Textos sobre Ridículo

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Textos de ridículo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

N√£o Podemos Ter a Certeza de Nada

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilus√Ķes. As ambi√ß√Ķes que demor√°mos anos a acreditar que alcan√ß√°vamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, n√£o s√£o nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo √© visto da√≠, de onde est√°s. Depois, h√° os olhos que est√£o ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo √© nada. Ou esse tudo √© ainda mais tudo. Ou esse tudo √© mil coisas vezes mil coisas que nos s√£o imposs√≠veis de compreender, apreender, porque s√≥ temos uma √ļnica vida.
‚ÄĒ Porqu√™, pai?
‚ÄĒ N√£o sei. Mas creio que √© assim. S√≥ temos uma √ļnica vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefini√ß√£o, transform√°mos as certezas que constru√≠mos na nossa pr√≥pria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa exist√™ncia dependia delas e que n√£o ser√≠amos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, √© o nosso sangue. Mas, em consci√™ncia absoluta, n√£o podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada,

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No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós

O comum das gentes (de Portugal) que eu n√£o chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum √© bom. Mas √© exactamente porque √© bom, que abusam dele. Os pr√≥prios v√≠cios v√™m da sua ingenuidade, que √© onde a bondade tamb√©m mergulha. S√≥ que precisa sempre de lhe dizerem onde aplic√°-la. N√≥s somos por instinto, com intermit√™ncias de consci√™ncia, com uma generosidade e delicadeza incontrol√°veis at√© ao rid√≠culo, astutos, comunic√°veis at√© ao dislate, corajosos at√© √† temeridade, orgulhosos at√© √† petul√Ęncia, humildes at√© √† subservi√™ncia e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes t√™m assim o seu lado negativo, ou seja, o seu v√≠cio. √Č o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular √© disso que vive.
Mas, no fim de contas, que √© que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma ¬ęciviliza√ß√£o planet√°ria¬Ľ? Que significa o regionalismo em face da r√°dio e da TV? O rasoiro que nivela a prov√≠ncia √© o que igualiza as na√ß√Ķes. A anula√ß√£o do indiv√≠duo de facto √© o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, lingu√≠stica, freudismo, comunismo, tecnocracia s√£o faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Gr√©cia,

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A Vida deve Ser um Sonho que se Recusa a Confrontos

Tudo quanto de desagrad√°vel nos sucede na vida – figuras rid√≠culas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que ca√≠mos de qualquer das vir¬≠tudes – deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a subst√Ęncia da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas s√£o externas ainda que nossas, ou que s√≥ tem que supor a nossa exist√™ncia org√Ęnica ou que preocupar-se o que h√° de vital em n√≥s.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos oq ue em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Disse Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos Рnão porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser,

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O Amor n√£o Tem nada que Ver com a Idade

Penso saber que o amor n√£o tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma √©poca a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa √© uma maneira redutora de ver as rela√ß√Ķes entre as pessoas vivas. O que acontece √© que h√° toda uma hist√≥ria nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser rid√≠culo. Isso √© uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que √© em que consiste o amor.

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.

Regras para a Conversação

РDa minha parte, disse Amithone, confesso que gostaria muito que existissem regras para a conversação, assim como há para muitas outras coisas. РA regra principal, retomou Valérie, é jamais dizer alguma coisa que fira o juízo. РMas ainda, acrescentou Nicanor, desejaria saber mais precisamente como vós concebeis que deva ser a conversação. РConcebo, retomou ela, que no falar em geral, ela deva versar com mais frequência sobre coisas comuns e galantes do que sobre grandes coisas.
Mas concebo, entretanto, que n√£o h√° nada que n√£o possa caber ali; que ela deve ser livre e diversificada, segundo os momentos, os lugares, e as pessoas com quem se est√°; e que o segredo √© falar sempre nobremente das coisas baixas, e bastante simplesmente das coisas elevadas, e muito galantemente das coisas galantes, sem ansiedade, e sem afecta√ß√£o. Assim, embora a conversa√ß√£o deva ser sempre igualmente natural e ponderada, n√£o deixo de dizer que h√° ocasi√Ķes nas quais mesmo as ci√™ncias podem entrar de bom grado ali e nas quais os agrad√°veis desatinos tamb√©m podem encontrar o seu lugar, contanto que sejam engenhosos, modestos e galantes. De modo que, para falar ponderadamente, pode-se assegurar, sem mentira, que n√£o h√° nada que n√£o se possa dizer na conversa√ß√£o,

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Preciso de Ti

O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? √Č claro que amo os meus pais, a minha fam√≠lia toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado.

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Tende Piedade de Mim

Tende piedade de mim, pequei at√© ao mais √≠ntimo do meu ser. Mas os meus projectos n√£o eram para desprezar inteiramente; at√© tinha alguns pequenos talentos, dissipei-os, criatura louca que fui, estou agora perto do fim precisamente quando tudo exteriormente pode acabar por ser em meu favor. N√£o me deitem fora entre os perdidos. Sei que √© o meu rid√≠culo amor-pr√≥prio que est√° a falar, rid√≠culo, quer seja visto √† dist√Ęncia, quer de bem perto; mas, como estou vivo, tamb√©m tenho o amor da vida pela vida, e se a vida n√£o √© rid√≠cula, as suas manifesta√ß√Ķes inevit√°veis n√£o o podem ser tamb√©m.

O Riso é o Melhor Indicador da Alma

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como n√£o sabe (ningu√©m sabe, ali√°s) a cara que faz quando dorme. H√° quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros h√° que, embora inteligentes, fazem uma cara t√£o est√ļpida a dormir que se torna rid√≠cula.
Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade,

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Da Conversa

H√° quem, na conversa, prefira mostrar esp√≠rito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o ju√≠zo no discernimento da verdade, como se houvesse maior m√©rito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns t√™m certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas s√£o falhos na variedade; esta esp√©cie de indig√™ncia √© quase sempre aborrecida, e de vez em quando rid√≠cula; a parte mais honrosa do col√≥quio consiste em dar ocasi√£o a novo tema, e tamb√©m em moderar ou acelerar a transi√ß√£o para assunto diferente; √© bom variar, mesclando o assunto de que se est√° a conversar com argumentos, narrativas com discuss√Ķes, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; h√°, por√©m, assuntos que n√£o permitem brincadeira, nomeadamente a religi√£o, os neg√≥cios do Estado, as altas personalidades, todas as quest√Ķes de import√Ęncia para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de d√≥.
Aquele que muito interrogar muito aprenderá também, muito contentará também, especialmente se adaptar as suas perguntas aos conhecimentos daqueles que lhe podem responder, pois assim lhes dará ocasião de se comprazerem a falar, e ele próprio continuará a ganhar conhecimentos; se por vezes fingirdes ignorar o que consta que sabeis,

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A Memória é Como o Ventre da Alma

Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória.
N√£o √© isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o esp√≠rito √© uma coisa e o corpo √© outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, n√£o √© de admirar. Aqui, por√©m, o esp√≠rito √© a mem√≥ria. Efectivamente, quando confiamos a algu√©m qualquer neg√≥cio, para que se lhe grave na mem√≥ra, dizemos-lhe: ¬ęv√™ l√°, grava-o bem no teu esp√≠rito¬Ľ. E quando nos esquecemos, exclamamos: ¬ęn√£o o conservei no esp√≠rito¬Ľ, ou ent√£o: ¬ęescapou-se-me do esp√≠rito¬Ľ; portanto, chamamos esp√≠rito √† pr√≥pria mem√≥ria.
Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?
N√£o h√° d√ļvida que a mem√≥ria √© como o ventre da alma. A alegria, por√©m, e a tristeza s√£o o seu alimento,

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O Amor n√£o Rende Juros

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√Č verdade ¬ęque um baixo amor os fortes enfraquece¬Ľ
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor √©, em energia material sobre o mundo, um roubo ‚ÄĒ apesar de, em sensa√ß√Ķes, ser magn√≠fico. 0 amor ser√° √ļtil internamente,
mas externamente n√£o carrega um tijolo.
Disso nunca tive d√ļvidas.

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A vida, √© certo, n√£o ser√° um s√≠tio excepcional para as paix√Ķes.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

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√Č desarranjo de estrat√©gias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que n√£o prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
n√£o desenvolve as suas ind√ļstrias, nem a economia.
Disso nunca tive d√ļvidas. E por isso √© prefer√≠vel n√£o.

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre?

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Indulgência com os Outros

Para sobreviver por este mundo afora, √© conveniente levar consigo uma grande provis√£o de precau√ß√£o e indulg√™ncia. Pela primeira seremos protegidos de danos e perdas, pela segunda, de disputas e querelas. Quem tem de viver entre os homens n√£o deve condenar, de maneira incondicionada, individualidade alguma, nem mesmo a pior, a mais mesquinha ou a mais rid√≠cula, pois ela foi definitivamente estabelecida e ofertada pela natureza. Deve-se, antes, tom√°-la como algo imut√°vel que, em virtude de um princ√≠pio eterno e metaf√≠sico, tem de ser como √©. Quanto aos casos mais lament√°veis, deve-se pensar: ¬ę√Č preciso que haja tamb√©m tais tipos no mundo.¬Ľ Do contr√°rio, comete-se uma injusti√ßa e desafia-se o outro a uma guerra de vida ou morte, j√° que ningu√©m pode mudar a sua pr√≥pria individualidade, isto √©, o seu car√°cter moral, as suas faculdades de conhecimento, o seu temperamento, a sua fisionomia, etc. Ora, se condenarmos o outro em toda a sua ess√™ncia, ent√£o nada lhe restar√° a n√£o ser combater em n√≥s um inimigo mortal, pois s√≥ lhe reconhecemos o direito de existir sob a condi√ß√£o de tornar-se uma pessoa diferente da que invariavelmente √©.
Portanto, para vivermos entre os homens, temos de deixar cada um existir como é,

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O Egoísmo da Espécie

Os amantes querem pertencer um ao outro, e para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abra√ßam num instante de profunda intimidade para gozarem assim do m√°ximo prazer e da mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer √© ego√≠sta. N√£o h√° d√ļvida que do prazer dos amantes n√£o se pode dizer que seja ego√≠sta, porque √© rec√≠proco; mas o prazer que ambos sentem na uni√£o √© absolutamente ego√≠sta, se for verdade que nesse abra√ßo j√° se confundem num s√≥ e mesmo ser. Mas est√£o enganados; porque, no mesmo instante, a esp√©cie triunfa sobre os indiv√≠duos; domina-os, rebaixa-os, ao seu servi√ßo.

Julgo isto muito mais ridículo do que a situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente. Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso,

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Amigos com Car√°cter

A vida caminha precipitadamente. Perseguimos alguns esquemas flutuantes ou somos perseguidos por algum medo ou autoridade atr√°s de n√≥s. Mas, se, de repente, encontramos um amigo, paramos; o nosso calor e a nossa pressa tornam-se rid√≠culos. Ora a pausa, ora o dom√≠nio s√£o necess√°rios e tamb√©m a for√ßa para encher o momento dos efl√ļvios do cora√ß√£o. O momento √© tudo, em todas as rela√ß√Ķes nobres.
Uma pessoa divina é a profecia do espírito; um amigo é a esperança do coração. A nossa ventura espera pela concretização destas duas em uma.
Os s√©culos est√£o a dilatar essa for√ßa moral. Toda a for√ßa √© a sombra ou o s√≠mbolo daquela. A poesia √© alegre e forte quando extrai nessa fonte a sua inspira√ß√£o. Os homens s√≥ inscrevem os seus nomes no mundo quando est√£o cheios deste. A hist√≥ria tem sido ign√≥bil; as nossas na√ß√Ķes t√™m sido a gentalha; nunca vimos um homem: essa forma divina que ainda n√£o conhecemos, mas apenas o sonho e a profecia de tal; n√£o conhecemos os modos majestosos que lhe s√£o peculiares e que acalmam e exaltam o observador.

Um dia veremos que a energia mais particular √© a mais p√ļblica, que a qualidade afina com a quantidade e a grandeza de car√°cter actua na sombra e socorre aos que nunca a viram.

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O Nosso C√≥digo √Čtico e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto.
(…) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu av√ī teve a ferocidade inconsciente de dizer: ¬ęO pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.¬Ľ E meu pai,(…) disse: ¬ęSim. Anda, vai deitar-te.¬Ľ Eu quis beijar a mam√£; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. ¬ęN√£o, n√£o, deixa a tua m√£e em paz, voc√™s j√° se despediram bastante, essas demonstra√ß√Ķes s√£o rid√≠culas. Anda, sobe!¬Ľ E eu tive de partir sem vi√°tico; tive de subir cada degrau ¬ęcontra o cora√ß√£o¬Ľ, subindo contra o meu cora√ß√£o, que desejava voltar para junto de minha m√£e porque ela n√£o lhe havia dado, com um beijo, licen√ßa de me acompanhar.
(…) J√° no meu quarto, tive de (…) cerrar os postigos, cavar o meu pr√≥prio t√ļmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sud√°rio da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (…), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado.

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Pensar o Meu País

Pensar o meu pa√≠s. De repente toda a gente se p√īs a um canto a meditar o pa√≠s. Nunca o t√≠nhamos pensado, pens√°ramos apenas os que o governavam sem pensar. E de s√ļbito foi isto. Mas para se chegar ao pa√≠s tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Ser√° que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que n√£o. N√≥s √© que temos um estilo de ser med√≠ocres. N√£o √© quest√£o de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. N√£o √© quest√£o de se ser est√ļpido. Temos saber, temos intelig√™ncia. A quest√£o √© s√≥ a do equil√≠brio e harmonia, a quest√£o √© a do bom senso. H√° um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. H√° um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado √© o rid√≠culo, a f√≠fia, a ¬ęfuga do p√© para o chinelo¬Ľ. O Espanhol √© um ¬ęb√°rbaro¬Ľ, mas assume a barbaridade. N√≥s somos uns camp√≥nios com a obsess√£o de parecermos civilizados. O Franc√™s √© um ser artificioso,

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A Arte e a Vida

Todos nós sabemos, quando fazemos algo, o quanto deixámos de fora, o quão grandemente falhámos, e carregamos dentro de nós uma imagem da coisa perfeita que falhou na materialização, e isso nós encaramos como o poema, isso é o que pedimos que nos reconheçam. Isso é o nosso orgulho, o nosso ego, exigindo completo reconhecimento.

E √© dif√≠cil separar a obra de arte do homem ou da mulher que a produziu. Tendemos a confundir os dois. No fim de contas, suponho, a hist√≥ria da luta que o artista atravessou para dar √† luz a sua ideia √© t√£o patente, t√£o intensa, que mesmo que queiramos permanecer cr√≠ticos ‚ÄĒ √†s vezes ‚ÄĒ vemos que √© quase imposs√≠vel faz√™-lo. Mas s√≥ porque a arte n√£o √© vida, s√≥ porque a arte √© uma cria√ß√£o t√£o inextrincavelmente ligada √† vida, precisamos de fazer grandes esfor√ßos para isolar o elemento da arte em vez do elemento da vida. Por vezes, parece-me quase rid√≠culo dizermos que este homem √© mais humano do que aquele, que revela mais da vida, etc., no seu trabalho.

Como pode algu√©m realmente dizer isso… se levarmos isto ao limite? Porque o √ļltimo movimento da caneta √© revelador…

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O Que H√° de Mais Belo na Nossa Vida

O que h√° de mais belo na nossa vida √© o sentimento do mist√©rio. √Č este o sentimento fundamental que se det√©m junto ao ber√ßo da verdadeira arte e da ci√™ncia. Quem nunca o experimentou nem sabe j√° admirar-se ou espantar-se. Pode considerar-se como morto, sem luz, totalmente cego! A viv√™ncia do mist√©rio ‚ÄĒ embora com laivos de temor ‚ÄĒ criou tamb√©m a religi√£o. A consci√™ncia da exist√™ncia de tudo quanto para n√≥s √© impenetr√°vel, de tudo quanto √© manifesta√ß√£o da mais profunda raz√£o e da mais deslumbrante beleza e, que s√≥ √© acess√≠vel √† nossa raz√£o nas suas formas mais primitivas, essa consci√™ncia, esse sentimento, constituem a verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e em mais nenhum, perten√ßo √† classe dos homens profundamente religiosos. N√£o posso conceber um Deus que recompense e castigue os objectos da sua cria√ß√£o, ou que tenha vontade pr√≥pria, de puro arb√≠trio no g√©nero da que n√≥s sentimos dentro de n√≥s. Nem t√£o-pouco consigo imaginar um indiv√≠duo que sobreviva √† sua morte corporal; as almas fracas que alimentem tais pensamentos fazem-no por medo ou por ego√≠smo rid√≠culo. A mim basta-me o mist√©rio da eternidade da vida, a consci√™ncia e o pressentimento da admir√°vel elabora√ß√£o do ser, assim como o humilde esfor√ßo para compreender uma part√≠cula,

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N√£o Amar nem Odiar

Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
¬ęN√£o amar, nem odiar¬Ľ, eis uma senten√ßa que cont√©m a metade da prud√™ncia do mundo; ¬ęnada dizer e em nada acreditar¬Ľ cont√©m a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necess√°rias regras como estas e como as seguintes.
Mostrar c√≥lera e √≥dio nas palavras ou no semblante √© in√ļtil, perigoso, imprudente, rid√≠culo e comum. Nunca se deve revelar c√≥lera ou √≥dio a n√£o ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio s√£o venenosos.
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos.

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O Sal√£o Liter√°rio

N√£o tenho qualquer sal√£o liter√°rio. Essa √© uma das lendas que inventaram a meu respeito, n√£o sei porqu√™. As pessoas, aqui em Portugal, est√£o sedentas de acontecimentos. E, muito simplesmente, resolveram transformar num acontecimento uma coisa para a qual n√£o tenho a m√≠nima voca√ß√£o. N√£o tenho qualquer sal√£o liter√°rio, como n√£o teria paci√™ncia para o manter, como me parece que essa √© uma ideia cedi√ßa, bolorenta e rid√≠cula. N√£o conhe√ßo sal√Ķes liter√°rios na √©poca actual. A √ļnica coisa que me acontece – e acho que me pertence esse direito – √© receber alguns amigos que, frequentemente, v√™m a minha casa. Ora isto √© vulgar em todas as casas de Lisboa onde h√° interesses intelectuais, onde se discutem problemas de ordem liter√°ria ou n√£o.