Passagens sobre Esta√ß√Ķes

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Frases sobre esta√ß√Ķes, poemas sobre esta√ß√Ķes e outras passagens sobre esta√ß√Ķes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Homem para Deus

Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei n√£o partam dele as grandes nega√ß√Ķes
Que h√° de comum entre ele e quem na juventude foi
que m√£o estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
√© l√° que as esta√ß√Ķes recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
N√£o leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabar√°
quando partir um dia para n√£o voltar
e que ent√£o finalmente uma atitude sua h√°-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus ter√° visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus

Memória Intrusiva

A tua mem√≥ria passa atrav√©s dos factos como de uma fila de vidra√ßas, ou de esta√ß√Ķes, ou de folhas de √°lbum. √Äs vezes, por√©m, paras numa, e √© como se toda a vida se fixasse a√≠. E giras em torno, numa obsess√£o. Somente √†s vezes tamb√©m, em vez de te fixares realmente, quando menos o julgas est√°s parado noutra folha, noutra janela, noutra paisagem.

Como se te perdesse nos trens, nas esta√ß√Ķes Ou contornando um c√≠rculo de √°guas Removente ave, assim te somo a mim: De redes e de anseios inundada

Morangos

No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a m√ļsica e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
N√£o estamos mais s√°bios, n√£o temos
melhores raz√Ķes. Na viagem necess√°ria
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

Triste

Vai-se extinguindo a viva labareda
Que te abrasava o cora√ß√£o ridente…
Passas magoada pela rua e a gente
Umas converses funerais segreda.

N√£o tens no olhar o sangue q’embebeda,
Foram-se as rosas do viver contente…
Segues, agora, pobre flor — somente
Da sepultura a essencial vereda.

E vem chegando o tenebroso inverno…
Mas nesse mal devorador e eterno,
Teu organismo j√° n√£o mais resiste

√Äs punhaladas da esta√ß√£o de gelo…
E acabará como eu nem sei dizê-lo,
Triste, bem triste, pesarosa, triste!

Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

Inverno

Amanheceu – no topo da colina
Um céu de madrepérola se arqueia
Limpo, lavado, reluzindo – ondeia
O perfume da selva esmeraldina.

Uma luz virginal e cristalina,
Como de um rio a transbordante cheia,
Alaga as terras culturais e arreia
De pingos d’ouro os verdes da campina.

Um sol pag√£o, de um louro gema d’ovo,
J√° t√£o antigo e quase sempre novo
Surge na frígida estação do inverno.

– Chilreiam muito em √°rvores frondosas
P√°ssaros – fulge o orvalho pelas rosas
Como o vigor no espírito moderno.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Sabedoria I, III

Que dizes, viajante, de esta√ß√Ķes, pa√≠ses?
Colheste ao menos tédio, já que está maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?

Também o olhar está morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,

Ou como um cemit√©rio de t√ļmulos recentes.
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas,
Dessas desilus√Ķes choradas plas correntes,
Dos nojos como insípidos recém-nascidos.

Fala da luz de g√°s, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e também da Política
Com o sangue desonrado em m√£os sujas de tinta.

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde h√° lutas e amores, a esmo,
De maneira t√£o triste e louca, na verdade!

Foi já bem castigada essa inocência grave?
Que achas? √Č duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu?

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Escola

O que significa o rio,
a pedra, os l√°bios da terra
que murmuram, de manh√£,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de √°gua na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do p√°tio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas est√°
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

Vida

Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das lili√°ceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das lili√°ceas!
Calquem. Recalquem, n√£o o afogam.
Deixem. N√£o calquem. Que tudo invadam.
N√£o as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? N√£o as afogam.
Olhem o fogo que anda na serra.
√Č a queimada… Que lumar√©u!

Podem calc√°-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.
Deixem! N√£o calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
_ E se arde tudo? _ Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, √© para arder…

N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.

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Alegria da criação

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado
a palavra rompeu
Cresceu como a baleia
no silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar esta√ß√Ķes
Soprar a ventania
Brilhar de novo o sol
sobre a baía
Fui um bom engenheiro
Um bom castor
Amei a minha amada
Com amor
De nada me arrependo
Só a vida
me ensinou a cantar
esta cantiga

Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

Antes de sermos esquecidos,seremos transformados em kitsch.O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.

Próxima Estação

Querida amiga,

J√° ter√°s partido para longe quando estiveres a ler estas linhas… permite-me que partilhe contigo o que sinto a respeito desta tua grande mudan√ßa…

Nunca √© bom colocarmos qualquer tipo de √Ęncora na saudade ou nos sonhos. A nossa casa, o nosso pa√≠s, √© o lugar onde n√≥s estamos. √Č a√≠ que temos de ser quem somos. √Č a√≠ que temos de descobrir a felicidade de cada dia. Tudo o resto √© estrangeiro.

Cada homem pertence tanto ao s√≠tio de onde vem como √†quele para onde vai. A ideia de que as nossas ra√≠zes nos prendem e condenam segue na linha errada da outra, tamb√©m comum, de que os sonhos nos fazem perder… n√£o, a vida √© esta forma de ir sendo sempre mais, o que se foi, tanto quanto o que ainda n√£o se √©… uma viagem, n√£o uma esta√ß√£o.
Sei que partes com dor porque temes perder quem aqui fica e n√£o ter ningu√©m por l√°, onde chegar√°s… sabes, em pouco tempo, ter√°s de aceitar que muitos dos que agora lamentam muito a tua partida, se preocupar√£o t√£o pouco em saber como est√°s…

J√° fizeste muita gente feliz aqui…

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