Textos sobre Lógica

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Textos de lógica escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Fraqueza do Idealismo

A arte idealista esquece que h√° no homem – nervos, fatalidades heredit√°rias, sujei√ß√Ķes √†s influ√™ncias determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresist√≠veis teimas f√≠sicas, tend√™ncias de carnalidade fatais; resultantes l√≥gicas de educa√ß√£o; ac√ß√Ķes determinantes ao meio, etc,etc; a arte convencional, enfim, mutila o homem moral – como a ci√™ncia convencional mutila o homem f√≠sico; s√£o ambas aprovadas pelos Monsenhores arcebispos de Paris e dadas em leitura nos col√©gios; mas uma ensina falso, como a outra educa falso: ambas nocivas portanto.

A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

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Arte e Sensibilidade

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.
2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualiza√ß√£o directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmiss√≠vel (√© isto que vulgarmente se chama “inspira√ß√£o”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensa√ß√£o √† frase intelectual (prim. vers√£o: tirem da sensa√ß√£o o que n√£o pode ser sens√≠vel aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, refor√ßam o que lhes pode ser sens√≠vel); b) a reflex√£o cr√≠tica sobre essa intelectualiza√ß√£o, que sujeita o produto art√≠stico elaborado pela “inspira√ß√£o” a um processo inteiramente objectivo ‚ÄĒ constru√ß√£o, ou ordem l√≥gica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente,

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A Amizade e o Amor Segundo uma Lógica de Bazar

Desconfia-se do que √© dado e pesa-se o que se recebe. A amizade e o amor parecem gerir-se, por vezes, segundo uma l√≥gica de bazar. J√° nem √© considerado m√°-educa√ß√£o perguntar quanto √© que uma prenda custou. Se esse pre√ßo √© excessivo chega-se a dizer que n√£o se pode aceitar. Recusar uma d√°diva √© como chamar interesseiro ao dador. √Č desconfiar que existe uma segunda inten√ß√£o. De qualquer forma, s√≥ quem tem medo (ou corre o risco) de se vender pode pensar que algu√©m est√° a tentar compr√°-lo. Quem d√° de bom cora√ß√£o merece ser aceite de bom cora√ß√£o. A ess√™ncia sentimental da d√°diva √© ultrajada pela frieza da avalia√ß√£o.
A mania da equitatividade contamina os esp√≠ritos justos. √Č o caso das pessoas que, n√£o desconfiando de uma d√°diva, recusam-se a aceitar uma prenda que, pelo seu valor, n√£o sejam capazes de retribuir. Esta atitude, apesar de ser nobre, acaba por ser igualmente destrutiva, pois sup√Ķe que existe, ou poder√° vir a existir, uma expectativa de retribui√ß√£o da parte de quem d√°. Mas quem d√° n√£o d√° para ser pago. D√° para ser recebido. N√£o d√° como quem faz um dep√≥sito ou investimento. O valor de uma prenda n√£o est√° na prenda –

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Verdade é Coerência

N√£o h√° verdade, nem necessidade absoluta. Chamamos verdadeiro a um conceito, que concorda com o sistema geral de todos os nossos conceitos; verdadeira a uma percep√ß√£o, que n√£o contradiz o sistema das nossas percep√ß√Ķes; verdade √© coer√™ncia. E, no que respeita a todo o sistema, ao conjunto, dado que, fora dele, n√£o existe nada que seja para n√≥s conhecido, n√£o podemos dizer se √© ou n√£o verdadeiro. √Č imagin√°vel que o universo seja, em si, fora de n√≥s, muito diferente daquilo que nos parece, ainda que esta seja uma suposi√ß√£o que carece de todo o sentido racional. E, no que toca √† necessidade, h√° uma necessidade absoluta? Necess√°rio n√£o √© sen√£o aquilo que √©, e enquanto o √©, pois que, noutro sentido mais transcendental, que necessidade absoluta, l√≥gica, independente do facto de que o universo existe, h√° de que haja universo ou qualquer outra coisa?
O relativismo absoluto, que não é mais nem menos do que o ceptcismo, no sentido mais moderno desta denominação, é o triunfo supremo da razão raciocinante.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Incoerência Humana

√Č f√°cil imaginar os homens inteiri√ßos, reduzi-los a f√≥rmulas simples que se condenam com uma palavra, negligenciando o resto, que as desmente; o mais dif√≠cil seria sair de si para entrar nos outros e julg√°-los segundo o ponto de vista deles, sem preconceitos, acompanhar nos seus desvios e nas suas incoer√™ncias uma natureza incerta feita mais pelo acaso do que pela vontade, desenredar, quando falha a l√≥gica, os sofismas semiconscientes sob os quais a paix√£o dissimula o ego√≠smo dos seus conselhos.

Da Ideia do Belo em Geral

I РChamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o dissemos, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada, inseparável da forma, como esta o é do principio que nela aparece. Ainda menos devemos ver na ideia uma pura generalidade ou uma colecção de qualidades abstraídas dos objectos reais. A ideia é o fundo, a própria essência de toda a existência, o tipo, unidade real e viva da qual os objectos visíveis não são mais que a realização exterior. Assim, a verdadeira ideia, a ideia concreta, é a que resume a totalidade dos elementos desenvolvidos e manifestados pelo conjunto dos seres. Numa palavra, a ideia é um todo, a harmoniosa unidade deste conjunto universal que se processa eternamente na natureza e no mundo moral ou do espírito.
Só deste modo a ideia é verdade, e verdade total.
Tudo quanto existe, portanto, só é verdadeiro na medida em que é a ideia em estado de existência; pois a ideia é a verdadeira e absoluta realidade. Nada do que aparece como real aos sentidos e à consciência é verdadeiro por ser real,

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O Criador de Opini√£o

O papel de criador e director de movimentos de opini√Ķes pertence aos homens de Estado em todas as quest√Ķes que interessam a vida exterior de um pa√≠s. A sua tarefa √© extremamente penosa. Eles devem possuir, com efeito, uma mentalidade bastante desenvolvida para que a l√≥gica racional lhes sirva de guia, devendo, no entanto, actuar nos homens por influ√™ncias afectivas e m√≠sticas, estranhas √† raz√£o, √ļnicas, por√©m, capazes de acarret√°-los.
Esses grandes elementos morais, que cumpre saber manejar, ser√£o durante muito tempo ainda os mais possantes factores aptos a dirigir os povos. Eles n√£o criam os navios e os canh√Ķes, mas, como se exprimiu o almirante Togo, ¬ęs√£o a alma dos navios e dos canh√Ķes¬Ľ. As influ√™ncias irracionais, que provocam os movimentos de opini√Ķes, incessantemente mudam, conforme a luz vari√°vel que banha as coisas. Deve-se saber adivinh√°-las, quando se as quer dominar e n√£o esquecer que uma opini√£o qualquer universalmente aceite constituir√° sempre, para a multid√£o, uma verdade.

O Limite da Lógica

O crit√©rio simplesmente l√≥gico da verdade, isto √©, o acordo de um conhecimento com as leis gerais e formais do entendimento e da raz√£o, √©, decerto, a condition sine qua non e, portanto, a condi√ß√£o negativa de qualquer verdade; mas a l√≥gica n√£o pode ir mais al√©m; nenhuma pedra de toque lhe permite descobrir o erro que atinge n√£o a forma, mas o conte√ļdo.

Esquecimento Esvaziante

A variedade das nossas emo√ß√Ķes torna claro que cada homem guarda dentro de si os celeiros do contentamento e do descontentamento: os jarros das coisas boas e m√°s n√£o est√£o depositados ¬ęna soleira de Zeus¬Ľ, mas na alma. O n√©scio negligencia e desdenha as coisas boas que l√° est√£o porque a sua imagina√ß√£o acha-se sempre voltada para o futuro; o sensato, por√©m, torna os factos pregressos vividamente presentes com record√°-los. O presente oferece-se ao toque da nossa m√£o apenas por um instante e logo nos ilude os sentidos; os tolos julgam que ele n√£o √© mais nosso, que n√£o mais nos pertence.
Há a pintura de um cordoeiro no inferno, com um asno a engolir toda a corda feita por ele, à medida que ele a entretece; assim é a multidão acometida e dominada pelo esquecimento insensato e ingrato, que apaga cada acto, cada sucesso, cada experiência aprazível de bem-estar, de camaradagem e de deleite.
O esquecimento n√£o consente √† vida desenvolver-se unitariamente, o passado entretecido com o presente, mas separa o ontem do hoje, como se fossem de diferente subst√Ęncia, e o hoje do amanh√£, como se n√£o fossem o mesmo; transforma toda a ocorr√™ncia em n√£o-ocorr√™ncia.

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A Vida não Está por Ordem Alfabética

A vida n√£o est√° por ordem alfab√©tica como h√° quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, s√£o miga¬≠lhas, o problema depois √© junt√°-las, √© esse montinho de areia, e este gr√£o que gr√£o sust√©m? Por vezes, aquele que est√° mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, √© precisamente esse que mant√©m unidos todos os outros, porque esse montinho n√£o obedece √†s leis da f√≠sica, retira o gr√£o que aparentemente n√£o sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas tra√ßar uns rabiscos com o dedo, contradan√ßas, caminhos que n√£o levam a lado nenhum, e continuas √† nora, insistes no vaiv√©m, que √© feito daquele aben√ßoado gr√£o que mantinha tudo ligado… at√© que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um tra√ßado estranho, um desenho sem jeito nem l√≥gica, e come√ßas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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A Portugalite

Entre as afec√ß√Ķes de boca dos portugueses que nem a pasta medicinal Couto pode curar, nenhuma h√° t√£o generalizada e galopante como a Portugalite. A Portugalite √© uma inflama√ß√£o nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. √Č altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e at√© hoje n√£o se descobriu cura.

A Portugalite √© contra√≠da por cada portugu√™s logo que entra em contacto com Portugal. √Č uma doen√ßa n√£o tanto ven√©rea como venal. Para compreend√™-la √© necess√°rio estudar a rela√ß√£o de cada portugu√™s com Portugal. Esta rela√ß√£o √© semelhante a uma outra que j√° √© cl√°ssica na literatura. Suponhamos ent√£o que Portugal √© fundamentalmente uma meretriz, mas que cada portugu√™s est√° apaixonado por ela. Est√° sempre a dizer mal dela, o que √© compreens√≠vel porque ela trata-o extremamente mal. Chega at√© a julgar que a odeia, porque n√£o acha uma √ļnica raz√£o para am√°-la. Contudo, existem cinco sinais ‚ÄĒ t√≠picos de qualquer grande e arrastada paix√£o ‚ÄĒ que demonstram que os portugueses, contra a vontade e contra a l√≥gica, continuam apaixonados por ela, por muito afectadas que sejam as ¬ębocas¬Ľ que mandam.

Em primeiro lugar, estão sempre a falar dela. Como cada português é um amante atraiçoado e desgraçado pela mesma mulher,

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Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados √© o de preparar acontecimentos √† dist√Ęncia, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma constru√ß√£o, uma l√≥gica, um come√ßo e um fim. Este √© quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si pr√≥prio. Isto aplica-se tanto √† constru√ß√£o de uma resposta pronta como √† de uma vida. E o que √© isto, sen√£o a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar √© o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gr√°fico. A meio de uma narrativa volta-se √†s premissas e tem-se o prazer de encontrar raz√Ķes, chaves, motiva√ß√Ķes causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso pr√≥prio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta constru√ß√£o d√°, em subst√Ęncia, um significado ao tempo. E o narrar √©, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

De que Serve Discutir as Ideologias?

Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, n√£o precisamos de p√īr em confronto as evid√™ncias das nossas verdades. Sim, t√™m raz√£o. T√™m todos raz√£o. A l√≥gica demonstra tudo. Tem raz√£o aquele que rejeita que todas as desgra√ßas do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem d√ļvida, tamb√©m os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, √© necess√°rio esquecermos por um instante as divis√Ķes que, uma vez admitidas, implicam todo um Cor√£o de verdades inabal√°veis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e n√£o corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distin√ß√Ķes s√£o incontest√°veis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton n√£o ¬ędescobriu¬Ľ uma lei h√° muito disfar√ßada de solu√ß√£o de enigma, Newton efectuou uma opera√ß√£o criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da ma√ß√£ num prado ou a ascens√£o do sol.

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A Lógica é Dominada pelo Sentimento

As naturezas das pessoas não são todas iguais; para muitas, uma conclusão lógica transforma-se às vezes num sentimento fortíssimo que domina todo o seu ser e que é muito difícil de expulsar ou transformar. Para curar uma pessoa assim, é preciso modificar tal sentimento, o que apenas é possível substituindo-o por outro, de força igual. Isso é sempre difícil e, em muitos casos, impossível.

O Limite do Conhecimento

N√£o h√° conhecimento ¬ęespelho¬Ľ do mundo objectivo. O conhecimento √© sempre tradu√ß√£o e constru√ß√£o. Resulta da√≠ que todas as observa√ß√Ķes e todas as concep√ß√Ķes devem incluir o conhecimento do observador-conceptualizador. N√£o ao conhecimento sem autoconhecimento.
Todo o conhecimento sup√Ķe ao mesmo tempo separa√ß√£o e comunica√ß√£o. Assim, as possibilidades e os limites do conhecimento relevam do mesmo princ√≠pio: o que permite o nosso conhecimento limita o nosso conhecimento, e o que limita o nosso conhecimento permite o nosso conhecimento.
O conhecimento do conhecimento permite reconhecer as origens da incerteza do conhecimento e os limites da l√≥gica dedutiva-identit√°ria. O aparecimento de contradi√ß√Ķes e de antinomias num desenvolvimento racional assinala-nos os estratos profundos do real.

O Princípio do Amor Tem Oito Dias de Alienação Moral

Nada de l√≥gica nem de ret√≥rica. Os principiantes do amor cuidam que √© da tarifa devorarem no sil√™ncio, antes de se revelarem, as melhores frases que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os ca√ßadores novatos, que atiram √† perdiz quando ela vai muito longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar tem oito dias de aliena√ß√£o moral. O espirito anda-lhe √† solta, e um h√°bil ca√ßador apanha-lho, e depois… como sabes do teu Genuense, a alma √© uma subst√Ęncia acomodada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo, sem governo, √© uma nau desmastreada, sem leme, √† merc√™ das ondas…

O Poder da Ind√ļstria Cultural

O poder magn√©tico que sobre os homens exercem as ideologias, embora j√° se lhes tenham tornado decr√©pitas, explica-se, para l√° da psicologia, pelo derrube objectivamente determinado da evid√™ncia l√≥gica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa como verdade, e a verdade como mentira. Cada express√£o, cada not√≠cia e cada pensamento est√£o preformados pelos centros da ind√ļstria cultural. O que n√£o traz o vest√≠gio familiar de tal preforma√ß√£o √©, de antem√£o, indigno de cr√©dito, e tanto mais quanto as institui√ß√Ķes da opini√£o p√ļblica acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipula√ß√£o total pode dispor. A verdade que intenta opor-se n√£o tem apenas o car√°cter de inveros√≠mil, mas √©, al√©m disso, demasiado pobre para entrar em concorr√™ncia com o altamente concentrado aparelho da difus√£o.