Textos Interrogativos

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Textos interrogativos sobre diversos assuntos para ler e compartilhar. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto n√£o poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso d√° cor a tudo o que eu diga ou fa√ßa. Se soubesses o qu√£o fiel te sou! N√£o apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui n√£o h√° qualquer tenta√ß√£o para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser… Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que ¬ęse eu nunca tivesse ido para a Europa…¬Ľ, n√£o era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas n√£o posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu √©s a Europa. Pegaste em mim, um homem despeda√ßado, e tornaste-me completo. E n√£o hei-de desintegrar-me ‚ÄĒ n√£o existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sens√≠vel, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico √† tua porta e espero por ti,

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O Fim da Civilização

Quando se extinguir√° esta sociedade corrompida por todas as devassid√Ķes, devassid√Ķes de esp√≠rito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hip√≥crita a que se chama civiliza√ß√£o, haver√° sem d√ļvida alegria sobre a terra; abandonar-se-√° o manto real, o ceptro, os diamantes, o pal√°cio em ru√≠nas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da √©gua e da loba.
Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêncios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.
Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensid√£o deve acabar por cansar-se desse gr√£o de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de m√£os e de corromper, o outro esgotar-se-√°; este vapor de sangue abrandar√°, o pal√°cio desmoronar-se-√° sob o peso das riquezas que oculta,

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O Amor Exige a Verdade

A maioria das pessoas hoje em dia n√£o considera o amor como relacionado de alguma forma com a verdade. O amor √© visto como uma experi√™ncia associada com o mundo das emo√ß√Ķes fugazes, e n√£o com a verdade. Mas √© esta uma descri√ß√£o adequada do amor? O amor n√£o pode ser reduzido a uma emo√ß√£o ef√©mera. √Č verdade que estimula a nossa afectividade, mas, a fim de o abrir para o amado e, assim, abrir o caminho que conduz longe do egocentrismo e em dire√ß√£o √† outra pessoa, a fim de construir um relacionamento duradouro, o amor visa a uni√£o com o amado. Aqui come√ßamos a ver como o amor exige a verdade. S√≥ na medida em que o amor √© fundamentado na verdade pode ser suportado ao longo do tempo, pode transcender o momento passageiro e ser suficientemente s√≥lido para sustentar uma viagem compartilhada. Se o amor n√£o est√° vinculado √† verdade, √© uma presa emo√ß√Ķes inconstantes e n√£o pode resistir ao teste do tempo. Amor verdadeiro, por outro lado, unifica todos os elementos da nossa pessoa e torna-se uma nova luz que aponta o caminho para uma vida grande e realizada. Sem a verdade, o amor √© incapaz de estabelecer um v√≠nculo firme;

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A Liberdade de Escolha

Realmente, se um dia de facto se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos Рisto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exacta Рentão, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo.
Pois quem aceitaria escolher por regras? Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um orgão ou algo do género; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num orgão?

Ser Amigo

O cora√ß√£o de um amigo √© uma coisa que sempre quer. Ser amigo √© estar ao lado de quem n√£o tem raz√£o, contra qualquer inimigo que tenha, e apare√ßa, dizendo com toda a justi√ßa que o amigo n√£o a tem. N√£o √© suspender a raz√£o – √© us√°-la friamente, aplic√°-la, estar sempre consciente dela. E, contudo, n√£o diz√™-la, n√£o mostr√°-la, ficar sempre acima dela. Ser amigo √© ter raz√£o e n√£o querer saber dela. Ser amigo √© pensar duas vezes quando a √ļltima vez pertence ao que repensa o cora√ß√£o.

O amigo discordava dele. Dizia: Queres tu dizer que para se ser um bom amigo é preciso, às vezes, ser-se muito má pessoa? Sim, respondia ele, era isso que ele queria dizer. Porque ser amigo tem de ser uma coisa que custa. Às vezes é um trabalho, muitas horas, muitas dores; um trabalho que é o contrário do que seria natural, e do que apetece. Ser má pessoa para se ser um bom amigo (ou um bom português, ou um bom professor), é fazer fé que um outro fim faz valer o desconforto, faz valer o arrependimento, acaba por se abater sobre a vergonha. E sofrer bastante para que o outro nada sofra,

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Serenidade Míope

Os homens comprazem-se com o brando som dos instrumentos musicais e com o canto dos p√°ssaros; comprazem-se com o espect√°culo dos animais a brincar e a divertirem-se, mas ficam aborrecidos se estes rosnam, bramem ou ficam irados. Mas quando v√™em que as suas pr√≥prias vidas s√£o carrancudas, taciturnas, opressas, e perturbadas por paix√Ķes int√©rminas e altamente nocivas, por preocupa√ß√Ķes e aborrecimentos, n√£o encontram tr√©gua nem al√≠vio para si pr√≥prios; como o poderiam? N√£o apenas isso, mas quando os outros os incitam a encontr√°-los, n√£o d√£o aten√ß√£o nenhuma ao argumento cuja aceita√ß√£o os capacitaria a tolerar o presente sem recrimina√ß√£o, a recordar o passado com gratid√£o e a enfrentar o futuro sem apreens√£o nem receio, mas com gaia e luminosa esperan√ßa.

Tudo Est√° ao Nosso Alcance

A vida traz a cada um a sua tarefa e, seja qual for a ocupa√ß√£o escolhida, √°lgebra, pintura, arquitectura, poesia, com√©rcio, pol√≠tica ‚ÄĒ todas est√£o ao nosso alcance, at√© mesmo na realiza√ß√£o de miraculosos triunfos, tudo na depend√™ncia da selec√ß√£o daquilo para que temos aptid√£o: comece pelo come√ßo, prossiga na ordem certa, passo a passo. √Č t√£o f√°cil retorcer √Ęncoras de ferro e talhar canh√Ķes como entrela√ßar palha, t√£o f√°cil ferver granito como ferver √°gua, se voc√™ fizer tudo na ordem correcta. Onde quer que haja insucesso √© porque houve titubeio, houve alguma supersti√ß√£o sobre a sorte, algum passo omitido, que a natureza jamais perdoa. Condi√ß√Ķes felizes de vida podem ser obtidas nos mesmos termos. A atrac√ß√£o que elas suscitam √© a promessa de que est√£o ao nosso alcance. As nossas preces s√£o profetas. √Č preciso fidelidade; √© preciso ades√£o firme. Qu√£o respeit√°vel √© a vida que se aferra aos seus objectivos! As aspira√ß√Ķes juvenis s√£o coisas belas, as suas teorias e planos de vida s√£o leg√≠timos e recomend√°veis: mas voc√™ ser√° fiel a eles? Nem um homem sequer, receio eu, naquele p√°tio repleto de gente, ou n√£o mais que um em mil. E, se tentar cobrar deles a trai√ß√£o cometida,

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Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos n√£o suscitam e acumulam em n√≥s, reguladas e governadas como s√£o pela c√≥lera! Come√ßamos por ser inimigos das raz√Ķes e acabamos por o ser dos homens. S√≥ aprendemos a discutir para contraditar, e, √† for√ßa de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir √© perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Plat√£o, na Rep√ļblica, pro√≠be o seu exerc√≠cio aos esp√≠ritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de p√īr a caminho, para descobrir a verdade, com quem n√£o tem passo nem andamento que sirvam? N√£o se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; n√£o falo dos meios escol√°sticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento s√£o. Que suceder√° por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, p√Ķem-no de parte na confus√£o do acess√≥rio.
No fim de uma hora de tormenta j√° n√£o sabem o que procuram; um est√° em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as compara√ß√Ķes; outros n√£o entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: s√≥ pensam neles,

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O Verdadeiro Homem

√Č evidente que a natureza se preocupa bem pouco com o que o homem tem ou n√£o no esp√≠rito. O verdadeiro homem √© o homem selvagem, que se relaciona com a natureza tal como ela √©. Assim que o homem agu√ßa a sua intelig√™ncia, desenvolve as suas ideias e a forma de as exprimir, ou adquire novas necessidades, a natureza op√Ķe-se aos seus des√≠gnios em toda a linha. S√≥ lhe resta violent√°-la, continuamente. Ela, pelo seu lado, tamb√©m n√£o fica quieta. Se ele suspende por momentos o trabalho que se impusera, ela torna-se de novo dominadora, invade-o, devora-o, destr√≥i ou desfigura a sua obra; dir-se-ia que acolhe com impaci√™ncia as obras-primas da imagina√ß√£o e da per√≠cia do homem.

Que importam √† ronda das esta√ß√Ķes, ao curso dos astros, dos rios e dos ventos, o Part√©non, S√£o Pedro de Roma e tantas outras maravilhas da arte? Um tremor de terra ou a lava de um vulc√£o reduzem-nos a nada; os p√°ssaros far√£o os seus ninhos nas suas ru√≠nas; os animais selvagens ir√£o buscar os ossos dos construtores aos seus t√ļmulos entreabertos.

As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas

Os jovens de agora parece que t√™m dificuldade em crescer. N√£o sei porqu√™. Se calhar as pessoas s√≥ crescem ao ritmo a que s√£o obrigadas. Um primo meu, com dezoito anos, j√° tinha as insign√≠as de auxiliar do xerife. Era casado e tinha um filho. Tive um amigo de inf√Ęncia que, com a mesma idade, j√° tinha sido ordenado sacerdote baptista. Era pastor de uma igrejinha rural, muito antiga. Ao fim de uns tr√™s anos foi transferido para Lubbock e, quando disse √†s pessoas que se ia embora, elas desataram todas a chorar, ali sentadas no banco da igraja. Homens e mulheres, todos em l√°grimas. Tinha celebrado casamento, baptizados, funerais. Com vinte e um anos, talvez vinte e dois. Quando pregava os seus serm√Ķes, a assist√™ncia era tanta que havia gente de p√© no adro a ouvir. Fiquei espantado. Na escola ele era sempre t√£o calado.
(…) A Loretta contou-me que ouviu falar na r√°dio de uma certa percentagem de crian√ßas deste pa√≠s que est√° a ser criada pelos av√≥s. J√° n√£o me lembro do n√ļmero. Era bastante alto, pareceu-me. Os pais n√£o querem ter esse trabalho. Convers√°mos sobre isso. Demos connosco a pensar que quando a pr√≥xima gera√ß√£o crescer e tamb√©m j√° n√£o quiser criar os filhos,

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J√° Est√° na Altura de Perder as Ilus√Ķes

As ilus√Ķes das pessoas v√£o mudando. Quando s√£o jovens, t√™m a ilus√£o do amor; pensam que o amor talvez consiga abrir as portas de todos os mist√©rios. O amor abre realmente as portas, n√£o as dos mist√©rios, mas as das mis√©rias. H√° outros indiv√≠duos a quem s√≥ interessa ganhar dinheiro. Quando perguntaram a Henry Ford: ¬ęGanhou mais dinheiro do que qualquer outra pessoa no mundo. Agora que chegou ao topo, como se sente?¬Ľ, ele respondeu: ¬ęCompletamente frustrado, porque no topo n√£o existe nada. O que aprendi ao longo de toda a minha vida foi a subir escadas. Fui subindo, na esperan√ßa de que no degrau seguinte pudesse estar a realiza√ß√£o, mas a realiza√ß√£o nunca se alcan√ßa.¬Ľ
Quando as pessoas perdem as suas esperan√ßas, ilus√Ķes e sonhos mundanos, ent√£o mudam e come√ßam a ter esperan√ßa no crescimento espiritual, em Deus e no para√≠so. Estas s√£o as mesmas pessoas e as mesmas mentes que n√£o aprenderam absolutamente nada.
A n√£o ser que n√£o possua quaisquer tipo de ilus√Ķes – o que significa que j√° n√£o pensa no amanh√£ n√£o conhecer√° a verdade pura da exist√™ncia, que apenas existe nesse momento. N√£o se encontrar√° em sintonia com o mesmo, e, portanto,

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O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso √©, indubitavelmente, o livro. Os outros s√£o extens√Ķes do seu corpo. O microsc√≥pio e o telesc√≥pio s√£o extens√Ķes da vista; o telefone √© o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extens√Ķes do seu bra√ßo. Mas o livro √© outra coisa: o livro √© uma extens√£o da mem√≥ria e da imagina√ß√£o.
Em ¬ęC√©sar e Cle√≥patra¬Ľ de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela √© a mem√≥ria da humanidade. O livro √© isso e tamb√©m algo mais: a imagina√ß√£o. Pois o que √© o nosso passado sen√£o uma s√©rie de sonhos? Que diferen√ßa pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal √© a fun√ß√£o que o livro realiza.
(…) Se lemos um livro antigo, √© como se l√™ssemos todo o tempo que transcorreu at√© n√≥s desde o dia em que ele foi escrito. Por isso conv√©m manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos n√£o estar de acordo com as opini√Ķes do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, n√£o para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade,

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A Asfixia do Artista pela Sociedade

Eu tenho medo das ¬ęteses¬Ľ quando se apoderam de um artista jovem, sobretudo nos come√ßos da sua carreira. E sabem o que eu temo? Muito simplesmente que n√£o consiga os objectos da tese. Pensar√° um simp√°tico cr√≠tico, a quem li h√° pouco e cujo nome agora n√£o vou citar, que toda a obra art√≠stica isenta de tese pr√©via, realizada exclusivamente com um objectivo art√≠stico, e at√© de assunto inteiramente secund√°rio e n√£o correspondendo a nada de ¬ętendencioso¬Ľ possa resultar nuns proveitos para o seu objectivo ainda que √† primeira vista d√™ a impress√£o de satisfazer apenas ¬ęuma ociosa curiosidade¬Ľ? Porventura as nossas pessoas cultas ainda n√£o se deram conta do que pode passar-se no cora√ß√£o e na intelig√™ncia dos nossos escritores e artistas jovens? Que confus√£o de ideias e de sentimentos preconcebidos!

Sob a press√£o da sociedade, o jovem poeta sufoca na alma o seu natural anelo de espraiar-se em formas singulares; receia que condenem a sua ¬ęociosa curiosidade¬Ľ; reprime essas formas que lhe brotam do fundo da alma; nega-lhes vida e aten√ß√£o e arranca de dentro, entre espamos, o tema que √† sociedade agrada, que √© grato √† opini√£o liberal e social. Mas que erro t√£o horrivelmente c√Ęndido e ing√©nuo,

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O Homem de Car√°cter

Os homens de car√°cter s√£o a consci√™ncia da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa for√ßa √© a resist√™ncia √†s circunst√Ęncias. Os homens impuros julgam a vida pela vers√£o reflectida nas opini√Ķes, nos acontecimentos e nas pessoas. N√£o s√£o capazes de prever a ac√ß√£o at√© que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ac√ß√£o preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou m√°, era de f√°cil predi√ß√£o. Tudo na natureza √© bipolar, ou tem um p√≥lo positivo e um p√≥lo negativo. H√° um macho e uma f√™mea, um esp√≠rito e um facto, um norte e um sul. O esp√≠rito √© o positivo, o facto √© o negativo. A vontade √© o norte, a ac√ß√£o √© o p√≥lo sul. O car√°cter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magn√©ticas do sistema. Os esp√≠ritos fracos s√£o atra√≠dos para o p√≥lo sul, ou p√≥lo negativo. S√≥ v√™em na ac√ß√£o o lucro, ou o preju√≠zo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas;

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Este Amor Infinito e Imaculado

Querida, o teu viver era um letargo,
Nenhuma aspiração te atormentava;
Afeita j√° do jugo ao duro cargo,
Teu peito nem sequer desafogava.
Fui eu que te apontei um mundo largo
De novas sensa√ß√Ķes; teu peito ansiava
Ouvindo-me contar entre caricias,
Do livre e ardente amor tantas delicias!

N√£o te mentia, n√£o. Sentiste-o, filha,
Esse amor infinito e imaculado,
Estrela maga que incessante brilha
Da alma pura ao casto amor sagrado;
Afecto nobre que jamais partilha
O coracão de vícios ulcerado.
N√£o sentes, nem recordas, j√° sequer?
Quem deste amor te despenhou, mulher ?

Eu n√£o! Se muitos crimes me desluzem,
Se p√īde transviar-me o seu encanto,
Ao menos uma só não me recusem,
Uma virtude só: amar-te tanto!
Embora inj√ļrias contra mim se cruzem,
Cuspindo insultos neste amor t√£o santo,
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade
O opróbrio aviltador da sociedade.

Tremo por Ti que √Čs o Meu √önico Amigo

António,

Tenho imensas coisas que te dizer e n√£o sei o que hei-de dizer, t√£o arreliada estou e t√£o sem cabe√ßa para pensar a coisa mais insignificante deste mundo. Que linda noite, tu vais passar, Amigo querido! E eu? A pensar que a maldade e a estupidez desta vida que no nosso desgra√ßado pa√≠s √© um horror, me pode fazer o mal maior que a algu√©m se pode fazer. Tenho medo, tenho medo, meu amor. Este desassossego cont√≠nuo p√Ķe-me doente e faz-me doida.

Então eu hei-de passar a minha triste vida a tremer por ti? Eu tenho pouca sorte, e quando enfim encontro no meu caminho alguém que gosta de mim, por mim, como se deve gostar, que pensa na minha felicidade, no meu sossego, alguém que se digna ver que eu tenho alma a sentir, quando encontro enfim no mundo o que julgara não encontrar nunca, hei-de andar como o avarento a tremer pelo tesoiro que levou anos, uma vida inteira a conquistar e que lhe podem roubar num momento. Eu tenho pouca sorte! Que Deus tenha piedade de mim.

Quereria dizer-te muitas coisas mas nem sei o que; só tenho vontade de chorar e de gritar desesperadamente,

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Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

Numa vida profundamente atormentada seria possível muitas vezes encontrar-se felicidade para várias outras existências. Da felicidade que um homem malbarata, sem lhe suspeitar o valor, outros homens tirariam alegria para toda a vida, assim como as sobras da mesa do rico dariam para sustento de mais de um pobre.

A gl√≥ria √© um processo de apuramento que nunca p√°ra. √Ä medida que a humanidade envelhece e que as suas recorda√ß√Ķes se v√£o amontoando, tornam-se necess√°rias novas selec√ß√Ķes. S√©culos inteiros s√£o depurados nesses escrut√≠nios, sem que sobreviva um nome sequer. Um dia os imortais ir√£o unir-se aos an√≥nimos no esquecimento final.

√Č a imagina√ß√£o, tocha divina apensa ao esp√≠rito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da cria√ß√£o. Assim os peixes das profundezas oce√Ęnicas trazem um facho que os ilumina na noite eterna. Sem isto para que lhes serviriam os olhos? Sem imagina√ß√£o, que utilidade teria para o homem a intelig√™ncia?

O homem de letras tem falhas pronunciadas de intelig√™ncia, a ponto de parecer est√ļpido ao homem de neg√≥cios. N√£o deixa por√©m por isso de se considerar, onde quer que se encontre, o mais inteligente da roda. Nada √© mais absurdo do que essa superioridade,

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O Bem Moral

N√£o quero deixar passar o ensejo de indicar a diferen√ßa entre o bem em geral e o bem moral. Ambas as no√ß√Ķes t√™m algo de comum e mesmo indissoci√°vel: nada pode ser considerado um bem se n√£o tiver uma parcela de bem moral, e o bem moral √© indiscutivelmente um bem. Qual √© ent√£o a distin√ß√£o entre as duas categorias? O bem moral √© o bem absoluto, no qual se realiza totalmente a felicidade, e gra√ßas ao contacto dele todas as outras coisas se podem tornar formas de bem. Exemplificando: h√° coisas que em si nem s√£o boas nem s√£o m√°s, tais como o servi√ßo militar, a carreira diplom√°tica, a jurisprud√™ncia. Se estas tarefas forem realizadas conformemente ao bem moral, come√ßam a tornar-se bens e passam, de indiferentes, para a categoria do bem. O bem, em geral, depende de estar ou n√£o associado ao bem moral; o bem moral √© em si mesmo o bem; o bem em geral est√° dependente do bem moral, enquanto o bem moral depende apenas de si. Tudo quanto √© simplesmente um bem poderia ter sido um mal; o bem moral, pelo contr√°rio, nunca poderia deixar de ter sido um bem.

A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade Рpois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer tamb√©m responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas tamb√©m j√° esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem tamb√©m se admira de si mesmo por n√£o poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e r√°pido que ele corra, a corrente corre junto. √Č um milagre: o instante em um √°timo est√° a√≠,

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O Pequeno Hamlet

O Tom√°s, o meu filho, brinca na velha ponte abandonada junto √† casa onde habito agora. Gosto muito deste filho cheio de consequentes sil√™ncios, reservas que lhe v√™m do desamparo da inf√Ęncia – de toda a inf√Ęncia – mas que nele se sublinham como se um veio nocturno se acercasse das coisas que interroga. A mim tudo se me esquece quando olho este filho que espanca com um ferro o ferro da ponte. Observando-o na desaten√ß√£o que o guarda assim no fotograma da mem√≥ria, interpelo-o: ¬ęE leste O pr√≠ncipe da Dinamarca?¬Ľ, e ele responde-me seco, mortalmente evasivo: ¬ęN√£o √© O pr√≠ncipe da Dinamarca, √© O cavaleiro da Dinamarca¬Ľ, e volta a espancar, rebarbativo, o ferro.