Passagens sobre Naturais

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Frases sobre naturais, poemas sobre naturais e outras passagens sobre naturais para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Um amor bem verdadeiro, uma vida bem íntima com uma mulher, a quem se queira como amante, que se estime como irmã, que se venere com mãe, que se proteja como filha, é evidentemente o destino mais natural ao homem, o complemento da sua missão na terra.

Os homens parecem n√£o considerar os seus defeitos suficientes: aumentam-lhes ainda o n√ļmero atrav√©s de algumas qualidades singulares com as quais simulam enfeitar-se, e cultivam-nas com tanto desvelo que elas acabam por tomar-se defeitos naturais e j√° n√£o depende deles corrigi-los.

A Sabedoria é a Nossa Salvação

A nossa cultura √© hoje muito superficial, e os nossos conhecimentos s√£o muito perigosos, j√° que a nossa riqueza em mec√Ęnica contrasta com a pobreza de prop√≥sitos. O equil√≠brio de esp√≠rito que haur√≠amos outrora na f√© ardente, j√° se foi: depois que a ci√™ncia destruiu as bases sobrenaturais da moralidade o mundo inteiro parece consumir-se num desordenado individualismo, reflector da ca√≥tica fragmenta√ß√£o do nosso car√°cter.

Novamente somos defrontados pelo problema atormentador de S√≥crates: como encontrar uma √©tica natural que substitua as san√ß√Ķes sobrenaturais j√° sem influ√™ncia sobre a conduta do homem? Sem filosofia, sem esta vis√£o de conjunto que unifica os prop√≥sitos e estabelece a hierarquia dos desejos, malbaratamos a nossa heran√ßa social em corrup√ß√£o c√≠nica de um lado e em loucuras revolucion√°rias de outro; abandonamos num momento o nosso idealismo pac√≠fico para mergulharmos nos suic√≠dos em massa da guerra; vemos surgir cem mil pol√≠ticos e nem um s√≥ estadista; movemo-nos sobre a terra com velocidades nunca antes alcan√ßadas mas n√£o sabemos oara onde vamos, nem se no fim da viagem alcan√ßaremos qualquer esp√©cie de felicidade.
Os nossos conhecimentos destroem-nos. Embebedem-nos com o poder que nos d√£o. A √ļnica salva√ß√£o est√° na sabedoria.

Um √önico Poema

Quando olho para esse livro (¬ęPoesia Toda¬Ľ), vejo que n√£o fabriquei ou instru√≠ ou afei√ßoei objectos ‚ÄĒ estas palavras n√£o sup√Ķem o mesmo modo de fazer‚ÄĒ, vejo que escrevi apenas um poema, um poema em poemas; durante a vida inteira brandi em todas as direc√ß√Ķes o mesmo aparelho, a mesma arma furiosa. Fui um inocente, porque s√≥ se consegue isso com inoc√™ncia. E se a inoc√™ncia √© uma condi√ß√£o insubstitu√≠vel de esc√Ęndalo, uma transparente e mobilizadora familiaridade com a terra, constitui tamb√©m um rev√©s: pois h√° uma altura em que se sabe: as coisas ludibriaram-nos, ludibri√°mo-nos nas coisas; a inoc√™ncia deveria ter-nos oferecido uma vida estupenda, um tumulto: o ar em torno proporcionado como pura levita√ß√£o; ver, tocar; os mais simples actos e factos pr√≥ximos como instant√Ęneo e completo conhecimento. Era assim, foi assim, mas a dor, as vozes demon√≠acas, o abismo junto √† dan√ßa, a noite que se vai insinuando a toda a altura e largura da luz, tudo Isso invade a inoc√™ncia ‚ÄĒ e ent√£o j√° n√£o sabemos nada, por exemplo: ser√° inocente a nossa inoc√™ncia? A inoc√™ncia √© um estado clandestino na ditadura do mundo; tem se der astuta, tem de recorrer a todas as torpezas para lutar e escapar,

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A Distorção do Entendimento

Que dif√≠cil √© propor um problema ao entendimento alheio sem corromper esse entendimento pela maneira de propor! Se dizemos: acho isto belo, acho obscuro, ou outra coisa semelhante, arrastamos a imagina√ß√£o para este ju√≠zo, ou irritamo-la, levando-a ao ju√≠zo contr√°rio. Mais vale nada dizer, e ent√£o o outro julga segundo o que √©, ou segundo o que √© naquele momento, e de acordo com o que as outras circunst√Ęncias, de que n√£o somos respons√°veis, l√° tiverem posto. Mas pelo menos n√≥s n√£o pusemos nada; a n√£o ser que o nosso sil√™ncio tenha tamb√©m o seu efeito, segundo o sentido e a interpreta√ß√£o que ele estiver disposto a atribuir-lhe, ou segundo o que depreende dos movimentos e da express√£o do rosto, ou do tom de voz, conforme for melhor ou pior fisionomista: t√£o dif√≠cil √© n√£o deslocar um entendimento da sua base natural, ou antes, t√£o pouco um entendimento tem de firme e est√°vel!

O natural: ¬ęO mal teve sempre por si o grande efeito! E a natureza √© m√°! Sejamos portanto naturais!¬Ľ, assim raciocinam em segredo esses grandes pesquisadores de efeito da humanidade que, vezes demais, foram contados entre os grandes homens.

Evitar o Sofrimento

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa sa√ļde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emo√ß√Ķes, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa √©. E este h√°bito de reprimirmos constantemente as nossas puls√Ķes naturais √© o que faz de n√≥s seres t√£o refinados. Porque √© que n√£o nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabe√ßa fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque √© que n√£o nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separa√ß√£o, uma parte dos nossos cora√ß√Ķes fica desfeita. Assim, esfor√ßamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

Presença Bela, Angélica Figura

Presença bela, angélica figura,
em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
gesto alegre, de rosas semeado,
entre as quais se est√° rindo a Fermosura;

olhos, onde tem feito tal mistura
em cristal branco o preto marchetado,
que vemos j√° no verde delicado
não esperança, mas enveja escura;

brandura, aviso e graça, que aumentando
a natural beleza cum desprezo,
com que, mais desprezada, mais se aumenta;

s√£o as pris√Ķes de um cora√ß√£o que, preso,
seu mal ao som dos ferros vai cantando,
como faz a sereia na tormenta.

Inveja é Vaidade

O que chamamos inveja, não é senão vaidade. Continuamente acusamos a injustiça da fortuna (sorte), e a consideramos ainda mais cega do que o amor, na repartição das felicidades. Desejamos o que os outros possuem, porque nos parece, que tudo o que os outros têm, nós o merecíamos melhor; por isso olhamos com desgosto para as cousas alheias, por nos parecer, que deviam ser nossas: que é isto senão vaidade? Não podemos ver luzimento em outrem, porque imaginamos, que só em nós é próprio: cuidamos, que a grandeza só em nós fica sendo natural, e nos mais violenta: o esplendor alheio passa no nosso conceito por desordem do acaso, e por miséria do tempo.

A Moral entre a Verdade e a Subjectividade

Um homem que busca a verdade torna-se s√°bio; um homem que pretende dar r√©dea solta √† sua subjectividade torna-se, talvez, escritor; e que far√° um homem que busca algo que se situa entre essas duas hip√≥teses? Mas tais exemplos, os de algo que est√° ¬ęentre¬Ľ, encontramo-los em qualquer senten√ßa moral, a come√ßar pela mais simples e mais conhecida: ¬ęn√£o matar√°s¬Ľ. V√™-se imediatamente que n√£o √© nem uma verdade nem uma experi√™ncia subjectiva. Sabe-se que, em muitos aspectos, nos conformamos estritamente a ela, mas que, por outro lado, se aceitam numerosas excep√ß√Ķes, ainda que perfeitamente delimitadas; no entanto, num grande n√ļmero de casos de um terceiro tipo – por exemplo na imagina√ß√£o, na esfera dos desejos, nas pe√ßas de teatro ou no prazer que experimentamos ao ler as not√≠cias dos jornais – deixamo-nos oscilar descontroladamente entre a avers√£o e a atrac√ß√£o.
Por vezes aquilo a que n√£o podemos chamar nem verdade nem experi√™ncia pessoal recebe o nome de imperativo. Tais imperativos foram associados aos dogmas da religi√£o ou da lei, concedendo-lhes assim o car√°cter de uma verdade derivada, mas os romancistas narram as excep√ß√Ķes, a come√ßar pelo sacrif√≠cio de Abra√£o e terminando na bela mulher jovem que matou o amante a tiro,

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Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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O grandes homens são maiores na recordação do que ao natural. Aquilo que vimos neles é, ao mesmo tempo, o seu melhor e o melhor de nós próprios.

Títulos e Diplomas

Parece que a humanidade s√≥ se esfor√ßa enquanto tem a esperar diplomas idiotas, que pode exibir em p√ļblico para obter proveitos, mas, quando j√° tem na m√£o tais diplomas idiotas em n√ļmero suficiente, deixa-se levar. Ela vive em grande parte s√≥ para obter diplomas e t√≠tulos, n√£o por qualquer outra raz√£o, e, depois de ter obtido o n√ļmero de diplomas e t√≠tulos que, na sua opini√£o, √© suficiente, deixa-se cair na cama macia desses diplomas e t√≠tulos. Ela n√£o parece ter qualquer outro objectivo para a vida. N√£o tem, segundo parece, qualquer interesse numa vida pr√≥pria, independente, numa exist√™ncia pr√≥pria, independente, mas apenas nesses diplomas e t√≠tulos, sob os quais a humanidade h√° j√° s√©culos amea√ßa sufocar.
As pessoas não procuram independência e autonomia, não procuram a sua própria evolução natural, mas apenas esses diplomas e títulos e estariam, a todo o momento, prontas a morrer por esses diplomas e títulos, se lhos entregassem e dessem sem qualquer condição, esta é que é a verdade desmascaradora e deprimente. Tão pouco estimam elas a vida em si que só vêem os diplomas e títulos e nada mais. Elas penduram nas paredes das suas casas os diplomas e títulos, nas casas dos mestres talhantes e dos filósofos,

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