Textos sobre Aspira√ß√Ķes

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Textos de aspira√ß√Ķes escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

Amea√ßas e promessas baseiam-se nas aspira√ß√Ķes permanentes do homem

Amea√ßas e promessas baseiam-se nas aspira√ß√Ķes permanentes do homem.

O Maior Amor e as Coisas que Se Amam

Tomara poder desempenhar-me, sem hesita√ß√Ķes nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execu√ß√£o por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, pl√°tano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspira√ß√£o, a consci√™ncia de um dever cumprido.

Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha intelig√™ncia para com o meu senso moral. Hora a hora a (…) que escreve as s√°tiras surge col√©rica em mim. Hora a hora a express√£o me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avan√ßar sobre mim o tempo. Hora a hora me conhe√ßo, m√£os in√ļteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que n√£o soube contar, um cora√ß√£o j√° apodrecido, morto j√° e na estagna√ß√£o da aspira√ß√£o indefinida, inutilizada.

Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta p√°tria que v√≥s n√£o conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n’ela penso. Nada fa√ßo. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a p√°tria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em diz√™-lo.

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A Honra e a Vergonha

A raiz e a origem dos sentimentos de honra e vergonha, inerentes a todo o homem que n√£o √© totalmente corrompido, e o supremo valor atribu√≠do ao primeiro reside no que vem a seguir. O homem, por si s√≥, consegue muito pouco e √© um Robinson abandonado: apenas em comunidade com os outros ele √© e consegue muito. Ele d√°-se conta de tal situa√ß√£o a partir do momento em que a sua consci√™ncia come√ßa, de algum modo, a desenvolver-se, e logo que nasce nele a aspira√ß√£o por ser considerado um membro √ļtil da sociedade, portanto, algu√©m capaz de cooperar como homem pleno e, por conseguinte, tendo o direito de participar das vantagens da comunidade humana. Ele consegue-o realizando, em primeiro lugar, aquilo que se exige e espera em geral de cada um, depois, realizando aquilo que se exige e espera dele na posi√ß√£o especial que ocupa. Mas logo ele reconhece que, nesse caso, o importante n√£o √© o que ele representa na sua pr√≥pria opini√£o, mas na opini√£o dos outros.
Por conseguinte, tal é a origem da sua aspiração zelosa pela opinião favorável de outrem, e assim também surge o valor supremo nela depositado. Esses dois elementos aparecem na espontaneidade de um sentimento inato,

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O Saber Altera a Economia de um Ser

O que aprendemos por nós próprios, seja que conhecimento for extraído do nosso próprio fundo, é algo que teremos que expiar por um suplemento de desequilíbrio. Fruto de uma desordem íntima, de uma doença definida ou difusa, de uma perturbação na raiz da nossa existência, o saber altera a economia de um ser. Cada um de nós terá que pagar pelo mais pequeno golpe que vibra num universo criado para a indiferença e para a estagnação; cedo ou tarde, arrepender-se-á, arrepender-nos-emos, de o não ter, ou de o não termos, deixado intacto.
O que sendo verdade para o conhecimento é mais verdade ainda para a ambição, porque invadir o terreno de outrem acarreta consequências mais graves e mais imediatas do que invadir o terreno do mistério ou simplesmente da matéria.
Come√ßamos por fazer tremer os outros, mas os outros acabam por nos comunicar os seus terrores. √Č por isso que os tiranos, tamb√©m eles, vivem no pavor. O que o nosso futuro senhor h√°-de conhecer ser√° sem d√ļvida exacerbado por uma felicidade sinistra, como ningu√©m experimentou compar√°vel, √† medida do solit√°rio por excel√™ncia, erguido diante da humanidade toda, semelhante a um deus entronizado no medo, num p√Ęnico omnipotente,

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Os Professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que √© trabalhado pelos professores n√£o pode ser quantificado. N√£o h√° n√ļmeros ou casas decimais com suficiente precis√£o para medi-lo. A falta de quantifica√ß√£o n√£o √© culpa dos assuntos inquantific√°veis, √© culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores n√£o vendem o material que trabalham, oferecem-no. N√≥s, com o tempo, com os anos, com a dist√Ęncia entre n√≥s e n√≥s, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material √© nosso, achamos que n√≥s pr√≥prios somos esse material. Por ironia ou capricho, √© nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva.

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O Entendimento das Almas

As almas t√™m um modo especial de se entenderem, de entrarem em intimidade, de se tratarem, at√©, por tu, enquanto as pessoas ainda se sentem embara√ßadas com o com√©rcio das palavras, na escravid√£o das exig√™ncias sociais. As almas t√™m necessidades pr√≥prias e aspira√ß√Ķes pr√≥prias, que o corpo finge n√£o reconhecer quando se v√™ impossibilitado de as satisfazer a de as traduzir em ac√ß√Ķes. E de todas as vezes que duas pessoas comunicam entre si desta maneira, apenas como almas, se encontram a s√≥s num qualquer lugar, experimentam uma perturba√ß√£o angustiosa e quase um rep√ļdio violento de todo e qualquer contacto material, um sofrimento que os afasta e que cessa de imediato logo que interv√©m uma terceira pessoa. Ent√£o, desvanecida a ang√ļstia, as duas almas aliviadas buscam-se reciprocamente e voltam a sorrir uma para a outra.

Aspiro a um Repouso Absoluto

Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite cont√≠nua. Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do √≥pio, n√£o tenho outra sede a n√£o ser a de um licor desconhecido na Terra e que nem mesmo a farmacopeia celeste poderia proporcionar-me; um licor que n√£o √© feito nem de vitalidade, nem de morte, nem de excita√ß√£o, nem de nada. Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir, dormir e sempre dormir, tal √© actualmente a minha √ļnica aspira√ß√£o. Aspira√ß√£o infame e desanimadora, por√©m sincera.

A Cobardia como Pilar da Civilização

Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua concep√ß√£o materialista da Hist√≥ria, que eles subestimam certas qualidades espirituais do homem que n√£o dependem de quanto ele ganhe ou deixe de ganhar. O argumento √© o de que essas qualidades colorem as aspira√ß√Ķes e actividades do homem civilizado tanto quanto s√£o coloridas pela sua condi√ß√£o material, tornando assim imposs√≠vel simplesmente
reduzir o homem a uma m√°quina econ√≥mica. Como exemplos, os antimarxistas citam o patriotismo, a piedade, o senso est√©tico e a vontade de conhecer Deus. Infelizmente, os exemplos s√£o mal escolhidos. Milh√Ķes de homens n√£o ligam para o patriotismo, a piedade ou o senso est√©tico, n√£o t√™m o menor interesse activo em conhecer Deus. Por que √© que os antimarxistas n√£o citam uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma. Refiro-me √† cobardia. De uma forma ou de outra, ela √© vis√≠vel em todo o ser humano; serve tamb√©m para separar o homem de todos os outros animais superiores. A cobardia, acredito, est√° na base de todo o sistema de castas e na forma√ß√£o de todas as sociedades organizadas, inclusive as mais democr√°ticas. Para escapar de ir √† guerra ele pr√≥prio, o campon√™s deva de m√£o beijada certos privil√©gios aos guerreiros ‚Äď e destes privil√©gios brotou toda a estrutura da civiliza√ß√£o.

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O Amolecimento pela Sociedade de Consumo

Nos pa√≠ses subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder institu√≠do, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, origin√°rio por via de regra da m√©dia e da pequena burguesia ou mais raramente das classes prolet√°rias, contesta o statu quo, prop√Ķe solu√ß√Ķes revolucion√°rias ou, quando estas n√£o podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar faz√™-lo pela cr√≠tica, violenta ou ir√≥nica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os benefici√°rios do sistema de produ√ß√£o ergueram contra as aspira√ß√Ķes da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude id√™ntica de inconformismo; por√©m, os resultados da sua actividade de cria√ß√£o e reflex√£o tornam-se mat√©ria vend√°vel e, nalguns casos, mat√©ria integr√°vel.
O consumo do objecto art√≠stico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opini√£o, que os meios de comunica√ß√£o de massa, em escala largu√≠ssima , exercem, torna-se, sen√£o totalmente in√≥cuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conte√ļdo cr√≠tico. Despotencializa-se. Amolece. √Č o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto aborve,

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Todo o Mal Provém não da Privação mas do Supérfluo

Ser feliz √©, afinal, n√£o esperar muito da felicidade, ser feliz √© ser simples, desambicioso, √© saber dosear as aspira√ß√Ķes at√© √†quela medida que p√Ķe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padr√£o tutelar, lembremos de novo um dos seus her√≥is, o pr√≠ncipe Pedro Bezoukhov (do romance ‘Guerra e Paz’). As circunst√Ęncias fizeram-no conviver no cativeiro com um s√≠mbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genu√≠no, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, n√£o s√≥ modificaram o pr√≠ncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que n√≥s, pobres humanos, debalde perseguimos: a coer√™ncia, a pacifica√ß√£o interior, que s√£o correctivos da desventura.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, ap√≥s essa viv√™ncia, apreendera, n√£o pela raz√£o mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal prov√©m n√£o da priva√ß√£o mas do sup√©rfluo, e que, enfim, n√£o h√° grandeza onde n√£o haja verdade e desapego pelo ef√©mero. Isto, ali√°s, nos √© repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta s√≠ntese desoladora: ¬ęTodos lutam, sofrem e se angustiam,

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O Que é a Religião ?

De in√≠cio, portanto, em vez de perguntar o que √© religi√£o, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi poss√≠vel, libertou-se dos grilh√Ķes, dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupada com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se apega em raz√£o do seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa √© a for√ßa desse conte√ļdo suprapessoal, e a profundidade da convic√ß√£o na superioridade do seu significado, quer se fa√ßa ou n√£o alguma tentativa de unir esse conte√ļdo com um Ser divino, pois, de outro modo, n√£o poder√≠amos considerar Buda e Espinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de n√£o ter nenhuma d√ļvida quanto ao valor e emin√™ncia dos objectivos e metas suprapessoais que n√£o exigem nem admitem fundamenta√ß√£o racional. Eles existem, t√£o necess√°ria e corriqueiramente quanto ela pr√≥pria.

Nesse sentido, a religi√£o √© o antiqu√≠ssimo esfor√ßo da humanidade para atingir uma clara e completa consci√™ncia desses valores e metas e refor√ßar e ampliar incessantemente o seu efeito. Quando concebemos a religi√£o e a ci√™ncia segundo estas defini√ß√Ķes, um conflito entre elas parece imposs√≠vel.

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Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspira√ß√£o, sombra chinesa da sua √Ęnsia in√ļtil, segue, revoltado e ign√≥bil, servo das mesmas leis qu√≠micas, no rodar imperturb√°vel da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperan√ßa, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilus√Ķes da realidade e a realidade das suas ilus√Ķes. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si mem√≥rias de batalhas, versos, est√°tuas e edif√≠cios. A Terra esfriar√° sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascen√ßa, o soI um dia, se alumiou, deixar√° de alumiar; se deu vida, dar√° a si a morte. Outros sistemas de astros e de sat√©lites dar√£o porventura novas humanidades; outras esp√©cies de eternidades fingidas alimentar√£o almas de outra esp√©cie; outras cren√ßas passar√£o em corredores long√≠nquos da realidade m√ļltipla. Cristos outros subir√£o em v√£o a novas cruzes. Novas seitas secretas ter√£o na m√£o os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia ser√° outra, e essa Cabala diferente. S√≥ uma obedi√™ncia passiva, sem revoltas nem sorrisos, t√£o escrava como a revolta, √© o sistema espiritual adequado √† exterioridade absoluta da nossa vida serva.

√Ālvaro de

A Educação da Fé

Sendo a f√© um dom, como pode ser motivo de educa√ß√£o? N√£o pode realmente ser ensinada, mas sim irradiada. Os que a possuem podem significar a estrela-guia, a perseveran√ßa num encontro dif√≠cil de suceder, mas cuja esperan√ßa comove todo o nosso ser. √Č poss√≠vel que a Igreja se volte para esse apostolado da f√© que foi extremamente importante no seu come√ßo. N√£o o velho sistema de grupos sect√°rios que s√£o o modelo dos processos pol√≠ticos e que, quando se afirma um movimento e este toma amplitude, se eliminam. N√£o √© isso. Trata-se de focos de comunica√ß√£o que dispensam a organiza√ß√£o premeditada e at√© a linguagem elaborada, o discurso piedoso e a erudi√ß√£o duma exegese. Um interessar a alma na f√© sem recorrer ao preconceito da santidade. Descobrir a imensa novidade da f√© num mundo em que o pr√≥prio crist√£o vive de maneira pag√£ e singularmente a coberto dos antigos textos que esqueceu ou que desconhece completamente.

A prova de que o cristão vive como um bárbaro é o sentido que tomou a arte religiosa. Não é raro encontrar nas salas de convívio burguesas, juntamente com a televisão, ou a mesa de jogo, ou a instalação estereofónica para o gira-disco,

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Novos Valores para a Sociedade

Se pensarmos na nossa vida e na nossa actua√ß√£o, em breve notaremos que quase todas as nossas aspira√ß√Ķes e ac√ß√Ķes est√£o ligadas √† exist√™ncia de outros homens. Reparamos que, em toda a nossa maneira de ser, somos semelhantes aos animais que vivem em comum. Comemos os alimentos produzidos por outros homens, usamos vestu√°rio que outros homens fabricaram e habitamos casas que outros constru√≠ram. A maior parte das coisas que sabemos e em que acreditamos foi-nos transmitida por outros homens, por meio duma linguagem que outros criaram. A nossa faculdade mental seria muito pobre e muito semelhante √† dos animais superiores se n√£o existisse a linguagem, de modo que teremos de concordar que, aquilo que nos distingue em primeiro lugar dos animais, o devemos √† nossa vida na comunidade humana. O homem isolado ‚ÄĒ entregue a si desde o nascimento ‚ÄĒ manter-se-ia, na sua maneira de pensar e de sentir, primitivo como um animal, dum modo que dificilmente podemos imaginar. O que cada um √© e significa, n√£o o √© t√£o-s√≤mente como ser isolado, mas como membro duma grande comunidade humana, que determina a sua exist√™ncia material e espiritual desde o nascimento √† morte.
Aquilo que um homem leva para a sua comunidade depende,

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Alegria é Felicidade Imediata

Quem é alegre tem sempre razão de sê-lo, ou seja, justamente esta, a de ser alegre. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto esta qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada. Se alguém é jovem, belo, rico e estimado, então perguntemos, caso queiramos julgar a sua felicidade, se é também jovial. Se, pelo contrário, ele for jovial, então é indiferente se é jovem ou velho, erecto ou corcunda, pobre ou rico; é feliz.
Na primeira juventude, abri certa vez um livro velho e l√° estava escrito: ¬ęQuem muito ri √© feliz, e quem muito chora √© infeliz¬Ľ – uma observa√ß√£o bastante ing√©nua, mas que n√£o pude esquecer devido √† sua verdade singela, por mais que fosse o superlativo de uma verdade evidente. Por esse motivo, devemos abrir portas e janelas √† jovialidade, sempre que ela aparecer, pois ela nunca chega em m√° hora, em vez de hesitar, como muitas vezes o fazemos, em permitir a sua entrada, s√≥ porque queremos saber primeiro, em todos os sentidos, se temos raz√£o para estar contentes. Ou ainda, porque tememos que ela nos perturbe nas nossas pondera√ß√Ķes s√©rias e preocupa√ß√Ķes importantes. Todavia, √© muito incerto que elas melhorem a nossa condi√ß√£o;

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A Aspiração de Todo o Bom Português

Enquanto a aspira√ß√£o de todo o bom portugu√™s for, na frase de um escritor, um casamento rico e um emprego p√ļblico; enquanto o diploma for o caminho mais seguro e c√≥modo para uma coloca√ß√£o certa embora pouco rendosa, e nos n√£o disserem como um ingl√™s ilustre a um professor da Fran√ßa que lhe mostrava os numerosos certificados das suas habilita√ß√Ķes: ¬ęN√≥s n√£o precisamos de diplomas, Senhor, precisamos de homens¬Ľ; enquanto for uma inferioridade a vida de trabalho e um sinal de distin√ß√£o a ociosidade, uma popula√ß√£o numerosa e f√ļtil h√°-de cursar as escolas secund√°rias e superiores, e tudo o que exige trabalho e rasgada iniciativa ser√° abandonado; a agricultura, o com√©rcio, a ind√ļstria, todas as fontes de riqueza nacional ficar√£o desaproveitadas, desprezadas, a meterem d√≥, quando podiam ser a honrosa ocupa√ß√£o de tantos e a salva√ß√£o e a prosperidade de todos n√≥s.

De que é que Depende a Felicidade?

Ser feliz. De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. De que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos. Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua. Que dores menores me pontuaram a vida toda? Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós. Ser feliz. Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.
N√£o sei o que falharia ainda, se o mais n√£o tivesse falhado. Que falsifica√ß√£o de n√≥s inventamos para os outros que no-la inventaram? Ter grandeza no que se sofre para ao menos nos admirarem o sofrimento. O que sofri entremeado ao p√ļblico sofrimento n√£o tem grandeza nenhuma.

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A Armadilha do Imediato

Como guia das nossas pr√≥prias aspira√ß√Ķes n√£o devemos tomar imagens da fantasia, mas conceitos. Geralmente ocorrer o inverso. Na juventude, em especial, a meta da nossa felicidade fixa-se na forma de algumas imagens que se implantam na nossa mente, frequentemente pela vida inteira ou por metade dela, mas na realidade n√£o passam de fantasmas que zombam de n√≥s: pois, no momento em que as alcan√ßamos, desfazem-se no nada, e vemos que n√£o cumprem nada daquilo que prometem.
Enquadram-se aqui determinadas cenas da vida dom√©stica, citadina, campestre, imagens da casa, do ambiente, etc. Chaque fou a sa marotte [cada louco com sua mania]. √Č comum tamb√©m fazer parte disso a imagem da amada. √Č natural que seja assim: pois o que √© evidente, justamente por ser imediato, tamb√©m age sobre a nossa vontade de modo mais directo do que o conceito, o pensamento abstracto, que fornece somente o universal, n√£o o detalhe, e tem uma rela√ß√£o apenas indirecta com a vontade. Em contrapartida, o conceito mant√©m a palavra. √Č ele que deve sempre guiar-nos e orientar-nos, embora seja certo que sempre necessitar√° da ilustra√ß√£o e da par√°frase por meio de imagens.

A Alma Popular é Totalmente Dominada por Elementos Afectivos e Místicos

A ac√ß√£o cada vez mais consider√°vel das multid√Ķes na vida pol√≠tica imprime especial import√Ęncia ao estudo das opini√Ķes populares. Interpretadas por uma legi√£o de advogados e professores, que as transp√Ķem e lhe dissimulam a mobilidade, a incoer√™ncia e o simplismo, elas permanecem pouco conhecidas. Hoje, o povo soberano √© t√£o adulado quanto foram, outrora, os piores d√©spotas. As suas paix√Ķes baixas, os seus ruidosos apetites, as suas ininteligentes aspira√ß√Ķes suscitam admiradores. Para os pol√≠ticos, servidores da plebe, os factos n√£o existem, as realidades n√£o t√™m nenhum valor, a natureza deve-se submeter a todas as fantasias do n√ļmero.
A alma popular (…) tem, como principal caracter√≠stica, a circunst√Ęncia de ser inteiramente dominada por elementos afectivos e m√≠sticos. N√£o podendo nenhum argumento racional refrear nela as impuls√Ķes criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente.
O lado m√≠stico da alma das multid√Ķes √©, muitas vezes, mais desenvolvido ainda do que o seu lado afectivo. Da√≠ resulta uma intensa necessidade de adorar alguma coisa: deus, feiti√ßo, personagem ou doutrina.
(…) O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multid√Ķes √© a nula influ√™ncia que a raz√£o exerceu nelas. As ideias suscept√≠veis de influenciar as multid√Ķes n√£o s√£o ideias racionais, por√©m sentimentos expressos sob forma de ideias.

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