Textos sobre Sublime

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Textos de sublime escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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Gosto Relevante

Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
H√° perfei√ß√Ķes como s√≥is e h√° perfei√ß√Ķes como luzes. Galanteia a √°guia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela eleva√ß√£o do gosto. T√™-lo bom √© j√° algo, t√™-lo relevante muito √©. Ligam-se os gostos √† comunica√ß√£o, e s√≥ por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
√Č qualidade um gosto cr√≠tico, um paladar dif√≠cil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfei√ß√Ķes receiam-no. √Č a avalia√ß√£o precios√≠ssima, e regate√°-la √© pr√≥prio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso √© fidalga e, ao contr√°rio, os desperd√≠cios de estima merecem castigo de desprezo.
A admira√ß√£o √© vulgarmente um manifesto da ignor√Ęncia;

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A Piedade

A piedade √© um sentimento natural, que, moderando em cada indiv√≠duo a actividade do amor de si pr√≥prio, concorre para a conserva√ß√£o m√ļtua de toda a esp√©cie. √Č ela que nos leva sem reflex√£o em socorro daqueles que vemos sofrer; √© ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ningu√©m √© tentado a desobedecer √† sua doce voz; √© ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma crian√ßa fraca ou a um velho enfermo a sua subsist√™ncia adquirida com sacrif√≠cio, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; √© ela que, em vez desta m√°xima sublime de justi√ßa raciocinada, faz a outrem o que queres que te fa√ßam, inspira a todos os homens esta outra m√°xima de bondade natural, bem menos perfeita, por√©m mais √ļtil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal poss√≠vel a outrem. Em uma palavra, √© nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que √© preciso buscar a causa da repugn√Ęncia que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das m√°ximas da educa√ß√£o. Embora possa competir a S√≥crates e aos esp√≠ritos da sua t√™mpera adquirir a virtude pela raz√£o,

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A Minha Poesia

Aquilo que dentro da minha produ√ß√£o po√©tica pode eventualmente definir-me, entre os poetas da minha gera√ß√£o, √© o resultado do esfor√ßo para conquistar um espa√ßo independente, ou seja, a minha forma particular de universalizar. Perten√ßo ao n√ļmero dos que atribuem √† poesia uma enorme responsabilidade: a de transformar o mundo. A poetiza√ß√£o das coisas n√£o √© sen√£o o aperfei√ßoamento delas. √Č para isto que se faz poesia e n√£o para com ela se fazer literatura. Os transes de ironia e de revolta que muitas vezes tecem os meus poemas, s√£o o regurgitar de um incontinente entusiasmo por um sonegado destino de amor e liberdade que o poeta escuta ao estimular a supera√ß√£o das coisas e dos seres e que n√£o v√™ cumprida. A luta contra o tempo gerando o sublime engendra-lhe o reverso que √© a abjec√ß√£o de se viver condicionalmente. Aquilo que Jaspers chama o incondicional e que emana de uma liberdade que n√£o pode ser de outra maneira, que n√£o √© causa de leis naturais mas o seu fundamento transcendente e que √© o sublime de cada um, resulta na maior trai√ß√£o, porque n√£o √© dado ao homem como sua exist√™ncia, mas deslumbrado num estado de supera√ß√£o. A luta pelo incondicional em choque com a minha condicionalidade,

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Amor como Deprava√ß√£o do Nervo √ďptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, √© uma deprava√ß√£o do nervo √≥ptico. A imagem objectiva, que fere o √≥rg√£o visual no estado patol√≥gico, adquire atributos fict√≠cios. A alma recebe a impress√£o quim√©rica tal como sens√≥rio lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excel√™ncias que a mais esmerada natureza denega √†s suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da defini√ß√£o v√™m a ser aqueles em que o bom senso n√£o pode atinar com o porqu√™ dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e est√ļpidas que nos enchem de espanto, quando nos n√£o fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida deprava√ß√£o do nervo que preside √†s fun√ß√Ķes da vista quanto a alma da pessoa enferma, v√≠tima de sua ilus√£o, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e m√©ritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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O Riso é o Melhor Indicador da Alma

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como n√£o sabe (ningu√©m sabe, ali√°s) a cara que faz quando dorme. H√° quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros h√° que, embora inteligentes, fazem uma cara t√£o est√ļpida a dormir que se torna rid√≠cula.
Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade,

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Nunca Falar de Si Mesmo

Nunca falar de si mesmo. Quem fala de si ou se h√°-de gabar, o que √© vaidade, ou se h√°-de vituperar, o que √© pouquidade, e sendo culpado de falta de cordura quem fala, a pena √© de quem ouve. Se isso √© de se evitar entre pr√≥ximos, muito mais em postos sublimes, onde se fala em p√ļblico, e passa por nescidade tudo o que se pare√ßa com ela. A mesma falta de cordura est√° em falar dos presentes, pelo perigo de dar em um dos dois escolhos: lisonja ou vitup√©rio.

Toda a Comunidade nos Torna Vulgares

Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para al√©m. – Ter e n√£o ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pr√≥ e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; – √© que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; tamb√©m os √≥culos escuros; pois h√° casos em que ningu√©m nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas ¬ęraz√Ķes¬Ľ. E escolher, para companhia, aquele v√≠cio matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspic√°cia, a simpatia, a solid√£o. Pois a solid√£o √© entre n√≥s uma virtude, como tend√™ncia e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem – ¬ęem sociedade¬Ľ – tudo √©, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura – ¬ęvulgares¬Ľ.

O Engodo da Felicidade como Recompensa

Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa Рque outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direcção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
√Č exig√™ncia da raz√£o n√£o precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, t√£o certo quanto √© exig√™ncia tornar-se mais conforme √† raz√£o, mais aut√≥nomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos – a n√£o ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -,

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Existência, Corpo e Costumes, Como Eixos do Gosto

Na nossa actual maneira de ser, a nossa alma aprecia tr√™s tipos de prazer: aqueles que ela retira do pr√≥prio fundo da sua exist√™ncia; outros que resultam da sua uni√£o com o corpo; e por fim, outros que radicam nos costumes e preconceitos que certas institui√ß√Ķes, certos usos e certos h√°bitos lhe levam a apreciar.
S√£o esses diferentes prazeres da nossa alma que constituem os objectos do gosto, como o belo, o bom, o agrad√°vel, o c√Ęndido, o delicado, o terno, o gracioso, o n√£o sei o qu√™, o nobre, o grande, o sublime, o majestoso, etc. Por exemplo, quando sentimos prazer ao ver uma coisa que possui uma utilidade para n√≥s, dizemos que ela √© boa; quando sentimos prazer ao v√™-la, sem dela abstrairmos uma utilidade manifesta, chamamo-la bela.

Satisfazer-se mais com Intensidade do que com Quantidade

A perfei√ß√£o n√£o consiste na quantidade, mas na qualidade. Tudo o que √© muito bom sempre foi pouco e raro: o muito √© descr√©dito. Mesmo entre os homens, os gigantes costumam ser os verdadeiros an√Ķes. Alguns avaliam os livros pela corpul√™ncia, como se escritos para exercitar mais os bra√ßos do que os engenhos. A extens√£o sozinha nunca p√īde exceder a mediocridade, e essa √© a praga dos homens universais: por quererem estar em tudo, est√£o em nada. A intensidade d√° emin√™ncia, e √© her√≥ica se em mat√©ria sublime.

O Homem é um Deus que se Ignora

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: n√£o sei qual, mas existe – dizia S√≥crates soletrando com os olhos da raz√£o, √† luz serena do c√©u da Gr√©cia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da f√© lia no horizonte anuveado das vis√Ķes do profeta esta outra palavra de consola√ß√£o – dentro do homem est√° o reino dos c√©us. Profundo, alt√≠ssimo, acordo de dois g√©nios t√£o distantes pela p√°tria, pela ra√ßa, pela tradi√ß√£o, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irm√£os infelizes, violentamente separados, duma mesma fam√≠lia! Dos dois p√≥los extremos da hist√≥ria antiga, atrav√©s dos mares insond√°veis, atrav√©s dos tempos tenebrosos, o g√©nio luminoso e humano das ra√ßas √≠ndicas e o g√©nio sombrio, mas profundo, dos povos sem√≠ticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta sauda√ß√£o fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na ang√ļstia do seu caos – o homem √© um Deus que se ignora.
Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga!

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A Glória em Função dos Feitos e das Obras

Enquanto a nossa honra vai at√© onde somos pessoalmente conhecidos, a gl√≥ria, pelo contr√°rio, precede o nosso conhecimento e leva-o at√© onde ela mesmo consegue ir. Todo o indiv√≠duo tem direito √† honra; √† gl√≥ria, apenas as excep√ß√Ķes, pois apenas mediante realiza√ß√Ķes excepcionais √© poss√≠vel atingi-la. Tais realiza√ß√Ķes, por sua vez, s√£o feitos ou obras. A partir deles, abrem-se dois caminhos para a gl√≥ria. Antes de mais nada, √© o grande cora√ß√£o que capacita para os feitos; para as obras, a grande cabe√ßa. Ambas possuem as suas pr√≥prias vantagens e desvantagens. A diferen√ßa principal √© que os feitos passam, e as obras permanecem.
Dos feitos, permanece apenas a lembrança, que se torna cada vez mais fraca, desfigurada e indiferente, e que está até mesmo fadada a extinguir-se gradualmente, caso a história não a recolha e a transmita para a posteridade em estado petrificado. As obras, pelo contrário, são imortais e podem, pelo menos as escritas, sobreviver em todos os tempos. O mais nobre dos feitos tem apenas uma influência temporária; a obra genial, pelo contrário, vive e faz efeito, de modo benéfico e sublime, por todos os tempos. De Alexandre, o Grande, vivem nome e memória, mas Platão e Aristóteles,

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Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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A √önica Ideia Sublime

Nenhum homem nem nenhuma na√ß√£o podem existir sem uma ideia sublime. E no mundo existe uma √ļnica ideia sublime – nomeadamente, a ideia da imortalidade da alma do homem – pois todas as outras ideias ‘sublimes’ de vida, que d√£o vida ao homem, s√£o meras deriva√ß√Ķes desta √ļnica ideia.

Atenção ao Estilo Rebuscado e Cheio de Adornos

Quando vires algu√©m com um estilo rebuscado e cheio de adornos podes ter a certeza de que a sua alma apenas se ocupa igualmente de bagatelas. Uma alma verdadeiramente grande √© mais tranquila e senhora de si a falar, e em tudo quanto diz h√° mais firmeza do que preocupa√ß√£o estil√≠stica. Tu conheces bem os nossos jovens elegantes, com a barba e o cabelo todo aparado, que parecem acabadinhos de sair da f√°brica! De tais criaturas nada ter√°s a esperar de firme ou s√≥lido. O estilo √© o adorno da alma: se for demasiado penteado, maquilhado, artificial, em suma, s√≥ provar√° que a alma carece de sinceridade e tem em si algo que soa a falso. N√£o √© coisa digna de homens o cuidado extremo com o vestu√°rio! Se nos fosse dado observar “por dentro” a alma de um homem de bem ‚ÄĒ oh! que figura bela e vener√°vel, que fulgor de magnificente tranquilidade n√≥s contemplar√≠amos, que brilho n√£o emitiriam a justi√ßa, a coragem, a modera√ß√£o e a prud√™ncia! E n√£o s√≥ estas virtudes, mas ainda a frugalidade, o autodom√≠nio, a paci√™ncia, a liberalidade, a gentileza e essa virtude, incrivelmente rara no homem, que √© a humanidade ‚ÄĒ tamb√©m estas fariam jorrar sobre a alma o seu sublime esplendor!

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A Fal√°cia do Sucesso

Abomin√°vel coisa √© o bom √™xito, seja dito de passagem. A sua falsa parecen√ßa com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom sucesso equivale √† supremacia. A v√≠tima dos logros do triunfo, desse menecma da habilidade, √© a hist√≥ria. S√≥ T√°cito e Juvenal se lhe op√Ķem. Existe na √©poca e sente uma filosofia quase oficial, que envergou a libr√© do bom √™xito e lhe faz o servi√ßo da antec√Ęmara. Fazei por serdes bem sucedido, √© a teoria. Prosperidade sup√Ķe capacidade. Ganhai na lotaria, sereis um homem h√°bil. Quem triunfa √© venerado. Nascei bem-fadado, n√£o queirais mais nada. Tende fortuna, que o resto por si vir√°; sede feliz, julgar-vos-√£o grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excep√ß√Ķes imensas que fazem o esplendor de um s√©culo, a admira√ß√£o contempor√Ęnea √© apenas miopia. Duradora √© ouro. Pouco importa que n√£o sejais ningu√©m, contanto que consigais alguma coisa.
O vulgo √© um narciso velho, que se idolatra a si pr√≥prio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Mois√©s, Esquilo, Dante, Miguel √āngelo ou Napole√£o, decreta-a a multid√£o indistintamente e por unanimidade a quem atinge o alvo que se prop√īs, seja no que for. Que um tabeli√£o se transforme em deputado;

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O Amor Verdadeiro Não Pensa Senão em Si Próprio

O primeiro amor dum homem que entre na sociedade √© geralmente um amor ambicioso. Raramente esse amor se declara por uma rapariga doce, am√°vel e inocente. Como tremer, adorar, sentir-se em presen√ßa duma divindade? Um adolescente tem necessidade de amar um ser cujas qualidades o elevem aos seus pr√≥prios olhos. √Č no decl√≠nio da vida que voltamos tristemente a amar o simples e o inocente, desesperando do que √© sublime. Entre os dois, existe o amor verdadeiro, que n√£o pensa sen√£o em si pr√≥prio.

A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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