Textos sobre Lua

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Textos de lua escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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A Ociosidade

Assim como vemos as terras em repouso, se n√©dias e f√©rteis, dar origem √† prolifera√ß√£o de cem mil esp√©cies de ervas selvagens e in√ļteis, sendo necess√°rio, para as manter cultiv√°veis, dom√°-las e destin√°-las a certas sementes por forma a que delas tiremos proveito; e assim como vemos as mulheres, que por si s√≥s produzem informes amontoados e peda√ßos de carne, terem, para proporcionar uma boa e natural gera√ß√£o, de ser fecundadas por outra semente, assim vemos que se passa o mesmo com os nossos esp√≠ritos. Se n√£o os ocuparmos com algum objecto que os freie e constranja, lan√ßar-se-√£o eles, desregrados, a percorrer √† toa os campos bravios da imagina√ß√£o:

Tal como a √°gua que tremula em vasilhas de bronze reflecte a luz do sol ou a imagem radiante da lua, cintila√ß√Ķes voando pelos ares e atingindo os artesoados tectos – Virg√≠lio, Eneida

E não há loucura ou desvario que eles não produzam em tal agitação:

Inventam irreais apari√ß√Ķes como nos sonhos dos doentes – Hor√°cio, Ars Poetica

A alma que não tem um ponto de mira perde-se, pois, como sói dizer-se, é não estar em parte nenhuma em todo o lado estar.

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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A Culpa é Sempre Nossa

Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre.
Os grandes mestres s√£o os nossos pais e os nossos filhos – ambos mostram de onde veio a inspira√ß√£o para o pecado original. Ora se √© culpado por ter nascido e interrompido, ora se √© culpado por ter dado a nascer e n√£o se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos.A culpa n√£o √© uma coisa que se tenha, como um pesco√ßo. √Č uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado ¬ę√† partida¬Ľ, que tem aspas porque n√£o existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos s√£o vulner√°veis √† ideia que at√© fizeram por isso e merecem pagar.At√© com as l√Ęmpadas de casa de banho acontece. N√£o h√° dom√≠nio de banalidade que a culpa n√£o contamine. Tenho passado, nos √ļltimos anos, v√°rias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando √© oferecida.Depois aparece o electricista que √© afoito e resolve tudo num segundo.

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A Inacção Consola de Tudo

A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Pai

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O c√©u desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Transl√ļcida, adormece um sono c√°lido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as √°rvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda c√° ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na m√°goa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto √© agora pouco para te conter. Agora, √©s o rio e as margens e a nascente; √©s o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; √©s o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as √°rvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim.

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Somente pela Arte Podemos Sair de Nós Mesmos

Somente pela arte podemos sair de n√≥s mesmos, saber o que um outro v√™ desse universo que n√£o √© o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam t√£o desconhecidas para n√≥s quanto as que podem existir na lua. Gra√ßas √† arte, em vez de ver um √ļnico mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existiem tantos mundos teremos √† nossa disposi√ß√£o, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos s√©culos ap√≥s se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial.

Como Amo

Como? Mas como √© que eu escrevi nove livros e em nenhum deles eu vos disse: Eu vos amo? Eu amo quem tem paci√™ncia de esperar por mim e pela minha voz que sai atrav√©s da palavra escrita. Sinto-me de repente t√£o respons√°vel. Porque se sempre eu soube usar a palavra ‚ÄĒ embora √†s vezes gaguejando ‚ÄĒ ent√£o sou uma criminosa se n√£o disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim. O que ser√° que querem ouvir de mim? Tenho o instrumento na m√£o e n√£o sei toc√°-lo, eis a quest√£o. Que nunca ser√° resolvida. Por falta de coragem? Devo por conten√ß√£o ao meu amor, devo fingir que n√£o sinto o que sinto: amor pelos outros?
Para salvar esta madrugada de lua cheia eu vos digo: eu vos amo.
N√£o dou p√£o a ningu√©m, s√≥ sei dar umas palavras. E d√≥i ser t√£o pobre. Estava no meio da noite sentada na sala de minha casa, fui ao terra√ßo e vi a lua cheia ‚ÄĒ sou muito mais lunar que solar. √Č uma solid√£o t√£o maior que o ser humano pode suportar, esta solid√£o me toma se eu n√£o escrever: eu vos amo. Como explicar que me sinto m√£e do mundo?

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Quem Poder√° Calcular a √ďrbita da sua Pr√≥pria Alma?

As pessoas cujo desejo √© unicamente a auto-realiza√ß√£o, nunca sabem para onde se dirigem. N√£o podem saber. Numa das acep√ß√Ķes da palavra, √© obviamente necess√°rio, como o or√°culo grego afirmava, conhecermo-nos a n√≥s pr√≥prios. √Č a primeira realiza√ß√£o do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem √© incognosc√≠vel √© a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mist√©rio somos n√≥s pr√≥prios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete c√©us, estrela a estrela, restamos ainda n√≥s pr√≥prios.

A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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O Amor Tornado Simples

o amor, de complicado que é, tem de ser tornado simples pelos amantes. cortar-lhes os espinhos todas as manhãs, ou à noite, se a lua o permite. para que os dois possam subir pelo tronco e roer as folhas odoríficas como as de certos arbustos ou de menta que lembra apenas as coisas doces. não há nada complicado no amor, a não ser vivê-lo com intensidade, não querendo outra coisa do mundo todo, durante esse instante.

Sapiência Diversificada

Entre outras vantagens, a sabedoria tamb√©m tem isto de bom: s√≥ se pode ser ultrapassado por outro durante a fase de ascen√ß√£o. Quando se chega ao cume, n√£o mais subsistem diferen√ßas: a sabedoria √© um estado constante, n√£o pass√≠vel de qualquer incremento. Acaso o Sol pode aumentar de tamanho ou a Lua sair da sua √≥rbita? Os oceanos tamb√©m n√£o crescem; o mundo conserva sempre a sua forma e as suas medidas. Todos os seres que atingiram as suas dimens√Ķes ideais j√° n√£o podem aumentar e, por isso, todos os homens que atingirem a sapi√™ncia s√£o de valor inteiramente id√™ntico. De entre eles, cada um ter√° as suas qualidades pr√≥prias: um poder√° ser mais af√°vel, outro mais desembara√ßado, outro de palavra mais pronta, outro dotado de maior eloqu√™ncia. Mas o ponto que nos interessa – a sapi√™ncia que gera a beatitude – essa ser√° igual em todos eles.

A Indagação das Causas e dos Princípios

Visto que esta ci√™ncia (a filosofia) √© o objecto das nossas indaga√ß√Ķes, examinemos de que causas e de que princ√≠pios se ocupa a filosofia como ci√™ncia; quest√£o que se tomar√° muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que formamos do fil√≥sofo. Em primeiro lugar, concebemos o fil√≥sofo principalmente como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto √© poss√≠vel, sem contudo possuir a ci√™ncia de cada uma delas em particular. Em seguida, √†quele que pode alcan√ßar o conhecimento de coisas dif√≠ceis, aquelas a que s√≥ se chega vencendo graves dificuldades, n√£o lhe chamaremos fil√≥sofo? De facto, conhecer pelos sentidos √© uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esfor√ßo em nada tem de filos√≥fico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas no√ß√Ķes das causas, e que melhor ensina estas no√ß√Ķes, √© mais fil√≥sofo do que todos os outros em todas as ci√™ncias. E, entre as ci√™ncias, aquela que se procura por si mesma, s√≥ pelo anseio do saber, √© mais filos√≥fica do que a que se estuda pelos seus resultados; assim como a que domina as mais √© mais filos√≥fica do que a que se encontra subordinada a qualquer outra. N√£o, o fil√≥sofo n√£o deve receber leis,

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A Estupidez da Humanidade

N√≥s passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais est√ļpidas que n√≥s aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. J√° h√° milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solit√°rio torna-a ainda pior. J√° h√° milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que √© assustado, pelo seu patr√£o, e pela pol√≠cia, √© um escravo. Eles sabiam. N√≥s sabemos. Mas ser√° que a granda massa iluminada dos brit√Ęnicos o sabem? N√£o. √Č o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens s√£o demasiado grandes para serem incomodados. Est√£o j√° a descobrir como colonizar V√©nus e como irrigar a Lua. Isso √© que √© o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra √© a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha √© a estupidez da humanidade.

Quantas Vezes a Insónia é um Dom

Mas quantas vezes a ins√≥nia √© um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solid√£o. Quase nenhum ru√≠do. S√≥ o das ondas do mar batendo na praia. E tomo caf√© com gosto, toda sozinha no mundo. Ningu√©m me interrompe o nada. √Č um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque s√ļbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol √†s vezes p√°lido como uma lua, √†s vezes de fogo puro. Vou ao terra√ßo e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar √© meu, o sol √© meu, a terra √© minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. At√© que, como o sol subindo, a casa vai acordando e h√° o reencontro com meus filhos sonolentos.

Julgar Pelas Aparências

A beleza √© uma forma de G√©nio… diria mesmo que √© mais sublime do que o G√©nio por n√£o precisar de qualquer explica√ß√£o. √Č um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol ou a Primavera, ou o reflexo nas escuras √°guas dessa concha de prata a que chamamos lua. √Č inquestion√°vel. Tem um direito de soberania divino. Eleva os seus possuidores √† categoria de pr√≠ncipes. Est√° a sorrir ? Ah, quando a tiver perdido com certeza que n√£o h√°-de sorrir… √†s vezes as pessoas dizem que a Beleza √© apenas superficial, e pode bem ser. Mas pelo menos n√£o √© t√£o superficial como o Pensamento. Para mim, a Beleza √© a maravilha das maravilhas. S√≥ as pessoas fr√≠volas √© que n√£o julgam pelas apar√™ncias. O verdadeiro mist√©rio do mundo √© o vis√≠vel e n√£o o invis√≠vel…

Onde H√° Inveja, n√£o H√° Amizade

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta; que a Lua recebe a claridade do Sol, e o rosto, do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá: não tem que agradecer quem, no que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai o que com ela se compra. Nada se dá de graça o que se pede muito. Está certo! Quem não tem uma vida tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar, e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório a que chamais honra; donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade; nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano quem creu mais o que lhe dizem que o que viu. Agora, ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo,

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Nada é Suficiente para se Morrer

– Nunca pensou escrever um romance?
– Sou um autor de folhetos, acho que interrogativos, e sobretudo um muito interrogativo leitor de perguntas. Mais nada.
– Basta para uma vida ?
– Nem sei se basta para uma verdadeira morte. Nada √© suficiente para se morrer. Ou √© suficiente cruzar os olhos com os de uma leoa materna. Ou brandir esse pequeno objecto el√©ctrico, embora seja t√£o pequeno e a noite por todos os lados do quarto pare√ßa intermin√°vel. Conheci um homem, um psiquiatra descontente ‚ÄĒ s√£o raros, os psiquiatras descontentes, conhe√ßo-os muito contentes a ganhar para enlouquecer as pessoas, rende tanto como a pol√≠tica, trata-se de pol√≠tica, a sinistra pol√≠tica dos tratamentos ‚ÄĒ, vivia numa ilha, este, descontente, adorava falar de estrelas, constela√ß√Ķes, sabia tudo, mas era, digamos, estelarmente irredut√≠vel: estava contra a ordem celeste. Mandou substituir o tecto do quarto de dormir por uma ab√≥bada com um sistema electr√≥nico de corpos celestes, deslocados, todos, relativamente √† estrutura natural, aut√≥nomos entre si. Ali era a lua nas suas fases e as Ursas e o Cruzeiro do Sul e a estrela Arcturus: um sistema de teclas permitia acender aquilo que se desejasse. O que vigorava era um c√©u dele,

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Deixemos a Humanidade à Sua Ordem Natural

N√£o aleijemos a pobre humanidade mais do que ela j√° est√° com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. N√£o sejamos t√£o crian√ßas que queiramos levantar ao ar a esfera pretendendo agarr√°-la apenas pelo hemisf√©rio da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisf√©rio superior, porque a √ļnica maneira de agarr√°-la bem t√£o-pouco √© p√īr-lhe as m√£os por baixo, nem ainda abra√ßando-a com os dois bra√ßos e os dedos metidos uns nos outros para n√£o deixar escapar as m√£os e com o pr√≥prio peito do lado de c√° a ajudar tamb√©m; a √ļnica maneira de equilibrar a esfera no ar √© deix√°-la estar no ar como a p√īs Deus Nosso Senhor, √°s voltas √† roda do sol, como a lua √† roda de n√≥s e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.

A Lamechal√Ęndia

Acabo de perceber que estou a escrever mais uma obra lamechas, vivo na Lamechal√Ęndia desde que te conhe√ßo, e √© bom que d√≥i, t√£o bom que s√≥ escrevo s√≥ ela, a lamechice √© boa mas nunca sozinha, exige que aqui e ali surja o lado negro, a lua existe para valorizar o sol, e o contr√°rio tamb√©m √© verdadeiro, n√£o percebo patavina de astronomia mas de amor percebo, que √© o mesmo que dizer que percebo de ti, tento, v√°, √†s vezes consigo,
a Lamechal√Ęndia n√£o √© s√≥ lamechice, n√£o √© s√≥ cor de rosa, Deus me livre de ser assim, adormecia antes de viver, a Lamechal√Ęndia √© a capacidade de ser lamechas quando √© preciso ser lamechas, quando ser lamechas tem de ser, agora que estamos aqui deitados nesta cama tem de ser, abra√ßo-te a cada letra que escrevo, procuro com as minhas m√£os cada cent√≠metro da tua pele sempre que me lembro de que somos assim, ser lamechas √© conseguir n√£o pensar em como se vai amar, n√£o pensar no que se vai dizer, olhar o outro e dizer-lhe ‚Äúprocuro-te como se procurasse sobreviver‚ÄĚ, e isto n√£o tem nada de mal, a falta de um orgasmo provoca mais conflitos do que a falta de um p√£o,

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