Passagens sobre Cores

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Frases sobre cores, poemas sobre cores e outras passagens sobre cores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Tentara o Amor de Abril

Tentara o amor de Abril tornar mais duro,
Naquele mês de céu azul cortado
Pelas pandorgas cor do assombro, o brado
Que no meu peito armava o meu futuro;

Porque de novo, a procurar, procuro,
De bruços na janela, e debruçado
Por sobre as m√°goas deste amor calado,
Nas portas tenebrosas, o ar mais puro.

Firmando para o Norte, o brando povo
Das andorinhas parte, e fervoroso
Consuma o seu destino. Eu tento arm√°-lo

No céu da alma, e durmo procurando
Essa firmeza no abandono, e calo,
Por pouco tempo embora o como e o quando.

N√£o √Čs Tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela vis√£o que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da raz√£o
Que penetra, n√£o seduz;
N√£o era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas n√£o √©s tu… ai!, n√£o √©s:
Toda a ilus√£o se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Começa a Ir Ser Dia

Começa a ir ser dia,
O céu negro começa,
Numa menor negrura
Da sua noite escura,
A Ter uma cor fria
Onde a negrura cessa.

Um negro azul-cinzento
Emerge vagamente
De onde o oriente dorme
Seu tardo sono informe,
E h√° um frio sem vento
Que se ouve e mal se sente.

Mas eu, o mal-dormido,
N√£o sinto noite ou frio,
Nem sinto vir o dia
Da solid√£o vazia.
Só sinto o indefinido
Do coração vazio.

Em v√£o o dia chega
Quem n√£o dorme, a quem
N√£o tem que ter raz√£o
Dentro do coração,
Que quando vive nega
E quando ama n√£o tem.

Em vão, em vão, e o céu
Azula-se de verde
Acinzentadamente.
Que é isto que a minha alma sente?
Nem isto, n√£o, nem eu,
Na noite que se perde.

A Mais Perfeita Imagem

Se eu varresse todas as manh√£s as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o ch√£o
que lhes d√° casa, teria uma met√°fora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manh√£s
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto n√£o passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manh√£s olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclus√£o, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a eros√£o. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neur√īnio meu, unia mem√≥ria que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funer√°ria.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.

A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida,

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Manh√£ de Sol com Azulejos

Tudo se veste da cor de teu vestido azul
Tudo ‚ÄĒ menos a dona do vestido:
meus olhos te passeiam nua
pela grama do campo de golfe

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga   não temas
meu coração;
é apenas um chapéu surrado
que humildemente estendo
para colher um pouco de tua alegria
de tua graça distraída
de teu dia

A Adopção de Novas Ideias

Que um ou v√°rios homens inventem uma nova ideia ou um novo sentimento n√£o faz alterar o cariz da hist√≥ria, o tom dos tempos, como a cor do Atl√Ęntico n√£o muda porque um pintor de marinhas limpa nele o seu pincel carregado de vermelh√£o. Mas se, de s√ļbito, uma massa ingente de homens adopta aquela ideia e vibra com aquele sentimento, ent√£o a √°ria da hist√≥ria, a face dos tempos tinge-se de um novo colorido. Pois bem: as massas ingentes de homens n√£o adoptam uma ideia nova, n√£o vibram com o seu peculiar sentimento simplesmente porque se lhes fa√ßa pr√©dicas. √Č preciso que essa ideia e esse sentimento se achem neles pr√©-formados, inatos, prontos. Sem essa predisposi√ß√£o radical, espont√Ęnea da massa, todo o pregador seria um pregador no deserto.
Daqui que as mudan√ßas hist√≥ricas sup√Ķem o nascimento de um tipo de homem diferente em mais ou menos do que antes havia; isto √©, sup√Ķem a mudan√ßa de gera√ß√Ķes.

O Somno de Jo√£o

O Jo√£o dorme… (√ď Maria,
Dize √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O Jo√£o seria… um morango!
Podia engulil-o um le√£o
Quando nasce! As pombas s√£o
Um poucochinho maiores…
Mas os astros s√£o menores!

O Jo√£o dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
√ď mar! falla mais baixinho…
E tu, M√£e! e tu, Maria!
Pede √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…

O Jo√£o dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
N√£o acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto √©…

√ď Mae! canta-lhe a can√ß√£o,
Os versos do teu irm√£o:
¬ęNa Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que √© dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.¬Ľ

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… at√© morrer!

E tu vel-o-√°s crescendo
A teu lado (estou-o vendo
Jo√£o!

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Diana Prateada, Esclarecia

Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.

Cem mil milh√Ķes de gra√ßas lhe influ√≠a,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.

Eu, vendo-me t√£o cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,

Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que n√£o posso
de dia para vós já ter ventura.

Quando √© que eu serei da tua cor, Do teu pl√°cido e azul encanto, √ď claro dia exterior, √ď c√©u mais √ļtil que o meu pranto?

Caminho Da Glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.

Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
√Č por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.

√Č por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminh

Os seres virginais que vêm da Terra,
Ensang√ľentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.

Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truísmo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.

A f√© √© a coisa mais complexa que eu conhe√ßo. Sup√Ķe-se que acreditemos todos na mesma coisa de forma diferente. √Č como se estiv√©ssemos todos comendo do mesmo prato com colheres de v√°rias cores.

O Amor √©…

O amor √© o in√≠cio. O amor √© o meio. O amor √© o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor √© um pr√©mio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor √© um farol e um naufr√°gio. O amor √© alegria. O amor √© tristeza. √Č ci√ļme, orgasmo, √™xtase. O n√≥s, o outro, a ci√™ncia da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor √© uma inquieta√ß√£o, uma esperan√ßa, uma certeza, uma d√ļvida. O amor d√°-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso.

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Assim Choram os Deuses

Os deuses desterrados.
Os irm√£os de Saturno,
√Äs vezes, no crep√ļsculo
Vêm espreitar a vida.

Vêm então ter conosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
√Č a presen√ßa deles,
Deuses que o destron√°-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inativa.

V√™m, in√ļteis for√ßas,
Solicitar em nós
As dores e os cansaços,
Que nos tiram da m√£o,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.

Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A J√ļpiter e a Apolo.

Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hiperion no crep√ļsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.

E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo,
E ouve-se soluçar
Para al√©m das esferas…
Assim choram os deuses.

Carta à Minha Filha

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na met√°fora dada
pela inf√Ęncia, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de raz√£o nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite t√£o quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguir√°.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas Рé sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.

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As M√£es?

Fossem estes dias uma fonte que
brotasse.
Manchas de azul, um rasto de neve em pleno céu,
colmeias,
mel, uma exaltação de asas.

Mas é assim:
metais que revestem a pele e as armaduras,
bronze, ferro, formas que perduram, malhas, ameaçados
tecidos que nos moldam ‚ÄĒ
quem borda ainda,
quem se atreve √† min√ļcia das rendas?

As m√£es?
elas vinham cedo, eram como um rumor de levadas,
atravessando as terras.
Eram as mesmas m√£os trabalhando sedas, afagos e
uma conspiração de cores e agulhas frias,
mães de silêncio bordando a treva e o sono, a longa
noite dos filhos.

Herdei uma beleza amarga,
o temor das sombras, dos rel√Ęmpagos que embatiam
na inf√Ęncia,
no dorso das colinas,
no coração mais triste.

Um estrondo de muralhas, diques, batalhas que
deflagram,
uma ciência aterradora:
não quero outra véspera de espadas, a coroação do
sangue,
patíbulos onde a cabeça se expande,
rolando como a poeira e os astros,
repercutindo como um sino no choro das m√£es.

N√£o quero um bordado de horas antigas,

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