Passagens sobre Caminhos

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Frases sobre caminhos, poemas sobre caminhos e outras passagens sobre caminhos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Elogio da Desconhecida

Ela. Seus braços vencidos,
Naus em procura do mar,
Caminhos brancos, compridos,
Que conduzem ao luar.

Se ao meu pescoço os enrola
Eu julgo, com alegria,
Que trago ao pescoço o dia
Como se fosse uma gola.

O Luar, l√Ęmpada acesa
Pra alumiar à princesa
Que em meus olhos causa alarde.

E o dia, longe, esquecido,
√Č um len√ßol estendido
Numa janela da Tarde.

Os que buscam o justo caminho da verdade n√£o devem ocupar-se com nenhum objecto a respeito do qual n√£o possam ter uma certeza igual √† das demonstra√ß√Ķes da aritm√©tica e da geometria.

A Mais Bela Noite do Mundo

Hoje,
ser√° o fim!

Hoje
nem este falso silêncio
dos meus gestos malogrados
debruçando-se
sobre os meus ombros nus
e esmagados!

Nem o luar, pano baço de cenário velho,
escutando
a minha pris√£o de viver
a lição que me ditavam:
– Menino! acende uma vela na tua vida,
que o sol, a luz e o ar
s√£o perfumes de pecado.
Tem bra√ßos longos e tentadores ‚Äď o dia!

РMenino! recolhe-te na sombra do meu regaço
que teus pés
são feitos de barro e cansaço!

(Era esta a voz do pap√£o
pintado de belo
na m√°scara de papel√£o).

Eram in√ļteis e magoadas as noites da minha rua…
Noites de lua
que lembravam as grilhetas
da minha vida parada.

– Amanh√£,
ter√°s os mestres, as aulas, os amigos e os livros
e o espect√°culo da morgue
morando durante dias
nos teus sentidos gorados.

Amanh√£,
ser√° o ultrapassar outra curva
no teu caminho destinado.

(Era esta a voz do pap√£o
que acendia a vela,

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O Poema Pouco Original do Medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambul√Ęncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
m√£ozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murm√ļrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sess√Ķes cont√≠nuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
oper√°rios
(assim assim)
escritur√°rios
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Somos Irracionais

No meu tempo de escola prim√°ria, algumas cr√©dulas e ing√©nuas pessoas, a quem d√°vamos o respeitoso nome de mestres, ensinaram-me que o homem, al√©m de ser um animal racional, era, tamb√©m, por gra√ßa particular de Deus, o √ļnico que de tal fortuna se podia gabar. Ora, sendo as primeiras li√ß√Ķes aquelas que mais perduram no nosso esp√≠rito, ainda que, muitas vezes, ao longo da vida, julguemos t√™-las esquecido, vivi durante muitos anos aferrado √† cren√ßa de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradi√ß√Ķes, esta esp√©cie de que fa√ßo parte usava a cabe√ßa como aposento e escrit√≥rio da raz√£o. Certo era que o pintor Goya, surdo e s√°bio, me protestava que √© no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, n√£o podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal s√≥ acontecia quando a raz√£o, pobrezinha, cansada da obriga√ß√£o de ser razon√°vel, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si pr√≥pria. Chegado agora a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a raz√£o, no homem, n√£o faz sen√£o dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, √©, tamb√©m indubitavelmente, o mais irracional de todos eles.

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Bondade

√Č a bondade que te faz formosa,
Que a alma te diviniza e transfigura;
√Č a bondade, a rosa da ternura,
Que te perfuma com perfume à rosa.

Teu ser angelical de luz bondosa
Verte em meu ser a mais sutil doçura,
Uma celeste, límpida frescura,
Um encanto, uma paz maravilhosa.

Eu afronto contigo os vampirismos,
Os corruptos e mórbidos abismos
Que em v√£o busquem tentar-me no Caminho.

Na suave, na doce claridade,
No consolo, de amor dessa bondade
Bebo a tu’alma como et√©reo vinho.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

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N√£o Calar

H√° uma regra fundamental quando se vive como n√≥s estamos a viver ‚Äď em sociedade, porque somos uns animais greg√°rios ‚Äď que √© simplesmente n√£o calar. N√£o calar! Que isso possa custar em comunidades v√°rias a perda de emprego ou m√°s interpreta√ß√Ķes j√° o sabemos, mas tamb√©m n√£o estamos aqui para agradar a toda a gente. Primeiro, porque √© imposs√≠vel, e segundo, porque se a consci√™ncia nos diz que o caminho √© este ent√£o sigamo-lo e quanto √†s consequ√™ncias logo veremos.

O Amor Exige a Verdade

A maioria das pessoas hoje em dia n√£o considera o amor como relacionado de alguma forma com a verdade. O amor √© visto como uma experi√™ncia associada com o mundo das emo√ß√Ķes fugazes, e n√£o com a verdade. Mas √© esta uma descri√ß√£o adequada do amor? O amor n√£o pode ser reduzido a uma emo√ß√£o ef√©mera. √Č verdade que estimula a nossa afectividade, mas, a fim de o abrir para o amado e, assim, abrir o caminho que conduz longe do egocentrismo e em dire√ß√£o √† outra pessoa, a fim de construir um relacionamento duradouro, o amor visa a uni√£o com o amado. Aqui come√ßamos a ver como o amor exige a verdade. S√≥ na medida em que o amor √© fundamentado na verdade pode ser suportado ao longo do tempo, pode transcender o momento passageiro e ser suficientemente s√≥lido para sustentar uma viagem compartilhada. Se o amor n√£o est√° vinculado √† verdade, √© uma presa emo√ß√Ķes inconstantes e n√£o pode resistir ao teste do tempo. Amor verdadeiro, por outro lado, unifica todos os elementos da nossa pessoa e torna-se uma nova luz que aponta o caminho para uma vida grande e realizada. Sem a verdade, o amor √© incapaz de estabelecer um v√≠nculo firme;

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Mala Com Alça

√Č da lama essa mala que retiro
para subir a encosta (como a pedra
que Sisifo ainda empurra todo dia)
numa viagem cheia de seq√ľelas.

N√£o h√° como negar tantos espinhos
na travessia turva de mistérios
que v√£o-se descobrindo nos caminhos:
a mão negada, a fome, o vitupério,

o rito solid√°rio que esquecemos
em troca a vaidade transitória.
Somos do barro e ao barro voltaremos.

A verdade do Homem e de sua Hora
vem com mala e alça, disto sabemos,
mais o peso do corpo e sua história.

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus p√°lidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca n√£o aprende
Murm√ļrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o l√ļgubre arrepio
Das sensa√ß√Ķes estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mist√©rio…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Quem Dir√° aos Amantes

Quem dir√° aos amantes
o caminho
pelo qual os corpos v√£o
ao termo do que souberam?
E depois foi noção,
espaço, letra,
e n√£o quiseram o retorno?
Quem os aguardar√° do outro lado
onde o riso,
a aveia, s√£o o pre√Ęmbulo
da carícia no seio?

Quem dir√° aos
amantes que o amor h√°-de despir
o acontecido
e passar√° pela m√£o
como passou o frio
de flor em flor?

Velho Cego, Choravas

Velho cego, choravas quando a tua vida
era boa, e tinhas em teus olhos o sol:
mas se tens já o silêncio, o que é que tu esperas,
o que é que esperas, cego, que esperas da dor?

No teu canto pareces um menino que nascera
sem pés para a terra e sem olhos para o mar
como os das bestas que por dentro da noite cega
– sem dia ou crep√ļsculo – se cansam de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
em dois ou três minutos até à vida nova,
velho cego, que esperas, que podes esperar?

Se pela mais torpe amargura do destino,
animal velho e cego, n√£o sabes o caminho,
eu que tenho dois olhos to posso ensinar.

Tradução de Rui Lage

Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos n√£o suscitam e acumulam em n√≥s, reguladas e governadas como s√£o pela c√≥lera! Come√ßamos por ser inimigos das raz√Ķes e acabamos por o ser dos homens. S√≥ aprendemos a discutir para contraditar, e, √† for√ßa de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir √© perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Plat√£o, na Rep√ļblica, pro√≠be o seu exerc√≠cio aos esp√≠ritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de p√īr a caminho, para descobrir a verdade, com quem n√£o tem passo nem andamento que sirvam? N√£o se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; n√£o falo dos meios escol√°sticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento s√£o. Que suceder√° por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, p√Ķem-no de parte na confus√£o do acess√≥rio.
No fim de uma hora de tormenta j√° n√£o sabem o que procuram; um est√° em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as compara√ß√Ķes; outros n√£o entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: s√≥ pensam neles,

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Da Emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com raz√Ķes claras quanto errava
Em n√£o me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.

A ingratid√£o e a trai√ß√£o s√£o contr√°rias ao caminho da Vida. √Č natural que percam a vida aqueles que renegam o caminho da Vida.