Passagens sobre Texto

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Frases sobre texto, poemas sobre texto e outras passagens sobre texto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Aqui Louvo os Animais

S√ļbdito s√≥ de quem n√£o reina,
aqui louvo os animais.
H√°, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
as paisagens que fendem
e a minha, sepulta,
perfazem um mesmo habitat.
Desde que os n√£o sondo,
fez-se luz em nosso convívio.
O ar inicial
que ensaiava, ic√°rico,
nas bolas de sab√£o,
mas n√£o atina com o v√°cuo
da cidade, vem-me
dos seus pulm√Ķes arborescentes.
Alheios à sua pele
na osmose dos textos,
ignoram que nas √°guas
por correr, desta p√°gina,
cruzam, saudando-se,
o ¬ęBeagle¬Ľ e a Arca de No√©.

O computador tem possibilidades de mais para aquilo de que eu preciso. N√£o quero saber coisas de computadores. Quero apenas saber o necess√°rio para escrever os meus textos e as minhas planifica√ß√Ķes. O resto das capacidades dos computadores s√≥ me atrapalha.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Mulher: a estaca na qual o esperto aplica suas zombarias, o pastor seus textos, o cínico suas queixas e o pecador sua justifica.

Os Escritores Medíocres

Essas mentes med√≠ocres simplesmente n√£o se conseguem decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma apar√™ncia muito simpl√≥ria. […] Desse modo, apresentam o que t√™m a dizer com constru√ß√Ķes for√ßadas e dif√≠ceis, neologismos e per√≠odos extensos, que circundam o pensamento e acabam por o ocultar. Oscilam entre o esfor√ßo de o comunicar e o esfor√ßo de o esconder. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma apar√™ncia erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele cont√©m mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esbo√ßam partes do seu pensamento em express√Ķes curtas, amb√≠guas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem; logo voltam a apresentar os seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade insuport√°vel, como se fossem necess√°rias sabe-se l√° que medidas para tornar compreens√≠vel o seu sentido profundo, enquanto, na verdade, se trata de uma ideia bastante simples, para n√£o dizer at√© trivial.

O Presente sem Passado nem Futuro

Vivo sempre no presente. O futuro, n√£o o conhe√ßo. O passado, j√° o n√£o tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. N√£o tenho esperan√ßas nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida at√© hoje – tantas vezes e em tanto o contr√°rio do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanh√£ sen√£o que ser√° o que n√£o presumo, o que n√£o quero, o que me acontece de fora, at√© atrav√©s da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo in√ļtil de o repetir. Nunca fui sen√£o um vest√≠gio e um simulacro de mim.
O meu passado √© tudo quanto n√£o consegui ser. Nem as sensa√ß√Ķes de momentos idos me s√£o saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, h√° um virar de p√°gina e a hist√≥ria continua, mas n√£o o texto.

N√£o Sabemos Ler o Mundo

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. N√≥s lemos emo√ß√Ķes nos rostos, lemos os sinais clim√°ticos nas nuvens, lemos o ch√£o, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser p√°gina. Depende apenas da inten√ß√£o de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas n√£o l√™em livros. Mas o deficit de leitura √© muito mais geral. N√£o sabemos ler o mundo, n√£o lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens.

Nós mudamos incessantemente. Mas se pode afirmar também que cada releitura de um livro e cada lembrança dessa releitura renovam o texto.

Mas é possível escrever os principais textos de nossa vida nos momentos mais difíceis de nossa existência.

Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos,

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A Inveja n√£o tem Passado

Ainda não tendes advertido, que a inveja faz grande diferença dos mortos aos vivos, e dos presentes aos passados? Os olhos da inveja são como os do Sacerdote Heli, dos quais diz o Texto sagrado, que não podiam ver a luz do Templo, senão depois que se apagava: Oculi ejus caligaverant, nec poterat videre lucernam Dei, antequam extingueretur. Enquanto as luzes são vivas, cada reflexo delas é um raio, que cega os olhos da inveja: porém depois que elas se apagaram, e muito mais se se metem largos anos em meio, então abre a inveja, como ave nocturna, os olhos; então vê o que não podia ver: então venera e celebra essas mesmas luzes, e levanta sobre as Estrelas seus resplendores. Por isso disse com grande juízo S. Zeno Veronense, que todo o invejoso é inimigo dos presentes, e amigo dos passados: In omnibus se inimicum praesentium servat, amicum vero pereuntium. Os mesmos que agora amam, e veneram tanto a Santo António, se viveram em seu tempo, o haviam de aborrecer e perseguir; e as mesmas maravilhas, que tanto celebram e encarecem, se foram obradas na sua Pátria, as haviam de escurecer e aniquilar.

N√£o H√° Verdadeiro Sentido de um Texto

Não há verdadeiro sentido de um texto. Não há autoridade do autor. Quisesse dizer o que quisesse, escreveu o que escreveu. Uma vez publicado, um texto é como um aparelho de que cada um se pode servir à sua maneira e segundo os seus meios: não é certo que o construtor o use melhor do que outro qualquer.

A Casa do Escritor

O escritor organiza-se no seu texto como em sua casa. Comporta-se nos seus pensamentos como faz com os seus papéis, livros, lápis, tapetes, que leva de um quarto para o outro, produzindo uma certa desrodem. Para ele, tornam-se peças de mobiliário em que se acomoda, com gosto ou desprazer. Acaricia-os com delicadeza, serve-se deles, revira-os, muda-os de sítio, desfá-los. Quem já não tem nenhuma pátria, encontra no escrever a sua habitação. E aí produz, como outrora a família, desperdícios e lixo.

Mas j√° n√£o disp√Ķe de desv√£o e √©-lhe muit√≠ssimo dif√≠cil livrar-se da esc√≥ria. Por isso, ao tir√°-la da sua frente, corre o risco de acabar por encher com ela as suas p√°ginas. A exig√™ncia de resistir √† auto-compaix√£o inclui a exig√™ncia t√©cnica de defrontar com extrema aten√ß√£o o relaxamento da tens√£o intelectual e de eliminar tudo quanto tenda a fixar-se como uma crosta no trabalho, tudo o que decorre no vazio, o que talvez suscitasse, num est√°dio anterior, como palavriado, a calorosa atmosfera em que emerge, mas agora permanece bafiento e ins√≠pido. Por fim, j√° nem sequer √© permitido ao escritor habitar nos seus escritos.

Presos ao Passado

Num romance que estou escrevendo h√° uma personagem a quem perguntam: ¬ęE onde ir√°s ser sepultado?¬Ľ E ela responde: ¬ęA minha sepultura maior n√£o mora no futuro. A minha cova √© o meu passado.¬Ľ
De facto, cada um de n√≥s corre o risco de ficar sepultado no seu pr√≥prio passado. Todos temos de resistir para n√£o ficarmos aprisionados numa mem√≥ria simplificada que √© o retrato que outros fizeram de n√≥s. Todos trazemos escrito um livro e esse texto quer-se impor como nossa nascente e como nosso destino. Se existe uma guerra em cada um de n√≥s √© a de nos opormos a esse fado de estarmos condenados a uma √ļnica e previs√≠vel narrativa.

O senhor n√£o estava no granizo, na chuva, na tempestade, no vento… O senhor falou ao profeta Elias na brisa suave. No texto b√≠blico original √© usada uma palavra bel√≠ssima, que n√£o se pode traduzir com exatid√£o: a voz de Deus era um fio sonoro de sil√™ncio.

Assim se avizinha o Senhor, com aquela ¬ęsonoridade do sil√™ncio¬Ľ que √© pr√≥pria do amor.

Sou o Pedro Chagas Freitas e fabrico ideias. Esbofeteiem-me. Sou o Pedro Chagas Freitas e não há um dia só que passe sem inventar algo de novo. Pode ser um texto, uma construção frásica, um uso radical de um sinal de pontuação. Ou então um jogo para crianças, um conceito de programa de televisão, um livro que é tão especial que nem ordem tem. Eu sou o Pedro Chagas Freitas e sou um idiota: eis tudo. Antes um idiota ostracizado do que um génio domesticado.