Citação de

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecol√≥gico, te posso afirmar ao vivo, por email, por coment√°rio do facebook ou mensagem de telem√≥vel, mas √© t√£o bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensid√£o me transcenda, n√£o a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explic√°vel, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. N√£o estou aqui com a expectativa de ser entendido. Eu pr√≥prio procuro ainda essa compreens√£o. Estou aqui apenas com o meu rosto, o meu olhar parado, a minha figura. Tudo aquilo que tenho para dizer est√° por detr√°s dessa imagem. Hoje, esse √© o alfabeto com que realmente escrevo, o significado. Escrevo tamb√©m com uma grande quantidade de elementos invis√≠veis, que chegam √† pele e a atravessam. √Č dessa forma que sinto aquilo que tenho para dizer, pele e para l√° da pele.

Os teus pais v√£o ler estas palavras, que embara√ßoso. A minha m√£e, as minhas irm√£s e as minhas sobrinhas v√£o ler estas palavras e v√£o pensar: passou-se. Consigo imaginar todas essas reac√ß√Ķes, mas n√£o consigo evitar que este texto continue a dizer que te amo. Sei que os outros apenas nos poder√£o ver com os seus pr√≥prios olhos. Para eles, seremos qualquer mem√≥ria, qualquer impress√£o, um reflexo daquilo que eles pr√≥prios sabem, personagens de uma esp√©cie de telenovela. A grande diferen√ßa √© que n√≥s somos n√≥s e temos este agora imenso, este verbo no presente. Talvez fosse mais confort√°vel, se dispusesse de um verbo mais sofisticado, menos gasto: liquefazer, maturar, discernir. Um tempo verbal mais complexo: se eu te tivesse liquefeito, se eu te tivesse maturado, se eu te tivesse discernido. Talvez. Nunca saberei porque aquilo que tenho para dizer √© este verbo, este presente do indicativo de escola prim√°ria.
Na sua simplicidade, encandeia e, no entanto, diz t√£o pouco. Mesmo tentando, transmito-lhes pouco ao inform√°-los que te amo. N√£o ficam a saber mais do que se lhes dissesse que me alimento, respiro, existo. E n√£o podem sequer ter a certeza de que eu dependa dessas necessidades vitais. Talvez seja melhor assim, continuem debaixo do guarda-sol, do pinheiro de piqueniques, olhem em volta, virem a p√°gina. Talvez seja prefer√≠vel que a imensid√£o deste momento n√£o os perturbe, que se mantenha onde est√°, invis√≠vel e t√£o concreta nas cores da paisagem, nomeada por estas palavras que n√£o a dizem e que, no entanto, existem, impressas, pouco ecol√≥gicas e, ainda assim, feitas de uma natureza √ļnica, a natureza, que nasce da terra, que se estende no c√©u, sol, lua, oceano, montanhas, que determina o dia e a noite, a passagem das esta√ß√Ķes, a idade, e que est√° contida numa s√≥ palavra, num s√≥ verbo, que abrigo no meu rosto, que √© transparente no meu olhar e que agora, aqui, nas p√°ginas deste livro, preciso de dizer. Talvez n√£o seja pr√≥prio diz√™-lo aqui, mas talvez seja ainda menos pr√≥prio escrev√™-lo em todas as paredes da cidade, esculpir precip√≠cios com essa verdade ou rasgar o peito com uma faca e, com a ponta dessa mesma faca, grav√°-lo dentro de mim, em sulcos profundos, com o tamanho deste agora.