Passagens sobre Espécies

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Frases sobre esp√©cies, poemas sobre esp√©cies e outras passagens sobre esp√©cies para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

Se fazes questão em reflectir sobre o enigma da vida e do universo, vê se te despachas depressa, que a espécie humana qualquer dia acaba.

Os Amigos Nunca S√£o para as Ocasi√Ķes

Os amigos nunca s√£o para as ocasi√Ķes. S√£o para sempre. A ideia utilit√°ria da amizade, como entreajuda, pronto-socorro m√ļtuo, troca de favores, dep√≥sito de confian√ßa, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade √© puro prazer. N√£o se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se d√≠vidas. Pede-se, d√°-se, recebe-se, esquece-se e n√£o se fala mais nisso.

A decad√™ncia da amizade entre n√≥s deve-se √† instrumentaliza√ß√£o que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa esp√©cie de ma√ßonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. √Č por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem la√ßos pol√≠ticos ou comerciais. Se algu√©m ¬ęfalta¬Ľ ou ¬ęn√£o corresponde¬Ľ, se n√£o cumpre as obriga√ß√Ķes contratuais, √© logo condenado como ¬ęmau¬Ľ amigo e sumariamente proscrito. Est√° tudo doido. S√≥ uma mis√©ria destas obriga a dizer o √≥bvio: os amigos s√£o as pessoas de que n√≥s gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de n√≥s. N√£o interessa. A amizade √© um gosto ego√≠sta, ou inevitabilidade, o caminho de um cora√ß√£o em roda-livre.

Os amigos t√™m de ser in√ļteis. Isto √©, bastarem s√≥ por existir e,

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A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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Sabedoria I, III

Que dizes, viajante, de esta√ß√Ķes, pa√≠ses?
Colheste ao menos tédio, já que está maduro,
Tu, que vejo a fumar charutos infelizes,
Projectando uma sombra absurda contra o muro?

Também o olhar está morto desde as aventuras,
Tens sempre a mesma cara e teu luto é igual:
Como através dos mastros se vislumbra a lua,
Como o antigo mar sob o mais jovem sol,

Ou como um cemit√©rio de t√ļmulos recentes.
Mas fala-nos, vá lá, de histórias pressentidas,
Dessas desilus√Ķes choradas plas correntes,
Dos nojos como insípidos recém-nascidos.

Fala da luz de g√°s, das mulheres, do infinito
Horror do mal, do feio em todos os caminhos
E fala-nos do Amor e também da Política
Com o sangue desonrado em m√£os sujas de tinta.

E sobretudo não te esqueças de ti mesmo,
Arrastando a fraqueza e a simplicidade
Em lugares onde h√° lutas e amores, a esmo,
De maneira t√£o triste e louca, na verdade!

Foi já bem castigada essa inocência grave?
Que achas? √Č duro o homem; e a mulher? E os choros,
Quem os bebeu?

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A primeira sensa√ß√£o que experimento ao encontrar-me na presen√ßa de uma criatura humana, por humilde que seja a sua condi√ß√£o, √© da igualdade origin√°ria da esp√©cie. Uma vez dominado por esta ideia, preocupa-me muito mais do que ser-lhe √ļtil ou agrad√°vel, o n√£o ofender nem ao de leve a sua dignidade.

O Declínio da Natalidade

A mudan√ßa de rela√ß√Ķes entre pais e filhos √© um exemplo t√≠pico da expans√£o geral da democracia. Os pais j√° n√£o est√£o muito seguros dos seus direitos sobre os filhos, os filhos j√° n√£o sentem que devem respeito aos pais. A virtude da obedi√™ncia, que era outrora exigida sem discuss√£o, passou de moda e com certa raz√£o.
A psican√°lise aterrorizou os pais cultos com o medo de causarem, sem querer, mal aos filhos. Se os beijam, podem provocar o complexo de √Čdipo; se n√£o os beijam, podem provocar crises de ci√ļmes. Se os repreeendem em qualquer coisa, podem fazer nascer neles o sentimento do pecado; se n√£o o fazem, os filhos adquirem h√°bitos que os pais consideram indesej√°veis. Quando v√™em as crian√ßas a chupar no polegar, tiram disso toda a esp√©cie de conclus√Ķes terr√≠veis, mas n√£o sabem o que fazer para o evitar. O uso dos direitos dos pais que era antigamente uma manifesta√ß√£o triunfante da autoridade, tornou-se t√≠mido, receoso e cheio de escr√ļpulos.

Perderam-se as antigas alegrias simples e isto é tanto mais grave quanto é certo que, devido à nova liberdade das mulheres solteiras, a mãe tem de fazer muito mais sacrifícios do que antigamente ao optar pela maternidade.

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A Minha Lista dos Grandes Autores

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua √°rvore geneal√≥gica liter√°ria, isto √©, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presun√ß√£o de rela√ß√Ķes ou equival√™ncias de m√©rito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Tamb√©m se pedia que, em brev√≠ssimas palavras, fosse dada a justifica√ß√£o dessa esp√©cie de adop√ß√£o ao contr√°rio, em que era o ¬ędescendente¬Ľ a escolher o ¬ęascendente¬Ľ. A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma √°rvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que h√£o-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamenta√ß√£o, foi esta: Lu√≠s de Cam√Ķes, porque, como escrevi no ¬ęAno da Morte de Ricardo Reis¬Ľ, todos os caminhos portugueses a ele v√£o dar; Padre Ant√≥nio Vieira, porque a l√≠ngua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Pen√≠nsula Ib√©rica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque n√£o precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilus√Ķes sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brand√£o, porque demonstrou que n√£o √© preciso ser-se g√©nio para escrever um livro genial,

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Pode considerar-se o homem como um animal de espécie superior, que produz filosofias e poemas pouco mais ou menos como os bichos-da-seda fazem os casulos e como as abelhas fazem as colmeias.

Dignidade Perdida

A medita√ß√£o perdeu toda a sua dignidade exterior; ridicularizou-se o cerimonial e a atitude solene daquele que reflecte; j√° n√£o se poderia continuar a suportar um sages da velha escola. Pensamos demasiado depressa, e pelo caminho, em plena marcha, no meio de neg√≥cios de toda a esp√©cie, mesmo quando se trate das coisas mais graves; temos apenas necessidade de pouca prepara√ß√£o, e at√© de pouco sil√™ncio: tudo se passa como se tiv√©ssemos na cabe√ßa uma m√°quina que girasse incessantemente e que prosseguisse o seu trabalho, mesmo nas piores circunst√Ęncias. Outrora, quando algu√©m se queria p√īr a pensar – era uma coisa excepcional! – era coisa que se notava imediatamente ; notava-se que queria tornar-se mais s√°bio e que se preparava para uma ideia: o seu rosto ganhava uma express√£o como em ora√ß√£o; o homem detinha-se na sua marcha; ficava at√© im√≥vel durante horas na rua, apoiado numa perna ou nas duas, quando a ideia lhe ¬ęsurgia¬Ľ. A coisa ¬ęvalia¬Ľ ent√£o ¬ęesse trabalho¬Ľ.

O Belo Retrato do S√°bio

Voltemos √† feliz esp√©cie dos loucos. Passada a vida alegremente, sem medo ou pressentimento da morte, emigram directamente para os Campo El√≠sios e v√£o deleitar com as suas fac√©cias as almas ociosas e pias. Comparai agora ao destino do louco o de um s√°bio √† vossa escolha. Citai-me um modelo de sabedoria que tenha gasto a sua inf√Ęncia e a juventude no estudo das ci√™ncias e que tenha perdido o mais belo tempo da sua vida em vig√≠lias, cuidados e trabalhos sem fim e que se tenha privado, para o resto da sua vida, de todos os prazeres. Vereis que foi sempre pobre, miser√°vel, triste, t√©trico, severo e duro para consigo mesmo, insuport√°vel e desagrad√°vel para com os outros, p√°lido, magro, servil, envelhecido antes do tempo, calvo antes da velhice, votado a uma morte prematura. Que importa, ali√°s, que morra, se nunca chegou a viver! Tal √© o belo retrato deste s√°bio.

O Valor da Obra de Arte

A fonte imediata da obra de arte √© a capacidade humana de pensar, da mesma forma que a ¬ępropens√£o para a troca e o com√©rcio¬Ľ √© a fonte dos objectos de uso. Tratam-se de capacidades do homem, e n√£o de meros atributos do animal humano, como sentimentos, desejos e necessidades, aos quais est√£o ligados e que muitas vezes constituem o seu conte√ļdo.
Estes atributos humanos s√£o t√£o alheios ao mundo que o homem cria como seu lugar na terra, como os atributos correspondentes de outras esp√©cies animais; se tivessem de constituir um ambiente fabricado pelo homem para o animal humano, esse ambiente seria um n√£o mundo, resultado de emana√ß√£o e n√£o de cria√ß√£o. A capacidade de pensar relaciona-se com o sentimento, transformando a sua dor muda e inarticulada, do mesmo modo que a troca transforma a gan√Ęncia crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado da necessidade – at√© que todos se tornem dignos de entrar no mundo transformados em coisas, reificados. Em cada caso, uma capacidade humana que, por sua pr√≥pria natureza, √© comunicativa e voltada para o mundo, transcende e transfere para o mundo algo muito intenso e veemente que estava aprisionado no ser.

A Lei do Mais Forte

Durante muito tempo dissemos que a competi√ß√£o e a elimina√ß√£o dos mais fracos eram o motor da evolu√ß√£o natural. Sem querer, demos cr√©dito √† chamada lei do mais forte. Sancionamos o pecado da ira dos poderosos no exterm√≠nio dos chamados fracos. Sabemos hoje que a simbiose √© um dos mecanismos mais poderosos de evolu√ß√£o. Mas deix√°mos que isso ficasse no esquecimento. E continuamos ainda hoje vasculhando exemplos isolados de simbiose quando a Vida √© toda ela um processo de simbiose global. Sabemos hoje que a capacidade de criar diversidade foi o mais importante segredo da nossa √©poca como esp√©cie que se adaptou e sobreviveu. No entanto, vamo-nos contentando com o estatuto que a n√≥s mesmos conferimos: o sermos a esp√©cie ¬ęsabedora¬Ľ.

Alimentámo-nos de receios e essa será mais uma manifestação da gula. Temos medo de errar. Esse medo leva à proibição de experimentar outros caminhos, sufocados pelo cientificamente correcto, pelo estatisticamente provado, pelo laboratorialmente certificado. Deveríamos ser nós, biólogos, a mostrar que o erro é um dos principais motores da evolução. A mutação é um erro criativo que funciona, um erro que fabrica a diversidade.
Os avanços no domínio do conhecimento fazem-se através de caminhos paradoxais. A nossa ciência,

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Apto e Inapto, Verdade e Mentira

A dura√ß√£o, seja os s√©culos para as civiliza√ß√Ķes, seja os anos e as dezenas de anos para o indiv√≠duo, tem uma fun√ß√£o darwiniana de elimina√ß√£o do inapto. O que est√° apto para tudo √© eterno. √Č apenas nisto que reside o valor daquilo a que chamamos a experi√™ncia. Mas a mentira √© uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, permite ao inapto que existe em si sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam (bem como ao orgulho para sobreviver √†s humilha√ß√Ķes), e esta armadura √© como que segregada pelo inapto para prevenir uma situa√ß√£o de perigo (o orgulho, perante a humilha√ß√£o, adensa a ilus√£o interior). Subsiste na alma uma esp√©cie de fagocitose; tudo o que √© amea√ßado pelo tempo, para n√£o morrer, segrega a mentira e, proporcionalmente, o perigo de morte. √Č por isso que n√£o existe amor pela verdade sem uma admiss√£o ilimitada da morte. A cruz de Cristo √© a √ļnica porta do conhecimento.

Sou a pessoa mais banal deste mundo. Limito-me a sentar-me √† secret√°ria, meter a folha de papel na m√°quina e ir at√© onde posso. √Č como quem entra no escrit√≥rio e sai dele. N√£o fa√ßo nenhuma esp√©cie de exerc√≠cios de aquecimento, nem f√≠sicos, nem ps√≠quicos.

O Prazer em Perspectiva: a Esperança

A esperan√ßa √© filha do desejo, mas n√£o √© o desejo. Constitui uma aptid√£o mental, que nos fez crer na realiza√ß√£o de um desejo. Podemos desejar uma coisa sem que a esperemos. Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os s√°bios desejam descobrir a causa primitiva dos fen√īmenos; eles n√£o t√™m nenhuma esperan√ßa de consegui-lo. O desejo aproxima-se algumas vezes da esperan√ßa, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.
A esperan√ßa √© uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfa√ß√£o freq√ľentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realiza√ß√£o. A raz√£o √© evidente. O prazer realizado limita-se em quantidade e em dura√ß√£o, ao passo que nada limita a grandeza do sonho criado pela esperan√ßa. A for√ßa e o encanto da esperan√ßa consistem em conter todas as possibilidades de prazer. Ela constitui uma esp√©cie de vara m√°gica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperan√ßa por outra.

Aos Pregadores de Moral

N√£o quero fazer moral, mas dou o seguinte conselho √†queles que a fazem: se quereis tirar √†s melhores coisas todo o prest√≠gio e todo o valor, continuai a falar delas como o fazeis. Fazei disso o centro da vossa moral, repeti de manh√£ √† noite a felicidade da virtude, a tranquilidade da alma, a equidade e a justi√ßa imanente; pelo caminho por onde ides, essas excelentes coisas acabar√£o por ganhar o cora√ß√£o do povo; a voz do povo estar√° do seu lado; mas, passando de m√£o em m√£o, perder√£o toda a sua duradoura; pior: o seu ouro transformar-se-√° em chumbo. Ah! Como sois peritos nessas contra-alquimias! Como sabeis desvalorizar as subst√Ęncias mais preciosas! Tentai, portanto, uma vez, a t√≠tulo de experi√™ncia, uma receita diferente, se n√£o quereis, como at√© agora, conseguir o contr√°rio daquilo que procurais: negai essas excelentes coisas, retirai-lhes o aplauso da multid√£o, entravai a sua circula√ß√£o, voltai a faz√™-las outra vez o objecto de secreto pudor da alma solit√°ria, dizei que a moral √© um fruto proibido! Talvez ganheis ent√£o para a vossa causa a √ļnica esp√©cie de homens que interessa, quero dizer, a ra√ßa dos her√≥is.

A Estranheza dá Crédito

O verdadeiro campo e assunto da impostura s√£o as coisas desconhecidas. Isso porque em primeiro lugar a pr√≥pria estranheza d√° cr√©dito; e depois, n√£o estando sujeitas √†s nossas reflex√Ķes habituais, elas tiram-nos os meios de as combater. Por causa disso, diz Plat√£o, √© muito mais f√°cil satisfazer ao falar da natureza dos deuses do que da natureza dos homens, porque a ignor√Ęncia dos ouvintes abre um belo e amplo caminho e toda a liberdade para o manejo de uma mat√©ria secreta.
Advém daí que nada é aceite tão firmemente como aquilo que menos se sabe, nem há pessoas tão seguras como as que nos contam fábulas, como alquimistas, prognotiscadores, astrólogos, quiromantes, médicos, toda a gente dessa espécie (Horácio). A eles eu acrescentaria de bom grado, se ousasse, um bando de pessoas, intérpretes e controladores habituais dos desígnios de Deus, que têm a pretensão de descobrir as causas de cada acontecimento e de ver nos segredos da vontade divina os incompreensíveis motivos das suas obras; e, embora a variedade e a disparidade contínua dos factos os lance de um canto para o outro e do ocidente para o oriente, não deixam entretanto de persistir no que é seu e com o mesmo lápis pintar o preto e o branco.

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O ci√ļme √© a esp√©cie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, p√Ķe nos outros a culpa da sua feiura.