√° quem diga que √© um tempo a que falta amor. Convenhamos que √©, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsess√£o do lucro foi transformando o homem num objecto com pre√ßo marcado. Estrangeiro a si pr√≥prio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem √† tona √© o mais abomin√°vel dos simulacros. Toda a arte moderna nos d√° conta dessa cat√°strofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa den√ļncia; a sua dignidade, em n√£o pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar m√°scaras e m√°scaras.
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogm√°tico √© mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias √† ¬ęsabedoria¬Ľ do corpo, em que o privil√©gio de uns poucos √© utilizado implacavelmente para transformar o indiv√≠duo em ¬ęcad√°ver adiado que procria¬Ľ, como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situa√ß√£o, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde esp√≠rito e sangue ardem no mesmo fogo, est√£o arraigados no pr√≥prio cerne da vida?

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Vencer o Medo

Parecemos estar hoje animados quase exclusivamente pelo medo. Receamos at√© aquilo que √© bom, aquilo que √© saud√°vel, aquilo que √© alegre. E o que √© o her√≥i? Antes de mais, algu√©m que venceu os seus medos. √Č poss√≠vel ser-se her√≥i em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um her√≥i quando este aparece. A sua virtude singular √© o facto de ele ser um s√≥ com a vida, um s√≥ consigo pr√≥prio. Tendo deixado de duvidar e de interrogar, acelera o curso e o ritmo da vida. O cobarde, par contre, procura deter o fluxo da vida. E claro que n√£o det√©m nada, a menos que se detenha a si pr√≥prio. A vida continua sempre a avan√ßar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como her√≥is. A vida n√£o imp√Ķe outra disciplina – se ao menos o soub√©ssemos compreender! – para al√©m de a aceitarmos tal como √©. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece s√≥rdido, doloroso, mau, poder√° tornar-se numa fonte de beleza, alegria e for√ßa, se o enfrentarmos com largueza de esp√≠rito. Todos os momentos s√£o momentos de ouro para os que t√™m a capacidade de os ver como tais.

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O Perigo da Extinção do Individualismo

Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomera√ß√Ķes de seres humanos, que v√£o e v√™m pelas suas ruas ou se concentram em festivais e manifesta√ß√Ķes pol√≠ticas, incorpora-se em mim, obsedante, este pensamento: pode hoje um homem de vinte anos formar um projecto de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria realizar-se mediante as suas iniciativas independentes, mediante os seus esfor√ßos particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem na sua fantasia, n√£o notar√° que √©, sen√£o imposs√≠vel, quase improv√°vel, porque n√£o h√° √† sua disposi√ß√£o espa√ßo em que possa aloj√°-la e em que possa mover-se segundo o seu pr√≥prio ditame? Logo advertir√° que o seu projecto trope√ßa com o pr√≥ximo, como a vida do pr√≥ximo aperta a sua. O des√Ęnimo leva-lo-√° com a facilidade de adapta√ß√£o pr√≥pria da sua idade a renunciar n√£o s√≥ a todo o acto, como at√© a todo o desejo pessoal e buscar√° a solu√ß√£o oposta: imaginar√° para si uma vida standard, composta de desideratos comuns a todos e ver√° que para consegui-la tem de a solicitar ou exigir em coletividade com os demais. Da√≠ a ac√ß√£o em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação efectiva em que se vão achando quase todos os europeus.

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O Progresso n√£o se Deve ao Instinto Pr√°tico

Precisamos de nos desfazer do actual preconceito que atribui o desenvolvimento da ci√™ncia moderna, vista a sua aplicabilidade, a um desejo pragm√°tico de melhorar as condi√ß√Ķes da vida humana na terra. A hist√≥ria mostra claramente que a moderna tecnologia resultou n√£o da evolu√ß√£o daquelas ferramentas que o homem sempre havia inventado para atenuar o labor e de erigir o artif√≠cio humano, mas exclusivamente da busca de conhecimento in√ļtil, inteiramente desprovido de senso pr√°tico.
Assim, o rel√≥gio, um dos primeiros instrumentos modernos n√£o foi inventado para os fins da vida pr√°tica, mas exclusivamente para a finalidade altamente ¬ęte√≥rica¬Ľ de realizar certas experi√™ncias com a natureza. √Č certo que esta interven√ß√£o, logo que a sua utilidade pr√°tica foi percebida, mudou o ritmo e a pr√≥pria fisionomia da vida humana; mas isto, do ponto de vista dos inventores, foi um mero acidente.
Se tiv√©ssemos de confiar apenas nos chamados instintos pr√°ticos do homem, jamais teria havido qualquer tecnologia digna de nota; e, embora as inven√ß√Ķes t√©cnicas hoje existentes tragam em si um dado impulso que, provavelmente, gerar√° melhoras at√© um certo ponto, √© pouco prov√°vel que o nosso mundo condicionado √† t√©cnica pudesse sobreviver, e muito menos continuar a desenvolver-se, se consegu√≠ssemos convencer-nos de que o homem √©,

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Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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Da Poesia e da Tragédia

Parece que a poesia tem inteiramente a sua origem em duas causas, ambas naturais. Porque a imita√ß√£o √© natural ao homem desde a inf√Ęncia, e nisto difere dos outros animais, pois que ele √© o mais imitador de todos, aprende as primeiras coisas por meio da imita√ß√£o, e todos se deleitam com as imita√ß√Ķes. √Č prova disto o que acontece a respeito dos art√≠fices, porque n√≥s contemplamos com prazer as imagens mais exactas daqueles mesmos objectos para que olhamos com repugn√Ęncia; por exemplo, a representa√ß√£o de animais feroc√≠ssimos e de cad√°veres. E a raz√£o disto √© porque o aprender √© coisa que muito apraz n√£o s√≥ aos fil√≥sofos, mas tamb√©m igualmente aos demais homens, posto que estes sejam menos instru√≠dos. Por isso se alegram de ver as imagens, pois que, olhando para elas, podem aprender e discorrer o que uma delas √© e dizer, por exemplo: isto √© tal; porque, se suceder que algu√©m n√£o tenha visto o original, n√£o recebe ent√£o prazer da imita√ß√£o, mas ou da beleza da obra, ou das cores, ou de outro algum motivo semelhante.
Sendo, pois, própria da nossa natureza a imitação, também o é a harmonia e o ritmo (porque é claro que os metros são parte do ritmo).

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A Tua Vida é Agora

Toda a negatividade √© provocada por uma acumula√ß√£o de tempo psicol√≥gico e de recusa do presente. Mal-estar, ansiedade, tens√£o, stress, preocupa√ß√Ķes – todas as formas de medo – s√£o causados por futuro em demasia e insuficiente presen√ßa. Sentimentos de culpa, arrependimento, ressentimento, injusti√ßas, tristeza, amargura e todas as formas de falta de indulg√™ncia s√£o provocados por passado em demasia e insuficiente presen√ßa.
A maioria das pessoas tem dificuldade em acreditar que seja poss√≠vel um estado de consci√™ncia totalmente livre de negatividade. E no entanto √© esse o estado de liberta√ß√£o para o qual todos os ensinamentos espirituais apontam. √Č a promessa de salva√ß√£o, n√£o num futuro ilus√≥rio, mas j√° aqui e agora.

Poder√°s ter dificuldade em admitir que o tempo seja a causa do teu sofrimento ou dos teus problemas. Acreditas que s√£o provocados por situa√ß√Ķes espec√≠ficas na tua vida e, visto de um ponto de vista convencional, isso √© verdade. Mas at√© teres lidado com a disfun√ß√£o b√°sica da mente “que-faz-os-problemas” – o seu apego ao passado e ao futuro e a nega√ß√£o do Agora – os problemas s√£o na verdade permut√°veis. Se todos os teus problemas ou as consideradas causas do sofrimento ou da infelicidade te fossem milagrosamente retirados hoje,

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Fomos Deixando de Escutar

Me entristece o quanto fomos deixando de escutar. Deix√°mos de escutar as vozes que s√£o diferentes, os sil√™ncios que s√£o diversos. E deix√°mos de escutar n√£o porque nos rodeasse o sil√™ncio. Fic√°mos surdos pelo excesso de palavras, fic√°mos autistas pelo excesso de informa√ß√£o. A natureza converteu-se em ret√≥rica, num emblema, num an√ļncio de televis√£o. Falamos dela, n√£o a vivemos. A natureza, ela pr√≥pria, tem que voltar a nascer. E quando voltar a nascer teremos que aceitar que a nossa natureza humana √© n√£o ter natureza nenhuma. Ou que, se calhar, fomos feitos para ter todas as naturezas.

Falei dos pecados da Biologia. Mas eu não trocaria esta janela por nenhuma outra. A Biologia ensinou-me coisas fundamentais. Uma delas foi a humildade. Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita liter√°ria como se fosse um desses velhos contadores n√£o de hist√≥rias mas de sabedorias. E reconheci li√ß√Ķes que j√° nos tinham sido passadas quando ainda n√£o t√≠nhamos sido dados √† luz.

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O Sustent√°culo do Amor

A paz √© algo que nenhum homem pode dar a outro. Um dos fins mais importantes para quem arrisca ser quem √© ser√° o de construir a sua pr√≥pria paz. Esta resulta de um trabalho duro de equil√≠brio das vontades, de uma harmoniza√ß√£o √°rdua das diferentes dimens√Ķes interiores, como o pensar e o sentir; √© um estado √°gil e din√Ęmico que, ao limite, permite ultrapassar e vencer qualquer adversidade.
A paz não é o estado de quem vive uma ausência de conflitos, é o resultado da conciliação corajosa das diferentes forças que, dentro e fora de cada homem, tentam prevalecer sobre as demais, menosprezando-se mutuamente.

Muitos são os que julgam ter encontrado a paz quando se livram do sonho do amor. Estão enganados, o caminho até à felicidade é ainda longo para quem cansado assim se contenta, repousando de uma luta que nem chegou a começar.

A paz é um ponto de passagem de quem ruma à plenitude da vida. A paz é o ponto de partida para o amor, que por sua vez lança o homem para a felicidade. A paz é o ponto de chegada dos que sofrem as dores mais profundas.

A verdade é tranquila.

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A Poesia n√£o se Inventou para Cantar o Amor

A poesia n√£o se inventou para cantar o amor ‚ÄĒ que de resto n√£o existia ainda quando os primeiros homens cantaram. Ela nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na mem√≥ria, pela sedu√ß√£o do ritmo, as leis da tribo. A adora√ß√£o ou capta√ß√£o da divindade e a estabilidade social, eram ent√£o os dois altos e √ļnicos cuidados humanos: ‚ÄĒ e a poesia tendeu sempre, e tender√° constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que est√£o interessando e conduzindo os homens. Se a grande preocupa√ß√£o do nosso tempo fosse o amor ‚ÄĒ ainda admitir√≠amos que se arquivasse, por meio das artes da imprensa, cada suspiro de cada Francesca. Mas o amor √© um sentimento extremamente raro entre as ra√ßas velhas e enfraquecidas. Os Romeus, as Julietas (para citar s√≥ este casal cl√°ssico) j√° n√£o se repetem nem s√£o quase poss√≠veis nas nossas democracias, saturadas de cultura, torturadas pela ansia do bem-estar, c√©pticas, portanto ego√≠stas, e movidas pelo vapor e pela electricidade. Mesmo nos crimes de amor, em que parece reviver, com a sua for√ßa primitiva e dominante, a paix√£o das ra√ßas novas, se descobrem logo factores lamentavelmente alheios ao amor,

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As Verdadeiras Necessidades não Têm Gostos

Nenhum conselho me parece mais √ļtil para te dar do que este (e que nunca √© demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir v√≠cios com desejos. Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te √© servida a refei√ß√£o, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza s√≥ necessita de uma coisa: a comida. (…) A fome dispensa pretens√Ķes, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com qu√™. O triste prazer da gula vive atormentado na √Ęnsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e n√£o apenas encher o est√īmago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo √† primeira golada! Tem, por isso toda a raz√£o Hor√°cio quando diz que a sede n√£o se interessa pela esp√©cie de copo ou pela eleg√Ęncia da m√£o que o serve.
Se achas que t√™m para ti muita import√Ęncia os cabelos encaracolados do escravo, ou a transpar√™ncia do copo que te p√Ķe √† frente, √© porque n√£o est√°s com sede. Entre outros benef√≠cios que devemos √† natureza conta-se este,

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A Evidência da Morte

√Äs vezes ponho-me a pensar se a aceita√ß√£o calma da morte no homem da terra n√£o ser√° o resultado desta √≠ntima comunh√£o com o ritmo da natureza. No inverno, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno seguinte, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno a seguir… Eu bem sei que o homem da cidade tem por sua vez mil maneiras de notar este eterno retorno da vida e da morte. Parece-me √© que ali a coisa n√£o tem esta nitidez, esta evid√™ncia, esta fatalidade.

As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas

Os jovens de agora parece que t√™m dificuldade em crescer. N√£o sei porqu√™. Se calhar as pessoas s√≥ crescem ao ritmo a que s√£o obrigadas. Um primo meu, com dezoito anos, j√° tinha as insign√≠as de auxiliar do xerife. Era casado e tinha um filho. Tive um amigo de inf√Ęncia que, com a mesma idade, j√° tinha sido ordenado sacerdote baptista. Era pastor de uma igrejinha rural, muito antiga. Ao fim de uns tr√™s anos foi transferido para Lubbock e, quando disse √†s pessoas que se ia embora, elas desataram todas a chorar, ali sentadas no banco da igraja. Homens e mulheres, todos em l√°grimas. Tinha celebrado casamento, baptizados, funerais. Com vinte e um anos, talvez vinte e dois. Quando pregava os seus serm√Ķes, a assist√™ncia era tanta que havia gente de p√© no adro a ouvir. Fiquei espantado. Na escola ele era sempre t√£o calado.
(…) A Loretta contou-me que ouviu falar na r√°dio de uma certa percentagem de crian√ßas deste pa√≠s que est√° a ser criada pelos av√≥s. J√° n√£o me lembro do n√ļmero. Era bastante alto, pareceu-me. Os pais n√£o querem ter esse trabalho. Convers√°mos sobre isso. Demos connosco a pensar que quando a pr√≥xima gera√ß√£o crescer e tamb√©m j√° n√£o quiser criar os filhos,

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