Passagens sobre Memórias

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Frases sobre mem√≥rias, poemas sobre mem√≥rias e outras passagens sobre mem√≥rias para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
S√£o estes inda os mesmos arvoredos;
Esta √© a mesma r√ļstica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh qu√£o lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.

O amor? Sabemos de ciência tão certa (esse instinto) que vai morrer que levamos a vida inteira a polir a pedra da sua memória.

Se um Dia a Juventude Voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em p√°ssaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimens√£o nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
n√£o estou triste n√£o tenho projectos nem ambi√ß√Ķes
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das vis√Ķes pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesita√ß√Ķes no leme do fr√°gil barco…

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Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

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Definição por Soma

Um consumir-se a cada instante
um escoar-se e um desperdício
um e contudo outro e diverso
um processar-se e um processo

Para tocar o que do vento
para prender o que da fuga
para morder o que do sono
para tão só há que esquecer

Combatido por trevas √ļltimas
combatido por rostos p√°lidos
combatido por chuva e névoa
combatido e a dar combate

Chego ao inóspito do clima
chego ao vazio onde só o sexo
chego ao anónimo e mortal
chego ao agudo e seus rec√īnditos

Essa unidade com o m√ļltiplo
essa inclus√£o pelo abandono
essa causalidade absurda
essa e n√£o outra que a disputa

Discórdia que se aceita íntegra
discórdia que mascara os pactos
discórdia dos estados físicos
disc√≥rdia e disc√≥rdia e insol√ļvel

Quando de cada nascimento
quando visível o invisível
quando o que há é só o agora
quando dissolução do tempo

Passo por fios de cabelo
passo por r√°pidos que fogem
passo por bons e maus momentos
passo e no entanto permaneço

Homem que sou e com memória
homem e póstumo e morrendo
homem que alto e sobrevive
homem e seco e secas l√°grimas

Infante

D√°-me o sol a minha fronte. Doloridos
e chagados meus p√©s descal√ßos v√£o fugindo…
РMemórias dos meus doidos passos incontidos!
– √ď meu rumor do mundo em p√©talas abrindo!

√ď cor√ßas que correis pela tarde desferindo
o balido ligeiro que alonga os ouvidos…
– Tarde de √©cloga e mel silvestre reluzindo…
– Minhas vinhas de vinhos de oiro n√£o bebidos…

Desfolham-se ilus√Ķes e v√£o-se sem apegos…
Murchou a flor dos meus desejos com que pude
a vida transformar em √≥cios e sossegos…

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execr√°veis
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude?
Рo pródigo que fui dos erros inefáveis!

A Memória Coerente

A experiência pessoal e as leituras só valem o que a memória tiver retido delas. Quem tenha lido com alguma atenção os meus livros sabe que, para além das histórias que eles vão contando, o que ali há é um contínuo trabalho sobre os materiais da memória, ou, para dizê-lo com mais precisão, sobre a memória que vou tendo daquilo que, no passado, já foi memória sucessivamente acrescentada e reorganizada, à procura de uma coerência própria em cada momento seu e meu. Talvez essa desejada coerência só comece a desenhar um sentido quando nos aproximamos do fim da vida e a memória se nos apresenta como um continente a redescobrir.

Requiescat

Grande, grande Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memória,
Dorme tranq√ľila no esplendor da gl√≥ria,
Longe das amarguras do cansa√ßo…

Ilus√£o, Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flórea,
Quando as vis√Ķes da n√©voa transit√≥ria
Penetram na alma, num lascivo abra√ßo…

√ď Ilus√£o! Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clar√£o do Oriente.

Não me persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente…

O Meu Retrato

Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos l√°bios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.

Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.

Amo os c√£es, amo os p√°ssaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.

E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensa√ß√Ķes da vida escassa
S√£o sensa√ß√Ķes que nascem de mim mesmo.

Exílio

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em v√£o caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manh√£s do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer m√ļsica degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma p√°gina,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

Algumas Coisas

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Só quando danço me liberto do tempo: esvoaçam as memórias, levantam voo de mim.

Eu

Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória,
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo herdeiro só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva in√ļtil em que fico
Da estrada certa que n√£o sigo.

Lembranças, que lembrais meu bem passado

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
N√£o me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida h√°-de ser sempre em tormento.

Em Tudo quanto Olhei Fiquei em Parte

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.

Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.

Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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A Mudança só se Dá na Continuidade

Dirigirmo-nos a algu√©m com a miss√£o de que se transforme noutro, √© irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e s√≥ aceita uma mudan√ßa na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta altera√ß√£o possa entrar na unidade do seu esp√≠rito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudan√ßa se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enla√ßar-se nas suas recorda√ß√Ķes. Nem a um homem, nem a um povo – que, em certo sentido, tamb√©m √© um homem – se pode exigir uma mudan√ßa, que desfa√ßa a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mud√°-lo muito, quase at√© por completo; mas sempre, dentro da continuidade.
√Č certo que, em certos indiv√≠duos, acontece aquilo a que se chama mudan√ßa de personalidade; mas isso √© um caso patol√≥gico, e √© como tal que os psiquiatras o estudam. Nessas altera√ß√Ķes de personalidade, a mem√≥ria, base da consci√™ncia, arruina-se por completo e, ao pobre paciente, s√≥ resta, como substracto de continuidade individual – j√° que n√£o pessoal -, o organismo f√≠sico.

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