Textos sobre √ānsia

32 resultados
Textos de √Ęnsia escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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O Inferno de Ser Eu

Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita√ß√£o Absoluta, Expuls√£o-Ser do Universo long√≠nquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero v√°cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do pr√≥prio mist√©rio, da pr√≥pria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da cria√ß√£o que me deixou atr√°s. Arder√° em mim eternamente, inutilmente, a √Ęnsia (est√©ril) do regresso a ser.
N√£o poderei sentir porque n√£o terei mat√©ria com que sinta, n√£o poderei respirar alegria, ou √≥dio, ou horror, porque n√£o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci√™ncia abstracta no inferno do n√£o conter nada, n√£o-Conte√ļdo Absoluto, [Sufoca√ß√£o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).

Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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Ningu√©m Goza um Bem que √© Fonte de Preocupa√ß√Ķes

Aquele que melhor goza da riqueza √© o que menos necessita da riqueza. Quem necessita de riqueza est√° em √Ęnsias por ela; ora ningu√©m goza um bem que √© fonte de preocupa√ß√Ķes. Procura sempre acrescentar-lhe qualquer coisa, e enquanto pensa em aument√°-la, esquece-se de tirar dela partido.

O Louvor do Jornal

Nas nossas democracias a √Ęnsia da maioria dos mortais √© alcan√ßar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ac√ß√Ķes – mesmo as boas.
(…) Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam.
(…) O jornal exerce todas as fun√ß√Ķes do defunto Satan√°s, de quem herdou a ubiquidade; e √© n√£o s√≥ o pai da mentira, mas o pai da disc√≥rdia.

O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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O Homem РUm Mecanismo de Relógio

√Č realmente inacredit√°vel como a vida da maioria dos homens flui de maneira insignificante e f√ļtil, quando vista externamente, e qu√£o ap√°tica e sem sentido pode parecer interiormente. As quatro idades da vida que levam √† morte s√£o feitas de √Ęnsia e mart√≠rio extenuados, al√©m de uma vertigem ilus√≥ria, acompanhada por uma s√©rie de pensamentos triviais. Assemelham-se ao mecanismo de um rel√≥gio, que √© colocado em movimento e gira, sem saber por qu√™. E toda a vez que um homem √© gerado e nasce, d√°-se novamente corda ao rel√≥gio da vida humana, para ent√£o repetir a mesma cantilena pela en√©sima vez, frase por frase, compasso por compasso, com varia√ß√Ķes insignificantes.

Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspira√ß√£o, sombra chinesa da sua √Ęnsia in√ļtil, segue, revoltado e ign√≥bil, servo das mesmas leis qu√≠micas, no rodar imperturb√°vel da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperan√ßa, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilus√Ķes da realidade e a realidade das suas ilus√Ķes. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si mem√≥rias de batalhas, versos, est√°tuas e edif√≠cios. A Terra esfriar√° sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascen√ßa, o soI um dia, se alumiou, deixar√° de alumiar; se deu vida, dar√° a si a morte. Outros sistemas de astros e de sat√©lites dar√£o porventura novas humanidades; outras esp√©cies de eternidades fingidas alimentar√£o almas de outra esp√©cie; outras cren√ßas passar√£o em corredores long√≠nquos da realidade m√ļltipla. Cristos outros subir√£o em v√£o a novas cruzes. Novas seitas secretas ter√£o na m√£o os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia ser√° outra, e essa Cabala diferente. S√≥ uma obedi√™ncia passiva, sem revoltas nem sorrisos, t√£o escrava como a revolta, √© o sistema espiritual adequado √† exterioridade absoluta da nossa vida serva.

√Ālvaro de

Desde que Te Conheço

invade-me uma grande calma quando penso em ti. sinto-me bem, disposto para as mais dif√≠ceis tarefas, para os mais complicados e demorados trabalhos. j√° n√£o √© na turbul√™ncia das noites (vividas na pressa) que encontro a vontade de escrever. as noites cansaram-me, ia acabando comigo de vez na desordem e na √Ęnsia de viver. claro que continuo a sair √† noite e a amar esse espa√ßo fant√°stico que √© a cidade. esta cidade que amo, mas tu est√°s nela tamb√©m. a cidade mudou desde o instante em que nela entraste. j√° n√£o percorro a noite numa ang√ļstia que se esquece e anula na bebedeira, ao nascer do dia. desde que te conhe√ßo tenho levado uma vida bastante regrada. deixei de beber. deixei de andar por a√≠ a ver se algu√©m me pega ou se eu pego em algu√©m. acabou. tenho-te e sinto uma felicidade estranha a dominar-me. trabalho calmamente, com vagar, e avan√ßo sem ser aos trope√ß√Ķes. leio e releio o que escrevo. tudo se torna, de texto em texto, mais preciso, mais pr√≥ximo do que penso. escrevo somente (como de resto sempre fiz) o que me d√° gozo e ao mesmo tempo me perturba. por isso odeio tanto reler-me.

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Um Sentido Para a Vida

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ign√≥bil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agita√ß√£o dos traficantes e os seus autom√≥veis, dos pol√≠ticos e a sua balb√ļrdia – mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer – e eles v√£o morrer.
A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei Рo que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) Рé o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.
Se vale a pena viver a vida espl√™ndida – esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? … S√≥ a luz! s√≥ a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior.

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Orientar Filosoficamente a Vida

A √Ęnsia de uma orienta√ß√£o filos√≥fica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em car√™ncia de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, s√ļbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia.

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Estatuto e Eternidade

N√£o me entendes, car√≠ssimo Sebasti√£o: dizes que misturo tudo. Dizes que √© incompar√°vel a liberdade de que hoje dispomos para imaginar, escolher, criar, viver. Pelo menos na nossa civiliza√ß√£o, dizes. E eu rio-me do que tu dizes, e tu zangas-te com o meu riso, cuidando, como tanto se cuida naquilo a que chamas a nossa civiliza√ß√£o, que me rio de ti. Querido Sebasti√£o, rio-me porque aquilo a que chamas a nossa civiliza√ß√£o ainda nem sequer come√ßou. Importa-me a liberdade, sim, mas vejo que a usamos ainda e apenas como uma outra esp√©cie de grilh√£o. Vestimos a liberdade como outrora vest√≠amos a submiss√£o; ela n√£o √© mais do que um traje de baile, com um carnet em que apontamos os nomes daqueles com quem dan√ßaremos para brilhar diante dos outros. Democratizou-se o anseio de estatuto, mas n√£o conseguimos ainda sair dele. √Č isso que vejo, Sebasti√£o.
Som e sentido, continente e conte√ļdo dilacerando-se, hoje como sempre, at√© que nada reste sob a superf√≠cie hiperb√≥lica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode tamb√©m chamar-se √Ęnsia de eternidade. Mas eu vejo t√£o pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebasti√£o. A eternidade que somos conduzidos a aspirar √© a da juventude –

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O Valor da Ingenuidade

O maior perigo que corre o ingénuo: o de querer ser esperto. Tão ingénuo que cuida, coitado, de que alguma vez no mundo o conhecimento valeu mais do que a ingenuidade de cada um. A ingenuidade é o legítimo segredo de cada qual, é a sua verdadeira idade, é o seu próprio sentimento livre, é a alma do nosso corpo, é a própria luz de toda a nossa resistência moral.
Mas os ing√©nuos s√£o os primeiros que ignoram a for√ßa criadora da ingenuidade, e na √Ęnsia de crescer compram vantagens imediatas ao pre√ßo da sua pr√≥pria ingenuidade.
Raríssimos foram e são os ingénuos que se comprometeram um dia para consigo próprios a não competir neste mundo senão consigo mesmos. A grande maioria dos ingénuos desanima logo de entrada e prefere tricher no jogo de honra, do mérito e do valor. São eles as próprias vítimas de si mesmos, os suicidas dos seus legítimos poetas, os grotescos espanatalhos da sua própria esperteza saloia.
Bem haja o povo que encontrou para o seu idioma esta denunciante expressão da pessoa que é vítima de si mesma: a esperteza saloia. A esperteza saloia representa bem a lição que sofre aquele que não confiou afinal em si mesmo,

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Vivemos Para os Momentos Futuros, e N√£o o Presente

A √Ęnsia de matar tempo, de liquidar o espa√ßo de dias entre um acontecimento e o que lhe sucede, transmite, tanto em casos de amor como em outros, fins importantes, um estado de alma que se preocupa exclusivamente em atingir esse alvo previamente estabelecido. N√£o se pensa em mais nada. Semelhante √† situa√ß√£o criada quando se sabe de antem√£o que se vai encontrar determinada pessoa que nos interessa muito. Fica-se incapaz de articular palavra, de estreitar v√≠nculo com quem quer que seja que se nos atravesse no caminho. Est√°-se a viver em outrem, num estado fora da rela√ß√£o humana do dia a dia. Nem sequer ouvimos os sons, arrepiamos a pele ao tomar conhecimento consciente de not√≠cias que j√° sab√≠amos de antem√£o pertencerem ao dom√≠nio p√ļblico. Esta √© tamb√©m a √Ęnsia do suicida que nada mais faz entre a decis√£o de cometer o homic√≠dio e a pr√°tica do acto extremo.

A Mancha Humana

– √Č o resultado de ter sido criado entre n√≥s – disse Faunia. – √Č o resultado de passar toda a vida com pessoas como n√≥s. A mancha humana – acrescentou, mas sem repulsa, desprezo ou condena√ß√£o. Nem sequer com tristeza. As coisas s√£o como s√£o – √† sua maneira seca e concisa, era s√≥ isso que ela estava a dizer √† rapariga que dava de comer √† serpente: n√≥s deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, s√©men. N√£o h√° outra maneira de estar aqui. N√£o tem nada a ver com desobedi√™ncia. Nem com gra√ßa, ou salva√ß√£o, ou reden√ß√£o. Est√° em todos. Sopro interior. Inerente. Determinante. A mancha que existe antes da sua marca. Sem o sinal de que est√° l√°. A mancha que √© t√£o intr√≠nseca que n√£o precisa de uma marca. A mancha que precede a desobedi√™ncia, que engloba a desobedi√™ncia e confunde toda e qualquer explica√ß√£o e compreens√£o. √Č por isso que toda a purifica√ß√£o √© uma anedota. √Č uma anedota b√°sica, ainda por cima. A fantasia da pureza √© aterradora. √Č demencial. O que √° √Ęnsia de purificar sen√£o impureza?

Tudo quanto estava a dizer acerca da mancha era que ela é inelutável.

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A Arma Diabólica do Ritual

A √Ęnsia pelo ritual e pelas cerim√≥nias √© forte e generalizada. Quanto √© forte e est√° largamente espalhada v√™-se pelo ardor com que homens e mulheres que n√£o t√™m nenhuma religi√£o ou t√™m uma religi√£o puritana sem ritual se agarram a qualquer oportunidade para participarem em cerim√≥nias, sejam elas de que esp√©cie forem. A Ku Klu Klan nunca teria conseguido o seu √™xito do p√≥s-guerra se se aferrasse aos trajes civis e √†s reuni√Ķes de comiss√Ķes. Os Srs. Simmons e Clark, os ressuscitadores daquela not√°vel organiza√ß√£o, compreendiam o seu p√ļblico. Insistiram em estranhas cerim√≥nias nocturnas nas quais os trajes de fantasia n√£o eram facultativos mas sim obrigat√≥rios. O n√ļmero de s√≥cios subiu aos saltos e bald√Ķes. O Klan tinha um objectivo: o seu ritual simbolizava alguma coisa. Mas para uma multid√£o ritofaminta a significa√ß√£o √© aparentemente sup√©rflua. A popularidade dos c√Ęnticos em comunidade mostram que o rito, como tal, √© o que o p√ļblico quer. Desde que seja impressivo e provoque uma emo√ß√£o, o rito √© bom em si pr√≥prio. N√£o interessa nada o que ele possa significar. √Ä cerim√≥nia dos c√Ęnticos em comunidade falta todo o significado filos√≥fico, n√£o tem nenhuma liga√ß√£o com qualquer sistema de ideias. √Č simplesmente ela pr√≥pria e mais nada.

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Literatura e Imortalidade

Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores, poetas e dramaturgos?
Citar √© ser injusto. Enumerar √© esquecer. N√£o quero esquecer ningu√©m de quem me n√£o lembre. Confio ao sil√™ncio a injusti√ßa. A √Ęnsia de ser completo leva ao desespero de o n√£o poder ser. N√£o citarei ningu√©m. Julgue-se citado quem se julgue com direito a s√™-lo. Ressalvo assim todos. Lavo as m√£os, como Pilatos; lavo-as, por√©m, inutilmente porque √© sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele √© j√° o futuro? Quem s√£o os meus contempor√Ęneos? S√≥ o futuro o poder√° dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses s√£o apenas os meus conterr√Ęneos no tempo; e eu n√£o quero ser bairrista em mat√©ria de imortalidade. Na d√ļvida, repito, n√£o citarei ningu√©m.

As Verdadeiras Necessidades não Têm Gostos

Nenhum conselho me parece mais √ļtil para te dar do que este (e que nunca √© demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir v√≠cios com desejos. Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te √© servida a refei√ß√£o, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza s√≥ necessita de uma coisa: a comida. (…) A fome dispensa pretens√Ķes, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com qu√™. O triste prazer da gula vive atormentado na √Ęnsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e n√£o apenas encher o est√īmago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo √† primeira golada! Tem, por isso toda a raz√£o Hor√°cio quando diz que a sede n√£o se interessa pela esp√©cie de copo ou pela eleg√Ęncia da m√£o que o serve.
Se achas que t√™m para ti muita import√Ęncia os cabelos encaracolados do escravo, ou a transpar√™ncia do copo que te p√Ķe √† frente, √© porque n√£o est√°s com sede. Entre outros benef√≠cios que devemos √† natureza conta-se este,

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A Vida Raramente depende da Inciativa dos Homens

Poucas pessoas saber√£o, a meio da vida, como chegaram a ser o que s√£o, aos seus prazeres, √† sua vis√£o do mundo, √† sua mulher, ao seu car√°cter, √† sua profiss√£o e aos seus √™xitos; mas sentem que a partir da√≠ as coisas j√° n√£o ir√£o mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque n√£o se consegue descobrir em lugar nenhum a raz√£o suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente poss√≠vel ter acontecido de outra forma. O que acontece, ali√°s, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunst√Ęncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida est√° ainda √† nossa frente como uma manh√£ inesgot√°vel, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa pr√≥pria vida, mas que √© t√£o surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de n√≥s e constatamos que √© completamente diferente do que hav√≠amos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso;

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