Passagens sobre Cabeça

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Assim come√ßam todos os amores: assim vai at√© ao altar a menina que se casa; acompanham-a at√© l√° quim√©ricas legi√Ķes de esp√≠ritos l√ļcidos, cujas asas se enla√ßam, para a embalarem num coxim ideal de aspira√ß√Ķes e santos desejos. E, depois, √© muito triste v√™-la, passados dois meses, a fazer um rol de roupa suja, a acertar a gravata do marido, que vai ver o cambio, ou, oh ess√™ncia do materialismo! a pregar um bot√£o nas cal√ßas conjugais! Esta √© a ordem do mundo, leitores! Cinjamos os rins de sil√≠cio, cubramo-nos de saco, e baixemos a cabe√ßa ao mundo conveniente, qual ele √©, porque o m√©todo √© uma necessidade prima, at√© no romance.

O mundo só seria perfeito se todo dia fizesse sol, todo mar fizesse onda e se toda fumaça fizesse sua cabeça, tragando a vida, soprando a morte.

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no h√ļmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta √Ęnfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manh√£s idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilus√£o

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

A verdade é que, no meu corpo, ele só iria encontrar calafrios e, na minha cabeça, nada além de preocupação.

A Não-Violência e a Cobardia não Têm nada a Ver uma com a outra

A n√£o-viol√™ncia e a cobardia n√£o t√™m nada a ver uma com a outra. Acredito que um homem armado dos p√©s √† cabe√ßa seja um cobarde no seu cora√ß√£o. A posse de armas pressup√Ķe um factor de medo, para n√£o dizer de cobardia. Mas a verdadeira n√£o-viol√™ncia √© imposs√≠vel sem a posse de uma aut√™ntica aus√™ncia de medo. (…) A n√£o-viol√™ncia nunca deveria ser utilizada como escudo da cobardia. √Č uma arma destinada aos valentes.

(…) A prova de fogo da n√£o-viol√™ncia est√° em n√£o deixar para tr√°s nenhum tipo de rancor durante um conflito n√£o-violento e, no final, em fazer com que os inimigos se convertam em amigos.

O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profiss√£o – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distrac√ß√£o do of√≠cio que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e n√£o conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, n√£o conseguiria sair. Gritou. Ningu√©m atendeu. Gritou mais forte. Ningu√©m veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o sil√™ncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, n√£o se ouvia mais um som humano, embora o cemit√©rio estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. S√≥ pouco depois da meia-noite √© que l√° vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabe√ßa √©bria apareceu l√° em cima, perguntou o que havia: ¬ęO que √© que h√°?¬Ľ
O coveiro ent√£o gritou, desesperado: ¬ęTire-me daqui, por favor. Estou com um frio terr√≠vel!¬Ľ. ¬ęMas coitado!¬Ľ – condoeu-se o b√™bado. – ¬ęTem toda raz√£o de estar com frio.
Algu√©m tirou a terra toda de cima de voc√™, meu pobre mortinho!¬Ľ. E, pegando na p√°, encheu-a de terra e p√īs-se a cobri-lo cuidadosamente.

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A Perfeição

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

√Č dific√≠limo ser certinho. Qualquer palerma consegue ser um doidivanas que faz tudo o que lhe vem √† cabe√ßa. Qualquer trinca-tortas pode ser ¬ęimprevis√≠vel¬Ľ. Desde quando √© que houve o m√≠nimo custo em ser ¬ęirrespons√°vel¬Ľ. Ser desorganizado n√£o tem gra√ßa nem m√©rito. √Č estar inacabado.

Um coração duro não é proteção infalível contra uma cabeça mole.

√Č pr√≥prio de homens de cabe√ßas medianas investir contra tudo aquilo que n√£o lhes cabe na cabe√ßa.

Os crimes da rep√ļblica, tornados poss√≠veis pela desgra√ßada incapacidade mon√°rquica e pela indiferen√ßa da maioria dos portugueses, est√£o agora dando o seu fruto, que, quando absolutamente maduro, ser√° a derrocada de tudo! (…) √Č uma profunda tristeza e por ora n√£o vejo o rem√©dio ao mal profundo que est√° matando o pa√≠s, pois, com m√°goa o digo, os portugueses est√£o-se parecendo com os macacos do Brasil quando caem num rio, p√Ķem as m√£os na cabe√ßa, v√£o para o fundo da √°gua e morrem afogados.

O amor √© de todas as paix√Ķes a mais forte, pois ataca simultaneamente a cabe√ßa, o cora√ß√£o e os sentidos.

Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o ju√≠zo que eu formo do homem transcendente em g√©nio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento √© sempre um mau homem. Alguns conhe√ßo eu que o mundo proclama virtuosos e s√°bios. Deix√°-los proclamar. O talento n√£o √© sabedoria. Sabedoria √© o trabalho incessante do esp√≠rito sobra a ci√™ncia. O talento √© a vibra√ß√£o convulsiva de esp√≠rito, a originalidade inventiva e rebelde √† autoridade, a viagem ext√°tica pelas regi√Ķes inc√≥gnitas da ideia. Agostinho, F√©nelon, Madame de Sta√ęl e Bentham s√£o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s√£o talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os servi√ßos prestados √† humanidade por esses homens, e ter√°s encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque √© mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa espl√™ndida ta√ßa de brilhantes e ouro porque √© que cont√©m o fel, que abrasa os l√°bios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores √† cabe√ßa de uma mulher, ainda mesmo refor√ßada por duas d√ļzias de cabe√ßas acad√©micas !

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Não interessa as tormentas que passaram nem as tempestades que estão para vir. Só o momento onde estás é relevantes. Mas só é possível usufruir de tamanho privilégio quando temos tudo resolvido e o medo não é suficientemente letal para nos congelar. Só é possível viver assim quando desligamos a cabeça do passado e do futuro.

Deus Precisa de Companhia

A minha proposi√ß√£o inicial, que me atrevo a considerar indiscut√≠vel, √© de que Deus criou o universo porque ¬ęse sentia¬Ľ s√≥. Em todo o tempo antes, isto √©, desde que a eternidade come√ßara, ¬ętinha estado¬Ľ s√≥, mas, como n√£o ¬ęse sentia¬Ľ s√≥, n√£o necessitava inventar uma coisa t√£o complicada como √© o universo. Com o que Deus n√£o contara √© que, mesmo perante o espect√°culo magn√≠fico das nebulosas e dos buracos negros, o tal sentimento de solid√£o persistisse em atorment√°-lo. Pensou, pensou, e ao cabo de muito pensar fez a mulher, ¬ęque n√£o era √† sua imagem e semelhan√ßa¬Ľ. Logo, tendo-a feito, viu que era bom. Mais tarde, quando compreendeu que s√≥ se curaria definitivamente do mal de estar s√≥ deitando-se com ela, verificou que era ainda melhor. At√© aqui tudo muito pr√≥prio e natural, nem era preciso ser-se Deus para chegar a esta conclus√£o. Passado algum tempo, e sem que seja poss√≠vel saber se a previs√£o do acidente biol√≥gico j√° estava na mente divina, nasceu um menino, esse sim, ¬ę√† imagem e semelhan√ßa de Deus¬Ľ. O menino cresceu, fez-se rapaz e homem. Ora, como a Deus n√£o lhe passou pela cabe√ßa a simples ideia de criar outra mulher para a dar ao jovem,

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