Textos sobre Evolução

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Textos de evolução escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Instante Decisivo da Evolução Humana

O instante decisivo da evolução humana dura sempre. Eis porque os movimentos espirituais e revolucionários declaram nulo tudo o que os precede produzido outrora, fazem-no com razão porque ainda nada foi.

A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

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Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar √© preciso; viver n√£o √© preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
N√£o conto gozar a minha vida; nem em goz√°-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

√Č a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Ra√ßa.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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O Problema da Especialização

O dom√≠nio dos factos explic√°veis pela ci√™ncia alargou enormemente, e o conhecimento te√≥rico em todos os campos da ci√™ncia tem sido aprofundado, para al√©m do que podia esperar-se. A capacidade de compreens√£o humana, por√©m, √© e ser√° sempre muito limitada. Assim n√£o podia deixar de acontecer que a actividade do investigador individual tivesse que restringir-se a um sector, cada vez mais limitado, do conhecimento cient√≠fico geral. Mas o mais grave √© que esta especializa√ß√£o faz que a compreens√£o geral da ci√™ncia como um todo ‚ÄĒ sem a qual o verdadeiro investigador cristaliza for√ßosamente ‚ÄĒ tenha de marcar passo com a evolu√ß√£o, o que se torna cada vez mais dif√≠cil. Cria-se, assim, uma situa√ß√£o id√™ntica √†quela que, na B√≠blia, √© simbolicamente representada pela Hist√≥ria da torre de Babel. Todo o investigador honesto tem a dolorosa consci√™ncia dessa limita√ß√£o involunt√°ria a um c√≠rculo de compreens√£o cada vez mais apertado, que amea√ßa roubar as grandes perspectivas ao investigador e o reduz a simples obreiro.

Personalidade Limitada

H√° pessoas muito competentes no seu of√≠cio mas que nunca se adaptam a certos obst√°culos menores, como a nomes que desconhecem e saem do habitual. Tamb√©m nunca sabem usar uma chave de fendas e n√£o s√£o capazes de conhecer uma marca de carros pelas jantes, por exemplo. Cada indiv√≠duo tem um espa√ßo muito limitado de opera√ß√£o e o seu c√©rebro trabalha num pequeno circuito de observa√ß√Ķes; a sua evolu√ß√£o √© restrita ao que o rodeia e aos factos exteriores mais pr√≥ximos. A educa√ß√£o sem grandes exig√™ncias de comportamento social e intelectual, leva-os a formar uma personalidade mesquinha, √†s vezes ressentida e admiradora de extremos, como da lideran√ßa dum chefe.

A Verdadeira Religião é Individual e não Social

√Č poss√≠vel que a religi√£o da solid√£o seja de certa maneira superior √† religi√£o social e formalizada. O que √© certo √© que ela apareceu mais tarde no decurso da evolu√ß√£o. Al√©m disso, os fundadores das religi√Ķes e seitas hist√≥ricamente mais importantes t√™m sido todos, com excep√ß√£o de Conf√ļcio, solit√°rios. Talvez seja verdade dizer-se que, quanto mais poderosa e original for uma mente, mais ela se inclinar√° para a religi√£o da solid√£o, e menos ela ser√° atra√≠da no sentido da religi√£o social ou impressionada pelas suas pr√°ticas. Pela sua pr√≥pria superioridade a religi√£o da solid√£o est√° condenada a ser a religi√£o das minorias. Para a grande maioria dos homens e das mulheres a religi√£o ainda significa, o que sempre significou, religi√£o social formalizada, um assunto de rituais, observ√Ęncias mec√Ęnicas, emo√ß√£o das massas. Perguntem a qualquer dessas pessoas o que √© a verdadeira ess√™ncia da religi√£o, e eles responder√£o que ela consiste na devida observ√Ęncia de certas formalidades, na repeti√ß√£o de certas frases, na reuni√£o em certos tempos e em certos lugares, da realiza√ß√£o por meios apropriados de emo√ß√Ķes comunais.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Oportunidades s√£o Responsabilidades

As pessoas fogem às responsabilidades, e essa atitude é uma das causas de mal-estar. Pensam que as responsabilidades desaparecem por si se as ignorarem ou evitarem. A base da evolução e a realização é a responsabilidade. Responsabilidade é o preço a pagar pelo direito de fazermos as nossas próprias escolhas. Responsabilidade é apenas outra palavra para designar oportunidade. E tornamo-nos ricos ou pobres para sempre conforme aproveitarmos ou deixarmos fugir a oportunidade.

A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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O Progresso n√£o se Deve ao Instinto Pr√°tico

Precisamos de nos desfazer do actual preconceito que atribui o desenvolvimento da ci√™ncia moderna, vista a sua aplicabilidade, a um desejo pragm√°tico de melhorar as condi√ß√Ķes da vida humana na terra. A hist√≥ria mostra claramente que a moderna tecnologia resultou n√£o da evolu√ß√£o daquelas ferramentas que o homem sempre havia inventado para atenuar o labor e de erigir o artif√≠cio humano, mas exclusivamente da busca de conhecimento in√ļtil, inteiramente desprovido de senso pr√°tico.
Assim, o rel√≥gio, um dos primeiros instrumentos modernos n√£o foi inventado para os fins da vida pr√°tica, mas exclusivamente para a finalidade altamente ¬ęte√≥rica¬Ľ de realizar certas experi√™ncias com a natureza. √Č certo que esta interven√ß√£o, logo que a sua utilidade pr√°tica foi percebida, mudou o ritmo e a pr√≥pria fisionomia da vida humana; mas isto, do ponto de vista dos inventores, foi um mero acidente.
Se tiv√©ssemos de confiar apenas nos chamados instintos pr√°ticos do homem, jamais teria havido qualquer tecnologia digna de nota; e, embora as inven√ß√Ķes t√©cnicas hoje existentes tragam em si um dado impulso que, provavelmente, gerar√° melhoras at√© um certo ponto, √© pouco prov√°vel que o nosso mundo condicionado √† t√©cnica pudesse sobreviver, e muito menos continuar a desenvolver-se, se consegu√≠ssemos convencer-nos de que o homem √©,

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A Evolução da Criatividade

A experi√™ncia humana √© apenas ponto de partida, n√ļcleo s√≥lido e permanente onde assenta a experi√™ncia posterior da cria√ß√£o. Considero a cria√ß√£o o encaminhamento, at√© √†s consequ√™ncias extremas, de uma experi√™ncia em si mesma n√£o organizada. A descoberta do mundo n√£o possui, por ela pr√≥pria, finalidade ou coer√™ncia, nem constitui a salva√ß√£o desse mundo. Desde que seja poss√≠vel criar um corpo org√Ęnico em que a experi√™ncia, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experi√™ncia, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esfor√ßo da supera√ß√£o do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. √ą ali√°s na linguagem que a experi√™ncia se vai tornando real. Se nela n√£o h√°, em sentido rigoroso, experi√™ncia do mundo. A esta conclus√£o vem chegando uma moderna filosofia da arte. A forma√ß√£o da linguagem √© um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau m√°ximo e um grau m√≠nimo de erro, situa-se a evolu√ß√£o. Progresso de linguagem, de adequa√ß√£o √†s finalidades, supera√ß√£o da experi√™ncia, purifica√ß√£o do tema ‚Äď eis onde se pode situar o sentido da evolu√ß√£o.

A Import√Ęncia da Mulher no Progresso da Civiliza√ß√£o

Se na hist√≥ria n√£o procurarmos s√≥ uma data ou um facto descarnado, mas tentarmos nela descobrir alguma coisa mais, um princ√≠pio harm√≥nico e as leis que governam esses factos, ainda nas suas menores evolu√ß√Ķes, veremos que a hist√≥ria da civiliza√ß√£o da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civiliza√ß√£o e da moralidade dos povos: veremos que aonde a sua condi√ß√£o se amesquinha, onde desce em dignidade, onde a mulher em vez do triplo e sagrado car√°cter de amante, esposa e m√£e passa a ser escrava sem liberdade nem vontade, s√≥ destinada a saciar as paix√Ķes brutais dum senhor devasso, a√≠ tamb√©m veremos descer o n√≠vel da civiliza√ß√£o e moralidade: √† do√ßura dos costumes suceder a fereza e a brutalidade; e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, s√≥ apareceram a paix√£o instintiva e brutal, necessidade puramente f√≠sica do animal que obedece √† lei da reprodu√ß√£o, √† devassid√£o e √† poligamia!

O Orgulho e a Vaidade

O orgulho √© a consci√™ncia (certa ou errada) do nosso pr√≥prio m√©rito, a vaidade, a consci√™ncia (certa ou errada) da evid√™ncia do nosso pr√≥prio m√©rito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser ‚ÄĒ pois tal √© a natureza humana ‚ÄĒ vaidoso sem ser orgulhoso. √Č dif√≠cil √† primeira vista compreender como podemos ter consci√™ncia da evid√™ncia do nosso m√©rito para os outros, sem a consci√™ncia do nosso pr√≥prio m√©rito. Se a natureza humana fosse racional, n√£o haveria explica√ß√£o alguma. Contudo, o homem vive a princ√≠pio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a no√ß√£o de efeito precede, na evolu√ß√£o da mente, a no√ß√£o de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que n√£o √©, a ser tido em menor conta por aquilo que √©. √Č a vaidade em ac√ß√£o.

A Consciência

A consci√™ncia √© a √ļltima fase da evolu√ß√£o do sistema org√Ęnico, por consequ√™ncia tamb√©m aquilo que h√° de menos acabado e de menos forte neste sistema. √Č do consciente que prov√©m uma multid√£o de enganos que fazem com que um animal, um homem, pere√ßam mais cedo do que seria necess√°rio, ¬ęa despeito do destino¬Ľ, como dizia Homero.
Se o la√ßo dos instintos, este la√ßo conservador, n√£o fosse de tal modo mais poderoso do que a consci√™ncia, se n√£o desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos seus ju√≠zos absurdos, das suas divaga√ß√Ķes, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, h√° muito tempo que teria deixado de existir sem ele!
Enquanto uma fun√ß√£o n√£o est√° madura enquanto n√£o atingiu o seu desenvolvimento perfeito, √© perigosa para o organismo: √© uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consci√™ncia √©-o severamente, e n√£o √© ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que este orgulho forma o n√ļcleo do ser humano; que √© o seu elemento duradoiro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente √© uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermit√™ncias! √Č considerado como ¬ęa unidade do organismo¬Ľ!

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Símios Aperfeiçoados

√Č preciso viver em estado de preven√ß√£o. N√£o ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro econ√≥mico ou numa col√≥nia balnear, resistir √†s press√Ķes pol√≠ticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condi√ß√£o do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. √Č fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, √© humano que isso se fa√ßa, no entanto tamb√©m √© humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condi√ß√£o mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assist√™ncia m√©dica, televis√£o e funeral pago. Essa massa vai criar um novo esp√≠rito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa est√° feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de popula√ß√Ķes standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir √© apenas tactual, sem nada de sublima√ß√£o em momentos mais √≠ntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons,

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O Valor Natural do Egoísmo

O ego√≠smo vale o que valer fisiologicamente quem o pratica: pode ser muito valioso, e pode carecer de valor e ser desprez√≠vel. E l√≠cito submeter a exame todo o indiv√≠duo para se determinar se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Quando se conclui a aprecia√ß√£o sobre este ponto possui-se tamb√©m um c√Ęnone para medir o valor que tem o seu ego√≠smo. Se se encontra na linha ascendente, ent√£o o valor do seu ego√≠smo √© efectivamente extraordin√°rio, ‚ÄĒ e por amor √† vida no seu conjunto, que com ele progride, √© l√≠cito que seja mesmo levada ao extremo a preocupa√ß√£o por conservar, por criar o seu optimum de condi√ß√Ķes vitais. O homem isolado, o ¬ęindiv√≠duo¬Ľ, tal como o conceberam at√© hoje o povo e o fil√≥sofo, √©, com efeito, um erro: nenhuma coisa existe por si, n√£o √© um √°tomo, um ¬ęelo da cadeia¬Ľ, n√£o √© algo simplesmente herdado do passado, ‚ÄĒ √© sim a inteira e √ļnica linhagem do homem at√© chegar a ele mesmo… Se representa a evolu√ß√£o descendente, a decad√™ncia, a degenera√ß√£o cr√≥nica, a doen√ßa (‚ÄĒ as doen√ßas s√£o j√°, de um modo geral, sintoma da decad√™ncia, n√£o causas desta), ent√£o o seu valor √© fraco,

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O Progresso Contínuo do Passado

N√£o existe […] mat√©ria mais resistente nem mais substancial (o tempo). Porque a nossa dura√ß√£o n√£o √© apenas um instante a seguir ao outro; se fosse, nunca haveria mais nada al√©m do presente – nenhum prolongamento do passado na actualidade, nenhuma evolu√ß√£o, nenhuma dura√ß√£o concreta. A dura√ß√£o √© o progresso cont√≠nuo do passado que morde o futuro e vai inchando √† medida que avan√ßa. E, como o passado cresce sem parar, n√£o h√° nenhum limite √† sua preserva√ß√£o. A mem√≥ria […] n√£o √© uma faculdade de arrumar recorda√ß√Ķes numa gaveta, ou de inscrev√™-las num registo […] Na realidade, o passado preserva-se a si mesmo, automaticamente. Provavelmente acompanha-nos na sua totalidade a cada instante […]

A √önica Realidade Social (1)

A √ļnica realidade social √© um indiv√≠duo, por isso mesmo que ele √© a √ļnica realidade. O conceito de sociedade √© um puro conceito; o de humanidade uma simples ideia. S√≥ o indiv√≠duo vive, s√≥ o indiv√≠duo pensa e sente. S√≥ por met√°fora ou em linguagem translata se pode aludir ao pensamento ou ao sentimento de uma colectividade. Dizer que Portugal pensa, ou que a humanidade sente √© t√£o razo√°vel como dizer que Portugal se penteia ou que a humanidade se assoa.
(…) Sendo o indiv√≠duo a √ļnica realidade social, √© o ego√≠smo a √ļnica qualidade real, embora, por disfarces v√°rios e art√≠ficios diversos se constru√≠ssem, no decurso da evolu√ß√£o social (n√£o digo do progresso, porque n√£o sei – nem ningu√©m sabe – se existe progresso) sentimentos altru√≠stas, afinamentos dos instintos.
Para que o indivíduo possa ter uma vida social que lhe seja um elemento de desenvolvimento, ou, em outras palavras, para que a sociedade seja um ambiente favorável ao desenvolvimento do indivíduo, é forçoso que se faça assentar essa sociedade num conceito egoísta.
Assim se formam naturalmente na√ß√Ķes. A na√ß√£o √© o segundo elemento social prim√°rio. Os homens n√£o se agrupam fraternitariamente sen√£o por oposi√ß√£o. Sempre nos unimos para nos opormos.

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