Passagens sobre Cores

476 resultados
Frases sobre cores, poemas sobre cores e outras passagens sobre cores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A posteridade é um colegial condenado a decorar cem versos. Chega a aprender dez de cor, balbucia algumas sílabas do resto: os dez, são a glória; o resto, a história literária.

Contra a Morte e o Amor n√£o H√° Quem Tenha Valia

Era ainda o mês de abril,
de maio antes um dia,
quando lírios e rosas
mostram mais sua alegria;
pela noite mais serena
que fazer o céu podia,
quando Flérida, a formosa
infanta, j√° se partia,
ela na horta do pai
para as √°rvores dizia:
“Ficai, adeus, minhas flores,
em que glória ver soía.
Vou-me a terras estrangeiras,
a que ventura me guia.
Se meu pai me for buscar,
que grande bem me queria,
digam-lhe que amor me leva,
e que eu sem culpa o seguia;
que tanto por mim porfiava
que venceu sua porfia.
Triste, n√£o sei aonde vou,
e a mim ningu√©m o dizia!‚ÄĚ
Eis que fala Dom Duardos:
“Não choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra
mais claras √°guas havia,
e mais formosos jardins,
e vossos, senhora, um dia:
tereis trezentas donzelas
de alta genealogia,
de prata s√£o os pal√°cios
para vossa senhoria;
de esmeraldas e jacintos,
de ouro fino da Turquia,
com letreiros esmaltados
que minha vida à porfia
v√£o contando,

Continue lendo…

Manufacturamos Realidades

Damos comummente √†s nossas ideias do desconhecido a cor das nossas no√ß√Ķes do conhecido: se chamamos √† morte um sono √© porque parece um sono por fora; se chamamos √† morte uma nova vida √© porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade constru√≠mos as cren√ßas e as esperan√ßas, e vivemos das c√īdeas a que chamamos bolos, como as crian√ßas pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua a ser a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é,

Continue lendo…

Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores!
Na Agoa quizera com vocês morar:
Trazer o lindo gorro de trez cores,
Mestre da lancha Deixem-nos passar!

Far-me-ia outro, que os vossos interiores
De ha tantos tempos, devem j√° estar
Calafetados pelo breu das dores,
Como esses pongos em que andaes no mar!

√ď meu Pae, n√£o ser eu dos poveirinhos!
N√£o seres tu, para eu o ser, poveiro,
Mail-Irm√£o do ¬ęSenhor de Mattozinhos¬Ľ!

No alto mar, √°s trovoadas, entre gritos,
Promettermos, si o barco f√īri intieiro,
Nossa bela √° Sinhora dos Afflictos!

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

Continue lendo…

As riquezas pintam o homem, e com as suas cores cobrem e escondem não apenas os defeitos do corpo, mas também os da alma.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Continue lendo…

Sonhos sem Ilus√Ķes

Saber n√£o ter ilus√Ķes √© absolutamente necess√°rio para se poder ter sonhos. Atingir√°s assim o ponto supremo da absten√ß√£o sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os √≥dios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os la√ßos que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.

Abertura

Eu abria o r√°dio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava m√ļsica com as v√°rias m√£os
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as v√°rias m√£os escreviam um
piano por cima de teclas gr√£os v√°rios
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de gr√£os
por dentro dos gr√£os mesmos
unidos que eram em dimens√£o de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
n√£o era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da m√ļsica
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sult√£o da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e ent√£o
e era ent√£o que me soava dentro da manh√£
do quarto
uma m√ļsica desfibrada de tempo ser√īdio
como se tudo me fosse em longe
como se a m√ļsica levasse longe
o céu.

Continue lendo…

Portugal

√ď Portugal, se fosses s√≥ tr√™s s√≠labas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento c√£o asm√°tico das praias,
o grilo engaiolado, a grila no l√°bio,
o calend√°rio na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de pl√°stico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Goleg√£,
n√£o h√° ¬ępapo-de-anjo¬Ľ que seja o meu derri√ßo,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: quest√£o que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso,

Continue lendo…

A Esterilidade da Crítica

Personagem que Deus n√£o cuidou de convocar quando criou o mundo, o cr√≠tico faz quest√£o de estabelecer uma hierarquia nas obras de cria√ß√£o e nas obras do esp√≠rito humano. Assim geram-se inveja e desprezo, e o des√Ęnimo dos maiores, ante injusti√ßas; assim ficam eles √† merc√™ dos seus inferiores, os est√©reis. A √ļnica est√©tica sadia √© a que n√£o cogita de medir impress√Ķes produzidas por tipos diferentes, a que coloca no mesmo plano todos os grandes esfor√ßos intelectuais da humanidade, fundindo-os no g√©nio humano, como as cores se fundem na luz sem sobressair nenhuma.

Soneto De Anivers√°rio

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfund√≠vel som do √ļltimo acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bash√ī sonhara, √© despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.

Frente a frente

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
Рe é tão pouco!

A Lamechal√Ęndia

Acabo de perceber que estou a escrever mais uma obra lamechas, vivo na Lamechal√Ęndia desde que te conhe√ßo, e √© bom que d√≥i, t√£o bom que s√≥ escrevo s√≥ ela, a lamechice √© boa mas nunca sozinha, exige que aqui e ali surja o lado negro, a lua existe para valorizar o sol, e o contr√°rio tamb√©m √© verdadeiro, n√£o percebo patavina de astronomia mas de amor percebo, que √© o mesmo que dizer que percebo de ti, tento, v√°, √†s vezes consigo,
a Lamechal√Ęndia n√£o √© s√≥ lamechice, n√£o √© s√≥ cor de rosa, Deus me livre de ser assim, adormecia antes de viver, a Lamechal√Ęndia √© a capacidade de ser lamechas quando √© preciso ser lamechas, quando ser lamechas tem de ser, agora que estamos aqui deitados nesta cama tem de ser, abra√ßo-te a cada letra que escrevo, procuro com as minhas m√£os cada cent√≠metro da tua pele sempre que me lembro de que somos assim, ser lamechas √© conseguir n√£o pensar em como se vai amar, n√£o pensar no que se vai dizer, olhar o outro e dizer-lhe ‚Äúprocuro-te como se procurasse sobreviver‚ÄĚ, e isto n√£o tem nada de mal, a falta de um orgasmo provoca mais conflitos do que a falta de um p√£o,

Continue lendo…

Eloquência, n. A arte de persuadir oralmente os tolos de que o branco é a cor que aparenta ser. Inclui o dom de fazer qualquer cor parecer branca.

Reminiscência

Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre p√Ęntanos um branco l√≠rio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio véu das noivas do martírio!

Pedia esmola ‚ÄĒ pequena e s√©ria ‚ÄĒ
Os seios, pastos de eternal delírio,
Cobertos eram de uma cor cin√©rea ‚ÄĒ
Seus olhos tinham o brilhar do círio.

Tempos depois n‚Äôum carro ‚ÄĒ audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi ‚ÄĒ febril, galante…
Lancei-lhe o olhar e… maldi√ß√£o! tremi…

Ria-se ‚ÄĒ c√≠nica, servil… faceira?
O carro n’uma nuvem de poeira
Se arremessou… e eu nunca mais a vi!

H√° uma cor que n√£o vem nos dicion√°rios. √Č essa indefin√≠vel cor que t√™m todos os retratos, os figurinos da √ļltima esta√ß√£o.. – a cor do tempo.

Não Sei se Isto é Amor

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos rom√Ęnticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do C√Ęntico dos c√Ęnticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu n√£o demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu n√£o sei se √© amor. Ser√° talvez come√ßo…
Eu n√£o sei que mudan√ßa a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Se destruissemos todos os sonhos dos homens, a terra perderia suas formas e suas cores e nós adormeceríamos em uma cinzenta estupidez.

Ars Poética

Nesse afago do meu fado afogado
as √°guas j√° me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto c√°ustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.