Passagens sobre Memórias

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Frases sobre mem√≥rias, poemas sobre mem√≥rias e outras passagens sobre mem√≥rias para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Deverias saber que há pouco que possas procurar neste mundo, que não há necessidade de sermos tão gananciosos, no final tudo aquilo que conseguimos alcançar são memórias, obscuras, intangíveis, memórias oníricas que são impossíveis de articular. Quando tentas relacioná-las, existem apenas frases, a escória esquerda do filtro das estruturas linguísticas.

Memória Curta

A vida dos povos prova a necessidade de repeti√ß√Ķes que impressionem. Acumula√ß√Ķes de ru√≠nas e torrentes de sangue s√£o, por vezes, necess√°rias para que a alma de uma ra√ßa assimile certas verdades experimentais.
Muitas vezes ela n√£o se aproveita disso durante muito tempo porquanto, em virtude da diminuta dura√ß√£o da mem√≥ria afectiva, as aquisi√ß√Ķes experimentais de uma gera√ß√£o servem pouco para outra.
Todas as na√ß√Ķes verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna li√ß√£o elas n√£o tiram qualquer proveito. Repetidos factos mostram que as precau√ß√Ķes s√£o o melhor meio de favorecer a extens√£o de uma cren√ßa religiosa, mas isso n√£o impede que, sem tr√©guas, essas persegui√ß√Ķes continuem. A experi√™ncia ensina ainda que ceder perpetuamente a amea√ßas populares √© condenar-se a tornar imposs√≠vel qualquer governo. Vemos, no entanto, que os pol√≠ticos diariamente olvidam essa evid√™ncia.

Historiador

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecora√ß√Ķes, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os neg√≥cios de trapa√ßa, as ilus√Ķes jamais confirmadas
nem desfeitas.

Veio para contar
o que n√£o faz jus a ser glorificado
e se deposita, gr√Ęnulo,
no poço vazio da memória.
√Č importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

Vive o Dia de Hoje!

N√£o penses para amanh√£. N√£o lembres o que foi de ontem. A mem√≥ria teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje √© t√£o ef√©mero. Mesmo o que se pensa para amanh√£ √© para j√° ter sido, que √© o que desejamos que seja logo que for. √Č o tempo de Deus que n√£o tem futuro nem passado. Foi o que dele n√≥s escolhemos no sonho do nosso absoluto. N√£o penses para amanh√£ na urg√™ncia de seres agora. Mesmo logo √† tarde √© muito tarde. Tudo o que √©s em ti para seres, v√™ se o √©s neste instante. Porque antes e depois tudo √© morte e insensatez. N√£o esperes, s√™ agora. L√™ os jornais. O futuro √© o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando n√£o houver outro.

A Eternidade é o Nosso Signo

Sim, a eternidade √© o nosso signo. N√£o come√ß√°mos a existir nem o fim da exist√™ncia o entendemos como fim. Por isso n√£o sentimos que n√£o existimos antes de come√ßarmos a existir mas apenas que tudo isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por acaso n√£o assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E √† morte invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer que nos d√° a hist√≥ria do passado, sobretudo os documentos que no-lo d√£o flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados at√© l√°, de nos sentirmos de facto presentes nesse modo de ser contempor√Ęneos. Mas sobretudo h√° em n√≥s uma mem√≥ria-limite, uma mem√≥ria absoluta que n√£o tem nada de referenci√°vel e se prolonga ao sem fim. Do mesmo modo h√° o futuro que √© pura projec√ß√£o de n√≥s, apelo irreprim√≠vel a um amanh√£ sem termo ou sem amanh√£. Por isso a morte nos angustia e sobretudo nos intriga por nos provar √† evid√™ncia o que profundamente n√£o conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade √© o que se nos imp√Ķe no instante em que vivemos. O tempo n√£o passa por n√≥s e da√≠ vem a impossibilidade de nos sentirmos envelhecer.

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A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.

a fava

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

Jovens Filhos Da P√°tria, Em Vossos Peitos

Jovens filhos da p√°tria, em vossos peitos
Dep√Ķe a p√°tria seu porvir de gl√≥ria:
Revolve sonhos de imortal de imortal memória,
Adejando inquieta em vossos leitos.

De vós espera sublimados feitos,
P’ra ornar de palmas a futura hist√≥ria;
Espera em vós, como espera em Dória,
Dória tão jovem, como vós, nos pleitos.

Atletas do porvir, marchai seguros
Da liberdade à festa sacrossanta,
A levantar-lhe mais altivos muros.

Marchai: Рque aos livres nem o céu suplanta,
E o índio do Brasil, sem elmos duros,
No olhar sòmente os déspotas espanta.

A Memória é um Silêncio que Espera

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência.

Vaidade a Qualquer Preço

Muitas vezes obramos bem por vaidade, e também por vaidade obramos mal: o objecto da vaidade é que uma acção se faça atender, e admirar, seja pelo motivo, ou razão que for. Não só o que é digno de louvor é grande; porque também há cousas grandes pela sua execração; é o que basta para a vaidade as seguir, e aprovar. A maior parte das empresas memoráveis, não tiveram a virtude por origem, o vício sim; e nem por isso deixaram de atrair o espanto, e admiração dos homens.
A fama n√£o se comp√Ķe apenas do que √© justo, e o raio n√£o s√≥ se faz atend√≠vel pela luz, mas pelo estrago. A vaidade apetece o estrondoso, sem entrar na discuss√£o da qualidade do estrondo: faz-nos obrar mal, se desse mal pode resultar um nome, um reparo, uma mem√≥ria. Esta vida √© um teatro, todos queremos representar nele o melhor papel, ou ao menos um papel importante, ou em bem, ou em mal. A vaidade tem certas regras, uma delas √©, que a singularidade n√£o s√≥ se adquire pelo bem, mas tamb√©m pelo mal, n√£o s√≥ pelo caminho da virtude, mas tamb√©m pelo da culpa; n√£o s√≥ pela verdade,

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Memória Personalizada

N√£o acontece apenas que certas pessoas t√™m mem√≥ria e outras n√£o (…), mas, mesmo com mem√≥rias iguais, duas pessoas n√£o se lembram das mesmas coisas. Uma ter√° prestado pouca aten√ß√£o a um facto do qual a outra guardar√° um grande remorso, e em contrapartida ter√° apanhado no ar como sinal simp√°tico e caracter√≠stico uma palavra que a outra ter√° deixado escapar quase sem pensar. O interesse de n√£o nos termos enganado quando emitimos um progn√≥stico falso abrevia a dura√ß√£o da lembran√ßa desse progn√≥stico e permite-nos afirmar em breve que n√£o o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais desinteressado, diversifica as mem√≥rias das pessoas, de tal modo que o poeta que esqueceu quase tudo dos factos que outros lhe recordam ret√©m deles uma impress√£o fugidia.
De tudo isso, resulta que, passados vinte anos de aus√™ncia, encontramos, em lugar de esperados rancores, perd√Ķes involunt√°rios, inconscientes, e, em contrapartida, tantos √≥dios cuja raz√£o n√£o conseguimos explicar (porque esquecemos tamb√©m a m√° impress√£o que caus√°mos). At√© da hist√≥ria das pessoas que conhecemos melhor esquecemos as datas.

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

D√£o-nos um mapa imagin√°rio
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde n√£o vem a nossa idade

D√£o-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os cr√Ęneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas t√£o educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

D√£o-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
d√£o-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

D√£o-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar j√° o enterro
do nosso corpo mais adiante

D√£o-nos um nome e um jornal
um avi√£o e um violino
mas n√£o nos d√£o o animal
que espeta os cornos no destino

D√£o-nos marujos de papel√£o
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimens√£o
não é a vida,

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Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembran√ßa de um corpo e de um ardor sem m√ļsica
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravess√°mos, quantos ¬ęgrandes s√£o os desertos e tudo √© deserto¬Ľ,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a m√ļsica, regressa ao lugar donde partiste. Pe√ßo-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolver√° o n√ļmero m√°gico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guard√°mos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, n√£o h√° √ćtaca poss√≠vel, os corpos desfizemo-los
na mesma eros√£o do seu m√°gico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?

Paix√£o √önica

Quem me dera poder ver-te!
Ai! quem me dera dizer-te,
Que pude amar-te, e perder-te,
Mas olvidar-te… isso n√£o!
Que no ardor de outros amores,
Através de mil dissabores,
Senti vivas sempre as dores
Duma remota paix√£o.

Com que dorida saudade
Penso nessa mocidade,
Nessa vaga ansiedade,
Que soubeste compreender!
E tu só, só tu soubeste,
Que, num mundo, como este,
Qual florinha em penha agreste,
Pode a flor da alma morrer.

Orvalhaste-a quando ainda,
Ao nascer, singela e linda,
Respirava a esperança infinda,
Que consigo a inf√Ęncia tem.
Amparaste-a, quando o norte
Das paix√Ķes, soprando forte,
Lhe quiz dar r√°pida morte
Como √† c√Ęndida cecem!

E, depois, nuvem escura
Lá no céu desta ventura
Enlutou-me a aurora pura
Dos meus anos infantis.
Houve nesta vida um espaço,
Onde nunca dei um passo,
Em que não deixasse um traço
De paix√Ķes torpes e vis !

E não tenho outra memória
Que me inspire altiva gloria,
Nem outro nome na historia
De meus delírios fatais.

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A Vida Que Nos Escapa Entre os Dedos

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E n√£o sem acerto, porque todas as coisas agrad√°veis devem ser tidas como inocentes, e at√© que se provem culpadas todas as presun√ß√Ķes pendem a seu favor. A vida j√° √© bastante penosa para que ainda a agravemos com proibi√ß√Ķes e obst√°culos aos seus deleites; t√£o arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente – e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito r√°pidamente todas as alegrias perdem a vivacidade – e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O pr√≥prio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a esta√ß√£o pr√≥pria – a velhice.
√Č este o grande drama do prazer; todas as coisas agrad√°veis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto √© mais retribu√≠do. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e inj√ļrias e demoramo-nos sobre as vit√≥rias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual s√≥ retemos na mem√≥ria o bom,

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Que a riqueza das sensa√ß√Ķes n√£o basta para indicar o n√≠vel da intelig√™ncia, prova-o, no homem, a for√ßa de mem√≥ria, que n√£o est√°, quase nunca, em rela√ß√£o com o vigor do racioc√≠nio.