Textos sobre Linhas

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Textos de linhas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Toda a Ideia Geral é Puramente Intelectual

As ideias gerais s√≥ se podem introduzir na esp√©cie com o aux√≠lio das palavras, e o entendimento n√£o as apreende sen√£o por meio das proposi√ß√Ķes. √Č uma das raz√Ķes por que os animais n√£o poderiam formar tais ideias, nem jamais adquirir a perfectibilidade que delas depende. Quando um macaco vai, sem hesitar, de uma noz a outra, julga-se que tenha a ideia geral dessa esp√©cie de fruta e que compare o seu arqu√©tipo a esses dois indiv√≠duos? N√£o, sem d√ļvida; mas, a vista de uma dessas nozes lembra √† sua mem√≥ria as sensa√ß√Ķes que recebeu da outra, e os seus olhos, modificados de certa maneira, anunciam ao seu gosto a modifica√ß√£o que vai receber. Toda a ideia geral √© puramente intelectual; por pouco que a imagina√ß√£o tome parte nela, a ideia torna-se, logo, particular.
Procurai traçar a imagem de uma árvore em geral, e jamais o conseguireis; contra a vossa vontade, é preciso vê-la grande ou pequena, desgalhada ou em copa, clara ou escura; e, se dependesse de vós não ver senão o que se acha em toda a árvore, essa imagem não se pareceria mais com uma árvore. Os seres puramente abstractos vêem-se do mesmo modo, ou não se concebem senão por meio do discurso.

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A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s√©culo XV representavam a Lux√ļria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem √† gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E √© por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Pol√≠ticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravag√Ęncia est√©tica, e os S√°bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g√©neros, surge a horda ululante dos charlat√£es… (Como me vim tornando altiloquente e roncante!…) Mas e a verdade, meu Bento! V√™ quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O pr√≥prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam. At√© o velho instinto da conserva√ß√£o cede ao novo instinto da notoriedade – e existe tal magan√£o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund√Ęncia das coroas, dos coches e dos prantos orat√≥rios, lambe os bei√ßos, pensativo, e deseja ser o morto.

A Adulação na Amizade

Pois que √© pr√≥prio da verdadeira amizade dar e receber conselhos, d√°-los com franqueza e sem azedume, receb√™-los com paci√™ncia e sem repugn√Ęncia, persuadamo-nos bem de que n√£o ha defeito maior na amizade que a lisonja, a adula√ß√£o, as baixas complac√™ncias. Com efeito, n√£o se poderia dar bastantes nomes ao v√≠cio desses homens fr√≠volos e enganadores, que falam sempre para agradar, e jamais para dizer a verdade.
A dissimula√ß√£o √© funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em n√≥s o sentimento da verdade) mas √©, sobretudo, contr√°ria √† amizade. Destr√≥i a sinceridade, sem a qual n√£o subsiste mesmo o pr√≥prio nome da amizade. Se a for√ßa da amizade consiste em fazer de v√°rias almas uma s√≥, como seria assim, se em cada homem a alma n√£o √© a mesma, n√£o √© constante, mas vari√°vel, mut√°vel, tomando mil formas? De facto, que h√° de mais mut√°vel, de mais vers√°til que a alma daquele que se transforma n√£o apenas segundo o sentimento e a vontade dum outro, mas a um pequeno sinal deste, a um m√≠nimo gesto seu? ¬ęEle diz n√£o? Eu digo n√£o; ele diz sim? eu digo sim: numa palavra, eu me impus a obriga√ß√£o de tudo aplaudir¬Ľ,

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Suportar a Adversidade

Das ocorr√™ncias indesejadas, falando de maneira gen√©rica, algumas acarretam naturalmente dor e vexa√ß√£o, mas, na maior parte dos casos, √© falsa a no√ß√£o que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como espec√≠fico contra este tipo de ocorr√™ncia, √© conveniente ter √† m√£o um dito de Menandro: ¬ęNada te aconteceu de facto enquanto n√£o te importares muito com o ocorrido¬Ľ. Isso quer dizer que n√£o h√° motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai √© de baixa extrac√ß√£o, a tua mulher cometeu adult√©rio, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honor√≠fica ou privil√©gio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.
Para a primeira categoria – doen√ßas, priva√ß√Ķes, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexa√ß√£o, esta linha de Eur√≠pedes deve estar √† m√£o: “Ai! por que ai? √Č o quinh√£o da mortalidade que nos coube”. Nenhum outro argumento l√≥gico pode romper de forma t√£o efectiva a espiral descendente das nossas emo√ß√Ķes, do que a reflex√£o de que somente atrav√©s da compuls√£o comum da Natureza, um dos elementos da sua constitui√ß√£o f√≠sica, √© que o homem se torna vulner√°vel √† Fortuna;

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A Sociedade é um Sistema de Egoísmos Maleáveis

A sociedade √© um sistema de ego√≠smos male√°veis, de concorr√™ncias intermitentes. Como homem √©, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indiv√≠duo, distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, op√Ķe-se-lhes. Como soci√°vel, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes. A vida social do homem divide-se, pois, em duas partes: uma parte individual, em que √© concorrente dos outros, e tem que estar na defensiva e na ofensiva perante eles; e uma parte social, em que √© semelhante dos outros, e tem t√£o-somente que ser-lhes √ļtil e agrad√°vel. Para estar na defensiva ou na ofensiva, tem ele que ver claramente o que os outros realmente s√£o e o que realmente fazem, e n√£o o que deveriam ser ou o que seria bom que fizessem. Para lhes ser √ļtil ou agrad√°vel, tem que consultar simplesmente a sua mera natureza de homens.
A exacerba√ß√£o, em qualquer homem, de um ou o outro destes elementos leva √† ru√≠na integral desse homem, e, portanto, √† pr√≥pria frustra√ß√£o do intuito do elemento predominante, que, como √© parte do homem, cai com a queda dele. Um indiv√≠duo que conduza a sua vida em linhas de uma moral alt√≠ssima e pura acabar√° por ser ultrajado por toda a gente –

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Ambição e Poder

Examinemo-nos no momento em que a ambi√ß√£o nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos ¬ęacessos¬Ľ. Verificaremos que estes s√£o precedidos de sintomas cuirosos, de um calor especial, que n√£o deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperan√ßa, sentimo-nos de s√ļbito respons√°veis pelo presente e pelo futuro, no n√ļcleo da dura√ß√£o, carregada esta dos nossos fr√©mitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso c√©rebro e √†s vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturba√ß√Ķes, de transtornos √≠mpares, a loucura pol√≠tica, se afoga a intelig√™ncia, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-√° e exaltar-nos-√°; e o feito das nossas enfermidades, o seu prod√≠gio, ser√° tal que elas nos instituir√£o senhores de todos e de tudo.
À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz.

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História não é só Cronologia

Um dos principais defeitos dos trabalhos históricos no nosso país parece-me ser a insulação de cada um dos aspectos sociais de qualquer época, que nunca se conhecerá, nem entenderá, enquanto a sociedade se não estudar em todas as suas formas de existir, enquanto se não contemplar em todos os seus caracteres.
Estas cartas, se merecerem a aprovação de V. Exas., poderão algum dia servir, no que tiverem de bom, se o tiverem, de esclarecimento e notas a uma parte da História Portuguesa, como eu concebo que ela se deveria escrever: história não tanto dos indivíduos como da Nação; história que não ponha à luz do presente o que se deve ver à luz do passado; história, enfim, que ligue os elementos diversos que constituem a existência de um povo em qualquer época, em vez de ligar um ou dois desses elementos, não com os outros que com ele coexistem, mas com os seus afins na sucessão dos tempos.
A hist√≥ria pode comparar-se a uma coluna pol√≠gona de m√°rmore. Quem quiser examin√°-la deve andar ao redor dela, contempl√°-la em todas as suas faces. O que entre n√≥s se tem feito, com honrosas excep√ß√Ķes, √© olhar para um dos lados,

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Símios Aperfeiçoados II

A trag√©dia √© a cristaliza√ß√£o da massa humana, t√£o perigosa como a estagna√ß√£o do esp√≠rito do homem que se torna acad√©mico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro pr√≥ximo – em rela√ß√Ķes antropol√≥gicas o pr√≥ximo leva geralmente centenas de anos – transformar-se-√° num novo espect√°culo de jardim zool√≥gico. Em vez de jaula e aldeias de s√≠mios, ele ter√° balne√°rios p√ļblicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dar√° palmas em del√≠rio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto m√°ximo de intelig√™ncia paquid√©rmica. Ter√° circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o t√©dio da fam√≠lia aos domingos, circular√° repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem √© diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes,

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√Č Mais F√°cil Sustentar uma Opini√£o M√°, do que Escolher uma Boa

√Č mais f√°cil sustentar uma opini√£o m√°, do que escolher uma boa; porque o erro √© como um edif√≠cio, cuja f√°brica exterior √© composta de uma infinidade de √Ęngulos; com algum destes encontra-se o pensamento facilmente, porque s√£o muitos, ao passo que o acerto √© como um ponto fixo no meio de uma esfera; o pensamento que anda vagando √† roda, n√£o v√™ o ponto, porque este √© s√≥ um; do mesmo corpo nasce a sombra que o encobre: s√£o inumer√°veis as linhas, que se podem lan√ßar de uma circunfer√™ncia para um centro comum; alguma linha h√°-de ver-se, porque s√£o muitas, e o centro n√£o, porque √© √ļnico: a superf√≠cie do globo impede o poder ver-se a sua concavidade; ou se h√°-de ver uma coisa, ou outra; ambas ao mesmo tempo n√£o pode ser.

Uma Casa Cheia de Livros

Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.

(…) Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do c√©u, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o ch√£o, explodem em sil√™ncio. Tudo neles √© absoluto, at√© as contradi√ß√Ķes em que trope√ßam. E est√£o l√°, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, at√© a loucura, at√© os pesadelos, at√© a esperan√ßa em todas as suas formas.

A Diferença Entre o Génio e a Inteligência Normal

A diferen√ßa entre o g√©nio e a intelig√™ncia normal √©, na verdade, apenas quantitativa, na medida em que √© apenas uma diferen√ßa de grau: no entanto, as pessoas t√™m tend√™ncia para a considerar qualitativa, quando se observa como os homens normais, apesar da sua diversidade individual, pensam todos segundo certas linhas comuns, de modo que est√£o frequentemente em acordo un√Ęnime acerca de julgamentos que, na realidade, s√£o falsos. Isto chega ao ponto de terem certas opini√Ķes b√°sicas que s√£o mantidas em todas as eras e continuamente reiteradas, embora as grandes mentes de todas as eras tenham, aberta ou secretamente, oposto a essas opini√Ķes.

A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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N√£o Sou Digno de um Anjo T√£o Doce como Tu

Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me ch√°, e √°gua para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da esta√ß√£o andei de l√° para c√° a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, at√© ao mais √≠nfimo escaninho da tua alma e do teu cora√ß√£o. Desde que cas√°mos que descobri n√£o ser digno de um anjo t√£o doce, t√£o belo, t√£o puro como tu – e que cr√™ em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porqu√™? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contr√°rio, para que tudo se desenvolva e flores√ßa rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que √© baixo e ofende o esp√≠rito. E eu (…) eu o que fa√ßo √© perturbar-te com coisas t√£o est√ļpidas como a minha viagem a este lugar.

A História da Humanidade em Três Palavras

Felipe lembrou-se da hist√≥ria do Rei do Oriente que, desejando conhecer a hist√≥ria da humanidade, recebeu de um s√°bio quinhentos volumes; ocupado com neg√≥cios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o s√°bio voltou e a sua hist√≥ria ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, j√° velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o s√°bio, velho e encanecido, trouxe um √ļnico volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, por√©m, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. A√≠ o s√°bio deu-lhe a hist√≥ria da humanidade numa √ļnica linha: “Nasceram, sofreram, morreram”.

O Destino Desconhece a Linha Recta

O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, n√£o conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em fun√ß√£o de um resultado final, portanto conhecido, √© imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princ√≠pio, sem se mover. Ora, pelo contr√°rio, o destino hesita muit√≠ssimo, tem d√ļvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.

Próxima Estação

Querida amiga,

J√° ter√°s partido para longe quando estiveres a ler estas linhas… permite-me que partilhe contigo o que sinto a respeito desta tua grande mudan√ßa…

Nunca √© bom colocarmos qualquer tipo de √Ęncora na saudade ou nos sonhos. A nossa casa, o nosso pa√≠s, √© o lugar onde n√≥s estamos. √Č a√≠ que temos de ser quem somos. √Č a√≠ que temos de descobrir a felicidade de cada dia. Tudo o resto √© estrangeiro.

Cada homem pertence tanto ao s√≠tio de onde vem como √†quele para onde vai. A ideia de que as nossas ra√≠zes nos prendem e condenam segue na linha errada da outra, tamb√©m comum, de que os sonhos nos fazem perder… n√£o, a vida √© esta forma de ir sendo sempre mais, o que se foi, tanto quanto o que ainda n√£o se √©… uma viagem, n√£o uma esta√ß√£o.
Sei que partes com dor porque temes perder quem aqui fica e n√£o ter ningu√©m por l√°, onde chegar√°s… sabes, em pouco tempo, ter√°s de aceitar que muitos dos que agora lamentam muito a tua partida, se preocupar√£o t√£o pouco em saber como est√°s…

J√° fizeste muita gente feliz aqui…

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A Função do Escritor

Que o mundo ¬ęest√° infestado com a esc√≥ria do g√©nero humano¬Ľ √© perfeitamente verdade. A natureza humana √© imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura √© separar o trigo do joio √© rejeitar a pr√≥pria literatura. A literatura art√≠stica √© assim chamada porque descreve a vida como realmente √©. O seu objectivo √© a verdade – incondicional e honestamente. O escritor n√£o √© um confeiteiro, um negociante de cosm√©ticos, algu√©m que entret√©m; √© um homem constrangido pela realiza√ß√£o do seu dever e a sua consci√™ncia. Para um qu√≠mico, nada na terra √© puro. Um escritor tem de ser t√£o objectivo como um qu√≠mico.
Parece-me que o escritor n√£o deveria tentar resolver quest√Ķes como a exist√™ncia de Deus, pessimismo, etc. A sua fun√ß√£o √© descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunst√Ęncias. O artista n√£o deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objectivo,

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O Amor como Factor Civilizador

As provas da psican√°lise demonstram que quase toda rela√ß√£o emocional √≠ntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo ‚ÄĒ casamento, amizade, as rela√ß√Ķes entre pais e filhos ‚ÄĒ cont√©m um sedimento de sentimentos de avers√£o e hostilidade, o qual s√≥ escapa √† percep√ß√£o em consequ√™ncia da repress√£o. Isso acha-se menos disfar√ßado nas alterca√ß√Ķes comuns entre s√≥cios comerciais ou nos resmungos de um subordinado em rela√ß√£o ao seu superior. A mesma coisa acontece quando os homens se re√ļnem em unidades maiores. Cada vez que duas fam√≠lias se vinculam por matrim√≥nio, cada uma delas se julga superior ou de melhor nascimento do que a outra. De duas cidades vizinhas, cada uma √© a mais ciumenta rival da outra; cada pequeno cant√£o encara os outros com desprezo. Ra√ßas estreitamente aparentadas mant√™m-se a certa dist√Ęncia uma da outra: o alem√£o do sul n√£o pode suportar o alem√£o setentrional, o ingl√™s lan√ßa todo tipo de cal√ļnias sobre o escoc√™s, o espanhol despreza o portugu√™s. N√£o ficamos mais espantados que diferen√ßas maiores conduzam a uma repugn√Ęncia quase insuper√°vel, tal como a que o povo gaul√™s sente pelo alem√£o, o ariano pelo semita.
Quando essa hostilidade se dirige contra pessoas que de outra maneira s√£o amadas,

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O Jornal é o Fole Incansável que Assopra a Vaidade Humana

Pelo jornal, e pela reportagem que ser√° a sua fun√ß√£o e a sua for√ßa, tu desenvolver√°s, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! (…) Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos neg√≥cios do Mundo, ou nas direc√ß√Ķes do pensamento , do que, como diz a B√≠blia, sobre toda a ¬ęsorte e condi√ß√Ķes de gente v√£¬Ľ, desde os j√≥queis at√© aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documenta√ß√£o da hist√≥ria, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propaga√ß√£o das vaidades! O jornal √© com efeito o fole incans√°vel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos √© ela, a vaidade do homem! J√° sobre ela gemeu o gemebundo Salom√£o, e por ela se perdeu Alcib√≠ades, talvez o maior dos Gregos. Incontestavelmente, por√©m, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado s√©culo XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civiliza√ß√£o, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende √† vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal!

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Abandonar a Zona de Conforto

Ningu√©m adquire confian√ßa na rotina. √Č imposs√≠vel. √Č mais do mesmo, todos os dias para o resto das suas vidas. √Č uma esp√©cie de piloto autom√°tico programado para embater, a qualquer momento, na montanha mais alta e √© uma agoniante e pasmacenta viagem √† ingratid√£o e ao pior dos h√°bitos da ra√ßa humana: a pregui√ßa. Viv√™-la √© morrer todos os dias. A rotina, essa resigna√ß√£o perante a putrefa√ß√£o, √©, portanto, para os desistentes, para os ingratos e fracos de esp√≠rito. Na verdade, por que motivo querer√£o eles confiar em si mesmos se j√° pereceram? N√£o faz sentido, certo? Deixai-os estar, ap√°ticos como eles gostam, pois ainda que deambulem de um lado para o outro, a verdade √© que n√£o passam de voltas e viravoltas dentro das suas pr√≥prias urnas.

Toquei-te? De alguma forma te pareci violento nestas √ļltimas linhas?
Se sim, fant√°stico; mas n√£o, esta forma de me expressar nada tem a ver com agressividade ou viol√™ncia. √Č apenas dizer, letrinha a letrinha, o que penso e sinto a este respeito e a isso chama-se ser assertivo.