Passagens sobre Cores

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Frases sobre cores, poemas sobre cores e outras passagens sobre cores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Poema do homem-r√£

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-r√£s
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponder√°veis,
por entre as √°guas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores am√°veis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Com barbatanas calçadas
e pulm√Ķes a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Trit√Ķes escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trov√Ķes na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
N√£o h√° temores que me domem
√Č tudo meu, tudo meu.

Meu Mal

A meu irm√£o

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo h√° de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou, um c√≠nico riso de Chamfort…

Fui a her√°ldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas m√£os aroma aos nardos…
Deu cor ao eloendro a minha boca…

Ah! de Boabdil fui l√°grima na Espanha!
E foi de l√° que eu trouxe esta √Ęnsia estranha,
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

As Descri√ß√Ķes dos Romances

Jean-Paul Sartre: De um modo geral, aliás, já não sei muito bem porque se escrevem romances. Queria falar do que pensei ser a literatura e além disso do que abandonei.
Simone de Beauvoir: Fale; é muito interessante
Jean-Paul Sartre: Ao princípio, pensava que a literatura era o romance. Dissemo-lo.
Simone de Beauvoir: Sim, uma narrativa, e ao mesmo tempo via-se o mundo através. Isto dá qualquer coisa que nenhum ensaio sociológico, nenhuma estatística, pode dar.
Jean-Paul Sartre: Dá o individual, dá o pessoal, dá o particular. Um romance dará esta sala, por exemplo, a cor dessa parede, desses cortinados, da janela, e só ele o pode dar. E foi do que eu gostei, os objectos serem nomeados e muito próximos no seu carácter individual. Eu sabia que todos os sítios descritos existiam ou tinham existido, que por conseguinte era mesmo a verdade.
Simone de Beauvoir: Embora voc√™ n√£o gostasse muito das descri√ß√Ķes liter√°rias. Nos seus romances h√° descri√ß√Ķes, de vez em quando, mas sempre muito ligadas √† ac√ß√£o, √† maneira como as pessoas as v√™em.
Jean-Paul Sartre: E breves.
Simone de Beauvoir: Sim. Uma pequena metáfora, três palavrinhas para indicar qualquer coisa, não verdadeiramente uma descrição.

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Endechas a B√°rbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
J√° n√£o quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas n√£o de matar.

U~a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo v√£o
Perde opini√£o
Que os louros s√£o belos.

Pretid√£o de Amor,
T√£o doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansid√£o,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas b√°rbara n√£o.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
√Č for√ßa que viva.

As M√£os do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas j√° cor de terra
‚ÄĒ como s√£o belas as tuas m√£os ‚ÄĒ
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre c√≥lera dos justos…

Porque h√° nas tuas m√£os, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Vir√° dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas m√£os.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas m√£os nodosas…
essa chama de vida ‚ÄĒ que transcende a pr√≥pria vida…
e que os Anjos, um dia, chamar√£o de alma…

O Intelectual e o Meio

Ser intelectual e fazer parte dos intelectuais s√£o duas coisas que simultaneamente se identificam e op√Ķem. H√° um determinismo de colectividade; assim, os gafanhotos isolados s√£o insectos am√°veis, cada um devotado aos seus pequenos assuntos, tendo cada um o seu comportamento. Mas a partir de uma certa densidade, de resto demasiado fraca, tornam-se uma turba onde as individualidades desaparecem, perdem a sua cor esverdeada em troca de um uniforme e padronizado amarelo-acizentado, adquirem um comportamento estereotipado e transformam-se em impiedosos devoradores, destruindo tudo o que for obst√°culo ao seu frenesim. Da mesma forma, os intelectuais s√£o, isoladamente, simp√°ticos indiv√≠duos, cada um dedicado √† sua obra, mas a sua reuni√£o em sociedade faz deles monstros.

Definição do Amor

“Amor √© fogo que arde sem se ver
é ferida que doi e não se sente
é um contentamento descontente
√© dor que desatina sem doer”
(Cam√Ķes)

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas m√£os do amor
coroando o amor e seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um “assim fosse”
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor,

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Pelicano

Onda que vais morrendo em nova onda,
mar que vais morrendo noutro mar,
assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
escorra a vida para as bocas que se finam
de desejar.

√ď dia que vais escoando como os rios
e empalideces rostos e cabelos,
traze a palavra para a incerteza
dos que vagueiam à deriva;
a bandeira amarela se rasgue
e dos farrapos se gere outra cor.

√ď dia correndo e findando,
some-te l√° no cimo da fraga
mas deixa que no teu rasto fique o sangue
anunciando a esperança noutro dia.

Sê como a onda que morre para outra começar.

A Subfelicidade

O que mais d√≥i n√£o √© ‚Äď desengana-te ‚Äď a infelicidade. A infelicidade d√≥i. Magoa. Martiriza. √Č intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade n√£o √© o que mais d√≥i. A infelicidade √© infeliz ‚Äď mas n√£o √© o que mais d√≥i.

O que mais d√≥i √© a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que n√£o se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade n√£o magoa ‚Äď vai magoando; a subfelicidade n√£o martiriza ‚Äď vai martirizando. N√£o √© intensa ‚Äď mas √© imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar ‚Äď mas em sil√™ncio, em surdina, em anonimato. Como se n√£o fosse. Mas √©: a subfelicidade √©. A subfelicidade faz-te ficar ref√©m do que tens ‚Äď mas nem assim te impede de te sentires apeado do que n√£o tens e gostarias de ter. Do que est√° ali, sempre ali, sempre √† m√£o de semear ‚Äď e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade √© o piso -1 da felicidade. E n√£o h√° elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda da√≠.

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A Inconst√Ęncia das Nossas Ac√ß√Ķes

Os que se exercitam a prescrutar as ac√ß√Ķes humanas, em coisa alguma se acham t√£o embara√ßados como em conjugar umas com as outras e mostr√°-las √† mesma luz, pois comummente elas se contradizem entre si de modo t√£o estranho que parece imposs√≠vel terem todas sa√≠do da mesma loja.
(…) Alguma raz√£o parece haver no julgar um homem pelas mais comuns ac√ß√Ķes da sua vida, mas, atendendo √† natural instabilidade dos nossos costumes e opini√Ķes, ami√ļde se me tem afigurado que mesmo os bons autores erram ao obstinarem-se a conceberem-nos como um todo coerente e constante. Escolhem uma imagem global, segundo a qual classificam e interpretam todas as ac√ß√Ķes da personagem, e quando n√£o as conseguem conformar a ela, atribuem-nas √† dissimula√ß√£o.
(…) O nosso procedimento habitual √© seguir as inclina√ß√Ķes do nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, para onde quer que nos empurrem os ventos das circunst√Ęncias. N√£o pensamos no que queremos sen√£o no instante em que o queremos, e mudamos como o animal que adquire a cor do local onde o pousam. O que agora mesmo acab√°mos de projectar, em breve o viremos a alterar, e, pouco mais tarde, voltaremos sobre os nossos passos: tudo n√£o √© sen√£o oscila√ß√£o e inconst√Ęncia.

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Os P√°ssaros de Londres

Os p√°ssaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao tr√Ęnsito autom√≥vel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os p√°ssaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os p√°ssaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas √°rvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde n√£o sabes n√£o
se vida rogo amor
algum dia erguer√£o
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os p√°ssaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidad√£os brit√Ęnicos
que nunca nunca viram
os c√©us mediterr√Ęnicos

N√£o Pode Amor Por Mais Que As Falas Mude

N√£o pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
n√£o pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a express√£o maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

Vinho

Do amor tu n√£o dir√°s: provo, mas n√£o me embriago,
que n√£o basta provar para sentir o amor.
√Č preciso sorv√™-lo at√© o √ļltimo trago
se a embriaguez é que dá seu profundo sabor.

Teu amor deve ter profundidade e cor
n√£o deve ser um sonho doentio e vago,
se assim for, ent√£o sim, podes te dar por pago
que este é o preço da vida e todo o seu valor.

Transborda a tua taça, ergue-a nas mãos, e brinda
o momento feliz que viveste e n√£o finda,
que só o amor que embriaga e que nos leva a extremos

pode glorificar os sentidos e a vida,
e vencendo a raz√£o que nos tolhe e intimida,
nos faz reaver, de pronto, as horas que perdemos!

Com Palavras

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manh√£s, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras Рinaudíveis Рgrito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, viol√°ceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulm√£o que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar…

Só de Restos se Consagra o Tempo

Só de restos se consagra o tempo, força
cerrada na inutilidade destas
cores campestres, quando o sol em Novembro
escurece os sobreiros. Só de restos me
espera a cerimónia de viver,
tr√Ęnsito e transig√™ncia do sil√™ncio,
ocultado no meu corpo. Só de restos
o trespassa o tempo, m√°scara e manto. Morro
muito antes da morte, sem saber se os anjos
foram gaivotas hirtas no piedoso
musgos dos rios ou se hão-de ser maçãs
ou ciência, loendros ou lembrança,
inocentes, l√ļcidos sonos ou oblata
de seda, a deus cedida, em pagamento
da paz. Só do que chega ao fim, se corrompe
e apodrece, se imagina o princípio,
a majestade das coisas, o silêncio
irrevelado que o corpo desconhece.