Textos sobre Classe

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Textos de classe escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros n√£o aparecem como colaboradores, mas como inimigos, n√£o pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma vis√£o mais ampla do mundo; esfor√ßo de vencer, temor de ser vencido; √© j√° todo o temperamento de ¬ęstruggle¬Ľ que se afina na escola e lan√ßar√° amanh√£ sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem n√£o sabe combater ou n√£o tem interesse pela luta ficar√° para tr√°s, entre os piores; e √© certamente esta predomin√Ęncia dada ao esp√≠rito de batalha um dos grandes malef√≠cios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos;

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A Habilidade Específica do Político

A habilidade espec√≠fica do pol√≠tico consiste em saber que paix√Ķes pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele pr√≥prio e aos seus aliados. Na pol√≠tica como na moeda h√° uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres ser√° expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revolu√ß√Ķes) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paix√£o interesseira. Al√©m disso, como os pol√≠ticos est√£o divididos em grupos rivais, visam a dividir a na√ß√£o, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem √† custa do ¬ęru√≠do e da f√ļria, que nada significam¬Ľ. N√£o podem prestar aten√ß√£o a nada que seja dif√≠cil de explicar, nem a nada que n√£o acarrete divis√£o (seja entre na√ß√Ķes ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos pol√≠ticos como classe.

A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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A Exploração do Outro como Fatalismo Político

Por muito que se inove no campo político, não há como escapar a um certo fatalismo no que se refere à condição de classe e consequente exploração (*). A sociedade permite uma certa mobilidade, sim, mas há limites nessa desmarcação. Sim, foi relativamente fácil a Calígula promover o seu cavalo Incitatus a senador. O que a História não regista é se o cavalo passou a relinchar partidariamente, ou se, pelo contrário, os seus novos pares começaram a trotar no seu compasso.

(*) Explora√ß√£o, meus caros, come√ßa sempre do lado de dentro dos seus bot√Ķes. E n√£o h√° como escapar: sempre se √© comunista de algu√©m, judeu de algu√©m, capitalista de algu√©m, negro de algu√©m, presidente dos Estados Unidos em cima de algu√©m. E eu mesmo ‚ÄĒ confesso ‚ÄĒ escrevi este livro explorando o humorista que h√° em mim pr√≥prio.

O Professor como Mestre

N√£o me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma √© burocr√°tica e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profiss√£o; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa intelig√™ncia e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das aten√ß√Ķes das pessoas mais s√©rias; creio mesmo que tal distin√ß√£o foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, √© sempre poss√≠vel a compara√ß√£o com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de m√©rito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre n√£o √© de modo algum um emprego e que a sua actividade se n√£o pode aferir pelos m√©todos correntes; ganhar a vida √© no professor um acr√©scimo e n√£o o alvo; e o que importa, no seu ju√≠zo final, n√£o √© a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente h√°-de pesar na balan√ßa √© a pedra que lan√ßou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama;

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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Existem Três Tipos de Escritores

Pode-se dizer que existem três tipos de autores. Em primeiro lugar, temos aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, das reminiscências, ou mesmo directamente dos livros dos outros. Esta classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há aqueles que pensam enquanto escrevem. Pensam para escrever. Muito vulgares. Em terceiro lugar, temos aqueles que pensaram antes de começar a escrever. Escrevem simplesmente porque pensaram. Muito raros.

Mesmo entre o pequeno n√ļmero de escritores que pensam seriamente antes de come√ßar a escrever, h√° extremamente poucos que pensam acerca do tema propriamente dito: os restantes pensam simplesmente em livros, naquilo que os outros disseram acerca do assunto. Necessitam, quer isso dizer, do est√≠mulo pr√≥ximo e poderoso das ideias produzidas por outras pessoas para conseguirem pensar. Essas ideias s√£o, pois, o seu tema imediato, de modo que ficam constantemente sob a sua influ√™ncia e, consequentemente, nunca alcan√ßam a verdadeira originalidade. A minoria acima referida, por outro lado, √© estimulada a pensar pelo tema em si, de modo que os seus pensamentos s√£o dirigidos imediatamente para ele. S√≥ entre esses se descobrem os escritores que perduram e se tornam imortais.
Só vale a pena ler a obra daquele que escreve directamente a partir da sua própria cabeça.

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A Comunidade Europeia Vai Ser um Logro

As primeiras d√©cadas do pr√≥ximo mil√©nio ser√£o terr√≠veis. Mis√©ria, fome, corrup√ß√£o, desemprego, viol√™ncia, abater-se-√£o aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Servi√ßo Nacional de Sa√ļde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independ√™ncia nacional sofrer√£o grav√≠ssimas rupturas. Abandonados, os idosos v√£o definhar, morrer, por falta de assist√™ncia e de comida. Espoliada, a classe m√©dia declinar√°, s√≥ haver√° muito ricos e muito pobres. A indiferen√ßa que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o inc√™ndio das florestas √© uma antecipa√ß√£o disso, de outras derrocadas a vir.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Raz√£o afectada pelo Desejo

O homem que deseja agir de certa forma se persuadirá que, assim procedendo, alcançará algum propósito que considera bom, mesmo que não vise motivo algum para pensar dessa forma, se não tivesse tal desejo. E julgará os factos e probabilidades de maneira muito diferente daquela adoptada por um homem com desejos opostos. Como todos sabem, os jogadores estão cheios de crenças irracionais relativas a sistemas que devem, no fim, fazê-los ganhar. Os que se interessam pela política persuadem-se de que os líderes do seu partido jamais praticariam as patifarias cometidas pelos adversários. Os homens que gostam de administrar acham que é bom para o povo ser tratado como um rebanho de ovelhas, os que gostam do fumo dizem que acalma os nervos, e os que apreciam o álcool afirmam que aguça o tino. A parcialidade assim criada falsifica o julgamento dos homens em relação aos factos, de modo muito difícil de evitar.
At√© mesmo um erudito artigo cient√≠fico sobre os efeitos do √°lcool no sistema nervoso em geral trai, por sintomas internos, o facto de o autor ser ou n√£o abst√©mio; em ambos os casos tende a ver os factos de maneira que justifique a sua atitude. Em pol√≠tica e religi√£o tais considera√ß√Ķes tornam-se muito importantes.

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Sabedoria Pr√°tica Inexistente

A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo √© tamb√©m luxo, seja em agricultura, com√©rcio, literatura ou arte. Hoje em dia h√° professores de filosofia, mas n√£o h√° fil√≥sofos. Contudo √© admir√°vel ensinar filosofia porque um dia foi admir√°vel viv√™-la. Ser um fil√≥sofo n√£o √© apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma vida de simplicidade, independ√™ncia, magnanimidade e confian√ßa. √Č solucionar alguns problemas da vida n√£o s√≥ na teoria mas tamb√©m na pr√°tica.

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As Culturas de Indivíduo, Grupo, e Sociedade

O termo cultura tem associa√ß√Ķes diferentes conforme temos em mente o desenvolvimento de um indiv√≠duo, de um grupo ou classe ou de toda uma sociedade. √Č parte da minha tesse que a cultura do indiv√≠duo est√° dependente da cultura de um grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe est√° dependente da cultura de toda a sociedade a que esse grupo ou classe pertence. Por isso, √© a cultura da sociedade que √© fundamental, e √© o significado do termo ¬ęcultura¬Ľ em rela√ß√£o a toda a sociedade que se devia examinar primeiro. Quando o termo ¬ęcultura¬Ľ se aplica √† manipula√ß√£o de organismos inferiores – ao trabalho do bacteriologista ou do agricultor – o significado √© bastante claro porque podemos obter unanimidade a respeito dos fins a serem atingidos, e podemos concordar quanto a t√™-los atingidos ou n√£o. Quando se aplica ao aperfei√ßoamento do intelecto e esp√≠ritos humanos, √© menos prov√°vel que concordemos em rela√ß√£o ao que a cultura √©. O termo em si, significando alguma coisa a que se deve conscientemente aspirar em assuntos humanos, n√£o tem uma uma hist√≥ria longa.

Como alguma coisa a ser alcan√ßada com esfor√ßo deliberado, a ¬ęcultura¬Ľ √© relativamente intelig√≠vel quando nos preocupamos com o acto do indiv√≠duo se autocultivar,

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O Amolecimento pela Sociedade de Consumo

Nos pa√≠ses subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder institu√≠do, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, origin√°rio por via de regra da m√©dia e da pequena burguesia ou mais raramente das classes prolet√°rias, contesta o statu quo, prop√Ķe solu√ß√Ķes revolucion√°rias ou, quando estas n√£o podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar faz√™-lo pela cr√≠tica, violenta ou ir√≥nica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os benefici√°rios do sistema de produ√ß√£o ergueram contra as aspira√ß√Ķes da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude id√™ntica de inconformismo; por√©m, os resultados da sua actividade de cria√ß√£o e reflex√£o tornam-se mat√©ria vend√°vel e, nalguns casos, mat√©ria integr√°vel.
O consumo do objecto art√≠stico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opini√£o, que os meios de comunica√ß√£o de massa, em escala largu√≠ssima , exercem, torna-se, sen√£o totalmente in√≥cuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conte√ļdo cr√≠tico. Despotencializa-se. Amolece. √Č o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve,

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A Fronteira Entre a Amizade e o Amor

Há na pura amizade um prazer a que não podem atingir os que nasceram medíocres. A amizade pode subsistir entre pessoas do mesmo sexo a diferentes, isenta mesmo de toda a materialidade. Uma mulher, entretanto, olha sempre um homem como um homem; e reciprocamente, um homem olha uma mulher como uma mulher; essa ligação não é paixão nem pura amizade: constitui uma classe aparte.
O amor nasce bruscamente, sem outra reflexão, por temperamento, ou por fraqueza: um detalhe de beleza nos fixa, nos determina. A amizade, pelo contrário, forma-se pouco a pouco, com o tempo, pela prática, por um longo convívio. Quanta inteligência, bondade, dedicação, serviços e obséquios, nos amigos, para fazer, em anos, muito menos do que faz, às vezes, num minuto, um rosto bonito e uma bela mão!
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o amor. Enquanto o amor dura, subsiste por si, e √†s vezes pelo que parece dever extingui-lo: caprichos, rigores, aus√™ncia, ci√ļme; a amizade, pelo contr√°rio, precisa de alento: morre por falta de cuidados, de confian√ßa, de aten√ß√£o. √Č mais comum ver um amor extremo que uma amizade perfeita.
O amor e a amizade excluem-se um ao outro. Aquele que teve a experiência de um grande amor descuida a amizade;

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O Que H√° de Mais Belo na Nossa Vida

O que h√° de mais belo na nossa vida √© o sentimento do mist√©rio. √Č este o sentimento fundamental que se det√©m junto ao ber√ßo da verdadeira arte e da ci√™ncia. Quem nunca o experimentou nem sabe j√° admirar-se ou espantar-se. Pode considerar-se como morto, sem luz, totalmente cego! A viv√™ncia do mist√©rio ‚ÄĒ embora com laivos de temor ‚ÄĒ criou tamb√©m a religi√£o. A consci√™ncia da exist√™ncia de tudo quanto para n√≥s √© impenetr√°vel, de tudo quanto √© manifesta√ß√£o da mais profunda raz√£o e da mais deslumbrante beleza e, que s√≥ √© acess√≠vel √† nossa raz√£o nas suas formas mais primitivas, essa consci√™ncia, esse sentimento, constituem a verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e em mais nenhum, perten√ßo √† classe dos homens profundamente religiosos. N√£o posso conceber um Deus que recompense e castigue os objectos da sua cria√ß√£o, ou que tenha vontade pr√≥pria, de puro arb√≠trio no g√©nero da que n√≥s sentimos dentro de n√≥s. Nem t√£o-pouco consigo imaginar um indiv√≠duo que sobreviva √† sua morte corporal; as almas fracas que alimentem tais pensamentos fazem-no por medo ou por ego√≠smo rid√≠culo. A mim basta-me o mist√©rio da eternidade da vida, a consci√™ncia e o pressentimento da admir√°vel elabora√ß√£o do ser, assim como o humilde esfor√ßo para compreender uma part√≠cula,

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Religi√£o do Medo

Com o homem primitivo √© o medo acima de tudo que evoca no√ß√Ķes religiosas ‚ÄĒ medo da fome, das feras, da doen√ßa, da morte. Como neste estado de exist√™ncia o conhecimento das rela√ß√Ķes causais est√° usualmente pouco desenvolvido, a mente humana cria seres ilus√≥rios mais ou menos semelhantes a si pr√≥pria de cujos desejos e actos dependem esses acontecimentos assustadores. Por isso, tentamos obter o favor destes seres realizando ac√ß√Ķes e oferecendo sacrif√≠cios que, de acordo com as tradi√ß√Ķes passadas de gera√ß√£o em gera√ß√£o, os tornam favor√°veis ou bem dispostos em rela√ß√£o aos mortais. Neste sentido, estou a falar de uma religi√£o do medo. Isto, apesar de n√£o ter sido criado, √© em alto grau estabilizado pela cria√ß√£o de uma casta sacerdotal especial que se institui a si mesma como mediadora entre as pessoas e os seres que elas receiam e ergue uma hegemonia assente nisso. Em muitos casos, um l√≠der, um governante ou uma classe privilegiada, cuja posi√ß√£o assenta noutros factores, combinam as fun√ß√Ķes sacerdotais com a sua autoridade secular, de modo a garantirem mais firmemente a primeira, ou os governantes pol√≠ticos e a casta sacerdotal defendem a mesma causa para defenderem os pr√≥prios interesses.

O Aspecto Mais Grave da Segregação

Parece ser facto geral, que as minorias ‚ÄĒ em especial aquelas cujos indiv√≠duos t√™m caracter√≠sticas f√≠sicas diferentes ‚ÄĒ sejam tratadas pelas maiorias, entre as quais vivem, como classes humanas inferiores. O que este destino tem de tr√°gico n√£o reside apenas no preju√≠zo que naturalmente adv√©m para essas minorias sob o aspecto econ√≥mico e social, mas tamb√©m ao facto de os indiv√≠duos, vivendo nestas condi√ß√Ķes, se renderem geralmente ‚ÄĒ devido √† influ√™ncia sugestiva da maioria ‚ÄĒ√†quele preconceito sobre o seu valor, e acabarem considerando os seus semelhantes como inferiores. Esta segunda parte e a mais grave do mal, pode ser suprimida por uma mais estreita uni√£o e por uma educa√ß√£o deliberadamente esclarecida da minoria, para assim se conseguir a liberta√ß√£o espiritual da mesma.

Caridade Hipócrita

Nos √ļltimos tempos, preocupava-o sobretudo as mis√©rias das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo p√£o ego√≠sta, as almas cada dia se tornavam mais secas e menos capazes de piedade.
¬ęA Fraternidade (dizia ele numa carta de 1886, que conservo) vai-se sumindo, principalmente nestas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e lutar; e, atrav√©s do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades rurais, o Mundo vai rolando a um ego√≠smo feroz. A primeira evid√™ncia deste ego√≠smo √© o desenvolvimento ruidoso da filantropia. Desde que a caridade se organiza e se consolida em institui√ß√£o, com regulamentos, relat√≥rios, comit√©s, sess√Ķes, um presidente e uma campainha, e do sentimento natural passa a fun√ß√£o oficial – √© porque o homem, n√£o contando j√° com os impulsos do seu cora√ß√£o, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescri√ß√Ķes dum estatuto.Com os cora√ß√Ķes assim duros e os Invernos t√£o longos, que vai ser dos pobres?…¬Ľ

Os Elementos Fixadores da Personalidade

Os res√≠duos ancestrais formam a camada mais profunda e mais est√°vel do car√°cter dos indiv√≠duos e dos povos. √Č pelo seu ‚Äúeu‚ÄĚ ancestral que um ingl√™s, um franc√™s, um chin√™s, diferem t√£o profundamente.
Mas a esses remotos atavismos sobrep√Ķem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profiss√£o, etc.), pela educa√ß√£o e ainda por muitas outras influ√™ncias. Eles imprimem √† nossa personalidade uma orienta√ß√£o assaz constante. Ser√° o ‚Äúeu‚ÄĚ, um pouco artificial, assim formado, que exteriorizaremos cada dia.
Entre todos os elementos formadores da personalidade, o mais activo, depois da ra√ßa, √© o que determina o agrupamento social ao qual pertencemos. Fundidas no mesmo molde pelas id√©ias, as opini√Ķes e as condutas semelhantes que lhes s√£o impostas, as individualidades de um grupo: militares, magistrados, padres, oper√°rios, marinheiros, etc., apresentam numerosos car√°cteres id√™nticos.
As suas opini√Ķes e os seus ju√≠zos s√£o, em geral, vizinhos, porquanto sendo cada grupo social muito nivelador, a originalidade n√£o √© tolerada nele. Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.
Essa tirania dos grupos sociais, na qual insistiremos, n√£o √© in√ļtil. Se os homens n√£o tivessem por guia as opini√Ķes e a maneira de proceder daqueles que os cercam,

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