O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor est√° a√≠, na inteira liberdade que n√£o pode ser condicionada por nenhuma outra for√ßa que n√£o a vontade pr√≥pria. Todo o amor √© absolutamente livre. E assim √© do primeiro ao √ļltimo instante. Uma fidelidade que se esgotou no conforto de um h√°bito deixou de ser uma virtude admir√°vel para ser um v√≠cio estranho ao amor. Amar pressup√Ķe uma radical liberdade do esp√≠rito, da mente e do corpo, bem como uma via a direito entre a cabe√ßa e o cora√ß√£o… numa vida decidida a fazer um caminho de compromisso com a liberdade de cria√ß√£o de si mesmo.

Vivemos porque Algu√©m nos ama e de n√≥s abriu m√£o, dando-nos o melhor de Si: a liberdade para a cria√ß√£o, tamb√©m de n√≥s mesmos atrav√©s dos nossos atos! Qualquer pai percebe que h√° um momento em que √© tempo de ver o seu filho partir… e porque os arcos n√£o seguem as flechas, fica… para que o filho possa melhor ser quem √©.

Quase tudo neste mundo é impermanente. Nada nos pertence porque não somos daqui.

Quem n√£o sabe viver, adia o instante e perde esse dom. Nesta vida, adiar √© perder. Aqui e agora temos o dever de pedir e de agradecer, tamb√©m o de abra√ßar e o de deixar ir… o de aprender a viver nesta tempestade de raz√Ķes e emo√ß√Ķes.

Dar √© viver e reter √© morrer. Mas nem todos s√£o capazes de viver de forma plena, porque muitos s√£o os que n√£o compreendem que a vida se vive em mar√©s de apego e desapego. Mantendo os bra√ßos bem abertos… para abra√ßar, mas tamb√©m para deixar ir… como se o peito fosse uma janela… por onde importa que a luz, o ar e os outros encontrem caminho…

Viver é apenas amar muito.

Amar significa que a cada novo dia renovemos de forma consciente, o nosso caminho, o nosso ser. A beleza maior de um casamento é que ele se faz de dias e noites em que sucessivamente se elege a mesma pessoa.

Nascemos e morremos s√≥s, por mais que duas pessoas se amem nunca deixam de ser duas vidas, duas vontades ‚Äď num amor s√≥. Mas como os pilares de um templo, nunca excessivamente pr√≥ximo pois que √© pelo espa√ßo que houver entre eles que crescer√° o amor que os une.

Ser é amar, numa entrega que implica abdicar de muito mais do que dos nossos bens. Significa acreditar na vida ao ponto de aceitar que sempre teremos o que precisamos. Numa lógica de dar e receber que nos ultrapassa a compreensão.

Entretanto, ajudar√° aprender a agarrar o essencial e a largar o resto…