Passagens sobre Espécies

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Frases sobre esp√©cies, poemas sobre esp√©cies e outras passagens sobre esp√©cies para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

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A transgress√£o po√©tica √© o √ļnico modo de escaparmos √† ditadura da realidade. Sabendo que a realidade √© uma esp√©cie de recinto prisional fechado com a chave da raz√£o e a porta do bom-senso.

O futuro é uma espécie de banco ao qual vamos remetendo, um a um, os cheques de nossas esperanças. Ora, não é possível que todos os cheques sejam sem fundo.

H√° v√°rias esp√©cies de curiosidade: uma, que nos vem do interesse, leva-nos a querer aprender o que nos pode ser √ļtil, e a outra, que nos vem do orgulho, leva-nos a querer saber o que os outros ignoram.

As calamidades são de duas espécies: a desgraça que nos acontece e a sorte que acontece aos outros.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Combater a Opress√£o

√Č certamente admir√°vel o homem que se op√Ķe a todas as esp√©cies de opress√£o, porque sente que s√≥ assim se conseguir√° realizar a sua vida, s√≥ assim ela estar√° de acordo com o esp√≠rito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a pr√≥pria morte o pensamento de que os esp√≠ritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a raz√£o e a justi√ßa, com o bem; a exist√™ncia passou a ser para ele o meio que um deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde at√© a√≠ apenas a treva se cerrara; √© um esfor√ßo de indiv√≠duo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmore√ßam obst√°culos ou o intimide a amea√ßa; afinal o poder√≠amos ver como a alma que busca, ap√≥s uma luta de que a n√£o interessam nem dificuldades nem extens√£o.

Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue Рpara seu desabono Рdos animais.
Por princ√≠pio de simpatia e antipatia entendo o princ√≠pio que aprova ou desaprova certas ac√ß√Ķes, n√£o na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que algu√©m se sente disposto a aprov√°-las ou reprov√°-las.Os partid√°rios deste princ√≠pio mant√™m que a aprova√ß√£o ou a reprova√ß√£o constituem uma raz√£o suficiente em si mesma,

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A Leitura √© a Mais Nobre das Distrac√ß√Ķes

Se o gosto pelos livros aumenta com a intelig√™ncia, os perigos, como vimos, diminuem com ela. Um esp√≠rito original sabe subordinar a leitura √† actividade pessoal. Ela √© para ele apenas a mais nobre das distra√ß√Ķes, sobretudo a mais enobrecedora, pois, s√≥ a leitura e o saber conferem ¬ęas boas maneiras¬Ľ do esp√≠rito. O poder da nossa sensibilidade e da nossa intelig√™ncia, s√≥ o podemos desenvolver dentro de n√≥s pr√≥prios, nas profundezas da nossa vida espiritual. Mas √© nesse contacto com os outros esp√≠ritos que a leitura √©, que se faz a educa√ß√£o das “maneiras” do esp√≠rito. Os letrados permanecem, apesar de tudo, como as pessoas not√°veis da intelig√™ncia, e ignorar um determinado livro, uma determinada particularidade da ci√™ncia liter√°ria, ser√° sempre, mesmo num homem de g√©nio, uma marca de grosseria intelectual. A distin√ß√£o e a nobreza consistem na ordem do pensamento tamb√©m, numa esp√©cie de franco-ma√ßonaria de costumes, e numa heran√ßa de tradi√ß√Ķes.

O criador é uma espécie de monstro em que há o homem e o outro; quem desanima, quem se abate, quem chora é o homem: o outro, se é grande, até os desesperos utiliza. O essencial é que nunca o homem traia o artista, que a troco de uma felicidade que tanta gente tem se perca a obra que ninguém mais poderia realizar.

Como Lidar com a Adulação

N√£o quero deixar de abordar uma quest√£o que reputo de importante e um erro do qual os principes com dificuldade se guardam, se n√£o s√£o prudentes ou se n√£o t√™m cuidado nas escolhas que fazem. Trata-se dos aduladores, esp√©cie de que as cortes se encontram cheias. √Č que os homens comprazem-se de tal modo com as coisas que lhes dizem respeito e de um modo t√£o ilus√≥rio, que s√≥ muito dificilmente se precavem contra esta peste. E querendo precaver-se, corre o risco de se tornar desprez√≠vel. Porque n√£o tendes outro modo de vos protegerdes da adula√ß√£o a n√£o ser logrando convencer os outros homens de que vos n√£o ofendem dizendo a verdade. Todavia, quando algu√©m vos diz a verdade, sentis a falta da rever√™ncia.
Consequentemente, um pr√≠ncipe prudente deve dispor de uma terceira via, escolhendo no seu estado homens s√°bios, devendo s√≥ a esses conceder livre arb√≠trio para lhe falarem verdade. E, apenas, sobre as coisas que lhes perguntardes, n√£o de outras. Mas deve fazer perguntas sobre todas as coisas, ouvir as suas opini√Ķes e, depois, decidir por si pr√≥prio, a seu modo. E com estes conselhos e com cada um dos conselheiros, portar-se de maneira que cada um deles perceba que,

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√ď M√£e

√ď m√£e, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus l√°bios rebentavam de ternura. √ď m√£e, √≥ minha m√£e, √≥ rio de √°gua pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

√ď m√£e, que √©s m√£e de Deus, que √©s m√£e de mim e m√£e de Antero e de Cam√Ķes, e m√£e de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E s√£o assim uma esp√©cie de filhos de ningu√©m. Abre o teu ventre, m√£e. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

√ď m√£e, √≥ minha m√£e. √ď p√°tria. √ď minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. M√£e de Ulisses, de Guevara e m√£e de Helena. E m√£e da minha dor universal.

A Recetividade Genuína

A recetividade genuína é uma espécie de inocência preciosa mas não tem de existir à custa de sermos frágeis e vulneráveis. Da mesma maneira, não tem de traçar limites pessoais muito firmes e definidos à custa da sensibilidade e da compaixão.

√Ä medida que cresce a nossa consci√™ncia espiritual acerca da nossa verdadeira natureza, tornamo-nos mais compassivos e gentis porque reconhecemos e estabelecemos uma liga√ß√£o com a pureza e a bondade dos outros a partir da nossa ess√™ncia. Por isso permanecemos recetivos a todas as influ√™ncias positivas e que exprimem a vida. Com o que n√£o √© √ļtil nem ben√©fico para n√≥s, simplesmente escolhemos n√£o nos envolvermos nem prestar aten√ß√£o. √Č assim que conseguimos manter-nos recetivos ao mesmo tempo que preservamos os nossos limites pessoais. A sua consci√™ncia de si opera como um filtro que deixa entrar o que √© √ļtil para a sua evolu√ß√£o e impede a entrada daquilo que n√£o √©. √Č como se fosse uma porta de rede. Deixa passar a brisa refrescante mas n√£o deixa entrar as folhas.

A Segunda Juventude

Nos anos da juventude venera-se ou despreza-se ainda sem aquela arte da nuance que √© o melhor partido da vida e paga-se, com justi√ßa, muito caro o ter assaltado deste modo as coisas e as pessoas com sim e n√£o. Tudo se predisp√Ķe de modo que o pior de todos os gostos, o gosto do absoluto, seja cruelmente achicalhado e abusado, at√© que o homem aprenda a p√īr um pouco de arte nos seus sentimentos e prefira ousar fazer uma tentativa com o artificial: tal como o fazem os verdadeiros artistas da vida. A tend√™ncia para a c√≥lera e o instinto da venera√ß√£o, pr√≥prios da juventude, parecem n√£o descansar enquanto n√£o tiverem falseado homens e coisas para os poder dominar: – a juventude, j√° de si, √© algo que engana e falseia.

Mais tarde, quando a alma jovem, martirizada por mil desilus√Ķes, se volta por fim, desconfiada, contra si mesma, ardente e selvagem ainda, mesmo nas suas suspeitas e remorsos: como se encoleriza consigo mesmo, como se dilacera com impaci√™ncia, como se vinga da sua longa cegueira, como se ela tivesse sido volunt√°ria! Neste per√≠odo de transi√ß√£o autocastiga-se pela desconfian√ßa para com os seus pr√≥prios sentimentos; martiriza-se o entusiasmo pela d√ļvida;

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Homero não inventou nada. Toda a história da literatura é uma espécie de passagem de testemunho, como nos Jogos Olímpicos, quando a tocha passa de mão em mão.

Nos dias atuais todos n√≥s falamos, se n√£o a mesma l√≠ngua, uma esp√©cie de linguagem universal. Nao existe um √ļnico centro e o tempo perdeu sua coer√™ncia. Leste e Oeste, passado e futuro se misturam dentro de n√≥s. Diferentes tempos e espa√ßos se combinam aqui, agora, tudo de uma vez s√≥.

A espécie humana apenas se pode permitir uma guerra: a guerra contra a sua própria extinção.

A virtude s√≥ d√° felicidade e uma esp√©cie de beatitude √†queles que t√™m f√© na sua virtude… e n√£o √†s almas mais subtis, cuja virtude consiste numa profunda desconfian√ßa diante de si pr√≥prias e de qualquer virtude. No fim de contas, ainda neste caso, √© ¬ęa f√© que salva!¬Ľ e n√£o, note-se bem, a virtude.

O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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