Passagens sobre Olhar

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Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente

Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois,

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L√ļcia

(Alfred de Musset)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a m√£o formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murm√ļrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as vol√ļpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os b√°lsamos;
A v√°rzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!

L√ļcia era loura e p√°lida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava ‚Äď e tanto ! ‚Äď
Era assim de um irm√£o o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos l√°bios;
Ela deixou as suas m√£os nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,

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Ode ao Amor

T√£o lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo √° flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e s√ļbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as m√£os,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
ah tu, senhor da sombra e da ilus√£o sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuport√°vel triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, j√° tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,

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Abre-me as Portas, M√£e

Abre-me as portas, m√£e, enquanto as estrelas
buscam em mim agora a treva infinda,
sem luz alguma no meu olhar a vê-las
nessa cegueira a ser da altura vinda.
Assim, mãe, invado tua noite, a sabê-las
eternamente em pó na luz que é finda
só para mim, que vou comigo pelas
manh√£s nascendo todas cegas ainda.
Como fazê-las ser de novo vivas?
Como, se nunca delas fui um conviva
às vidas feitas festas para as vistas?
Para arranc√°-las da morte onde as pus,
quero essa noite, ó mãe, roubada à luz
do céu que, embora cega, tu conquistas.

N√£o faz sentido olhar para tr√°s e pensar: devia ter feito isso ou aquilo, devia ter estado l√°. Isso n√£o importa. Vamos inventar o amanh√£, e parar de nos preocupar com o passado.

N√£o te Arrependas

N√£o te arrependas, Amada, porque a mim t√£o depressa
te deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes
e vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam
o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe
agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar √°gua ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! ‚ÄĒ Uma loba
amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Tradução de Paulo Quintela

As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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Cantar de Amigo

O claro p√£o
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.

Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
ter√£o amigo, companheiro e camarada?

Inf√Ęncia

Passa lento o tempo da escola e a sua ang√ļstia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solid√£o, oh perda de tempo t√£o pesada…
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins √© t√£o vasto o mundo ‚ÄĒ.
E atravessar tudo isto em cal√ß√Ķes,
diferente de como os outros v√£o e foram ‚ÄĒ:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solid√£o.

E olhar tudo isto √† dist√Ęncia:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crian√ßas, t√£o diferentes e coloridas ‚ÄĒ;
e ent√£o uma casa, e de vez em quando um c√£o
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infind√°vel abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a m√£o agarrada com for√ßa ‚ÄĒ:
Oh compreens√£o cada vez mais fugaz,
Oh ang√ļstia,

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Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.

Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clar√Ķes s√£o todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, p√£o bendito,

Meus √™xtases, meus sonhos, meus cansa√ßos…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via L√°ctea fechando o Infinito!…

Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.

Os olhos s√£o indiscretos,
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus l√°bios,
Os olhos, esses, n√£o mentem.

A √ļnica coisa que vale a pena √© fixar o olhar com mais aten√ß√£o no presente; o futuro chegar√° sozinho, inesperadamente. √Č tolo quem pensa no futuro antes de pensar no presente.

Anseio

Oh, quem me dera embalado
Nesse berço vaporoso,
Nuvens do c√©u azulado…
Onde os meus olhos repouso
J√° de tanto olhar cansado!

De tanto olhar à procura
De um bem que o fosse deveras;
De uma paz, de uma ventura
Dessas venturas sinceras,
Se as pode haver sem mistura.

Mas h√°, sem d√ļvida: creio
Neste desejo entranh√°vel!
H√°-de haver um rosto, um seio
De amor e gozo inef√°vel
Donde mesmo este amor veio!

Este amor que a vós me prende,
Nuvens do céu azulado!
E a v√≥s, l√Ęmpadas que acende
Depois do Sol apagado
Quem… de Quem tudo depende!

Veio Ter Comigo Hoje a Poesia

Veio ter comigo hoje a poesia.
H√° quantos anos? Desde a juventude.
Veio num raio de sol, num murm√ļrio de vento.
E a ilus√£o que me trouxe de uma antiga alegria
reinventou-me a antiga plenitude
que j√° n√£o invento.

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros
em fornica√ß√Ķes r√°pidas de galo.
Hoje n√£o sou eu nunca por inteiro
e há sempre no que faço um intervalo.

Estamos ambos t√£o velhos ‚ÄĒ que vens fazer?
‚ÄĒ a cama entre n√≥s da nossa antiga fun√ß√£o.
Nublado o olhar só de a ver.
E tomo-lhe em silêncio a mão.

Lassid√£o

Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irm√£ pura.

S√™ l√Ęnguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abra√ßo do ci√ļme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paix√£o mais selvagem toca o seu clarim!…
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanh√£ quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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Concebemos apenas √Ātomos em Compara√ß√£o com a Realidade das Coisas

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si pr√≥prio, √© o seu corpo, isto √©, certa parcela de mat√©ria que lhe √© peculiar. Mas, para compreender o que ela representa e a fix√°-la dentro dos seus justos limites, precisa de a comparar a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Que n√£o se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas a contemplar a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma l√Ęmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apare√ßa como um ponto na √≥rbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude n√£o passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista a√≠ se det√©m, que a nossa imagina√ß√£o n√£o pare; mais rapidamente se cansar√° ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo vis√≠vel √© apenas um tra√ßo percept√≠vel na amplid√£o da natureza, que nem sequer nos √© dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concep√ß√Ķes e as projectemos al√©m de espa√ßos imagin√°veis, concebemos t√£o somente √°tomos em compara√ß√£o com a realidade das coisas.

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