Textos sobre Aparência

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Textos de aparência escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Ente Exterior Não é o Real

0 corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. 0 verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. 0 erro comum é ver no ente exterior um ente real.

Os Escritores Medíocres

Essas mentes med√≠ocres simplesmente n√£o se conseguem decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma apar√™ncia muito simpl√≥ria. […] Desse modo, apresentam o que t√™m a dizer com constru√ß√Ķes for√ßadas e dif√≠ceis, neologismos e per√≠odos extensos, que circundam o pensamento e acabam por o ocultar. Oscilam entre o esfor√ßo de o comunicar e o esfor√ßo de o esconder. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma apar√™ncia erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele cont√©m mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esbo√ßam partes do seu pensamento em express√Ķes curtas, amb√≠guas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem; logo voltam a apresentar os seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade insuport√°vel, como se fossem necess√°rias sabe-se l√° que medidas para tornar compreens√≠vel o seu sentido profundo, enquanto, na verdade, se trata de uma ideia bastante simples, para n√£o dizer at√© trivial.

A Armadilha da Identidade

A mais perigosa armadilha é aquela que possui a aparência de uma ferramenta de emancipação. Uma dessas ciladas é a ideia de que nós, seres humanos, possuímos uma identidade essencial: somos o que somos porque estamos geneticamente programados. Ser-se mulher, homem, branco, negro, velho ou criança, ser-se doente ou infeliz, tudo isso surge como condição inscrita no ADN. Essas categorias parecem provir apenas da Natureza. A nossa existência resultaria, assim, apenas de uma leitura de um código de bases e nucleótidos.

Esta biologização da identidade é uma capciosa armadilha. Simone de Beauvoir disse: a verdadeira natureza humana é não ter natureza nenhuma. Com isso ela combatia a ideia estereotipada da identidade. Aquilo que somos não é o simples cumprir de um destino programado nos cromossomas, mas a realização de um ser que se constrói em trocas com os outros e com a realidade envolvente.

A imensa felicidade que a escrita me deu foi a de poder viajar por entre categorias existenciais. Na realidade, de pouco vale a leitura se ela n√£o nos fizer transitar de vidas. De pouco vale escrever ou ler se n√£o nos deixarmos dissolver por outras identidades e n√£o reacordarmos em outros corpos,

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Que um Homem Tenha a Força de ser Sincero

A maior parte das pessoas, seduzidas pelas aparências, deixam-se tomar pelos engodos enganadores de uma baixa e servil complacência; tomam-na por um sinal de uma verdadeira amizade; e confundem, como dizia Pitágoras, o canto das sereias com o das musas. Crêem, digo eu, que produz a amizade, como as pessoas simples pensam que a terra fez os Deuses; em lugar de dizerem que foi a sinceridade que a fez nascer como os Deuses criaram os sinais e as potências celestes.
Sim! √Č de uma for√ßa t√£o bruta que a amizade deve provir, e √© de uma bela origem a que tira de uma virtude que d√° origem a tantas outras. As grandes virtudes, que nascem, se ouso diz√™-lo, na parte da alma mais subida e mais divina, parecem estar encadeadas umas nas outras. Que um homem tenha a for√ßa de ser sincero, e vereis uma certa coragem difundida em todo o seu car√°cter, uma independ√™ncia geral, um imp√©rio sobre si mesmo igual ao exercido sobre os outros, uma alma isenta das nuvens do temor e do terror, um amor pela virtude, um √≥dio pelo v√≠cio, um desprezo pelos que se lhe abandonam. De um tronco t√£o nobre e t√£o belo,

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Um Ser Revoltante e Falso

Quanta felicidade d√° a grata suavidade das coisas! Como a vida √© cintilante e de bela apar√™ncia! S√£o as grandes falsifica√ß√Ķes, as grandes interpreta√ß√Ķes que sempre nos t√™m elevado acima da satisfa√ß√£o animal, at√© chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo l√≥gico, a rumina√ß√£o do esp√≠rito que se contempla ao espelho, a disseca√ß√£o dos instintos?
Suponde v√≥s que tudo era reduzido a f√≥rmulas e que a vossa cren√ßa era confinada √† aprecia√ß√£o de graus de verosimilhan√ßa, e que vos era insuport√°vel viver com tais premissas… que faz√≠eis v√≥s?

A Exist√™ncia Baseada Em Justifica√ß√Ķes

Ningu√©m aqui gera mais do que a sua possibilidade espiritual de viver; pouco importa que d√™ a apar√™ncia de trabalhar para se alimentar, para se vestir, etc.; com cada bocada vis√≠vel uma invis√≠vel lhe √© estendida, com cada vestimenta vis√≠vel uma invis√≠vel vestimenta. Est√° nisso a justifica√ß√£o de cada homem. Parece fundamentar a sua exist√™ncia com justifica√ß√Ķes ulteriores, mas essa √© apenas a imagem invertida que oferece o espelho da psicologia, de facto erege a sua vida sobre as suas justifica√ß√Ķes. √Č verdade que cada homem deve poder justificar a sua vida (ou a sua morte, o que vem dar no mesmo), n√£o pode furtar-se a essa tarefa.

A Dissimulação da Identidade

Não nos contentamos com a vida que temos em nós e no nosso próprio ser: queremos viver na ideia dos outros uma vida imaginária e para isso esforçamo-nos por manter as aparências. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar o nosso ser imaginário, e descuramos o verdadeiro. E se temos ou a tranquilidade, ou a generosidade, ou a felicidade, apressamo-nos a apregoá-lo, a fim de atribuir estas virtudes ao nosso outro ser, e se fosse preciso estararíamos prontos a despojar-nos delas para as juntar ao outro; de bom grado seríamos cobardes para adquirirmos a reputação de valentes.
Grande sinal do nada que somos, n√£o nos contentarmos de uma coisa sem a outra, e trocarmos muitas vezes uma pela outra! Pois quem n√£o morresse para conservar a sua honra seria infame.

Povos Sem Sorte

As pessoas podem sentir pena de um homem que est√° a passar por tempos dif√≠ceis, mas quando um pa√≠s inteiro √© pobre, o resto do mundo assume que todos os seus cidad√£os s√£o desmiolados, pregui√ßosos, sujos, tolos e desajeitados. Em vez de pena, provocam o riso. √Č tudo uma anedota: a sua cultura, os seus costumes, as suas pr√°ticas. Com o tempo o resto do mundo pode, parte dele, come√ßar a ficar envergonhado por ter pensado dessa maneira, e quando olham em volta e v√™em os imigrantes desse pobre pa√≠s a esfregar o ch√£o e a fazerem os trabalhos pior pagos, eles naturalmente preocupam-se sobre o que poderia acontecer se um dia estes trabalhadores se insurgissem contra eles. Assim, para manter as apar√™ncias agrad√°veis, come√ßam a interessar-se pela cultura dos imigrantes e √†s vezes at√© fingem que pensam neles como se fossem seus iguais.

Não Temos um Projecto de País

Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência Рe nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.

O Paradoxo da Leitura

O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola.
(…) Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado √© entre a inoc√™ncia que n√£o l√™ e a ignor√Ęncia que l√™ muito.
(…) √Č poss√≠vel sustentar com alguma apar√™ncia de exactid√£o que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento.

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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A Velocidade do Tempo é Infinita

A velocidade do tempo √© infinita, e s√≥ quando olhamos para o passado, √© que temos consci√™ncia disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo √© insens√≠vel a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porqu√™? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado √© contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo. De resto, n√£o √© poss√≠vel delimitar grandes intervalos nesta nossa vida t√£o breve. A exist√™ncia humana √© um ponto, √© menos que um ponto. S√≥ por tro√ßa √© que a natureza deu a t√£o diminuta exist√™ncia a apar√™ncia de uma grande dura√ß√£o, dividindo-a em inf√Ęncia, em adolesc√™ncia, em juventude, em per√≠odo de transi√ß√£o da juventude √† velhice, finalmente em velhice. Tantos per√≠odos num t√£o ex√≠guo espa√ßo de tempo!
(…) Habitualmente n√£o me parecia t√£o veloz a passagem do tempo; agora, por√©m, parece-me incrivelmente r√°pida, talvez porque sinto aproximar-se o fim, talvez porque passei a dar-lhe aten√ß√£o e a avaliar o desgaste que em mim provoca.
Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimónia,

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Receita para o Sucesso e Boa Fama

Nunca te lances em v√°rias empresas ao mesmo tempo: n√£o ser√°s admirado por te dispersares. Mais vale ser bem sucedido numa √ļnica, mas brilhante. Falo por experi√™ncia.
No início da tua carreira, não te poupes nem a longas horas de reflexão nem aos mais rudes esforços. Também não tomes iniciativas, se não tiveres a certeza de ter bom êxito. Tão brilhante quando te estreias como em qualquer outra coisa: uma vez conquistada a fama, mesmo os teus erros serão títulos de glória.
Quando estiveres assoberbado por um assunto que te compete, recusa completamente tudo o que possa distrair a tua aten√ß√£o. De facto, se se perceber que faltaste – ainda que minimamente – aos deveres do teu cargo, imediatamente isso te ser√° apontado. E, n√£o obstante tudo o mais que possas ter feito, n√£o obstante o fardo das preocupa√ß√Ķes que te oprimiam, a tua falha ser√° imputada a essa tarefa suplementar.
Quando te lan√ßas numa empresa, nunca te associes a uma pessoa mais competente ou mais experiente que tu. De igual modo, quando visitas algu√©m, n√£o te fa√ßas acompanhar por um terceiro que tenha melhores rela√ß√Ķes com o anfitri√£o que tu.
Se tiveres de deixar um cargo,

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Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

Serenidade Desperta

Tenho tanta coisa para fazer. Pois, mas aquilo que faz, f√°-lo com qualidade? Conduzir at√© ao emprego, falar com os clientes, trabalhar no computador, fazer recados, lidar com os incont√°veis afazeres que preenchem a sua vida quotidiana – at√© que ponto √© que se entrega √†s coisas que faz? E realiza-as com entrega, sem resist√™ncia, ou, pelo contr√°rio, sem se entregar e resistindo √† ac√ß√£o? √Č isto que determina o sucesso na vida e n√£o a dose de esfor√ßo que se despende. O esfor√ßo implica stresse e desgaste f√≠sico, implica a necessidade absoluta de atingir um determinado objectivo ou de alcan√ßar um determinado resultado.

√Č capaz de detectar dentro de si at√© a mais pequena sensa√ß√£o de n√£o quererestar a fazer aquilo que est√° a fazer? Isso √© uma nega√ß√£o da vida e, desse modo, n√£o ser√° poss√≠vel obter resultados verdadeiramente bons.

Se for capaz de descobrir aquela sensa√ß√£o, ser√° que tamb√©m consegue abdicar dela e entregar–se completamente √†quilo que faz?

‚ÄúFazer uma coisa de cada vez”, foi assim que um Mestre Zen definiu o esp√≠rito da filosofia Zen.

Fazer uma coisa de cada vez significa estar nela por inteiro, concentrar nela toda a sua atenção.

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Pensamento em Boa Forma

Cumpre-nos n√£o s√≥ averiguar porque se gasta a vida, dia ap√≥s dia, e o pouco que resta √† propor√ß√£o vai diminuindo. Pensemos tamb√©m no seguinte: supondo que a um homem toque viver longa vida, uma quest√£o permanece escura: a de saber se a sua intelig√™ncia ser√° capaz, tempo adiante, sem defec√ß√£o, de compreender os problemas e a teoria que apontam ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Se ele pega a cair em estado de infantilidade, a respira√ß√£o, a alimenta√ß√£o, a imagina√ß√£o, os gestos impulsivos e as outras fun√ß√Ķes do mesmo g√©nero n√£o lhe faltar√£o necessariamente; mas dispor de si, obtemperar exactamente a todas as exig√™ncias morais, analisar as apar√™ncias, ver se n√£o ser√° j√° tempo de entrouxar e ir para melhor est√£o √† altura de responder a necessidades desta ordem – para tudo isso se necessita de um racioc√≠nio em boa forma; e o racioc√≠nio, h√° que tempos perdeu a chama e a agudeza. Cumpre-nos pois andar ligeiros, n√£o s√≥ porque a morte se avizinha a cada momento mas ainda porque antes de morrer perdemos a capacidade de conceber as coisas e de lhes prestar aten√ß√£o.

A M√°scara Falsa da Felicidade

Um erro sem d√ļvida bem grosseiro consiste em acreditar que a ociosidade possa tornar os homens mais felizes: a sa√ļde, o vigor da mente, a paz do cora√ß√£o s√£o os frutos tocantes do trabalho. S√≥ uma vida laboriosa pode amortecer as paix√Ķes, cujo jugo √© t√£o rigoroso; √© ela que mant√©m nas cabanas o sono, fugitivo dos grandes pal√°cios. A pobreza, contra a qual somos prevenidos, n√£o √© tal como pensamos: ela torna os homens mais temperantes, mais laboriosos, mais modestos; ela os mant√©m na inoc√™ncia, sem a qual n√£o h√° repouso nem felicidade real na terra.
O que √© que invejamos na condi√ß√£o dos ricos? Eles pr√≥prios endividados na abund√Ęncia pelo luxo e pelo fasto imoderados; extenuados na flor da idade por sua licenciosidade criminosa; consumidos pela ambi√ß√£o e pelo ci√ļme na medida em que est√£o mais elevados; v√≠timas orgulhosas da vaidade e da intemperan√ßa; ainda uma vez, povo cego, que lhe podemos invejar?
Consideremos de longe a corte dos príncipes, onde a vaidade humana exibe aquilo que tem de mais especioso: aí encontraremos, mais do que em qualquer outro lugar, a baixeza e a servidão sob a aparência da grandeza e da glória, a indigência sob o nome da fortuna,

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O Esmagamento do Eu

O espectáculo (da sociedade de consumo) que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura. Aquele que sofre passivamente a sua sorte quotidianamente estranha é, pois, levado a uma loucura que reage ilusoriamente a essa sorte, ao recorrer a técnicas mágicas. O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo-resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente uma necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental.

A Disposição da Razão

N√£o s√£o apenas as febres, as beberagens e os grandes infort√ļnios que abatem o nosso julgamento; as menores coisas do mundo o transtornam. E n√£o se deve duvidar, ainda que n√£o o sent√≠ssemos, que, se a febre cont√≠nua pode arrasar a nossa alma, a ter√ß√£ tamb√©m lhe cause alguma altera√ß√£o de acordo com o seu ritmo e propor√ß√£o. Se a apoplexia entorpece e extingue totalmente a vis√£o da nossa intelig√™ncia, n√£o se deve duvidar que a coriza a ofusque; e consequentemente mal podemos encontrar uma √ļnica hora da vida em que o nosso julgamento esteja na sua devida disposi√ß√£o, estando o nosso corpo sujeito a tantas muta√ß√Ķes cont√≠nuas e guarnecido de tantos tipos de recursos que (acredito nos m√©dicos) √© muito dif√≠cil que n√£o haja sempre algum deles andando torto.
De resto, essa doença não se revela tão facilmente se não for totalmente extrema e irremediável, pois a razão segue sempre em frente, mesmo torta, mesmo manca, mesmo desancada, tanto com a mentira como com a verdade. Assim, é difícil descobrir-lhe o erro e o desarranjo. Chamo sempre de razão essa aparência de raciocínio que cada qual forja em si Рessa razão por cuja condição pode haver cem raciocínios contrários em torno de um mesmo assunto,

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Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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