Sonetos sobre Sol

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Sonetos de sol escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Bom Dia, Amigo Sol!

Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
– deixa que entre a manh√£ sonora e clara
que anda l√° fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara…
Na intimidade em que a deixei, repara
Que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! √Č esse o meu ninho…
Que n√£o repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansa√ßos…

Entra! Só tu possuis esse direito,
Рde surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!…

N√£o sei, Amor, sequer, se te Consinto

N√£o sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

N√£o sei, amor, se as lavas do vulc√£o
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. N√£o que sintas

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

À Janela De Garcia De Resende

Janela antiga sobre a rua plana…
Ilumina-a o luar com seu clar√£o…
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no po√©tico balc√£o…

Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez…Quem sabe?…Tonto de ilus√£o,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balc√£o…

Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado…

Bandeiras! Pajens! O pend√£o real!
E na tua m√£o, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um cora√ß√£o chagado!…

Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A √°rvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol… Sonhar!

Dia. A flor – o noivado e o beijo, como
Em perfumes um t√°lamo e um altar:
A √°rvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta √† voz dos p√°ssaros… Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A √°rvore maternal levanta o fruto,
A h√≥stia da id√©ia em perfei√ß√£o… Pensar!

Noite. Oh! Saudade!… A dolorosa rama
Da √°rvore aflita pelo ch√£o derrama
As folhas, como l√°grimas… Lembrar!

Hora Mística

Noite caindo … C√©u de fogo e flores.
Voz de Crep√ļsculo exalando cores,
O céu vai cheio de Deus e de harmonia.
Sil√™ncio … Eis-me rezando aos fins do dia.

Névoa de luz criando imagens na água,
Nome das águas esculpindo os céus,
Tarde aos relevos h√ļmidos de fr√°gua,
Boca da noite, eis-me rezando a Deus.

Eis-me entoando, a voz de cinza e ouro,
‚ÄĒ Oh, cores na √°gua vindo √†s m√£os em branco! ‚ÄĒ
Minha √≥pera de Sol ao √ļltimo arranco.

E, oh! hora mística em que o olhar abraso,
‚ÄĒ Sol expirando aos P√≥rticos do Ocaso! ‚ÄĒ
Dobra em meu peito um oceano em coro.

Infante

D√°-me o sol a minha fronte. Doloridos
e chagados meus p√©s descal√ßos v√£o fugindo…
РMemórias dos meus doidos passos incontidos!
– √ď meu rumor do mundo em p√©talas abrindo!

√ď cor√ßas que correis pela tarde desferindo
o balido ligeiro que alonga os ouvidos…
– Tarde de √©cloga e mel silvestre reluzindo…
– Minhas vinhas de vinhos de oiro n√£o bebidos…

Desfolham-se ilus√Ķes e v√£o-se sem apegos…
Murchou a flor dos meus desejos com que pude
a vida transformar em √≥cios e sossegos…

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execr√°veis
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude?
Рo pródigo que fui dos erros inefáveis!

Espiritualismo

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os met√°licos fulgores.

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

Desses obscuros revolucion√°rios
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que s√£o da Vida os maternais sacr√°rios.

E pareceu-me que do ch√£o estuante
Vi porejar um b√°lsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

Requiescat

Grande, grande Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memória,
Dorme tranq√ľila no esplendor da gl√≥ria,
Longe das amarguras do cansa√ßo…

Ilus√£o, Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flórea,
Quando as vis√Ķes da n√©voa transit√≥ria
Penetram na alma, num lascivo abra√ßo…

√ď Ilus√£o! Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clar√£o do Oriente.

Não me persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente…

Amor Vivo

Amar! mas d’um amor que tenha vida…
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delirios e desejos
D’uma douda cabe√ßa escandecida…

Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser ‚ÄĒ e n√£o s√≥ beijos
Dados no ar ‚ÄĒ del√≠rios e desejos ‚ÄĒ
Mas amor… dos amores que t√™m vida…

Sim, vivo e quente! e j√° a luz do dia
Não virá dissipa-lo nos meus braços
Como n√©voa da vaga fantasia…

Nem murchar√° do sol √° chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra d√©beis amores… se t√™m vida?

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
√Č sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as m√£os, Amor, devagarinho…
como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!…Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas m√£os,
Os beijos que sonhei pr√° minha boca!…

O Camarim

A luz do sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha;
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a Norma, e ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.

Quando Eu Partir

Quando eu partir, que eterna e que infinita
H√° de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade…
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

Quando eu tiver j√° de uma vez partido,
√ď meu amor, √≥ meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

Soneto XXXXVI

Tanto que sente enfraquecer o alento,
Quebrado o brio e j√° menos ligeira
Co’ a longa idade e vida derradeira,
[A] √Āguia a presa siguir cortar o vento.

Levanta o mais que pode o v√īo isento
E, firida do Sol desta maneira
Dá no mar, recobrando a força inteira
E, com novo vigor, novo ornamento.

Quem não vê figurada a grande glória
De ua alma, cuja vida mal gastada
Com nova penitência se melhora.

Ao alto se levanta co’a mem√≥ria,
E no divino amor toda abrasada
Cai no mar das l√°grimas que chora.

Canção De Abril

Vejo-te, enfim, alegre e satisfeita.
Ora bem, ora bem! — Vamos embora
Por estes campos e rosais afora
De onde a tribo das aves nos espreita.

Deixa que eu faça a matinal colheita
Dos teus sonhos azuis em cada aurora,
Agora que este abril nos canta, agora,
A florida canção que nos deleita.

Solta essa fulva cabeleira de ouro
E vem, subjuga com teu busto louro
O sol que os mundos vai radiando e abrindo.

E ver√°s, ao raiar dessa beleza,
Nesse esplendor da virgem natureza,
Astros e flores palpitando e rindo.

Soneto II

A D. Manuel de Lencastre.

Na tenebrosa noite o caminhante,
Quando o ar se engrossa e o mundo todo atroa,
O tronco busca donde se coroa
Da fugitiva Dafne o brando amante.

Ali n√£o teme o raio fulminante,
Por mais que na vizinha √°rvore soa,
E seu louvor por onde vai pregoa
Tanto que a cerra√ß√£o c’o sol levante.

Trabalha o Céu em minha fim, trabalha
A terra em minha fim, com f√ļria imensa
Cada hora espero pela derradeira.

Onde me acolherei que alguém me valha?
A vós, a quem não quer fazer ofensa
O Céu, nem pode a terra, inda que queira.

Discreta E Formosíssima Maria

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O Ar, que fresco Ad√īnis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh n√£o aguardes que a madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

À Instabilidade Das Cousas No Mundo.

Nasce o Sol, e n√£o dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura n√£o se cr√™ const√Ęncia,
E na alegria sinta-se tristeza.

Come√ßa o mundo enfim pela ignor√Ęncia,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconst√Ęncia.

Paisagens De Inverno II

Passou o outono j√°, j√° torna o frio…
– Outono de seu riso magoado.
√Ālgido inverno! Obl√≠quo o sol, gelado…
РO sol, e as águas límpidas do rio.

√Āguas claras do rio! √Āguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu v√£o cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das √°guas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando…

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refratadas, longamente ondeando,
As suas m√£os transl√ļcidas e frias…

O Mar

O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela im√°cula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.

Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a c√Ęndida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solid√£o das fragas,
Onde a quebrar-se t√£o fugaz se esfuma.

Reflete a luz do sol que j√° n√£o arde,
Treme na treva a p√ļrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!

Se tu viesses ver-me…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus bra√ßos…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abra√ßos…
Os teus beijos… a tua m√£o na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E √© como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus bra√ßos se estendem para ti…