Textos sobre Crises

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Textos de crises escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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O Egoísmo do Homem das Cidades

A mis√©ria parece uma secre√ß√£o do progresso, da civiliza√ß√£o. N√£o √© nos campos (at√© em plena crise), onde a vida √© simples e sem ambi√ß√Ķes, que a mis√©ria se torna aflitiva, dram√°tica. A sua trag√©dia sem rem√©dio desenvolve-se antes nas cidades, nas grandes capitais, tanto mais insens√≠veis e duras quanto mais civilizadas. A mecaniza√ß√£o, o automatismo do progresso que transforma os homens em m√°quinas, isolam-no brutalmente substituindo os seus gestos e impulsos afectivos por complicadas e frias engrenagens. O homem das cidades, modelado, esculpido na pr√≥pria luta com os outros que lhe disputam o seu lugar ao sol, √© talvez, sem reparar, a encarna√ß√£o do pr√≥prio ego√≠smo.

A Capacidade de Adaptação dos Portugueses

Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista √† crise pol√≠tica e econ√≥mica com tal poder de adapta√ß√£o. H√° nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito √© o que eu situo – dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condi√ß√£o de afecto pelas coisas, pelos seus pr√≥prios delitos, que n√£o consideram dram√°ticos, s√≥ ao jeito das necessidades. De resto ‚ÄĒ quem se apresenta a salvar-nos que n√£o esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo pr√≥prios. O pa√≠s n√£o precisa de quem diga o que est√° errado; precisa de quem saiba o que est√° certo.

A Liberdade não Existe sem Coerção

Que n√£o haja oposi√ß√£o entre a coer√ß√£o e a liberdade; que, ao contr√°rio, elas se auxiliem – toda a liberdade exerce-se para contornar ou superar uma coer√ß√£o, e toda a coer√ß√£o apresenta fissuras ou pontos de menor resist√™ncia que s√£o incita√ß√Ķes √† cria√ß√£o -, nada, sem d√ļvida, consegue dissipar melhor a ilus√£o contempor√Ęnea de que a liberdade n√£o suporta entraves e de que a educa√ß√£o, a vida social, a arte requerem para desabrochar um acto de f√© na omnipot√™ncia da espontaneidade: ilus√£o que certamente n√£o √© a causa, mas na qual √© poss√≠vel ver um aspecto significativo da crise que o Ocidente atravessa hoje.

Amar até Sempre

A Maria Jo√£o e eu vivemos juntos, todos os dias, a n√£o ser os poucos (mais do que quarenta) em que os hospitais nos desinstalaram, desde o primeiro dia de Janeiro do ano 2000.
Mas, mesmo que conte só a data do casamento Рno dia 30 deste mês, uma sexta-feira, alcançaremos 11 anos de casamento Рacho que prescindimos alegremente de qualquer crise. O meu amor por ela é cada vez maior. O amor dela por mim, de tanto ser amada, começa a ser uma possibilidade. Foram só menos de quatro mil dias Рuma pequena parte das nossas vidas Рmas foram quatro mil dias de amor, felicidade ou medo de não ser amado, mais a sorte de ter sido. Uma eternidade.
Assim aconselho os amantes e os apaixonados: a primeira coisa a reter, sejam quais forem as primeiras e segundas reac√ß√Ķes das pessoas amadas, √© que se est√° a espalhar e visitar uma sorte amorosa sobre elas. N√£o √© uma quest√£o de amor. √Č uma quest√£o de tempo. Esperar e n√£o reparar √© fundamental. Para quem ama, amanh√£, por muito improv√°vel que seja, √© melhor do que ontem. Mas hoje pode ser, quando se tem sorte,

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O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. N√£o te iludas: n√£o estou ainda bastante fraco para ceder √†s imagina√ß√Ķes do medo, quase t√£o absurdas como as da esperan√ßa e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confian√ßa; n√£o perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim t√£o pr√≥ximo n√£o √© necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperan√ßa de chegar √† manh√£ seguinte. Adentro dos limites intranspon√≠veis de que te falei h√° pouco, posso defender a minha posi√ß√£o passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. N√£o deixo por isso de ter chegado √† idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias est√£o contados n√£o significa nada; sempre assim foi; √© assim para todos n√≥s. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avan√ßamos sem cessar, diminui para mim √† medida que a minha doen√ßa mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos j√° n√£o ser√° vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos,

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A Europa é um Comboio Disparado e sem Freios

Foi a falta de solidariedade que fez na Europa 18 milh√Ķes de desempregados, ou s√£o eles t√£o-somente o efeito mais vis√≠vel da crise de um sistema para o qual as pessoas n√£o passam de produtores a todo o momento dispens√°veis e de consumidores obrigados a consumir mais do que necessitam? A Europa, estimulada a viver na irresponsabilidade, √© um comboio disparado, sem freios, onde uns passageiros se divertem e os restantes sonham com isso.

Ser Feliz

Ser feliz √© reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreens√Ķes e per√≠odos de crise. Ser feliz n√£o √© uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu pr√≥prio ser.

Ser feliz √© deixar de ser v√≠tima dos problemas e tornar-se autor da sua pr√≥pria hist√≥ria. √Č atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um o√°sis no rec√īndito da sua alma. √Č agradecer a Deus em cada manh√£ pelo milagre da vida.

Ser feliz √© n√£o ter medo dos pr√≥prios sentimentos. √Č saber falar de si mesmo. E ter a coragem de ouvir um ¬ęn√£o¬Ľ. √Č ter seguran√ßa para receber uma cr√≠tica, mesmo que injusta. √Č beijar os filhos, ter prazer com os pais e ter momentos po√©ticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.

Ser feliz √© deixar viver a crian√ßa livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de n√≥s. √Č ter maturidade para dizer ¬ęeu errei¬Ľ. √Č ter ousadia para dizer ¬ęperdoa-me¬Ľ. √Č ter sensibilidade para expressar ¬ęeu preciso de ti¬Ľ. E ter capacidade de dizer ¬ęeu amo-te¬Ľ.

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades que lhe permita ser feliz…

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Saber Zangar-se

O que me parece √© que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado ‚Äď e, pior ainda, deixaram de saber diz√™-lo na cara umas das outras. A n√£o ser, naturalmente, que haja uma agenda.

Ainda nos zangamos muito, √© verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como ¬ęo Governo¬Ľ, ¬ęo capitalismo selvagem¬Ľ ou mesmo apenas ¬ęa crise¬Ľ. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos ¬ęsuperiores¬Ľ acabam de p√īr-nos a pata em cima. algu√©m vai ter de pagar a conta). Com aqueles que est√£o, de alguma forma, em ascendente sobre n√≥s, j√° n√£o nos zangamos: amuamos, que √© a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente n√£o dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado est√°, afinal, um pobre diabo, t√£o pobre que nem sequer merece uma zanga ‚Äď e, quando enfim nos zangamos, √© para dar-lhe um tiro na cabe√ßa, como todos os dias nos mostram os jornais.

A impress√£o com que eu fico √© que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chav√Ķes moderninhos que os gurus dos livros de Economia nos enfiaram pela garganta abaixo,

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O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de ang√ļstia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, √© a desconfian√ßa. O povo, simples e bom, n√£o confia nos homens que hoje t√£o espectaculosamente est√£o meneando a p√ļrpura de ministros; os ministros n√£o confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores n√£o confiam nos seus mandat√°rios, porque lhes bradam em v√£o: ¬ęSede honrados¬Ľ, e v√™em-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposi√ß√£o n√£o confiam uns nos outros e v√£o para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de amea√ßa. Esta desconfian√ßa perp√©tua leva √† confus√£o e √† indiferen√ßa. O estado de expectativa e de demora cansa os esp√≠ritos. N√£o se pressentem solu√ß√Ķes nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discuss√Ķes aparatosas e sonoras; o pa√≠s, vendo os mesmos homens pisarem o solo pol√≠tico, os mesmos amea√ßos de fisco, a mesma gradativa decad√™ncia. A pol√≠tica, sem actos, sem factos, sem resultados, √© est√©ril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discuss√Ķes, as an√°lises reflectidas, as lentas cogita√ß√Ķes, o povo n√£o tem garantias de melhoramento nem o pa√≠s esperan√ßas de salva√ß√£o.

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A Democracia Política Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direcção

Os defeitos da democracia pol√≠tica como sistema de governo s√£o t√£o √≥bvios, e t√™m sido tantas vezes catalogados, que n√£o preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia pol√≠tica foi criticada porque conduz √† inefici√™ncia e fraqueza de direc√ß√£o, porque permite aos homens menos desej√°veis obter o poder, porque fomenta a corrup√ß√£o. A inefici√™ncia e fraqueza da democracia pol√≠tica tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando √© preciso tomar e cumprir decis√Ķes rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milh√Ķes de eleitores em poucas horas √© uma impossibilidade f√≠sica. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decis√£o aos eleitores – em cujo caso todo o princ√≠pio da democracia pol√≠tica ter√° sido tratado com o desprezo que em circunst√Ęncias cr√≠ticas ela merece; ou ent√£o o povo √© consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequ√™ncias fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia pol√≠tica foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.

Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

Humanismo e Liberalismo

O termo humanismo √© infelizmente uma palavra que serve para designar as correntes filos√≥ficas, n√£o somente em dois sentidos, mas em tr√™s, quatro, cinco ou seis. Toda a gente √© humanista na hora que passa, at√© mesmo certos marxistas que se descobrem racionalistas cl√°ssicos, s√£o humanistas num enfadonho sentido, derivado das ideias liberais do √ļltimo s√©culo, o dum liberalismo refractado atrav√©s de toda a crise actual. Se os marxistas podem pretender ser humanistas, as diferentes religi√Ķes, os crist√£os, os hindus, e muitos outros afirmam-se tamb√©m antes de mais humanistas, como por sua vez o existencialista, e de um modo geral, todas as filosofias. Actualmente muitas correntes pol√≠ticas se reivindicam igualmente um humanismo. Tudo isso converge para uma esp√©cie de tentativa de restabelecimento duma filosofia que, apesar da sua pretens√£o, recusa no fundo comprometer-se, e recusa comprometer-se, n√£o somente no ponto de vista pol√≠tico e social, mas tamb√©m num sentido filos√≥fico profundo.

Se o cristianismo se pretende antes de tudo humanista, √© porque ele n√£o pode comprometer-se, quer dizer participar na luta das for√ßas progressivas, porque se mant√©m em posi√ß√Ķes reaccion√°rias frente a esta revolu√ß√£o. Quando os pseudomarxistas ou os liberais se reclamam da pessoa antes do mais, √© porque eles recuam diante das exig√™ncias da situa√ß√£o presente no mundo.

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Encaminhamo-nos para uma Grave Crise

A situa√ß√£o econ√≥mica tem-se agravado e tender√° a agravar-se. Tendo causas estruturais, as dificuldades da economia n√£o podem ser vencidas por medidas atrav√©s das quais o governo procura fazer face aos mais agudos problemas de conjuntura. O afrouxamento do ritmo de desenvolvimento, a baixa da produ√ß√£o agr√≠cola, os d√©fices sempre crescentes, do com√©rcio externo, a inflac√ß√£o, a acentua√ß√£o do atraso relativo da economia portuguesa em rela√ß√£o √†s economias dos outros pa√≠ses europeus, mostram a incapacidade do regime para promover o aproveitamento dos recursos nacionais, o fracasso da ¬ęreconvers√£o agr√≠cola¬Ľ e a asfixia da economia portuguesa pela domina√ß√£o monopolista, pelas limita√ß√Ķes do mercado interno provocadas pela pol√≠tica de explora√ß√£o e mis√©ria das massas e pela subjuga√ß√£o ao imperialismo estrangeiro. (…) O processo de integra√ß√£o europeia, dado o atraso da economia portuguesa, agravar√° a situa√ß√£o.

Os monop√≥lios dominantes e o seu governo procuram sair das contradi√ß√Ķes e dificuldades, assegurar altos lucros, apressar a acumula√ß√£o, conseguir uma capacidade competitiva no mercado internacional: 1) intensificando ainda mais a explora√ß√£o da classe oper√°ria e das massas trabalhadoras; 2) aumentando os impostos; 3) dando curso √† subida dos pre√ßos; 4) apressando a centraliza√ß√£o e a concentra√ß√£o; 5) pondo de forma crescente os recursos do Estado ao servi√ßo dos monop√≥lios;

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Fartos da Demagogia e do Sectarismo

E os Portugueses? Fartos dos malabarismos que os partidos do poder fizeram para a ele se manterem agarrados, fartos da demagogia e do sectarismo, correspondem a esta crise pol√≠tica com uma atitude de profunda indiferen√ßa, que √© altamente preocupante em democracia. (…) Face a esta crise nacional, face a um pa√≠s angustiado, desagregado e √† deriva, em que se fracionaram os sentidos de solidariedade e de interesse nacional para serem substitu√≠dos por uma pol√≠tica do salve-se quem puder, o Povo Portugu√™s esperava que este debate lhe trouxesse finalmente uma esperan√ßa nova de ver os partidos discutirem aqui os verdadeiros problemas nacionais, de ver os partidos reconsiderarem aqui as suas posi√ß√Ķes, reconhecerem os seus erros, disporem-se a encetar vida nova.

A Crise da Democracia

√Č natural que a crise da democracia, imposs√≠vel de negar, se revele sob o aspecto de sucessivas crises pol√≠ticas. Mas para qu√™ jogar com as palavras? Quando a m√°quina se desarranja, frequentemente, por melhor eco e por mais vistosas engrenagens que possua, torna-se urgente p√ī-la de lado como in√ļtil, aproveitando-lhe, √© claro, as inova√ß√Ķes, tudo o que for suscept√≠vel de aplicar a outra m√°quina…
(…) N√£o √© poss√≠vel negar certas verdades e conquistas da democracia que s√£o hoje indispens√°veis √† vida de todos os regimes. Mas os sistemas propriamente ditos, na sua inteireza, nascem, vivem e morrem como os homens. As escolas pol√≠ticas e sociais s√£o como as escolas liter√°rias. Esgotada a sua capacidade criadora, a sua flama, perdem a for√ßa, extinguem-se, depois de terem deixado a sua marca, o tra√ßo profundo da sua influ√™ncia. Os pr√≥prios defensores da democracia procuram transigir com o esp√≠rito do seu tempo, confessando e admitindo a necessidade de modificar o sistema das suas ideias, de renovar os √≥rg√£os da democracia. Mas que prop√Ķem eles, afinal, para que se efective essa renova√ß√£o? Medidas rid√≠culas que n√£o se adaptam ao pr√≥prio sistema: ligeiras altera√ß√Ķes no regulamento interno das C√Ęmaras, limita√ß√Ķes no tempo dos discursos, restri√ß√Ķes no uso da palavra,

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O Declínio da Natalidade

A mudan√ßa de rela√ß√Ķes entre pais e filhos √© um exemplo t√≠pico da expans√£o geral da democracia. Os pais j√° n√£o est√£o muito seguros dos seus direitos sobre os filhos, os filhos j√° n√£o sentem que devem respeito aos pais. A virtude da obedi√™ncia, que era outrora exigida sem discuss√£o, passou de moda e com certa raz√£o.
A psican√°lise aterrorizou os pais cultos com o medo de causarem, sem querer, mal aos filhos. Se os beijam, podem provocar o complexo de √Čdipo; se n√£o os beijam, podem provocar crises de ci√ļmes. Se os repreeendem em qualquer coisa, podem fazer nascer neles o sentimento do pecado; se n√£o o fazem, os filhos adquirem h√°bitos que os pais consideram indesej√°veis. Quando v√™em as crian√ßas a chupar no polegar, tiram disso toda a esp√©cie de conclus√Ķes terr√≠veis, mas n√£o sabem o que fazer para o evitar. O uso dos direitos dos pais que era antigamente uma manifesta√ß√£o triunfante da autoridade, tornou-se t√≠mido, receoso e cheio de escr√ļpulos.

Perderam-se as antigas alegrias simples e isto é tanto mais grave quanto é certo que, devido à nova liberdade das mulheres solteiras, a mãe tem de fazer muito mais sacrifícios do que antigamente ao optar pela maternidade.

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Portugal Est√° a Atravessar a Pior Crise

Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: Рmas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não Рpelo menos o Estado não tem: Рe homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior Рe sem cura.