Textos sobre Batalha

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Textos de batalha escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Import√Ęncia de uma Resolu√ß√£o Forte

Uma resolução forte muda no mesmo instante a maior infelicidade num estado suportável. À tarde, depois de uma batalha perdida, um homem foge a toda a velocidade, num cavalo meio-morto; ouve distintamente o galope do grupo de cavaleiros, volta a carregar a carabina e as pistolas, e toma a resolução de se defender. No mesmo instante, em vez de ver a morte, vê a cruz da legião de Honra.

Emoção e Poesia

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem qu√£o mais f√°cil √© escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual est√° profundamente apaixonado. A melhor esp√©cie de poema de amor √©, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. Uma grande emo√ß√£o √© por demais ego√≠sta; absorve em si pr√≥pria todo o sangue do esp√≠rito, e a congest√£o deixa as m√£os demasiado frias para escrever. Tr√™s esp√©cies de emo√ß√Ķes produzem grande poesia – emo√ß√Ķes fortes, por√©m r√°pidas, captadas para a arte t√£o logo passaram; emo√ß√Ķes fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emo√ß√Ķes falsas, isto √©, emo√ß√Ķes sentidas no intelecto. N√£o a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, √© a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja Рnão pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor,

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Os Malefícios da Rivalidade na Escola

Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros n√£o aparecem como colaboradores, mas como inimigos, n√£o pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma vis√£o mais ampla do mundo; esfor√ßo de vencer, temor de ser vencido; √© j√° todo o temperamento de ¬ęstruggle¬Ľ que se afina na escola e lan√ßar√° amanh√£ sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem n√£o sabe combater ou n√£o tem interesse pela luta ficar√° para tr√°s, entre os piores; e √© certamente esta predomin√Ęncia dada ao esp√≠rito de batalha um dos grandes malef√≠cios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos;

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A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

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A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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Civilização de Especialistas

A verdade √© que hoje vivemos numa civiliza√ß√£o de especialistas e que √© v√£o todo o empenho de que seja de outro modo. Sob pena de n√£o ser eficiente, o homem das artes, das ci√™ncias e das t√©cnicas tem de se especializar, para que domine aqueles segredos de bibliografia ou de pr√°tica, e para que obtenha os jeitos e a forte concentra√ß√£o de pensamento que se tornam necess√°rios para que se possa n√£o s√≥ manejar o que se herdou mas acrescentar patrim√≥nio para as gera√ß√Ķes futuras. E, se √© certo que por um lado o especialismo favorece aquela pregui√ßa de ser homem que tanto encontramos no mundo, permite ele, por outro lado, aproveitar em tarefas √ļteis indiv√≠duos que pouco brilhantes seriam no tratamento de conjuntos. O pre√ßo, por√©m, se tem naturalmente de pagar; paga-o o colectivo quando se queixa, e muito justamente, da falta de bons l√≠deres, de homens com uma larga vis√£o de conjunto, que saibam do trabalho de cada um o suficiente para o poderem dirigir e se tenham eles tornado especialistas na dif√≠cil arte de n√£o ter especialidade pr√≥pria sen√£o essa mesma do plano, da previs√£o e do animar na batalha as tropas que, na maior parte das vezes,

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A Breve Passagem na Vida

Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada.
Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão. Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro.

Sucesso sem Riqueza

Muita gente confunde sucesso com amealhar dinheiro. Embora o sucesso acabe por levar √† riqueza, √© muito mais que isso. √Č uma atitude mental e espiritual – um estado de consci√™ncia – de que o dinheiro √© um sub-produto acidental. Sucesso √© um modo de viver. Estamos neste mundo para ter sucesso como seres humanos. Uma pessoa bem sucedida tem paz de esp√≠rito, est√° satisfeita com os talentos que Deus lhe deu, e sente-se feliz em us√°-los e aplic√°-los para seu benef√≠cio. A procura de uma vida melhor, e a realiza√ß√£o de um objectivo digno, √© a mais satisfat√≥ria das actividades humanas.
(…) Uma vida bem sucedida n√£o √© f√°cil. √Č constru√≠da sobre qualidades fortes – sacrif√≠cio, dilig√™ncia, lealdade e integridade. A corrida nem sempre √© ganha pelo mais r√°pido nem a batalha pelo mais forte; a vit√≥ria vai muitas vezes para o mais temer√°rio e o mais persistente. O maior obst√°culo no caminho do sucesso n√£o √© a falta de intelig√™ncia, de car√°cter ou de for√ßa de vontade. √Č a incapacidade para levar o trabalho at√© ao fim.

A Certeza na Vitória

Ningu√©m pode ir para a batalha a menos que esteja plenamente convencido da vit√≥ria em antem√£o. Se come√ßarmos sem confian√ßa, j√° perdemos metade da batalha e enterramos os nossos talentos. Enquanto dolorosamente conscientes das nossas pr√≥prias fraquezas, temos que marchar sem ceder, tendo em mente o que o Senhor disse a S√£o Paulo: ¬ęA minha gra√ßa te basta, porque o poder se aperfei√ßoa na fraqueza¬Ľ (2 Cor 12: 9). O triunfo crist√£o √© sempre uma cruz, mas uma cruz que √© ao mesmo tempo uma bandeira vitoriosa suportada com ternura agressiva contra os assaltos do mal. O esp√≠rito maligno de derrotismo √© irm√£o da tenta√ß√£o de se separar, antes do tempo, o trigo do joio; √© o fruto de uma ansiosa e auto-centrada falta de confian√ßa.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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Regras Gerais da Arte da Guerra

Estou consciente de vos ter falado de muitas coisas que por vós mesmos haveis podido aprender e ponderar. Não obstante, fi-lo, como ainda hoje vos disse, para melhor vos poder mostrar, através delas, os aspectos formais desta matéria,e, ainda, para satisfazer aqueles Рse fosse esse o caso Рque não tivessem tido, como vós, a oportunidade de sobre elas tomar conhecimento. Parece-me que, agora, já só me resta falar-vos de algumas regras gerais, com as quais deveis estar perfeitamente identificados. São as seguintes:
– Tudo o que √© √ļtil ao inimigo √© prejudicial para ti, e, tudo o que te √© √ļtil prejudica o inimigo.
– Aquele que, na guerra, for mais vigilante a observar as inten√ß√Ķes do inimigo e mais empenho puser na prepara√ß√£o do seu ex√©rcito, menos perigos correr√° e mais poder√° aspirar √† vit√≥ria.
– Nunca leves os teus soldados para o campo de batalha sem, previamente, estares seguro do seu √Ęnimo e sem teres a certeza de que n√£o t√™m medo e est√£o disciplinados e convictos de que v√£o vencer.
– √Č prefer√≠vel vencer o inimigo pela fome do que pelas armas. A vit√≥ria pelas armas depende muito mais da fortuna do que da virtude.

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O Ideal Quimérico

Tenho grandes suspeitas e muitas reservas maldosas em relação ao que se chama ideal. O meu pessimismo está em ter reconhecido que os grandes sentimentos são uma fonte de infelicidades; ou seja, de estiolamento, de desvalorização do Homem. Sempre que esperamos dum ideal algum progresso, entramos na ilusão: a vitória do ideal tem sofrido, até hoje, um movimento retrógrado.
Cristianismo, revolu√ß√£o, aboli√ß√£o da escravatura, igualdade de direitos, filantropia, amor ao inimigo, justi√ßa, verdade… Tudo grandes palavras, que s√≥ t√™m valor nas batalhas ou nas bandeiras: n√£o como realidades, mas como f√≥rmulas aparatosas, que exprimem o contr√°rio do que dizem.
Afinal, o nosso idealismo quim√©rico faz tamb√©m parte da exist√™ncia, e tamb√©m deve manifestar-se no car√°cter da exist√™ncia; n√£o sendo a fonte da exist√™ncia, nem por isso deixa de estar presente nela. Tanto os nossos pensamentos mais elevados como os mais temer√°rios s√£o fragmentos caracter√≠sticos da realidade. Porque, o nosso pensamento √© feito de caracter√≠sticas da realidade; o nosso pensamento √© feito da mesma subst√Ęncia de todas as coisas.

Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspira√ß√£o, sombra chinesa da sua √Ęnsia in√ļtil, segue, revoltado e ign√≥bil, servo das mesmas leis qu√≠micas, no rodar imperturb√°vel da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperan√ßa, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilus√Ķes da realidade e a realidade das suas ilus√Ķes. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si mem√≥rias de batalhas, versos, est√°tuas e edif√≠cios. A Terra esfriar√° sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascen√ßa, o soI um dia, se alumiou, deixar√° de alumiar; se deu vida, dar√° a si a morte. Outros sistemas de astros e de sat√©lites dar√£o porventura novas humanidades; outras esp√©cies de eternidades fingidas alimentar√£o almas de outra esp√©cie; outras cren√ßas passar√£o em corredores long√≠nquos da realidade m√ļltipla. Cristos outros subir√£o em v√£o a novas cruzes. Novas seitas secretas ter√£o na m√£o os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia ser√° outra, e essa Cabala diferente. S√≥ uma obedi√™ncia passiva, sem revoltas nem sorrisos, t√£o escrava como a revolta, √© o sistema espiritual adequado √† exterioridade absoluta da nossa vida serva.

√Ālvaro de

Realização e Êxtase

Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do √™xtase, por√©m, n√£o alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos n√£o pertence √† categoria do amor que mais nos interessa ‚ÄĒ o que eleva o amado acima de si pr√≥prio, o que se esfor√ßa por esculpir uma alma com entusiasmo e paci√™ncia; √© um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; n√£o marca as del√≠cias do caminho dif√≠cil, apaga-as da mem√≥ria; faz desaparecer do peito do homem o seu √ļnico motivo de alegria, a sua √ļnica fonte de verdadeira gl√≥ria.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha,

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O Homem Superior

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma cousa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.
Tr√™s cousas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silencio a sua superioridade ‚ÄĒ o ridiculo, o trabalho e a dedica√ß√£o.
Como n√£o se dedica a ningu√©m, tamb√©m nada exige da dedica√ß√£o alheia. S√≥brio, casto, frugal, tocando o menos poss√≠vel na vida, tanto para n√£o se incomodar como para n√£o approximar as cousas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveni√™ncia do orgulho e da desillus√£o. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente √© submeter-se ‚ÄĒ submeter-se √† ac√ß√£o da cousa sentida.
Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman ol√≠mpico, Proteu da compreens√£o, sem partilhar de viv√™-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios ‚ÄĒ e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque n√£o embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensa√ß√Ķes de todas as horas da sua vida.

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A Interpretação das Nossas Capacidades

N√£o sabemos distinguir as faculdades dos homens; t√™m eles divis√≥rias e fronteiras subtis e dif√≠ceis de discernir. Concluir da compet√™ncia na vida privada uma qualquer compet√™ncia para os cargos p√ļblicos, √© mal concluir: h√° quem se governe bem e n√£o governe bem os outros e quem fa√ßa Ensaios sem ser capaz de realizar feitos; quem organize bem um cerco e mal uma batalha e quem fale bem em privado e n√£o o consiga fazer em p√ļblico ou diante de um princ√≠pe. E talvez mesmo o ser algu√©m capaz numa das coisas mais que o contr√°rio indicie que n√£o o √© na outra. Acho que os esp√≠ritos elevados n√£o muito menos aptos s√£o para as coisas inferiores que os inferiores para as elevadas. Seria de crer que S√≥crates tivesse dado aos atenienses motivo para se rirem √† sua custa por ele nunca haver sabido fazer a contagem dos sufr√°gios da sua tribo e particip√°-los ao Conselho? Decerto, a venera√ß√£o que tenho pelas qualidades desta personagem justifica que a sua sorte proporcione um exemplo t√£o magn√≠fico para desculpar os meus principais defeitos.
A nossa capacidade está fragmentada em pequenas parcelas. A minha não é extensa e ainda por cima é pouco variada.

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O Mal da Cidade

O Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e s√≥ nela tem a fonte de toda a sua mis√©ria. V√™, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a for√ßa e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos tr√©mulos como arames, com cangalhas, com chin√≥s, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem fibra, sem vi√ßo, torto, corcunda – esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad√£o! Na cidade findou a sua liberdade moral: cada manh√£ ela lhe imp√Ķe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma depend√™ncia: pobre e subalterno, a sua vida √© um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradi√ß√Ķes, preceitos, etiquetas, cerim√≥nias, praxes, ritos, servi√ßos mais disciplinares que os dum c√°rcere ou dum quartel… A sua tranquilidade (bem t√£o alto que Deus com ela recompensa os Santos) onde est√°, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo p√£o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro!
Alegria como a haver√° na Cidade para esses milh√Ķes de seres que tumultuam na arquejante ocupa√ß√£o de desejar –

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O Pensador

N√£o h√° nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a pol√©mica n√£o seja um acidente, um desn√≠vel entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador n√£o √©, por estrutura, polemista, embora n√£o fuja ante a pol√©mica, nem a considere inferior; o seu dom√≠nio √© no campo da paz, n√£o entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o fil√≥sofo antigo, marchar com a calma e a severa repress√£o dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profiss√£o, tem o direito de exigir; o seu dever de cidad√£o imp√Ķe-lhe que tome, ao ecoar da voz b√°rbara, a lan√ßa que defende as oliveiras sagradas e os r√≠tmicos templos. A sua linha, por√©m, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma inven√ß√£o superadora, um perp√©tuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre. V√™-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para al√©m dos limites do mar e dos limites do c√©u; a sua miss√£o √© a de p√īr ao alcance de todos os que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou;

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O Interior da Alma

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espectáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.
Fazer o poema da consci√™ncia humana, mas que n√£o fosse sen√£o a respeito de um s√≥ homem, e ainda nos homens o mais √≠nfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consci√™ncia √© o caos das quimeras, das ambi√ß√Ķes e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: √© o pandem√≥nio dos sofismas, √© o campo de batalha das paix√Ķes. Penetrai, a certas horas, atrav√©s da face l√≠vida de um ser humano, e olhai por tr√°s dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. H√° ali, sob a superf√≠cie l√≠mpida do sil√™ncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de drag√Ķes e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais vision√°rias como em Dante.