Textos sobre Compreens√£o

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Textos de compreensão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Virtude do Aforista

A excel√™ncia dos aforismos n√£o consiste tanto na express√£o de algum sentimento raro e abstruso, como na compreens√£o de algumas √≥bvias e √ļteis verdades em poucas palavras. N√≥s frequentemente ca√≠mos em erros e distrac√ß√Ķes, n√£o porque os verdadeiros princ√≠pios de ac√ß√£o n√£o sejam conhecidos, mas porque, durante algum tempo, eles n√£o s√£o recordados; e o aforista pode, ent√£o, ser enumerado justamente entre os benfeitores do g√©nero humano que contrai as grandes regras da vida em senten√ßas curtas, que podem ser facilmente colocadas na mem√≥ria, e serem ensinadas atrav√©s da lembran√ßa frequente para que possam ocorrer periodicamente √† mente.

A Imaginação é a Base do Homem

De tal modo a imagina√ß√£o √© a base do homem ‚ÄĒ Joana de novo ‚ÄĒ que todo o mundo que ele tem constru√≠do encontra sua justificativa na beleza da cria√ß√£o e n√£o na sua utilidade, n√£o em ser o resultado de um plano de fins adequados √†s necessidades. Por isso √© que vemos multiplicarem-se os rem√©dios destinados a unir o homem √†s ideias e institui√ß√Ķes existentes ‚ÄĒ a educa√ß√£o, por exemplo, t√£o dif√≠cil ‚ÄĒ e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e n√£o para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspira√ß√£o. O determinismo n√£o √© um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga at√© seu formigueiro, misturar √°gua com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se √© pequeno e quando se √© grande. √Č erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo ‚ÄĒ o plano orientado para um dado fim real ‚ÄĒ seria a compreens√£o, a estabilidade, a felicidade, a maior vit√≥ria de adapta√ß√£o que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas ¬ępara qu√™¬Ľ parece-me, perante a realidade,

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O Amor da Sabedoria Tem Falta de Amor

A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente. Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor. O amor da sabedoria Рou filosofia Рtem falta de amor. O importante, na vida, é o amor. Com todos os perigos que carrega.
Isto não é suficiente. Se o mal de que sofremos e fazemos sofrer é a incompreensão de outrem, a autojustificação, a mentira de si próprio (self-deception), então a via da ética Рe é aí que introduzirei a sabedoria Рestá no esforço de compreensão e não na condenação Рno auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça por reconhecer a mentira de si próprio.

A Natureza das Palavras

As palavras são parte da imaginação, isto é, tal como fingimos muitos conceitos na medida em que, vagamente, por alguma disposição do corpo, são compostos na memória, não se deve duvidar de que também as palavras, como a imaginação, podem ser a causa de muitos e grandes erros, se com elas não tivermos muita precaução. Acrescente-se que são formadas de acordo com o arbítrio e a compreensão do vulgo, de modo que não são senão sinais das coisas como se acham na imaginação, mas não como estão no intelecto.
O que claramente se v√™ pelo facto de que a todas as coisas que est√£o s√≥ no intelecto e n√£o na imagina√ß√£o puseram muitas vezes nomes negativos, como sejam, incorp√≥reo, infinito, etc., e tamb√©m muitas coisas que s√£o realmente afirmativas exprimem negativamente, e vice-versa, como s√£o incriado, independente, infinito, imortal, etc., porque, sem d√ļvida, muito mais facilmente imaginamos o contr√°rio disso, motivo pelo qual ocorreram antes aos primeiros homens e usaram nomes positivos. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das palavras leva a afirm√°-lo ou neg√°-lo, mas n√£o a natureza das coisas; por isso, ignorando-a, facilmente tomar√≠amos algo falso por verdadeiro.

Virtude e Pecado s√£o Inatos

Nenhum pr√©mio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal pr√©mio ou tal castigo. Virtude ou pecado s√£o manifesta√ß√Ķes inevit√°veis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as religi√Ķes colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem, nada sendo nem podendo, nada p√īde merecer, em outros mundos, de que nenhuma ci√™ncia pode dar not√≠cia, de que nenhuma f√© pode transmitir a vis√£o. Abdiquemos, pois, de toda a cren√ßa sincera, como de toda a preocupa√ß√£o de influir em outrem.
A vida, disse Gabriel Tarde, √© a busca do imposs√≠vel atrav√©s do in√ļtil. Busquemos sempre o imposs√≠vel, porque tal √© o nosso fado; busquemo-lo atrav√©s do in√ļtil, porque n√£o passa caminho por outro ponto; ascendamos, por√©m, √† consci√™ncia de que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que mere√ßa um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender, disse o escolista. Compreendamos, compreendamos sempre, e façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão-de murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.

A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

O Problema da Especialização

O dom√≠nio dos factos explic√°veis pela ci√™ncia alargou enormemente, e o conhecimento te√≥rico em todos os campos da ci√™ncia tem sido aprofundado, para al√©m do que podia esperar-se. A capacidade de compreens√£o humana, por√©m, √© e ser√° sempre muito limitada. Assim n√£o podia deixar de acontecer que a actividade do investigador individual tivesse que restringir-se a um sector, cada vez mais limitado, do conhecimento cient√≠fico geral. Mas o mais grave √© que esta especializa√ß√£o faz que a compreens√£o geral da ci√™ncia como um todo ‚ÄĒ sem a qual o verdadeiro investigador cristaliza for√ßosamente ‚ÄĒ tenha de marcar passo com a evolu√ß√£o, o que se torna cada vez mais dif√≠cil. Cria-se, assim, uma situa√ß√£o id√™ntica √†quela que, na B√≠blia, √© simbolicamente representada pela Hist√≥ria da torre de Babel. Todo o investigador honesto tem a dolorosa consci√™ncia dessa limita√ß√£o involunt√°ria a um c√≠rculo de compreens√£o cada vez mais apertado, que amea√ßa roubar as grandes perspectivas ao investigador e o reduz a simples obreiro.

A Tirania Intelectual do N√ļmero

¬ęUma das mais estranhas ideias do vulgo, previu Henry Maine, √© que o sufr√°gio universal pode promover e promover√° progresso, criando novas ideias, novas inven√ß√Ķes, novas artes. Mas as probabiblidades s√£o para que s√≥ produza uma forma nociva de conservantismo¬Ľ. Temos de admitir, com os ingleses ricos em preconceitos, que a democracia √© hostil ao g√©nio e √† arte. Porque ela s√≥ d√° valor ao que cabe dentro da compreens√£o dos esp√≠ritos m√©dios; quando v√™ erguer-se o pal√°cio de um cinema, julga tratar-se do P√°rtenon; ¬ęse dependesse da assembleia ateniense nunca o mundo teria a Acr√≥pole¬Ľ (Plutarco, Vida de P√©ricles).
A tirania intelectual do n√ļmero pode tornar-se t√£o torturante como a dos monarcas; em alguns estados americanos o conhecimento acima de um certo limite j√° √© considerado coisa perigosa. A desconfian√ßa que a democracia tem da individualidade decorre da teoria da igualdade; desde que todos s√£o iguais, basta a contagem dos narizes para a descoberta da verdade ou a santifica√ß√£o de um costume. E a democracia n√£o √© apenas uma filha da era da m√°quina que governa por meio de ¬ęm√°quinas¬Ľ; ainda encerra em si a potencialidade da mais terr√≠vel das m√°quinas – a compuls√£o dos ignorantes contra a diferen√ßa,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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O Bem e o Mal

Em princípio, é justo que se mostre maior afecto por aqueles que mais contribuíram para o enobrecimento dos homens e da vida humana. Se porém indagarmos quais são esses homens vemo-nos perante dificuldades. Nos chefes políticos, e até mesmo nos chefes religiosos, é por vezes bastante duvidoso sabermos se o que fizeram serviu mais para o bem do que para o mal.
Creio pois, muito s√©riamente, que a melhor maneira de servir os homens √© ocup√°-los numa tarefa nobre, mediante a qual eles se enobrecem indirectamente. Isto aplica-se em primeiro lugar aos artistas not√°veis, em segundo lugar aos investigadores. √Č certo que os resultados da investiga√ß√£o n√£o enobrecem nem enriquecem o homem; o que o enobrece s√£o os esfor√ßos que faz pela compreens√£o, o trabalho intelectual produtivo e receptivo.
Seria decerto descabido querer-se ajuizar do valor do Talmude pelos seus resultados intelectuais.

O Artista e a sua Obra

O artista tem pois essa experi√™ncia com a sua obra: ele n√£o produziu uma ess√™ncia igual a ele mesmo. Sem d√ļvida, da sua obra retorna para ele uma consci√™ncia, pois uma multid√£o admirativa honra a obra como o esp√≠rito que √© a ess√™ncia deles. Essa admira√ß√£o, por√©m, ao lhe restituir a sua consci√™ncia de si apenas como admira√ß√£o √© antes uma confiss√£o feita ao artista de que ela n√£o √© igual a ele. Uma vez que o seu Si retorna para ele como j√ļbilo em geral, ali ele n√£o encontra nem a dor da sua forma√ß√£o e da sua produ√ß√£o, nem o esfor√ßo do seu trabalho. Os outros podem de facto julgar a obra ou trazer-lhe oferendas, conceber, de algum modo, que ela seja a sua consci√™ncia; se eles se colocam com o seu saber acima dela, o artista, pelo contr√°rio, sabe o quanto a sua opera√ß√£o vale mais do que a compreens√£o e o discurso deles; se eles se colocam abaixo dela e nela reconhecem a ess√™ncia deles que os domina, ele conhece-a, pelo contr√°rio, como o seu senhor.

O Oportunismo

O oportunismo √©, porventura, a mais poderosa de todas as tenta√ß√Ķes; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solu√ß√£o √© levado a querer realiz√°-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais r√≠gidas regras de moral; e a gravidade do perigo √© tanto maior quanto √© certo que se n√£o √© movido por um lado inferior do esp√≠rito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz.
Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.
Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava,

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O Engano do Imediato

√Č preciso dominar a impress√£o produzida pelo que √© vis√≠vel e presente; tal impress√£o tem uma for√ßa extraordin√°ria se for confrontada com o que √© meramente pensado e sabido, n√£o em virtude de sua mat√©ria e seu conte√ļdo, frequentemente insignificantes, mas da sua forma, da clareza e do imediatismo por meio dos quais ela se imp√Ķe ao esp√≠rito, perturbando a sua paz ou at√© mesmo fazendo vacilar os seus prop√≥sitos. √Č assim que algo agrad√°vel, ao qual renunciamos depois de reflectir, nos estimula quando o temos diante dos olhos; assim nos magoa um julgamento cuja incompet√™ncia √© do nosso conhecimento, irrita-nos uma ofensa cujo car√°cter desprez√≠vel compreendemos; da mesma maneira, dez raz√Ķes contra a exist√™ncia de um perigo s√£o sobrepujadas pela falsa apar√™ncia da sua real presen√ßa etc.

(…) Quando todos os que nos circundam t√™m uma opini√£o diferente da nossa e se comportam em conformidade com ela, √© dif√≠cil n√£o ficarmos abalados, por mais que estejamos convencidos do erro dessas pessoas. Pois o que √© presente, o vis√≠vel, por estar facilmente ao alcance da vista, age sempre com toda a sua for√ßa; em contrapartida, pensamentos e causas requerem tempo e calma para serem analisados com cuidado, raz√£o pela qual n√£o podemos t√™-los presentes a todo o instante.

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Nada Pior que o Mal-Entendido

Uma bagatela, como se sabe, leva uma vida depreciada e desprezada Рdepois, vinga-se; porque o mal-entendido, sobretudo quando toma uma forma violenta e má, radica naturalmente numa bagatela; senão, não haveria mal-entendido, mas essencialmente discórdia.
O que caracteriza o mal-entendido é o seguinte: aquilo que para um é importante, é insignificante para o outro, mas no sentido de que, no fundo, as duas pessoas estão separadas por uma bagatela; estão desunidas no seu mal-entendido porque não arranjaram tempo para começarem a entender-se.
Pois, no fundo de todo o ¬ędesacordo real¬Ľ, h√° um acordo: ¬ęo mal-entendido¬Ľ sem fundamento reside na falta de compreens√£o pr√©via sem a qual acordo e desacordo s√£o, um e outro, um mal-entendido. Este pode, pois, desaparecer e transformar-se em desacordo real; porque se duas pessoas est√£o em desacordo real n√£o h√° a√≠ um mal-entendido, est√£o precisamente em desacordo real porque se compreendem mutuamente.

A D√°diva do Amor

O amor rom√Ęntico n√£o √© o √ļnico que vale a pena procurar. Conhe√ßo tantas pessoas que desejam apaixonar-se por algu√©m, ser resgatadas das suas vidas quotidianas para mergulhar na felicidade amorosa, enquanto √† sua volta existem crian√ßas, vizinhos, amigos e desconhecidos que tamb√©m anseiam que algu√©m se relacione com eles. Olhe em volta e veja ‚ÄĒ as possibilidades est√£o em toda a parte.

Por outro lado, se para si √© um esfor√ßo abrir totalmente o cora√ß√£o para o A mai√ļsculo, comece devagar: mostre compaix√£o, e pouco depois dar√° consigo a dirigir-se para algo mais profundo. Em breve ser√° capaz de oferecer aos outros a d√°diva da compreens√£o, da empatia, do afeto e ‚ÄĒ tenho a certeza ‚ÄĒ do amor.

O Homem Superior

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma cousa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.
Tr√™s cousas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silencio a sua superioridade ‚ÄĒ o ridiculo, o trabalho e a dedica√ß√£o.
Como n√£o se dedica a ningu√©m, tamb√©m nada exige da dedica√ß√£o alheia. S√≥brio, casto, frugal, tocando o menos poss√≠vel na vida, tanto para n√£o se incomodar como para n√£o approximar as cousas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveni√™ncia do orgulho e da desillus√£o. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente √© submeter-se ‚ÄĒ submeter-se √† ac√ß√£o da cousa sentida.
Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman ol√≠mpico, Proteu da compreens√£o, sem partilhar de viv√™-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios ‚ÄĒ e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque n√£o embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensa√ß√Ķes de todas as horas da sua vida.

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Não Tenho Ninguém em Quem Confiar

Estou cansado de confiar em mim pr√≥prio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar, com l√°grimas, sobre o meu pr√≥prio eu. Acabo de ter uma esp√©cie de cena com a tia Rita acerca de F. Coelho. No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horr√≠veis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem f√≠sica h√° um rodopiar do mundo externo em rela√ß√£o a n√≥s: na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior. Parece-me perder, por momentos, o sentido da verdadeira rela√ß√£o das coisas, perder a compreens√£o, cair num abismo de suspens√£o mental. √Č uma pavorosa sensa√ß√£o esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado.
Estes sentimentos v√£o-se tornando comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que acabar√° na loucura. Na minha fam√≠lia n√£o h√° compreens√£o do meu estado mental ‚ÄĒ n√£o, nenhuma. Riem-se de mim, escarnecem-me, n√£o me acreditam. Dizem que o que eu pretendo √© mostrar-me uma pessoa extraordin√°ria. Nada fazem para analisar o desejo que leva uma pessoa a querer ser extraordin√°ria. N√£o podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordin√°rio n√£o h√° sen√£o a diferen√ßa da consci√™ncia que √© acrescentada ao facto de se querer ser extraordin√°rio.

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Orientar Filosoficamente a Vida

A √Ęnsia de uma orienta√ß√£o filos√≥fica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em car√™ncia de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, s√ļbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia.

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A Glória em Função dos Feitos e das Obras

Enquanto a nossa honra vai at√© onde somos pessoalmente conhecidos, a gl√≥ria, pelo contr√°rio, precede o nosso conhecimento e leva-o at√© onde ela mesmo consegue ir. Todo o indiv√≠duo tem direito √† honra; √† gl√≥ria, apenas as excep√ß√Ķes, pois apenas mediante realiza√ß√Ķes excepcionais √© poss√≠vel atingi-la. Tais realiza√ß√Ķes, por sua vez, s√£o feitos ou obras. A partir deles, abrem-se dois caminhos para a gl√≥ria. Antes de mais nada, √© o grande cora√ß√£o que capacita para os feitos; para as obras, a grande cabe√ßa. Ambas possuem as suas pr√≥prias vantagens e desvantagens. A diferen√ßa principal √© que os feitos passam, e as obras permanecem.
Dos feitos, permanece apenas a lembrança, que se torna cada vez mais fraca, desfigurada e indiferente, e que está até mesmo fadada a extinguir-se gradualmente, caso a história não a recolha e a transmita para a posteridade em estado petrificado. As obras, pelo contrário, são imortais e podem, pelo menos as escritas, sobreviver em todos os tempos. O mais nobre dos feitos tem apenas uma influência temporária; a obra genial, pelo contrário, vive e faz efeito, de modo benéfico e sublime, por todos os tempos. De Alexandre, o Grande, vivem nome e memória, mas Platão e Aristóteles,

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