Textos sobre Horizonte

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Textos de horizonte escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós

O comum das gentes (de Portugal) que eu n√£o chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum √© bom. Mas √© exactamente porque √© bom, que abusam dele. Os pr√≥prios v√≠cios v√™m da sua ingenuidade, que √© onde a bondade tamb√©m mergulha. S√≥ que precisa sempre de lhe dizerem onde aplic√°-la. N√≥s somos por instinto, com intermit√™ncias de consci√™ncia, com uma generosidade e delicadeza incontrol√°veis at√© ao rid√≠culo, astutos, comunic√°veis at√© ao dislate, corajosos at√© √† temeridade, orgulhosos at√© √† petul√Ęncia, humildes at√© √† subservi√™ncia e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes t√™m assim o seu lado negativo, ou seja, o seu v√≠cio. √Č o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular √© disso que vive.
Mas, no fim de contas, que √© que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma ¬ęciviliza√ß√£o planet√°ria¬Ľ? Que significa o regionalismo em face da r√°dio e da TV? O rasoiro que nivela a prov√≠ncia √© o que igualiza as na√ß√Ķes. A anula√ß√£o do indiv√≠duo de facto √© o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, lingu√≠stica, freudismo, comunismo, tecnocracia s√£o faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Gr√©cia,

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Cada Português que se Preza

√Č escusado. Cada portugu√™s que se preza √© uma muralha de sufici√™ncia contra a qual se quebram todas as vagas da inquieta√ß√£o. Conhece tudo, previu tudo, tem solu√ß√Ķes para tudo. E quando algu√©m se apresenta carregado de d√ļvidas, tolhido de perplexidades, vira-lhe as costas ou tapa os ouvidos. Um m√≠nimo de aten√ß√£o ao interlocutor seria j√° uma prova de fraqueza, uma confiss√£o de falibilidade. Quanto mais apertado o seu horizonte intelectual, mais porfia na vulgaridade das certezas que proclama. N√£o √† maneira humilde e cabe√ßuda dos que se limitam a transmitir sem an√°lise um saber ancestral, mas como um presumido doutor, impante de mediocridade.

O Egoísmo Pessoal Tapa Todos os Horizontes

O mal e o rem√©dio est√£o em n√≥s. A mesma esp√©cie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-√° amanh√£. Agora vivemos um tempo em que o ego√≠smo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido c√≠vico, que n√£o deve confundir-se nunca com a caridade. √Č um tempo escuro, mas chegar√°, certamente, outra gera√ß√£o mais aut√™ntica. Talvez o homem n√£o tenha rem√©dio, n√£o tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e intermin√°vel caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, n√£o sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade n√£o faz nada… alguma coisa n√£o funciona.

O Cidad√£o L√ļcido em Vez do Consumidor Irracional

J√° se sabe que n√£o somos um povo alegre (um franc√™s aproveitador de rimas f√°ceis √© que inventou aquela de que ¬ęles portugais sont toujours gais¬Ľ), mas a tristeza de agora, a que o Cam√Ķes, para n√£o ter de procurar novas palavras, talvez chamasse simplesmente ¬ęapagada e vil¬Ľ, √© a de quem se v√™ sem horizontes, de quem vai suspeitando que a prosperidade prometida foi um logro e que as apar√™ncias dela ser√£o pagas bem caras num futuro que n√£o vem longe. E as alternativas, onde est√£o, em que consistem? Olhando a cara fingidamente satisfeita dos europeus, julgo n√£o serem previs√≠veis, t√£o cedo, alternativas nacionais pr√≥prias (torno a dizer: nacionais, n√£o nacionalistas), e que da crise profunda, crise econ√≥mica, mas tamb√©m crise √©tica, em que patinhamos, √© que poder√£o, talvez ‚ÄĒ contentemo-nos com um talvez ‚ÄĒ, vir a nascer as necess√°rias ideias novas, capazes de retomar e integrar a parte melhor de algumas das antigas, principiando, sem pr√©via defini√ß√£o condicional de antiguidade ou modernidade, por recolocar o cidad√£o, um cidad√£o enfim l√ļcido e respons√°vel, no lugar que hoje est√° ocupado pelo animal irracional que responde ao nome de consumidor.

A Voz que Ouço quando Leio

Quando leio, h√° uma voz que l√™ dentro de mim. Paro o olhar sobre o texto impresso, mas n√£o acredito que seja o meu olhar que l√™. O meu olhar fica embaciado. √Č essa voz que l√™. Quando √© s√©ria, ou√ßo-a falar-me de assuntos s√©rios. √Äs vezes, sussurra-me. √Äs vezes, grita-me. Essa voz n√£o √© a minha voz. N√£o √© a voz que, em filmagens de festas de anos e de natais, vejo sair da minha boca, do movimento dos meus l√°bios, a voz que estranho por, num rosto parecido com o meu, n√£o me parecer minha. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas n√£o √© minha. N√£o √© a voz dos meus pensamentos. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas √© exterior a mim. √Č diferente de mim. Ainda assim, n√£o acredito que algu√©m possa ter uma voz que l√™ igual √† minha, por isso √© minha mas n√£o √© minha. Mas, claro, n√£o posso ter a certeza absoluta. N√£o s√≥ porque uma voz √© indescrit√≠vel, mas tamb√©m porque nunca ningu√©m me tentou descrever a voz que ouve quando l√™ e porque eu nunca falei com ningu√©m da voz que ou√ßo quando leio.

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Mísera Condição a de um Artista

Peguei hoje por acaso num livro meu. Abri, comecei a ler, mas ao cabo de duas p√°ginas desisti. Era tal a sensa√ß√£o de inacabado, de provis√≥rio e de rudimentar que tudo aquilo me dava, que fugi de mim pr√≥prio. M√≠sera condi√ß√£o a de um artista! Os outros, os vulgares, como homens, em rela√ß√£o √† vida temporal, t√™m pelo menos esta piedade do tempo: o nivelamento de todas as horas, o esquecimento brumoso dos tr√°gicos relevos do caminho andado. O pobre do poeta ou do escritor, esse vai deixando em cada passo a ver√≥nica da sua imatura√ß√£o, da sua gaguez, ‚ÄĒ sem poder ao fim, quando do alto cuida ver o horizonte com maior lonjura, dar uma cor mais funda e mais significativa aos toscos pain√©is que pintou outrora.

Em Tudo o que Fiz Bem Pus um Pouco de Ti

Eis o teu rosto iluminado por esta hora de maio.
Ao filho autêntico, basta fechar os olhos para encontrar o rosto da sua mãe.
A fronteira que separa o dentro do fora é vaga de propósito, mais exata é a fronteira dos meses.
M√£e, as tardes de maio n√£o s√£o um acaso.
Pus um pouco de ti naquilo que fiz de mais importante.
Onde existir terra estás tu, dás força e horizonte.
O ar não permitiria respiração se não te contivesse.
A água não seria capaz de alimentar sem a tua presença líquida.
O fogo não chegaria a acender se não incluísse o teu mistério no seu mistério.
Estavas j√° no primeiro in√≠cio do firmamento, nesse rugido que encheu a superf√≠cie do c√©u e da terra, que rasgou as trevas; da mesma maneira, estar√°s no seu √ļltimo fim.
Est√°s antes e depois.
Est√°s na lenta passagem da eternidade.
M√£e, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.
Sabes que criei tudo o que há e sabes também que não criei tudo o que poderia haver.
Entre as faltas evidentes,

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As Obras e os Mistérios do Amor

Quem ama não sente o amor no seu coração. Vive no coração do amor. O amor que nos oferece os sonhos mais belos e nos faz voar, é o mesmo que nos crava os espinhos mais duros na carne e se faz mar nas nossas lágrimas.

O amor faz o que quer, onde e quando alguém o aceita. Não tem outras mãos ou olhos senão os nossos. A força do amor é aquela de que nós formos capazes. Por isso, amar é, antes de tudo, aceitar.

Há quem entregue a sua vida por amor. Quem se abandone a si mesmo, deixando para trás aquilo que outros julgam ser o seu maior tesouro… A vida é para amar, quem não ama, apenas sobrevive.
H√° quem morra por amor. Mas esta vida √© apenas um peda√ßo de outra, maior, que s√≥ √© vivida pelos que tiverem a coragem imprudente de ser luz e calor na vida de algu√©m, aceitando-o como √©… e como quer ser. Sem o julgar. Respeitando sempre os seus espa√ßos e os seus tempos, o seu passado e o seu futuro. Amar √© corrigir e ajudar quem se ama a ser melhor, mas n√£o o obrigando aos nossos pensamentos e sentimentos,

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Toda a Realidade é Redutora

Viajar n√£o √© realizar o imagin√°rio que nos excita antes da viagem mas sim extermin√°-lo. O deslumbramento √© do que se imagina e n√£o do que realizou esse imaginar. N√≥s pensamos numa terra long√≠nqua e confusamente admitimos que essa dist√Ęncia √© sens√≠vel quando l√° estivermos. Ora quando l√° estivermos h√° o real que desmistifica o imagin√°rio, h√° o l√°, como aqui, num s√≠tio limitado por um horizonte totalmente presente e n√£o tocado da aus√™ncia que havia na imagina√ß√£o. Mesmo os seus elementos caracter√≠sticos que tiver, uma vez realizados, perdem a magia na sua realiza√ß√£o. Eis porque precisamos √†s vezes de rever num mapa a sua localiza√ß√£o para de algum modo lhe restaurarmos a dist√£ncia. Tudo se solidifica na concretiza√ß√£o do real, tudo se desvanece a√≠ da sua figura√ß√£o. A grande for√ßa do real √© a do que est√° para l√° dele, porque toda a realidade √© redutora.

O Homem é um Deus que se Ignora

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: n√£o sei qual, mas existe – dizia S√≥crates soletrando com os olhos da raz√£o, √† luz serena do c√©u da Gr√©cia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da f√© lia no horizonte anuveado das vis√Ķes do profeta esta outra palavra de consola√ß√£o – dentro do homem est√° o reino dos c√©us. Profundo, alt√≠ssimo, acordo de dois g√©nios t√£o distantes pela p√°tria, pela ra√ßa, pela tradi√ß√£o, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irm√£os infelizes, violentamente separados, duma mesma fam√≠lia! Dos dois p√≥los extremos da hist√≥ria antiga, atrav√©s dos mares insond√°veis, atrav√©s dos tempos tenebrosos, o g√©nio luminoso e humano das ra√ßas √≠ndicas e o g√©nio sombrio, mas profundo, dos povos sem√≠ticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta sauda√ß√£o fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na ang√ļstia do seu caos – o homem √© um Deus que se ignora.
Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga!

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A Sa√ļde da Alma

A c√©lebre forma de medicina moral (a de Ar√≠ston de Chios), ¬ęa virtude √© a sa√ļde da alma¬Ľ, deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utiliz√°vel: ¬ęA tua virtude √© a sa√ļde da tua alma¬Ľ. Porque em n√≥s n√£o existe qualquer sa√ļde, e todas as experi√™ncias que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conhe√ßa o seu objectivo, o seu horizonte, as suas for√ßas, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a sa√ļde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, in√ļmeras sa√ļdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indiv√≠duo, a quem n√£o podemos comparar-nos, que levante a cabe√ßa, mais se desaprender√° o dogma da ¬ęigualdade dos homens¬Ľ, mais necess√°rio ser√° que os nossos m√©dicos percam a no√ß√£o de uma sa√ļde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doen√ßa. Ser√° s√≥ ent√£o que se poder√° talvez reflectir na sa√ļde e na doen√ßa da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta sa√ļde, que corre muito o risco de ser num o contr√°rio do que sucede com outro. Restar√° a grande quest√£o de saber se podemos dispensar a doen√ßa,

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O Pensador

N√£o h√° nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a pol√©mica n√£o seja um acidente, um desn√≠vel entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador n√£o √©, por estrutura, polemista, embora n√£o fuja ante a pol√©mica, nem a considere inferior; o seu dom√≠nio √© no campo da paz, n√£o entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o fil√≥sofo antigo, marchar com a calma e a severa repress√£o dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profiss√£o, tem o direito de exigir; o seu dever de cidad√£o imp√Ķe-lhe que tome, ao ecoar da voz b√°rbara, a lan√ßa que defende as oliveiras sagradas e os r√≠tmicos templos. A sua linha, por√©m, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma inven√ß√£o superadora, um perp√©tuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre. V√™-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para al√©m dos limites do mar e dos limites do c√©u; a sua miss√£o √© a de p√īr ao alcance de todos os que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou;

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O Medo do Fim

Alguns pensam que a felicidade √© a aus√™ncia de sofrimento… mas, na verdade, est√° errada essa ideia. A felicidade e o sofrimento s√£o ambos pilares fundamentais da exist√™ncia. Sem sofrimento a nossa humanidade n√£o seria provada e os nossos dias n√£o teriam valor. Assim tamb√©m a felicidade, sendo a alegria mais profunda, √© o que d√° sentido a todas as noites… n√£o s√£o realidades que se possam medir, mas n√£o deixam de ser algo t√£o concreto como as nossas duas m√£os, que sempre trabalham em conjunto, sabendo cada uma o seu papel e o seu valor.

Evitar a dor n√£o nos torna mais fortes.

Tememos as perdas. Tememos a morte. Talvez porque o nada é um abismo que assusta todos quantos têm uma vida com valor. Porque somos impelidos a defender o significado do que erguemos aqui. Não se quer aceitar que tudo quanto se construiu, durante uma vida, seja suprimido sem deixar rasto. Quantas vezes não é o momento do fim que se teme, mas antes o que se pode fazer até lá?
Caminhar rumo ao desconhecido é uma prova de coragem e de fé diante das evidências deste mundo. Os olhos não querem ver nem as pernas caminhar,

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A Perenidade do Nosso Fundamento

O ser-nos evidente o nosso fundamento e o ser evidente outro para outros significa que para nós e para eles há uma harmonia totalizadora de ser, de pensar, que em si mesma integra cada elemento que escolhamos cada forma de organizar um modo de explicarmos e de nos explicarmos em face do todo harmónico do nosso tempo, cuja harmonia se nos não esclarece porque a não podemos objectivar e apenas a podemos viver.
Que se explique o acontecer humano pela Provid√™ncia divina ou pela Hist√≥ria, que se determine o modo de ser dessa Provid√™ncia ou o tipo de for√ßas que actuam na Hist√≥ria e a realizam como Hist√≥ria que √©, que se entenda a Justi√ßa e a Moral e a Arte em fun√ß√£o dos mais variados tipos de ser, que se abordem todas essas determina√ß√Ķes pelos modos mais diversos de os abordar, que nos entendamos adentro delas pelas mais diversas formas de exercer o entendimento – a realidade √ļltima que nos reabsorve e orienta todos esses modos de compreender e de ser √© a explica√ß√£o derradeira porque j√° n√£o explica nada.
Porque se explicasse, se fosse algo determinável pelo que é e pelo modo como actua, exigir-nos-ia ainda uma outra dimensão,

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A Divinização do Utilitário

O grande conflito de hoje, no dom√≠nio socioecon√≥mico, por exemplo, e contra a previs√£o de um Marx, n√£o √© o que op√Ķe o Capital e o Trabalho, mas o que comanda a m√°quina e o que a serve (Fran√ßois Perroux). Mas o efeito mais vis√≠vel, porque mais extenso, da sua compacta presen√ßa, √© o que degrada os sonhos ao tang√≠vel e utilit√°rio que define a vituperada ¬ęsociedade de consumo¬Ľ. N√£o √© assim o √ļtil ou utili¬≠t√°rio que se condena: √© a sua diviniza√ß√£o. O que surpreende no mundo de hoje n√£o √© a sedu√ß√£o da comodidade, mas que ela esgote todas as sedu√ß√Ķes; n√£o √© o sonho de ¬ęviver bem¬Ľ, mas que s√≥ se viva bem com esse sonho. Decerto o viver bem foi sempre um sonho de quem teve por sorte o viver mal. Mas a realiza√ß√£o em massa dessa ambi√ß√£o instaura-se em plena for√ßa como modelo. E n√£o apenas por ser uma realiza√ß√£o em massa, mas porque aos ¬ęrespons√°veis¬Ľ nenhum valor se imp√Ķe para a esse imporem. O utilitarismo √© um valor negativo; mas con¬≠verte-se em positivo pela negatividade de quem poderia recus√°¬≠-lo. O que nos ¬ęirrespons√°veis¬Ľ √© uma ambi√ß√£o em positivo, √© nos ¬ęrespons√°veis¬Ľ uma aceita√ß√£o em negativo,

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O Construtor

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua pr√≥pria subst√Ęncia de cinzas e sangue petrificado, a habita√ß√£o em que a f√©nix poder√° renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lan√ßar-se a um trabalho para o qual a disposi√ß√£o ainda n√£o surgiu, mas que poder√° despertar os impulsos da constru√ß√£o solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A constru√ß√£o est√° envolta numa espessa bruma e n√£o h√° nela sinais de figuras ou formas, porque essa n√©voa √© o pr√≥prio nada da confus√£o inicial e do fim de toda a constru√ß√£o como possibilidade de vida e de renovo. √Č do obscuro fundo da retina que surge um t√©nue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da constru√ß√£o e a faz palpitar e estremecer. O construtor poder√° ent√£o discernir algumas linhas de for√ßa, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarifica√ß√£o. Haver√° um momento em que ele sentir√° que o edif√≠cio dan√ßa porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, √© j√° a f√©nix que resplandece no fulgor da edifica√ß√£o e na plenitude do ser e do olhar na sua m√ļtua cria√ß√£o.

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Produzimos uma Cultura de Devastação

Todos os anos exterminamos comunidades ind√≠genas, milhares de hectares de florestas e at√© in√ļmeras palavras das nossas l√≠nguas. A cada minuto extinguimos uma esp√©cie de aves e algu√©m em algum lugar rec√īndito contempla pela √ļltima vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz n√£o se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma esp√©cie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projecto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a √ļnica coisa que nos distancia na realidade dos animais √© a nossa capacidade de esperan√ßa. Produzimos uma cultura de devasta√ß√£o baseada muitas vezes no engano da superioridade das ra√ßas, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder econ√≥mico. Sempre me pareceu incr√≠vel que uma sociedade t√£o pragm√°tica como a ocidental tenha deificado coisas abstractas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens ef√©meras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade…

Abordar um Texto Poético

Abordar um texto po√©tico, qualquer que seja o grau de profundidade ou amplitude da leitura, pressup√Ķe, e ouso dizer que pressupor√° sempre, uma certa incomodidade de esp√≠rito, como se uma consci√™ncia paralela observasse com ironia a inanidade relativa de um trabalho de desoculta√ß√£o que, estando obrigado a organizar, no complexo sistema capilar do poema, um itiner√°rio cont√≠nuo e uma univocidade coerente, ao mesmo tempo se obriga a abandonar as mil e uma probabilidades oferecidas pelos outros itiner√°rios, apesar de estar ciente de antem√£o de que s√≥ depois de os ter percorrido a todos, a esses e √†quele que escolheu, √© que acederia ao significado √ļltimo do texto, podendo suceder que a leitura alegadamente totalizadora assim obtida viesse s√≥ a servir para acrescentar √† rede sangu√≠nea do poema uma ramifica√ß√£o nova, e impor portanto a necessidade de uma nova leitura. Todos carpimos a sorte de S√≠sifo, condenado a empurrar pela montanha acima uma sempiterna pedra que sempiternamente rolar√° para o vale, mas talvez que o pior castigo do desafortunado homem seja o de saber que n√£o vir√° a tocar nem a uma s√≥ das pedras ao redor, in√ļmeras, que esperam o esfor√ßo que as arrancaria √† imobilidade.
N√£o perguntamos ao sonhador por que est√° sonhando,

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O Elogio da História

Nenhuma realidade √© mais essencial para a nossa autocertifica√ß√£o do que a hist√≥ria. Mostra-nos o mais largo horizonte da humanidade, oferece-nos os conte√ļdos tradicionais que fundamentam a nossa vida, indica-nos os crit√©rios para avalia√ß√£o do presente, liberta-nos da inconsciente liga√ß√£o √† nossa √©poca e ensina-nos a ver o homem nas suas mais elevadas possibilidades e nas suas realiza√ß√Ķes impercept√≠veis.
Não podemos melhor aproveitar os nossos ócios do que familiarizando-nos com as magnificências do passado, conservando viva essa recordação e, ao mesmo tempo, contemplando as calamidades em que tudo se subverteu. A experiência do presente compreende-se melhor reflectida no espelho da história. O que a história nos transmite vivifica-se à luz da nossa época. A nossa vida processa-se no esclarecimento recíproco do passado e do presente.
S√≥ de perto, na intui√ß√£o concreta e sens√≠vel, e prestando aten√ß√£o aos pormenores, a hist√≥ria realmente interessa. Filosofando procedemos a considera√ß√Ķes que se mant√™m abstractas.

Deixa o que Seduz a Multid√£o

Se n√≥s nada fizermos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o, tamb√©m nada evitaremos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o. Se quiseres escutar a raz√£o, eis o que ela te dir√°: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multid√£o! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do esp√≠rito, que s√≥ servem para amolecer as energias; deixa a ambi√ß√£o que n√£o passa de uma coisa artificialmente empolada, in√ļtil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, t√£o interessada em n√£o ter superiores como em evitar at√© os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. V√™ como de facto √© infeliz quem, objecto de inveja ele pr√≥prio, tem inveja por outros.
N√£o est√°s a ver essas casas dos grandes senhores, as suas portas cheias de clientes que se atropelam na entrada? Para l√° entrares, teria de sujeitar-te a in√ļmeras inj√ļrias, mas mais ainda terias de suportar se entrasses. Passa frente √†s escadarias dos ricos senhores, aos seus √°trios suspensos como terra√ßos: se l√° puseres os p√©s ser√° como estares √† beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige ante os teus passos na via da sapi√™ncia,

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