Passagens sobre Rosto

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Frases sobre rosto, poemas sobre rosto e outras passagens sobre rosto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

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Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
P√°ssaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu c√° vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite tr√°s a forca pela sua m√£o

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que h√° sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

P√Ķe o meu retrato
No altar de S. Jo√£o
E uma vela com formato de canh√£o

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.

Noites em Claro

Passas em claro as noites a chorar;
Dia a dia, teu rosto empalidece…
Faze tu, pobre M√£e, por serenar,
Santa Resignação sobre ela desce!

Rochedo que a penumbra desvanece,
Tu, por acaso, n√£o lhe podes dar
Um pouco d’esse frio que entorpece
O cora√ß√£o e o deixa descan√ßar?…

Jamais! N√£o ha remedio! Nem as horas
Que passam! Toda a fria noite choras;
Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua d√īr,
Como se f√īra um beijo, ac√™so am√īr,
Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

N√£o Pode Amor Por Mais Que As Falas Mude

N√£o pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
n√£o pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a express√£o maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

Atravessaremos Juntos as Grandes Espirais

Que boca h√° de roer o tempo? Que rosto
H√° de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro h√° de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezezs dirás: vida, vésper, magna-marinha

E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas ag√īnicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente h√° de nascer em ti
E quantas vezes em mim h√° de morrer.

O grande comandante, que parecia pela express√£o de seu rosto estar sempre √† procura de algo na extrema dist√Ęncia, e n√£o ter qualquer conhecimento oculares de qualquer coisa dentro de dez quil√īmetros

Com Palavras

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manh√£s, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras Рinaudíveis Рgrito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, viol√°ceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulm√£o que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar…

Se em Nós a Solidão Viver Sozinha

Se em nós a solidão viver sozinha,
sem que nada em nós próprios a perturbe,
cada figura passar√° rainha
na antiguidade s√ļbita da urbe.

Um acento de pena ir√° na linha
vincar a eternidade de figura
a um rosto que quase só caminha
para dentro de o vermos pela pura

subst√Ęncia em si que vive a solid√£o
dentro de nós. E sendo nós só margem
do seu reino de ver por onde v√£o

as figuras passando na paisagem
de um antigo fulgor de coração
aonde passam desde sempre. E agem.

A Obra Nunca Está Concluída

Considera-se, muitas vezes, a obra de um criador como uma sequ√™ncia de testemunhos isolados. Confunde-se ent√£o artista e literato. Um pensamento profundo est√° em perp√©tua forma√ß√£o, esgota a experi√™ncia de uma vida e nela se modela. Do mesmo modo, a cria√ß√£o √ļnica de um homem fortifica-se nos seus rostos sucessivos e m√ļltiplos, que s√£o as obras. Umas completam as outras, corrigem-as ou alcan√ßam-as, contradizem-as tamb√©m. Se alguma coisa termina a cria√ß√£o, n√£o √© o grito vitorioso e ilus√≥rio do artista, ofuscado: ¬ęDisse tudo¬Ľ, mas a morte do criador que fecha a sua experi√™ncia e o livro do seu g√©nio.
Esse esfor√ßo, esta consci√™ncia sobre-humana, n√£o aparece for√ßosamente ao leitor. N√£o h√° mist√©rio na cria√ß√£o humana. √Č a vontade que faz esse milagre. Em todo o caso, n√£o h√° verdadeira cria√ß√£o sem segredo. Sem d√ļvida, uma sequ√™ncia de obras pode n√£o passar de uma s√©rie de aproxima√ß√Ķes do mesmo pensamento. Mas podemos conceber outra esp√©cie de criadores que procederiam por justaposi√ß√£o. As suas obras podem parecer sem rela√ß√£o entre si. Em certa medida, s√£o contradit√≥rias. Mas, colocadas de novo no seu conjunto, denunciam uma ordem. √Č, pois, da morte que recebem o seu sentido definitivo. Aceitam a sua luz mais clara da pr√≥pria vida do seu autor.

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Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de c√°lices, uma s√ļplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
N√£o vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta m√ļsica √© quase o vento.

À Memória de Minha Mãe

M√£e! Morreste!
Agora é tão tarde para te dizer as palavras necessárias.
O rel√≥gio bateu duas e meia. √Č noite escura
E a dor galopa surdamente no meu peito.
Teu corpo jaz ainda morno, j√° sem interesse para ti.
Por tua causa, amanh√£, movimentar-se-√£o pessoas
Diversas
Que n√£o te conheceram.
Serão preenchidos papéis: requerimentos, boletins;
P√°s ou picaretas (nem eu sei) ferir√£o a terra
E sobre ela erguer√£o, depois, um n√ļmero qualquer
Que ser√° de futuro o teu bilhete de identidade.
Agora, porém, tudo ainda é quieto.
Só um galo canta, feliz, na sua inconsciência de ser vivo.
As l√°grimas rompem-me incontrol√°veis e in√ļteis.
√Č tarde!
Já só existem saudades e fotografias.
As palavras que eu amaria ter-te dito
Sobem-me ao silêncio dos lábios cerrados.
L√° fora a chuva molha a madrugada
Enquanto os familiares se olham
Com o rosto congestionado de l√°grimas
E sono interrompido,
Adorando-te em silêncio,
Mais que nunca,
‚ÄĒ Esmagados pelo prest√≠gio da morte.

Há Momentos que Resulta tão Difícil Chegarmos a um Sentimento

H√° momentos em que do fogo sobe para a noite
há momentos que resulta tão difícil chegarmos a um
sentimento.
Descubro uma figura que j√° n√£o
sei seguir. H√° momentos
eu vejo o que se senta à minha frente o amável corte
de cabelo o severo intento tomado como correcto
rosto onde a plenitude era possível. Rosto onde o
passado é a tarde de verão a pequena cidade onde o
sol pode dizer-se cai no campo rosto de passados ou
uma tarde de ver√£o para ter tempo.

N√£o √© o cr√≠tico que conta; n√£o √© quem aponta como o homem forte trope√ßou, ou quando o fazedor de ac√ß√Ķes as poderia ter feito melhor. O cr√©dito pertence ao homem que est√° realmente na arena, cujo rosto est√° sujo de poeira, suor e sangue; que se esfor√ßa corajosamente; que fracassa repetidas vezes, porque n√£o h√° esfor√ßo sem obst√°culos, mas que realmente se empenha para realizar as tarefas; que sabe o que √© ter grande entusiasmo e grande devo√ß√£o e que exaure suas for√ßas numa causa digna; que no final descobre o triunfo das grandes realiza√ß√Ķes e, caso venha a fracassar, ao menos fracassa ousando muito, de forma que seu lugar nunca ser√° junto √†s almas frias e t√≠midas que n√£o conhecem nem a vit√≥ria nem a derrota.

As L√°grimas

Exaltemos as l√°grimas. Na pele das veias,
bom dia, águas. Gratidão ao rosto, às cores,
ao sulco nos olhos. Porquê este ardor, este
temor da erva pisada? Adormecem comigo,

meigas f√°bricas de quietude e solid√£o
no calmo azul branco da sua breve cor.
Que longe se vão no ar amargo, sob o ímpeto
delirante de as transformar em leis extintas,

ironias ou j√ļbilos. Rolem ou finjam
incans√°veis trabalhos ou dores, assim
conspiram em outras portas, outros mistérios.

Perco-as entre conversas, o sono, o amor.
Aos olhos desertos sua ausência os desgasta.
Louvemos nas l√°grimas o seu fulgor v√£o.

Aonde, Amor Cruel, aonde me Guias?

Aonde, amor cruel, aonde me guias?
S√£o estes os teus bosques consagrados
Onde só vejo peitos lacerados,
Cora√ß√Ķes em extremas agonias?

Só respondem as duras penedias
A míseros gemidos em vão dados;
Olhos formosos, rostos delicados
S√£o ministros das tuas tiranias.

Já me rasgam o peito em mil pedaços:
Marcia me disparou acerbos tiros,
L√° vai fugindo com velozes passos.

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,
Deixa cruel, ao menos, que em teus braços
Amintas lance os √ļltimos suspiros.

Amizade

Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a m√£ozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol.

Natal Diferente

I

Catedrais de luz erguidas na cidade.
Neve artificial nas montras com brinquedos.
Soa um C√Ęntico antigo no vento da tarde
que arrefece. Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê de pasmo nesta hora de Natal.

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas.
Cinzenta é a cor do céu. Decerto vai chover.
No ambiente superficial
representam-se alegrias.
As notícias nos jornais agravam
o cepticismo deste Natal a haver.

Sinto-me vazio. Lasso. Sem vontade.
Uma grande ternura a boiar dentro de rnirn:
L√°stima, piedade, amor pelos humanos?
Mas de que serve comover-me assim?

Vou aceitar este Natal, tal como est√°.
Com √°lcool. Com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilus√Ķes.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

II

Meu Menino Jesus que deves estar no Céu
vem tiritar nas cidades sem calor.
Vem dar realidade a este dia, vem!
‚ÄĒ Trinta e tr√™s anos e a consci√™ncia em flor.
Mas n√£o venhas de fraldas: a Estrela j√° brilhou.
Traz o corpo macerado,

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Noites Gélidas

Merina

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alem√£ que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o g√°s d√° noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas l√£s forrada,
Recorda-me a eleg√Ęncia, a gra√ßa, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingênua e delicada.

Amar é a Mais Alta Constelação

Aqui ficam as coisas.

Amar é a mais alta constelação.

Os sapatos sem dono
tripulando
na correnteza-espaço
em que deitamos.

As minhas m√£os telhado
no teu rosto de pombas.

Os corpos
circulando
na varanda dos braços.

√Č a mais alta constela√ß√£o.