Passagens sobre Estranhos

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Frases sobre estranhos, poemas sobre estranhos e outras passagens sobre estranhos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Preciso de Ti

Antes de come√ßar… Acabei de suplicar dez minutos para este bilhete… Terrivelmente, terrivelmente vivo, dorido, e sentindo absolutamente que preciso de ti. Permiti o sil√™ncio deliberadamente, sentindo uma grande necessidade de me retirar em mim mesmo, para escrever, e mil coisas prevalecendo.

Mudei para outra m√°quina, assustadora; a m√°quina francesa… maldita, e eu b√™bedo com o desejo de te escrever. Ouve, ligo-te de manh√£: esta noite ou escrevo ou rebento, mas tenho de te ver. Vejo-te brilhante e maravilhosa e ao mesmo tempo tenho estado a escrever √† June e todo dividido mas tu compreender√°s ‚ÄĒ tens de compreender. Vou atirar-me a uma pausa e fa√ßo uma chamada. Anais, apoia-me. N√£o deixes que os sil√™ncios te preocupem: est√°s toda √† minha volta como uma chama clara. Nada a n√£o ser dois pontos, n√£o encontro o ponto nem os ap√≥strofos. Nenhuma c√≥pia disto tamb√©m: √≥ptimo: b√™bedo… b√™bedo de vida… Anais, por Cristo: se tu soubesses o que estou a sentir agora.

Isto foi [escrito] ao chegar [ao escrit√≥rio]. Agora 3h20 da manh√£ no quarto do Fred… Toda a for√ßa desaparecida e destru√≠da por imagens. O Fred est√° na cama com a Gaby do chambre 48. Est√° deitada como um cad√°ver.

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Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus p√°lidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca n√£o aprende
Murm√ļrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o l√ļgubre arrepio
Das sensa√ß√Ķes estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mist√©rio…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Desprezo e Receio

J√° notei que a maior parte dos homens se sente a√ßulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos √† ternura e ao afecto. √Č v√™-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos √† viol√™ncia ou √† dureza. Ra√ßa detest√°vel! Tal preceito mant√©m-se praticamente inalter√°vel no que respeita ao amor.
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.

LXXV

Como se moço e não bem velho eu fosse
Uma nova ilus√£o veio animar-me.
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas √Ęnsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do √°ureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi t√£o alto…

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um h√°lito de medo embaciando o vidrado
d√°-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a pr√≥pria voz do mar segue o risco de um disco…
N√£o cessa de tocar; n√£o cessa a sua voz.
Mas j√° ningu√©m pretende exp’rimentar-lhe o risco!

Uma ressurreição material parece estranha e mesmo absurda com exceção de propósitos de castigo, e todo castigo que pretende vingar-se antes que corrigir deve estar moralmente errada, e quando o Mundo está num fim, que moral ou finalidade de propósito os avisos de torturas eternas respondem?

A Cavalgada

A lua banha a solit√°ria estrada…
Sil√™ncio!… mas al√©m, confuso e brando,
O som longínquo vem se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar v√£o agitando
O remanso da noite embalsamada…

E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se ap√≥s no centro da montanha…

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solit√°ria banha…

XXXI

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente…

Porque teu nome é para mim o nome
De uma p√°tria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

Uma paixão tão completamente centrada em si recusa o resto do mundo tal como a água límpida e calma filtra todas as matérias estranhas.

Inf√Ęncia

Passa lento o tempo da escola e a sua ang√ļstia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solid√£o, oh perda de tempo t√£o pesada…
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins √© t√£o vasto o mundo ‚ÄĒ.
E atravessar tudo isto em cal√ß√Ķes,
diferente de como os outros v√£o e foram ‚ÄĒ:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solid√£o.

E olhar tudo isto √† dist√Ęncia:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crian√ßas, t√£o diferentes e coloridas ‚ÄĒ;
e ent√£o uma casa, e de vez em quando um c√£o
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infind√°vel abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a m√£o agarrada com for√ßa ‚ÄĒ:
Oh compreens√£o cada vez mais fugaz,
Oh ang√ļstia,

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Sonho

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Num poço ou num cristal me debrucei.
Só no teu rosto a morte me alcançava.

De quem a morte, por terror de mim?
De quem o infinito que faltava?
Numa casa de vidro vi meu fim.
Numa casa de vidro me esperavas.

Numa casa de vidro as persianas
desciam lentamente e em seu lugar
a noite abria o escuro das entranhas
e o teu rosto morria devagar.

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Fiz do teu corpo sonho e n√£o olhei
nas palavras a morte que guardavas.

Descemos devagar as persianas,
deix√°mos que o amor nos corroesse
o íntimo da casa e as estranhas
cerimónias do dia que adoece.

Numa casa de vidro. Num espelho.
Na memória, por vezes amargura,
por vezes riso falso de t√£o velho,
cantar da sombra sobre a selva escura.

Numa casa de vidro te sonhei.
No vazio dessa casa me esperavas.

A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade Рpois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer tamb√©m responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas tamb√©m j√° esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem tamb√©m se admira de si mesmo por n√£o poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e r√°pido que ele corra, a corrente corre junto. √Č um milagre: o instante em um √°timo est√° a√≠,

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Os Homens não Sabem o que é o Amor

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante Рentão chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte Рe mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos.

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O Anjo Da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na m√£o de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde est√°s preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
P√Ķe-te aos p√©s e a cabe√ßa, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

Concebemos apenas √Ātomos em Compara√ß√£o com a Realidade das Coisas

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si pr√≥prio, √© o seu corpo, isto √©, certa parcela de mat√©ria que lhe √© peculiar. Mas, para compreender o que ela representa e a fix√°-la dentro dos seus justos limites, precisa de a comparar a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Que n√£o se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas a contemplar a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma l√Ęmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apare√ßa como um ponto na √≥rbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude n√£o passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista a√≠ se det√©m, que a nossa imagina√ß√£o n√£o pare; mais rapidamente se cansar√° ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo vis√≠vel √© apenas um tra√ßo percept√≠vel na amplid√£o da natureza, que nem sequer nos √© dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concep√ß√Ķes e as projectemos al√©m de espa√ßos imagin√°veis, concebemos t√£o somente √°tomos em compara√ß√£o com a realidade das coisas.

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Soneto XXI

As Relíquias de S. Cruz de Coimbra

Aquela √Āguia gentil de vista estranha
A Cristo viu, co’ a m√£o de estrelas chea,
Solícito, qual anda o que semea
C’os olhos longos no que ao longe apanha.

Lavrador foi no mundo, e com tamanha
Sede que inda de l√° fruito granjea.
Mas ai Senhor, em terra e triste area,
Mal estrelas se d√£o, pouco se ganha.

Bem sabe Cristo o que semea, e onde:
As vivas mortes s√£o de mortas vidas
(Que hoje neste sagrado templo esconde)

Estrelas, que de carne est√£o vistidas.
A quem semea seu valor responde,
E bem, donde as semea merecidas.

As pessoas pensam em mim como uma pessoa estranha. Isso n√£o √© o correcto. Eu tenho o cora√ß√£o de um pequeno rapaz…

Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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O Sono

√Č um bra√ßo magro de mulher, uns olhos espectrais
e brilhantes, uma cabe√ßa de esfinge, uma l√Ęmpada
que fumega. Talvez por os n√£o vermos, vejamos rios
que flamejam, jardins sepultos, um antepassado

desconhecido e cinzento que se derrama no quarto,
um portão esvoaçante, uma pequena fenda por onde
se vai até às nuvens nocturnas. Tudo o que
lá possa estar é tudo: a vassoura esquecida,

o rosto primordial da m√£e, uma torre de cad√°veres
ou um modesto banco de madeira onde deixaram
um vaso ver√≠dico de ger√Ęnios. Talvez um deus

v√≠treo, r√ļtilo ou, pintada de azul, uma virgem ocre
no cume de colina grega. Uma estranha m√ļsica soa
nas paredes, antes do exílio para onde nos leva o sono.